Cenas do quotidiano

Sexta-feira, dia 15. Loja do Cidadão, Aveiro. 19.10 horas.
A cidadã entra apressada e olha em volta, constatando que os serviços funcionam ainda em pleno. Aliviada por ter conseguido chegar a tempo, dirige-se à Tesouraria onde deverá liquidar o seu primeiro pagamento de IVA.
Aí chegada tenta tirar uma senha mas, ao fim de várias tentativas, um outro cidadão informa-a que as senhas terminaram às dezanove horas. O funcionário olha atentamente enquanto a curta conversa se desenrola, mas retoma o seu trabalho assim que ela termina, sem intervir.
Às dezanove e vinte e cinco, o diligente funcionário, quando confrontado com o primeiro contribuinte sem senha, informa que não atenderá pessoas na mesma situação.
Quando a contribuinte em questão responde que já não havia senhas desde as dezanove horas, mas que tinha saído uma última (e única) às dezanove e vinte , o funcionário diz condescendentemente: "Vá, excepcionalmente, vou atender. Mas, para a próxima, não atendo ninguém".
A contribuinte diz ao que vai e o dito funcionário responde-lhe num tom de voz digno de uma Susan Boyle: "Para isso tem muito tempo, o prazo só termina no dia 27!! Volte noutro dia! Agora só atendo quem vier liquidar IVA!".
A jovem, educadamente, pede o livro de reclamações e leva como resposta um "ai é?! Então, já não atendo mais ninguém!".
Como seria de esperar, gera-se a confusão mas o senhor João Feliciano está irredutível e, enquanto tira a gravata e desabotoa o botão do colarinho, vai dizendo: "Já disse que não atendo mais ninguém e acabou! Querem reclamar, reclamem. Vão lá à frente e peçam o livro de reclamações!"
A cena termina com os cinco contribuintes indignados, a fazerem as respectivas reclamações escritas.
Enquanto isso, João Feliciano abandona o balcão de atendimento e desaparece do palco.
Esta cena é real e aconteceu mesmo, por incrível que pareça. A cidadã referida no segundo parágrafo da apresentação desta cena sou eu. Parece ficção, não é?

7 comentarios:

pedro oliveira disse...

Parece,mas infelizmente não é.Fez bem em pedir o livro e reclamar, é o que sempre faço.Ficam aborrecidos?temos pena,é da vida!

indomável disse...

Não, infelizmente não parece mesmo nada ficção Carolzinha, sobretudo para quem inevitavelmente tem de recorrer a repartições públicas.
Eu até costumo ser bastante tolerante com os funcionários das repartições públicas, porque eu própria já fui uma e tive de fazer atendimento onde se encontra todo o tipo de pessoas, daquelas que sabem perfeitamente ao que vão e os seus direitos e daquelas que não fazem a mais pequena ideia e mesmo assim acham que têm mais direitos que todos os outros.
Mas por vezes encontro alguns funcionários que realmente estariam melhor a fazer outra coisa qualquer que atender o público que lhes paga os ordenados e que deveriam pelo menos uma vez por mês, ler de ponta a ponta o código de procedimento administrativo. É que acho que é daquelas leituras que tem andado muito esquecida nas nossas repartições públicas...

ferreira-pinto disse...

Eu estou com a indomável porque também não deixa de ser verdade que do lado de fora também se costuma apanhar com muita cavalgadura!

A propósito do incidente em si, fico cá com uma ou outra dúvida ... horários são para se cumprir, certo?; como é que a questão girava em torno da liquidação de IVA e o funcionário dizendo que só atendia quem ia liquidar IVA, a coisa terminou como terminou?

Carol disse...

Pedro e Indomável, na verdade nunca fui tão mal atendida e, verdade seja dita, naquela Loja do Cidadão foi a primeira vez que tive problemas. Na verdade, até já tinha utilizado o Livroo de Louvores da mesma.

Ferreira, eu fui liquidar I.V.A.. Havia pessoas que queriam tratar de outro tipo de assuntos.
Inicialmente, ele disse que atendia toda a gente. Depois, como não quis tratar de um determinado assunto, afirmou que só atenderia contribuintes que fossem liquidar I.V.A. mas, como a contribuinte a quem ele recusou tratar do problema lhe pediu o Livro de Reclamações, passou a recusar o atendimento aos contribuintes todos independentemente da razão que os levou lá. Fê-lo qual criança birrenta e aquilo ficou por ali.

As senhas, soube depois, são distribuídas até atingirem a hora de atendimento previsto das 19:30h e a Loja fecha as suas portas às 20h. Isso verificou-se em todos os balcões de atendimento que vi, excepto na Tesouraria que, ao que pare3ce, foi o único que encerrou mesmo às 19:30h.

Julgo que a máquina das senhas deve ter tido qualquer tipo de mal funcionamento, daí ter estado entre as 19 e as 19:20h sem dar senhas e ter fornecido uma às 19:25.

Peter disse...

Não, não é ficção, é o quotidiano: comemos e calamos, ou melhor, "pagamos e não bufamos".

Compadre Alentejano disse...

Todos os contribuintes que se sintam lesados, aconselho a apresentarem reclamação no Livro Amarelo e, se possível, divulgar em jornais, blogues...
Fui funcionário público durante várias décadas, atendi público durante a primeira, e não houve um único contribuinte descontente com o atendimento.
Mas eram outros tempos!...
Compadre Alentejano

Adoa disse...

Carol

Acho que até tiveste sorte...

Em Espanha comias e calavas! Isto porque eles para näo terem esse tipo de problemas, fecham as senhas bem mais cedo e näo adianta discutir!

E se quiseres tratar de algum assunto vais no dia seguinte e mais cedo...