Da Guiné

E ora bem, lá assassinaram o Nino Vieira. E ora bem, até aí nada de surpreendente.
E é mesmo isso: nada de surpreendente.

Quando ouvi as notícias do assassinato pensei que se ia alardear o facto, que nós, antiga nação colonial, íamos dar ao caso uma atenção desmesurada. Mas equivoquei-me. Na blogoesfera, outros assuntos mais domésticos ocupam os posts, nos noticiários das televisões só no primeiro dia é que houve abertura de edições com a notícia, na imprensa escrita nada demais a assinalar. Será que estamos a entrar numa fase de pacificação com o passado? Aqui do meu prisma ignorante, parece-me que a morte de Nino Vieira foi tratada como se de um Chefe de Estado de outra nação africana sem nada a ver connosco se tratasse. Certo que ainda se enviaram uns correspondentes especiais para o terreno, mas parece-me, também, que a coisa foi feita mais como uma obrigação que se espera natural do que uma verdadeira intenção informativa.

Ainda pensei que se viessem levantar fantasmas e os gritos de "Espera-se guerra sangrenta". Mas não! Tudo sereno. Gostei. Sinceramente gostei deste interesse apenas superficial. Afinal qual é a novidade de assassinatos políticos em África? Afinal, o que é que nós temos a ver com a actual Guiné-Bissau? (Ok, nem me venham lá com os laços históricos e o blablabla enjoativo sempre que se trata de países que fizeram em tempos parte do nosso império ultramarino). Afinal, sem ser por partilharmos a mesma língua e um passado, quais as responsabilidades de Portugal perante a situação interna de um país independente?

Sim, prossigam as notícias que há outras coisas mais prementes e importantes a tratar e a saber.

E não, nem tenho instintos colonialistas obsoletos nem me revejo no papel da anti-colonialista. As circunstâncias são o que são e ponto final. E também não me vou pôr aqui a dizer que paciência, mataram um assassino, por isso não há cá penas nem vou insinuar que a democracia (???) guineense ficou empobrecida e denegrida com este acto selvático. É África.

10 comentarios:

pedro oliveira disse...

Eu gostei de ver a serenidade de um povo e gostei de ver que finalmente a CPLP agiu rapidamente e com eficácia, ao ir de imediato para a Guiné dar o apoio necessário para que a ordem constitucional se mantivesse.Um bom exemplo, penso eu.

Ferreira-Pinto disse...

Caramba, se isto não é um lapidar texto demonstrativo do que são os meandros em que se move a "realpolitik" então não percebo nada de nada.

Não fosse dar-se o caso de estar, na essência e no âmago, de acordo com isto tudo, até diria que estamos ante uma "cínica" no sentido de adepta da corrente diplomática da "realpolitik".
Quer dizer, às tantas, estamos ambos uns ... "cínicos" nesse sentido!

lusitano disse...

É estranho para mim, mas concordo com grande parte deste texto.

E é estranho apenas porque o assunto me toca de perto.

Explico o que quero dizer com um texto que escrevi nesse dia.

«Leio as notícias desta manhã sobre a Guiné e fico profundamente triste. Aquele povo, generoso, acolhedor, alegre, não merecia nada do que se tem passado desde a sua “independência”.

E sinto-me também revoltado e ao mesmo tempo em parte responsável, porque sou português.

Responsável, porque quando foi o tempo talvez mais certo, o meu país não foi capaz de entender os ventos da história e ter proporcionado uma independência bem fundada e pacífica.

Responsável, porque quando a política do meu país se alterou, também não fomos capazes de controlar e liderar uma transição para a independência, segura e no interesse daquele povo.

Custa muito, a serem verdade as notícias, ver um comandante da liberdade, um homem que lutou pela independência do seu povo, acabar assim, desta forma trágica e sem glória.

Nino Vieira pode ter cometido diversos erros, talvez até alguns bem graves em relação à confiança que o povo da Guiné nele depositava, mas nunca poderá deixar de ser lembrado como o maior comandante que o PAIGC na sua luta pela independência teve nas suas fileiras.

Confesso que não sei quem era o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, assassinado também num ataque, e não sei se foi alguma vez combatente nas matas da Guiné, mas sei que nunca a situação política de um país se resolverá pelos assassinatos dos seus intervenientes, pois a violência gera sempre mais violência.

