Das ideias feitas e preconceitos

Não sei se já vos aconteceu isto ou não, porque ultimamente tenho tido muitas lições de vida e cheguei à conclusão que não podemos concluir nada sobre os outros tendo por base a nossa própria experiência... mas acontece que no mundo em que vivemos e nos dias que correm, é recorrente termos ideias feitas sobre toda a gente e preconceitos que nos envergonhamos de ter mas não deixamos de os ter ainda assim.
Como por exemplo?

Olharmos com desconfiança todo e qualquer cigano que se nos apresente pela frente, porque toda a gente sabe que não passam de uma raça de malfeitores e pedintes, que arranjam confusão por dá cá aquela palha e só mandam os filhos à escola para receber dinheiro para o qual não contribuem! Não será assim?
Ou então, olharmos para os ricos com inveja, porque sabemos com toda a certeza que o seu património deriva todo dos nossos bolsos e foi ganho às nossas custas, sem que para isso eles tivessem tido um minuto de trabalho.
Ou, o nosso preferido, os políticos e a sua corrupção mais que evidente, ao usarem os cargos públicos para que os elegemos por forma a tirarem proveitos próprios.

Ora bem, estas são algumas das ideias feitas que pululam pelo nosso Portugal fora e para lá das fronteiras também, deve dizer-se, preconceitos que vão minando as nossas estruturas sociais e que servem como catalisador, em muitas ocasiões, de manifestações, revoluções e outras situações acabadas em ões...
Mas de quando em vez... de quando em vez levamos bofetadas sem mão... de quando em vez somos acordados para a nossa própria ignorância, olhamos de frente o monstro que nos habita e, se forem como eu, não gostam do que vêm.
Há quem lhe chame consciência, há quem lhe chame crescimento, espiritualidade, humildade, o que quiserem - estará sempre correcto.
O que daí advém é de facto um crescimento interior, um ascender a outro patamar de consciência, um acordar para a nossa espiritualidade latente, o resumir-mo-nos à nossa própria imperfeição, mostrando-nos humildes perante a magnificência da natureza...

Ultimamente tem-me sido recordado de forma algo violenta, que não passo de uma humana, uma humilde humana e, vão desculpar-me a aliteração, esta simples escolha de palavras, com o seu ritmo tão encadeado, pode parecer-vos suave, mas na vida real é algo de muito doloroso, sobretudo quando a determinado momento das nossas vidas nos consideramos tão especiais que nos parece que todos os outros é que são os imperfeitos!
Esta semana só vos peço este exercício - olhem à vossa volta, para os que vos são mais detestáveis, os que vos deixam mais indignados, os que vos fazem revoltar o estomâgo, aqueles por quem nutrem uma aversão fidagal, um odiozinho de estimação... olhem bem para eles, observem os seus movimentos e as suas acções, sem o acto contínuo de julgar cada segundo, sem as ideias feitas e formuladas há muito... olhem e vejam até que ponto eles também são humanos e imperfeitos e verão no espelho o vosso monstro e vos garanto... que não vão gostar!

Mas como em tudo na natureza, é nos momentos em que destruimos as nossas barreiras, em que nos vemos no espelho da realidade, que crescemos, que evoluimos e, observando as nossas insuficiências, as nossas imperfeições, damos conta que até o mais improvável, o mais feio, o mais defeituoso e mal feito pode revelar as mais belas coisas - tal como a flor de lótus que pela sua beleza faz-nos esquecer que nasce do lodo escuro e lamacento.
Para vos dar um excelente exemplo disto mesmo que acabo de dizer, deixo-vos este vídeo. Vejam-no, saboreiem-no bem e sobretudo, ouçam-no de janelas da alma abertas, porque por vezes, a Mãe Natureza tem maneiras de nos mostrar que na imperfeição reside a verdadeira perfeição.
Há ainda outra lição a tirar deste vídeo meus amigos - um sonho só morre quando o deixamos morrer...

8 comentarios:

pedro oliveira disse...

Normalmente quando vemos a o "agreiro"nos olhos dos outros os nossos têm uma trave,mas o dia a dia leva-nos a rotular as pessoas, e quando nos rotulam a nós, carregamos no travão, até por isso a blogosfera é fantástica, de quando em vez...faz o favor de nos dar umas doses de humanismo e humildade.

indomável disse...

