Sónia Martins Lopes International Award

Perdoem-me esta liberdade de divulgar algo que está fora dos horizontes de qualquer português... ainda para mais porque se trata de um prémio em investigação sobre terapia pediátrica e desenvolvimento clínico na área do desenvolvimento cognitivo e... todos sabemos como os portugueses estão longe desse mundo tão abstracto como é o desenvolvimento cognitivo, não é?
Nas televisões vemos, todos os dias, os intelectuais que temos, pessoas de vasto conhecimento que sabem muito de muita coisa, mas pouco do desenvolvimento cognitivo de todos nós. Temos uma Eucação que pouco percebe do desenvolvimento cognitivo e professores que talvez até tivessem muito a dizer sobre o assunto mas que... permanecem calados com mordaças na boca.

Sim, perdoem-me, hoje estou um pouco sensível, de facto, se querem mesmo saber a verdade, estou a escrever este artigo com lágrimas nos olhos, com uma saudade e um sentido de perda que nunca pensei vir a sentir...
"Sónia Martins Lopes Award"... é de facto um prémio atribuido internacionalmente a quem, no mundo inteiro, se tenha destacado pelo trabalho com crianças, na área do desenvolvimento cognitivo!
Este ano foi atribuido a uma austríaca de meia idade que estabeleceu ligações excepcionais entre a investigação e a terapia clínica com crianças...

Sónia Martins Lopes era mãe de dois meninos lindos, esposa de um homem excepcional que prezo como um bom amigo. A Sónia era uma menina franzina com quem gostava muito de conversar, com quem aprendi mundos sobre os meus filhos e sobre mim própria.
A Sónia era terapeuta no Aboim Ascenção até que sentiu que deveria apostar em algo dela própria. Criou a primeira clínica sensorial no Algarve e desatou a estudar, a estudar muito.
Em pleno tratamento de quimioterapia, deslocava-se aos EUA para ter e dar formação na área do desenvolvimento cognitivo e destacou-se sempre em toda a parte por ter um conhecimento tão profundo sobre o assunto.
Ela foi a porta de entrada deste tipo de investigação na Europa e deu formação a terapeutas de Espanha à Alemanha, deu formação a professores e educadores e tive a sorte de ela ter partilhado comigo as suas visões sobre o que as nossas crianças são capazes de fazer... se as deixarmos.

A Sóia faleceu o ano passado. Um cancro fulminante tolheu-lhe a vida e nós ficámos sem uma grande mãe, esposa, amiga.
Mas Portugal, permitam-me esta homenagem, perdeu muito mais do que isso - perdeu uma das melhores terapeutas ocupacionais da Europa, perdeu uma portuguesa que não se dava por vencida, perdeu alguém que em plena crise há uns anos atrás, contra todas as expectativas, se lançou na aventura de criar algo nunca antes conhecido e venceu!

Eu, meus amigos, perdi alguém com quem gostava muito de conversar, perdi uma amiga, é verdade, mas para além disso perdi um farol que me alumiava nos momentos de dúvida, que apesar de estasr sempre assoberbada de trabalho, nunca dizia que não a uma conversa.
O "Sónia Martins Lopes Award" é entregue todos os anos pela Autoridade International para o Desenvolvimento Sensorial e disso e de muitos outros portugueses que se destacam por esse mundo fora não ouvimos falar nunca.
Portugal tem andado de olhos fechados para os seus, muitas vezes por eles se destacarem ao sairem do país.
O que a Sónia tem de diferente, é que ela sempre se destacou lá fora pelo trabalho que fez cá dentro.

Lutar cá dentro, pelo que é nosso, o nosso património, cultural, científico, económico, qualquer que seja... é isso que eu quero para mim e para os meus filhos!
Mais uma veza perdoem o desabafo, a liberdade, a homenagem, mas todos merecemos saber que somos capazes de ser mais que esta mediania que o governo, políticos e comunicação social em geral querem fazer-nos acreditar que somos...

7 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Lendo a crónica do Sérgio Andrade no “Jornal de Notícias” também descobri que, para além de um Luís Magalhães, Portugal tem uma Maria José Morais, ambos pianistas de craveira internacional.

