Quem somos nós?

Os portugueses, quero eu dizer... quem somos?
Eu sei que este é o meu tema recorrente, mas cada vez esta questão me atormenta mais e mais e mais, como um ciclo que renasce de cada vez que penso que já consegui uma resposta.
Afinal quem é o português?

Pessoa era, no seu futurismo europeísta, um português convicto! Incompreendido na sua época, escreveu em inglês como se de língua materna se tratasse e é também nessa língua que figura em algumas enciclopédias literárias, ao lado de nomes como Byron ou Keats, amado e estimado por estrangeiros que o estudam e escalpelizam a sua obra e erguem as mãos ao céu na incompreensão de quem se questiona como pode um povo inteiro aceitar que um dos seus nomes maiores tenha o seu espólio delapidado...

Somos um povo revivendo um passado longínquo com a saudade tão nossa, tão típica e duvidando tão firmemente que alguma vez venhamos a duplicar esses tempos.
Na verdade, acho que apenas os portugueses na jangada rectangular em que nos vamos equilibrando sobre o oceano, acreditam realmente que não somos tão brilhantes como os nossos antepassados de há 4 séculos.
Por esse mundo fora há portugueses, descendentes de portugueses, familiares de portugueses que conhecem a alma do português e sabem do brilhantismo que nos move a todos, os que estão cá e os que partiram.

Este pensamento recorrente tem-me levado por caminhos tortuosos e por demais espinhosos, como se a cada passo que dou, tropeçasse em pedras, pedregulhos, muros erguidos pelo nosso orgulho mascarado de humildade que mais não é que vergonha de mostrar que se é mais do que se quer parecer, herança deixada por uma cultura católica, apostólica-romana.
Cheguei então a uma conclusão, se quiserem numa versão mais actualizada e informatizada, é a minha conclusão Beta para testar a teoria, depois dos vossos comentários.
Passo então a explicar ...

Em passeio semanal pela minha loja de eleição - a Fnac - deparei-me com um livro de um norte-americano sobre, nem mais nem menos, que a história dos descobrimentos portugueses, com uma crítica do "New York Times" (sim, nem mais) a atestar que se trata de um livro sobre uma cultura fascinante de um povo que mudou a face do mundo!

Hoje, em passeio virtual por entre parangonas de jornais diários, deparei-me ainda com outra pérola, o "The New Yorker" dedicou uma reportagem ao nosso Lobo Antunes e à sua obra, considerando-a "obsessivamente local, preocupada com os males herdados da história portuguesa e as debilidades da sua cultura".
"Ele visa ser uma consciência nacional, lembrando aos seus recentemente europeizados, untuosamente prósperos compatriotas, o legado de culpa do seu vergonhoso passado deixado pela ditadura de António de Oliveira Salazar...".

Eu teria querido dizer ao repórter que Lobo Antunes entende o país dos dias de hoje perfeitamente, sabe bem que a europeização que Pessoa tanto proclamava não era de todo a que vivemos e que os nossos políticos, tão bem caracterizados por ele, tanto insistem em manter.

Então e a conclusão? Perguntar-me-ão, pois então aqui a têm:
Os portugueses são de facto brilhantes, ainda há semanas um estudo qualquer, para saber não sei bem o quê, concluiu que temos uma palavra no nosso vocabulário que muito fazia falta a outros povos, de entre eles o britânico e que é... tcharam... o desenrascanço!
Sim, eu sei, a palavra é feia, está muito depreciada e não é bem vista nem bem quista, mas aparentemente é das melhores coisas que temos e bem podíamos exportá-la para dar uma ajudinha à nossa Economia em tempos de crise.
Eu acredito que somos um povo de pessoas humildes, com uma enorme capacidade de adaptação, sem sonhos de grandeza mas nos tornamos grandes e de bom coração. Aprendemos com facilidade, porque aceitamos que errar é humano e alguns há que não temem dizer que se enganaram. Somos dos povos mais sociáveis e temos a capacidade inata de aprender línguas e dialectos, o que nos torna diplomatas por natureza.
Sim, também temos defeitos, mas serão assim tão mais importantes que as nossas qualidades?

Eu considero que o português só se dá realmente conta do quão brilhante é ou pode ser, quando tem de saltar da jangada e lançar-se ao mar sem cordas nem boias de salvação. Nesse instante não só salvam a sua vida, como se dão conta que podem salvar o resto do pessoal que ficou na jangada, se apenas os fizerem perceber que podem também lançar-se nas aventuras que quiserem... e ser bem sucedidos.

Na iminência de despedir-me do meu irmão querido porque sente as asas cortadas neste rectângulo estreito que é desde sempre o nosso país, confesso que me admiro por também eu não me lançar nessa jornada de abrir as asas e planar acima das cabeças dos que teimam em ficar... só para me dar conta que eu não preciso de saltar para ver do que sou capaz, eu já o sei, mas gostava muito, muito mesmo, de ser capaz de mudar o país do lado de dentro, ou talvez eu também sofra do síndrome que afecta o Lobo Antunes e esteja obcecada pelos males deixados na nossa cultura...
Estarei errada?


9 comentarios:

Peter disse...

Não, não estás errada. Neste momento, por coincidência, estou a ler as "Cartas da guerra" e a recordar a experiência vivida pelo Lobo Antunes, da qual ele em parte volta a falar nos "Cus de judas", o livro que andava a escrever quando era médico, alferes miliciano, no batalhão em Gago Coutinho, do qual, curiosamente, conhecia alguns camaradas.