No segundo parágrafo coloco a palavra independência entre aspas, porque me pergunto sinceramente se aquele povo é independente, se aquele povo tem a liberdade para escolher o destino do seu país, se aquele povo não chora amargamente a ilusão de uma independência que nunca o foi até agora.

Não quero dizer com isto que não devia ter sido dada a independência à Guiné, pois aquele povo tinha todo o direito de decidir o seu destino, mas quero dizer que a independência sem paz, sem uma direcção segura e estável, representa apenas uma miragem que em nada serve o próprio povo.

E uma independência de fome, de doença, de crime, de corrupção, de total instabilidade, não é uma independência verdadeira.

É mais que tempo de Portugal assumir as suas responsabilidades e ajudar verdadeiramente o povo da Guiné a encontrar o seu rumo, o seu destino.

Pela minha parte colaborarei naquilo que me for possível fazer, e sei que todos, ou pelo menos a maioria dos meus camaradas de armas, ex-combatentes da Guiné, o farão também.»

Afinal, com vêem continuo a andar por aqui.

Abraço amigo

António de Almeida disse...

De facto acontecimentes deste calibre tornaram-se demasiado frequentes em África, exceptuando a África do Sul, e mesmo aí com algumas particularidades, não conheço um único regime verdadeiramente Democrático em todo o continente, a Norte o fundamentalismo islâmico não o permite, a sul do Sahara são os problemas tribais. Talvez os europeus tenham culpa, afinal fomos nós quem desenhou as fronteiras sem atender ao tribalismo, mas será que os africanos também não têm culpa? Já lá vão 5 décadas desde as independências, e mesmo nas colónias portuguesas mais de 3.

manuel gouveia disse...

Sim África, mas acima de tudo África negra, que temos nós a ver com isso? Só temos por cá uma comunidade emigrada para nosso serviço a salários reduzidos e sem protecção social. De resto que se danem! Digo eu que sou anti-colonialista, anti-racista e de esquerda.

Mas olha, como diz o Alf, eles reproduzem-se…

DANTE disse...

Democracia Guineense?!?!?
Isso existe Loira?

Jokas :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Depois de aplaudir o teor do post, deixe-me só acrescentar um apontamento.
As notícias na Guiné são de tal forma filtradas, que até me espantei como a corrspondente da RTP conseguiu emitir. Não tive oportunidade de ver a RTP África. Se alguém viu, pode dizer o que viu?

Peter disse...

Não sei se há censura, mas já não é a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira, que um comentário meu é apagado.

Estava a dizer que hoje vi no noticiário da TV das 13h uma senhora que com mais duas tinha ido num camião carregado com um contentor cheio de bens essenciais, principalmente medicamentos e que se veio embora, por mero acaso, no dia em que rebentou a bomba que matou o chefe do Estado Maior. Descreveu horrorizada as condições sub - humanas dos doentes no hospital de Bissau, com parturientes a dormirem no chão, ou duas em cada cama e sem qualquer tipo de medicamentos. A senhora afirmou o seu desejo de voltar e apelou à ajuda dos portugueses.

Julgo que a Marinha já tem em prontidão navios para evacuarem os portugueses que ali trabalham, se tal for necessário. Aliás não seria a primeira vez que o faria.

Ferreira-Pinto disse...

PETER como membro deste colectivo, devias e tinhas a obrigação de saber que aqui não há censura. Há, isso sim, exigência de respeito mútuo e nada mais que isso.

Depois, conforme já deves ter reparado, a plataforma Blogger nem sempre é fiável.

Peter disse...

Ferreira Pinto

Como é que pudeste sequer pensar que eu vos estava a atirar as culpas?

Quando escrevi isto:
"Não sei se há censura, mas já não é a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira, que um comentário meu é apagado."

Estava a referir-me a uma sensação de censura que perpassa pela sociedade portuguesa. E os comentários apagados não têm sido neste blogue, aliás foi a primeira vez que tal aconteceu, mas sim em diversos blogues de há uns tempos para cá e quando abordam temas relacionados com a política.

Claro que a explicação lógica é o mau funcionamento do Blogger. Mas foi profundamente desagradável o ocorrido.