Farmácias, médicos e idosos

Fui à farmácia do bairro comprar um tubo de "voltaren" para ver se acabava com umas dores musculares num braço. Aí fiquei surpreendido quando a empregada me trouxe o remédio, mais outro, para mim desconhecido e me diz:
- Tem aqui o remédio que me pediu e este que é um "genérico" mas cujo princípio é o mesmo e tem a vantagem de ser muito mais barato.
- Quanto custa?, perguntei eu.
- 4€.
- Levo o genérico, ainda para mais, não é nada para ingerir, é para aplicação externa.


Posteriormente vim a saber que as eleições para a direcção da Associação Nacional das Farmácias (ANF) se tinham iniciado no passado dia 9 havendo dois candidatos a ocupar o cargo: o actual presidente, João Cordeiro, e João Ferro Baptista. O primeiro defende que o fármaco solicitado pelo doente, desde que não haja indicação médica, que foi o meu caso, pudesse ser substituído com a anuência do doente, por um genérico dentro da mesma substância activa. Inclui ainda no seu programa a informação ao doente da diferença de preços dos genéricos e a importação paralela de medicamentos, a começar por Espanha.

João Ferro Baptista concorre pela segunda vez ao cargo de presidente da ANF e põe em causa a substituição do "receituário por genéricos" que considera como uma "insurreição e desrespeito" pelo acordo "Compromisso pela Saúde" estabelecido com o Governo e pelo código deontológico, que obriga os farmacêuticos a "respeitar a prescrição médica".
Talvez a farmacêutica do bairro vote na continuidade, tal não me interessa, apenas passarei a pedir ao médico que me receite genéricos pois se não o fizer, é certo e sabido que a maior parte não o faz. Eles lá terão as suas razões.

A compra de medicamentos é um dos grandes problemas com que se debatem os idosos com reformas baixas, entre 250 e 350 € e que só por serem proprietários da casa onde vivem há muitos anos, já não têm direito a ajuda do Estado. Estima-se que as pessoas com mais de 65 anos gastem em medicamentos mais de 65€/mês, que 230.000 tenham dificuldade em pagar os medicamentos e que o valor do crédito das farmácias a particulares e que estes vão pagando a prestações, seja de 84 milhões de Euros.
São a chamada “pobreza envergonhada”, que com os "pobres, pobres" somam qualquer coisa como 2 milhões de pessoas, vivendo com menos de 400 €/mês.

8 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Lendo-te quase que se tem vontade que o tal Cordeiro, que só o é de nome, ganhe outra vez.
Embora, neste caso, ganhe quem ganhar manter-se-á tudo na mesma no relacionamento de um dos "lobbies" mais poderosos em Portugal com o Estado e com os próprios utentes/consumidores.

A guerra dos genéricos devia ser bem contada, para se perceber porque é que uma patente e um nome são mais eficazes que um produto em tudo idêntico mas com nome diferente.

Quanto à questão das dificuldades de muitos idosos, é a mais pura das verdades embora também existam alguns (creio que poucos, mas existem) que se encharcam em remédios por tudo e por nada (a senhora minha sogra é um desses casos e ainda por cima nem o meu cunhado que é médico lhe consegue travar o vício) e que pagam anos de incúria com a saúde.

Quanto aos restantes, estou com o meu amigo fazem uma ginástica enorme e juntam-se ao rol dos descamisados que por aí temos e nos envergonham!

Em jeito de resposta a uma achega que me deixaste a propósito da FNAC e WORTEN, costumo ser cliente dos primeiros mas agora adoptei a táctica de esperar que o produto baixe o preço ... nem sabes das compras que tenho feito apanhando discos que me interessam ali entre os 7,00 e os 10,00€ ... ainda há dias vieram assim a Janis Joplin, os Creedence Clearwater Revival e dois do Pat Metheney!

Carol disse...

Eu cá sou adepta dos genéricos, quer sejam de aplicação interna ou externa. Felizmente, o meu médico de família não é daqueles que impedem que a substituição por esse tipo de medicamentos.

Essa, julgo eu, deveria ser a atitude a adoptar por todos, mas julgo que a maioria não o permite. Será que o facto de receberem umas "lembranças" dos grandes laboratórios influencia essa tomada de posição?

Compadre Alentejano disse...

Sou um dos consumidores habituais de produtos farmacêuticos, e fâ dos genéricos.
O médico mais relutante em passar genéricos foi o cardiologista. Tivemos que entrar quase em ruptura para conseguir tal proeza.
Mas valeu a pena.
Assim, o Aprovel 300 que custa 28€ foi substituído pelo genérico da CINFA que custa 16 €, etc. etc.
Resultado, se o Estado quer pagar menos, nós também queremos...
Compadre Alentejani

Fernando Teixeira disse...

Bem ou mal inventados os genéricos, são baratos, dão milhões e não existe duvidas nenhuma, fazem um jeitão serem mais baratinhos. Mas, será assim baratos! Não consigo definir, para quem fica mais barato se é para novos ou se para mais idosos. Sei que, ou melhor, começo a ter essa “grata” experiência com 62 anos de caminhadas pela calçadas desde rua do Porto, hoje por Gaia, ter andar á roda das farmácias por causa do Colesterol, e próstata. É que me havia de aparecer logo agora que estou a viver dos rendimentos, (serei da classe média ou pobre!), que uma negociação entre mim e a empresa, empandeirou para casa. Uma coisa eu sei, “Isto está difícil!...

manuel gouveia disse...

Quanto do dinheiro que tem ido para bancos e especuladores, não resolveria as pensões de miséria que temos?

Peter disse...

Fernando Teixeira

Os idosos deixam de comprar medicamentos por não terem dinheiro. Se pensarmos que esta faixa inclui homens e mulheres a partir dos sessenta anos, temos uma ideia da enorme parte da população nacional de que falamos. Quanto aos medicamentos, são maioritariamente para a tensão alta, colesterol, doenças coronárias. E nem vale a pena falar de casos como a esquizofrenia, cujos medicamentos são muitíssimo caros e a maior parte não convencionados. Estes doentes não tomam medicamentos de vez em quando, têm de o fazer para o resto da vida. E ao interromperem os tratamentos entram em risco de vida. Mesmo com os medicamentos que ainda têm comparticipação, um doente desses gasta em média 250€ euros todos os meses. Quantas pessoas o podem fazer?
Nada disto tem a ver com a crise que assola o mundo inteiro. Antes era exactamente igual. Todos os que descontaram uma vida inteira de trabalho para poderem ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde têm razão para se sentirem defraudados.

Conclusão: Os portugueses têm que ser ricos para se tratarem convenientemente.

Peter disse...

Manuel Gouveia

O Obama já resolveu o problema: todos esses gestores com ordenados e reformas chorudas foram taxados em 90% de imposto.

Cá é que é bom. Os EUA são "exploradores capitalistas".E depois digam que o Medina Carreira não tem razão...

Peter disse...

Carol

Hoje fui ao ortopedista, pois tenho uma "tendinopatia calcica crónica" no ombro esquerdo e vou ter que fazer uma infiltração. Esta semana não, pois o médico vai para Barcelona para um congresso.

Quem paga?