Lições de democracia...

Desde que me lembro que nunca vi a actuação de um Primeiro-Ministro e do seu Governo ser tão criticada e acusada de falta de diálogo, pressão e prepotência. Sócrates é acusado por todos, desde os partidos da oposição aos seus próprios pares.
No entanto, curiosamente, vejo membros de outros partidos a praticarem acções dignas de uma qualquer ditadura. Deixo-vos aqui um exemplo daquilo que muitos criticam mas que, depois, colocam em prática dentro de portas, aquando do exercício das suas funções.

O sucedido teve lugar numa localidade do distrito de Aveiro. Os protagonistas são o presidente da Câmara da mesma e o presidente de uma associação cultural local.
Durante uma reunião entre as duas entidades, o presidente da associação demonstrou o seu desagrado pelas opções camarárias respeitantes ao desenvolvimento da acção cultural no concelho.
O presidente da Câmara defendeu as tomadas de posição da autarquia e referiu que ali, quem mandava era ele e que, portanto, não tinha que se justificar pelas mesmas.
O contestatário calou-se mas, à saída do gabinete, relembrou que a autarquia era do povo e não do presidente da Câmara pelo que este, em última análise, teria sempre que se justificar perante os eleitores. Três dias depois recebeu, na sede da associação que preside, uma carta.
O remetente?
A autarquia.
O que dizia a mesma?
Simplesmente isto: resigne à sua função de presidente da associação ou, caso contrário, esta perderá todos os apoios financeiros e estruturais que tem recebido da Câmara Municipal...

E esta história, garanto-vos eu, é a mais pura das verdades pois, por portas travessas, tive acesso à dita missiva. Bonito, não é?

7 comentarios:

korrosiva disse...

Bonito, não seria a minha palavra de eleição, mas é uma maneira simpática de pôr a coisa ;)

beijinhos

António de Almeida disse...

Quando falamos de poder local, e esse pelo menos ainda é escrutinado de 4 em 4 anos, deparamos com inúmeros caciques com tiques de autoritarismo, passando para a administração pública então ainda é pior, porque aí nem sequer existem eleições. Salazar deve rir-se no túmulo, deixou obra feita, da esquerda à direita, mesmo que o reneguem, não lhe faltam discípulos. A liberdade está sempre ameaçada.

Ferreira-Pinto disse...

Eu, como conheço relativamente bem os meandros do Poder Local, não me custa nada a acreditar nesta história.

Diz-se, mas não posso confirmar, que um ex-presidente de Câmara pedia um "parecer jurídico a dizer isto" e, ante as reticências dos técnicos alegando que não podia ser, que era ilegal, replicava "eu não perguntei se era legal, disse que queria a dizer isto!".

Noutra, que tem cerca de 1.200 funcionários, devem ter sido avaliados desde 2003 aí uns 30!
O resto que se amanhe.

Cala-te boca!

Carol disse...

Às vezes, Korrosiva, exagero na simpatia. ;)

Pois é, António, o que me preocupa é que esta história é um pequeno exemplo do que acontece nesta Câmara. Conheço outras semelhantes ou ainda piores e, infelizmente, começo a perceber que grassam no poder local. Muitos destes senhores, um dia, mais cedo ou mais tarde, chegam à Assembleia e, até, ao Governo... Medo, muito medo!

Olha, maninho, eu nem quero imaginar as que tu sabes! Eu, que só lido com autarquias desde Outubro, já sei o que sei...

O Guardião disse...

Quando a Justiça é fraca e cede perante o poder, seja ele qual for, a impunidade reina ao nível mais alto e os desmandos são mais do que muitos.
Não há Democracia que resista à falta ou mau funcionamento da Justiça.
cumps

Peter disse...

Os culpados somos todos nós, os portugueses: políticos, ministros, deputados, autarcas e votantes, todos "feitos da mesma massa".

Mais de 35 anos passados e ainda não nos habituámos a viver em democracia.

Faço minhas as palavras de "O Guardião": "não há Democracia que resista à falta ou mau funcionamento da Justiça."

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Um dos problemas do socratismo ( não confundir com Partido Socialista) foi a revitalização do caciquismo. Eles nunca deixaram de exisdtir, mas com os exemplos do PM sentem-se mais confortados. Isto para não falar dos elogios que personalidades como Jaime Gama ou o nosso PR fazem à governação de Jardim. Ora quando os exemplos vêm de cima, que se há-de fazer?
O que escrevo, não invalida que esteja de acordo com o oportuno reparo que o meu amigo faz na abertura deste post.