é verdade Pedro, a humildade com as suas lições algo dolorosas, faz-nos crescer...
A blogosfera ou melhor, o avanço tecnológico que nos trouxe a blogosfera, tem esse condão de nos por em contacto com o mundo... e por essa razão lá vamos aprendendo lições que de outro modo levaríamos vidas inteiras a atingir...

Peter disse...

Já conhecia o vídeo e antes da ouvir cantar, não daria um cêntimo por ela.
Neste momento confesso que o que me preocupa e me assusta é o futuro que temos à nossa frente.

indomável disse...

Peter,

não se deixe enganar com o vídeo e a possível intenção de o colocar aqui.
Este vídeo foi só uma pequena demonstração de como nos podemos enganar pelas aparências e o futuro revela que não podemos continuar a fazer avaliações como até aqui - pela aparência.
Isto diz respeito a todos os aspectos das nossas vidas e o facto de a humildade ser uma qualidade tão pouco apreciada nos dias de hoje, faz com que tenhamos políticos arrogantes, médicos arrogantes, engenheiros arrogantes, linguistas arrogantes, advogados arrogantes e toda a espécie de trabalhadores arrogantes ao ponto de não serem capazes de reconhecer os seus erros e a culpa morrer sempre solteira.

Recordo-me de na adolescência ver um filme sobre uma freira que me deixou marcada até aos dias de hoje. A dita noviça queria com todas as suas forças ser freira mas a madre não lhe facilitava a vida, dizia-lhe que teria de aprender a ser humilde ou não seria freira nunca.
A pobre rapariga passou por provações mil, mas continuava a não ser humilde o suficiente. Podia cortar o cabelo todo, podia lavar o chão de joelhos, podia fazer trinta por uma linha, até trabalhar noite e dia, mas a humildade não havia jeito de aparecer. Era o orgulho que a impedia de ver que por vezes somos humanos e erramos todos por igual...

Com aquele filme nasceu-me uma vontade de ser missionária e quando me dirigi a uma igreja para perguntar como fazer, o padre disse-me que não o fizesse, alguém com carácter faz sempre falta a uma sociedade às portas da perdição...
Bem, aquele era um padre amigo, conhecia-me melhor do que eu própria e o que ele queria dizer era que eu deveria lutar pelo meu país, no meu país.
Eu queria dizer-lhe que sou cidadã do mundo e queria fazer o bem sem olhar a quem, mas mais uma vez pus-me a pensar que se queremos mudar alguma coisa, devemos começar pelo que nos está próximo...

A vida vai-nos ensinando que não somos perfeitos nem temos de o ser, basta que estejamos prontos a reconhecer que ninguém o é e não exijamos o que não pode ser exigido.

António de Almeida disse...

As aparências iludem, nenhuma dúvida a esse respeito, por vezes somos surpreendidos com gestos de quem menos esperamos, mas também somos capazes de surpreender quem menos o espera. Ainda bem que tal acontece.

Ferreira-Pinto disse...

Penso que faz parte da natureza humana deixar-se levar pelas ditas impressões ... nem sempre justas, muitas vezes conducentes a alguma injustiça e, em situações extremas, a casos de violência até ...

Umas dão origem à aludida xenofobia, como aqui nos falas aportando o caso da comunidade cigana embora, entendo eu, nem sempre faça muito para desfazer as tais ideias preconcebidas.

Quanto aos ricos, não me aflige que existam ... aflige-me, sim, é que, também entre eles, exista a tal cultura do "chico-esperto" inerente à nossa sociedade!

Quanto à "cantante", e tal como a ouvi dizer em entrevista a um canal de televisão, nunca se deve julgar um livro pela capa!

DANTE disse...

Huh...continuo a gostar do que vejo no espelho ;D

Beijo :)

Adoa disse...

Já vi este vídeo tantas vezes! a emocäo arrebata-me sempre!

Mas se procurares na net,já a estäo a tentar mudar. Já lhe prepararam o primeiro encontro, a mudar-lhe o cabelo, as roupas.

Quanto tempo irá ela aguentar?

Fico täo feliz por ela estar a viver o sonho, que tenho pena se um dia se transformar no seu maior pesadelo...

Nunca julguei ninguém pela sua aparência, pelo contrário...

E todos os dias me questiono sobre os meus medos e os medos dos demais e podes crer que me vejo ao espelho assim. Vejo quemrealmente sou - pelo menos tento...