Não costumo fazer propaganda, mas em complemento do que escreves e se quiseres, passa pelo meu blogue e lê o artigo que hoje lá deixei:"a cientista da electrónica transparente". É o exemplo típico do modo como esbanjamos aquilo que temos de melhor: as nossas criações intelectuais.

António de Almeida disse...

Que dizer dos portugueses? Temos uma tradição católica que influencia a nossa organização enquanto sociedade, um pouco semelhante a franceses, espanhóis ou italianos, menos talvez enquanto pessoas individualmente consideradas, pois somos bem diferentes dos franceses por exemplo, eles são confiantes até aos limites da arrogância, no entanto sempre foram uns derrotados da História, nós pelo contrário temos um qualquer complexo de inferioridade que não consigo perceber, e que julgo ser a génese dos nossos problemas.

indomável disse...

Peter,

já vou a seguir ao cantinho para deixar os meus "palpites".
De facto, isso é o que fazemos de melhor, esbanjar os nossos melhores recursos intelectuais. Já reparaste que quando investigadores, actores, cantores, engenheiros, poetas, seja o que for da massa cinzenta que vamos produzindo por aqui, vêm laureados de outras paragens, só então lhes damos crédito?
Se temos pessoas desse nível a ser educadas cá, não seria de lhes darmos crédito quando cá estão?

indomável disse...

António,

pois é, temos mesmo um certo complexo de inferioridade e se não me engano muito, o mui querido Pessoa já o afirmava com toda a sua indignação e afiançava que a culpa era mesmo das ocupações espanhola e britânica.

Eu concordo com ele, décadas depois de ele o ter dito. A ocupação espanhola, por curta que tenha sido comparada com os séculos de existência que tínhamos já como nação, minou as estruturas da nossa identidade. Foi um período em que até a nossa língua foi colocada em causa e em que os nossos intelectuais da época se dividiram entre os que falavam e escreviam em castelhano e os que teimavam em continuar a usar a lingua mátria, sendo por isso encarcerados.

Com a ocupação britânica, quem se salvou foi quem fugiu para o Brasil e por isso arrisco-me a dizer que temos hoje um Brasil mais orgulhoso de ser português e falar a língua portuguesa que os portugueses europeus...

Talvez por isso Pessoa tenha dito com determinação que a sua pátria era a Língua Portuguesa, mesmo que através de um seu heterónimo.
Eu também o digo, mas gosto também de dizer que sou portuguesa, com muito gosto!

Ferreira-Pinto disse...

Um dos nossos males é que já nem na Lusa história encontramos inspiração ou conforto.
Esquecemos tudo, em troca de um prato de lentilhas. Essa é que é a verdade.

Incúria sistemática no ensino e na Educação levaram ao desprezo dos nomes maiores das nossas Letras e Ciências. Some-se a isso a ortodoxia na docência de alguns e o laxismo de outros e temos aí um resultado que está à vista de todos.
Os jovens de hoje ignoram olimpicamente ou ouviram falar de Pessoa, dum Torga, dum Ferreira ... pasma-te que, tanto quanto é do meu conhecimento, nem um Alves Redol eles hoje lêem.
Gil Vicente ainda resiste, e penso que o Camões mas até aí existem as obras resumidas para ler às quais se sucedem testes e fichas com perguntas as mais das vezes dignas duma Pedra de Roseta.

Padecemos ainda do mal de sermos, como ousava dizer o meu professor de Medicina Legal, uns despenteados mentais que nos achamos aptos a discutir os destinos da Nação enquanto coçamos um testículo ou cuspimos para o chão. Mas, atenção, só abrimos espaço a essa discussão durante cinco minutos, pois o resto do tempo está reservado ao golo do Benfica, ao penteado do Paulo Bento e à inveja que nos alimenta a justficação que o Porto só ganha por causa da fruta!

Daí a célebre expressão que adoro ... aquela de um português vendo outro português a fazer qualquer coisa que, aos seus olhos está errada, logo sentenciar: "vê-se logo que é português!".

Adoa disse...

Näo estás errada!
O problema do país é que todos estäo täo deprimidos que quando alguém ri, cortam-lhe logo o pescoco.

Elevamos os outros (os dos outros países que näo o nosso) e deitamos a baixo os nossos.

Temos medo de arriscar e dizemos a todos que "está tudo muito mau..." como desculpa para näo nos lancarmos à vida que espera por nós.

Pois eu, como sou emigrante, tento e tenho de ser melhor do que os outros. Acho mesmo que algumas pessoas pensam que nós somos "fraquinhos" por que somos demasiado humildes...

Já o Cristiano Ronaldo pôs essa treta para trás das costas e foi em frente. Se é o melhor, porquê estar com falsas modéstias? Porque é que o acusam de ser um fala-barato?

Nós é que temos de dar valor ao que é Português, "os outros" fá-lo-äo para ganhar dinheiro, nunca será com a nossa "ALMA"! Mas também digo: - Mais vale esses que nenhuns!

pedro oliveira disse...

Ser Português é saber ser invejoso,desenrascado e esperar que os outros façam o que o desenrascanço não dá para fazer.No resto somos iguais aos outros.

Fada do bosque disse...

Sim senhor!!! O Pedro Oliveira fez a descrição mais incisiva e acertada!
Nada mais a acrescentar...

Fada do bosque disse...

Por favor não se esqueçam do nosso
querido Eça de Queirós!