O autor da crónica afirmava mesmo que "que, para não variar, é mais conhecida no estrangeiro do que por cá. Somos um país pequeno, de pequenas elites, e portanto não é de estranhar. Mas, não esquecendo as suas origens (nasceu em Gaia), Maria José Morais, de vez em quando, sai de Salzburgo, Tóquio, Londres ou Nova Iorque e actua também em Portugal. Acaba de iniciar uma série de 14 concertos, desde Ponte da Barca ao Montijo - mas no Porto não".

Elucido que no Porto não porque, ao que parece, na Casa da Música e no Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto ninguém a conhece.

Somos assim, um povo que se agiganta aqui e ali mas que tende a reduzir-se à sua pequenez no dia-a-dia desprezando os seus exemplos maiores, especialmente quando os mesmos vão muito para além do mundo do pontapé na bola.

Será também o caso da Sónia, essa pessoa que tão bem conheceste e cuja existência e memória, ao que aqui nos deixas, perduram para além da sua morte. Ainda bem que assim é!

indomável disse...

Meu querido, querido amigo,

desculpa, realmente hoje estou mais sensível do que é habitual...
A Sónia foi apenas um exemplo do que somos capazes de atingir.
Deixamo-nos levar aqui neste pequeno rectângulo, pelo que nos vão dizendo as nossas "elites", perdendo a capacidade de entender quem somos realmente, como povo, como seres profundamente capazes de nos agigantarmos, como disseste...
Não foi um povo mediano o que se perdeu pelo mundo fora. Isso é coisa do passado, bem sei, mas as células que nos formavam são ainda as que nos formam agora, a fibra, o sangue, a paixão...
Só não entendo como deixamos que nos tratem tão mal, que nos digam que não somos capazes e nos deixemos levar nessa lenga-lenga...
Obama dizia - "yes we can!" e por cá vão-nos dizendo que, não, não somos capazes, porque todos os outros são mais capazes que nós.

Ferreira-Pinto disse...

Minha cara amiga, dizes tu "só não entendo como deixamos que nos tratem tão mal, que nos digam que não somos capazes e nos deixemos levar nessa lenga-lenga" e digo eu!

Não que eu seja propriamente um adepto da luta armada, mas ao menos uma insurreição, um exercício do direito à indignação!

António de Almeida disse...

Não conheço a obra que Sónia nos deixou, pelo que me abstenho de comentar esta parte, lamento também a sua perda, também eu sei o que é perder amigos de forma quase repentina. Portugal tem pessoas de excelência, infelizmente nem sempre revelados, ontem por exemplo vi um vídeo sobre o trabalho da cientista Elvira Fortunato, que aconselho a todos, basta uma pesquisa no Google, de preferência vejam a reportagem da SIC, vale a pena. Ah, se fossem futebolistas, todos os conheciam...

pedro oliveira disse...

Eu é que peço desculpa pela minha ignorância em relação a esta fantástica mulher, pelo que relata.
Obrigado.

Peter disse...

Somos assim, não damos valor ao que temos. Daí o ditado: "santos de casa não fazem milagres".

Cientistas portugueses do Centro de Investigação de Materiais (Ceninat) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, coordenados por Elvira Fortunato, criaram transístores de papel, em Dezembro de 2007, mas apenas o divulgaram em Julho de 2008. Dois dias depois de esta notícia ter começado a percorrer o mundo (milhares de entradas no Google), a cientista ganhou um prémio de 2,5 milhões de euros, na área da electrónica transparente, atribuído pelo European Research Council (ERC).

Os brasileiros estão a fabricá-los, em Portugal ninguém se interessou pelo projecto.

Compadre Alentejano disse...

O Refúgio Aboim Ascenção teve, e tem, excelentes profissionais. Não é por acaso que, com grande mérito, é considerado internacionalmente.
Não conhecia a Sónia Martins Lopes mas, agora, já posso "bater um papo" com o Dr. Villas Boas, director do Refúgio.
Obrigado.
Compadre Alentejano