Com pais destes...

Sei que as relações familiares, nomeadamente as que se estabelecem entre pais e filhos, mudaram. Aliás, tudo o que diz respeito ao Homem e aos conceitos que o rodeiam sofrem alterações à medida que o tempo vai passando.
Posto que trabalho com jovens e lido com os pais diariamente, tenho a possibilidade de constatar a mudança evidenciada no relacionamento entre ambos. E noto, já há muito, como, regra geral, as partes se vão distanciando cada vez mais. É o ritmo alucinante da sociedade em que vivemos que o provoca, dizem-me alguns. Não concordo, sinceramente, mas também não é objectivo meu escalpelizar as razões para esse facto.

Na passada sexta-feira, ao consultar a edição on-line do "Diário de Notícias", deparei-me com isto; pais a contratarem detectives para vigiarem filhos? Nunca passou por esta cabecinha arraçada de loira que tal coisa fosse possível e, muito menos, que as pessoas, nomeadamente os pais, adoptassem uma atitude tão ridícula e degradante.
Sei perfeitamente que os míudos mentem e tentam enganar os pais, mas isso faz parte do processo ou estarei enganada?!

Qualquer filho que se preze tenta ludibriar os progenitores!

Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra!
Já aos pais, por seu turno, cabe a difícil e grandiosa tarefa de descobrir as patranhas que a malta tenta fazer passar por verdades puras e inocentes!

Esse é o maravilhoso jogo da educação, que tem outras cambiantes e outros níveis, uns mais avançados, outros considerados básicos...

Um pai que escolhe este caminho está a deturpar tudo na relação que estabelece, ou antes, devia estabelecer com o seu filho. Um bom pai serve para guiar. É ele que deve fornecer as melhores ferramentas para singrarmos na vida, para distinguirmos o Bem do Mal, para fazermos escolhas conscientes, para termos valores e princípios e sabermos lutar pelos nossos sonhos e ambições...
Um bom pai não nos coloca numa redoma, não nos obriga a viver numa estufa, onde não sentimos as diferenças de temperatura, onde a chuva e a neve não caiem, onde tudo é asséptico e controlado.
Não me interessa minimamente se é legal que um pai contrate um detective para seguir os filhos, que recorra a câmaras ocultas, aceda aos e-mails e ouça as suas conversas telefónicas... Não me interessa, não quero saber. Acho ridículo. Acho uma estupidez. Acho socialmente reprovável e acho moralmente condenável!
E, se algum dia for mãe, não quero ser assim.

8 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Esta não é de antologia porque o quotidiano nos tem vindo a trazer, de forma cada vez mais intensa, exemplos dum absurdo quase absoluto e que mostram bem até que ponto existe uma desregulação de todo o tecido social tal como o conhecíamos.
Sendo pessimista, ouso apontar para que sejam claros prenúncios dum fim de ciclo duma forma de civilização tal como a conhecíamos.

António de Almeida disse...

Pois eu conheço uma senhora que não terá mandado seguir o filho, mas descobriu com enorme surpresa que após 5 anos de faculdade o filho tinha concluído meia dúzia de cadeiras, já nem se matriculava, poupando o dinheiro das propinas para copos, mas passava diariamente pela faculdade, mais concretamente pelo bar, não perdendo um único evento académico. A sua explicação para o sucedido quando confrontado, foi não estar vocacionado para aquele curso, sem no entanto ter procurado outro. Por um lado se os pais o tivessem mandado seguir teriam atentado contra a sua privacidade, mas imaginem só quanto dinheiro não foi gasto ao longo dos anos. Para que os pais nem desconfiassem ele foi comprando exactamente os mesmos livros que os amigos, embora não lhes desse utilização.

pedro oliveira disse...

Algo está amudar, não sei se para melhor ou para pior, a diferença é que somos que a estamos a viver.
Os desafios são cada vez maiores e as nossas respostas têm que está ao nível desses desafios, o que não é nada fácil.
Gostei do texto.
boa semana

korrosiva disse...

Como tive uma relação muito aberta com os meus pais, sempre lhes contei tudo!
A minha mãe acho que até hoje prefere não saber certas coisas!! lol

Como não sou mãe não consigo de forma alguma avaliar esse comportamento, mas visto de fora parece-me uma anormalidade!

O fruto proibido sempre será o mais apetecido ;)

Bjs

AP disse...

Faço minhas as palavras de Ferreira-Pinto.
No fundo tudo se resumo ao facilitismo, que vai minando todas as componentes do tecido social.

Adoa disse...

Essa é nova! Nunca ouvi pais contratarem detectives para seguirem os filhos! Posso dizer queo meu pai uma vez confessou ter-me vigiado a mim e à minha irmä ao longe da escola. Devo dizer que ele tê-lo dito à minha frente fez-me sentir täo revoltada que me senti estúpida por näo ter reagido. Mas entendo que ele se quisesse assegurar de que nós nos comportavamos... Näo o devia era ter dito à nossa frente! Devia ter ficado no segredo dos deuses! Mas pronto...
Contratar detectives... denota frialdade, distanciamento total dos filhos, falta de diálogo, etc. Säo pais que prezam mais o dinheiro, quase o afirmaria... No entanto devo dizer que em muitas famílias a confianca é täo cega dos pais nos filhos que mesmo que as crias tomem drogas à sua frente näo däo por nada!

Pergunto-me que sociedade virá por aí e como a chamada geracäo "rasca" veio à tona se näo tivesse os progenitores que teve... Eque tipo de filhos tem uma geracäo com essa nomenclatura... E a sociedade por estes organizada...

O Guardião disse...

A sociedade tal e qual teimamos em considerar igual à de alguns anos atrás, já não existe na maior parte dos casos.
Há papás que contratam detectives ou seguranças para levar os meninos e meninas às discotecas, e a outros locais. Estes mesmos papás (e mamãs), são os mesmos que mais força têm para exigir que as escolas e as creches estejam aberta até altas horas da noite, para terem tempo para o ginásio, e para as aulas de ténis.
Por outro lado temos os que não têm dinheiro para as tais escolas e creches, mas que têm que cumprir horários terríveis, muitas vezes acumulando mais do que um emprego.
Tudo mudou, mas as crianças e os jovens continuam a necessitar da presença e atenção dos pais...
Cumps

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Foi esse o tema de um dos meus posts dé sexta-feira. Não podia estar mais de acordo consigo.