Ainda nos mata, Dr. Medina Carreira!

Caro Dr. Medina Carreira, espero que releve não só a ousadia de lhe endereçar esta, mas também o tratamento dispensado. Escrevo motivado pelas palavras que dirigiu a quem o quis ouvir na entrevista que concedeu ao Mário Crespo.
O seu discurso, temperado com pessimismo e não com coentros ou salsa, também o partilho e, por aí, teria de me calar. E, contudo, não posso.
Porque o senhor tem uma projecção que não tenho, tem um nome na praça que jamais alcançarei e até dá entrevistas ao Mário Crespo, coisa que nunca fiz nem nunca terei o prazer de dar. E é aí que está o problema, sabe.

É que nós, os portugueses, precisamos de quem nos motive, de quem fale verdade mas, ao mesmo tempo, puxe por nós.
De que nos serve um discurso como o seu se não nos apresenta uma única ideia palpável e se prontifica a dar o corpo ao manifesto por ela?
Desconfia da utilidade do voto, disse-o nesta entrevista, e até apontou para um regime presidencialista dando o exemplo dos EUA mas, diga-me, ficaríamos melhor em quê?
Não confia no Estado, mas, ao mesmo tempo, dá exemplos que deviam fazer corar de vergonha! Penso nos Mexias das EDP’s e nos Farias das caixas gerais de depósitos … ou aqueles que por reunião no BCP embolsavam aos 90.000€!

Aponta-nos o dedo porque não produzimos que chegue. Mas sabe se nos dão com quê? E se nos sabem gerir?
Diz que nos falta a organização dos nórdicos e tem razão, mas também acho que nos faltam outras coisas.
Daquelas que motivam ao trabalho, como um sistema de Segurança Social justo e eficaz, que deixem de esbulhar em taxas e impostos os fracos do costume. Ou que o meu ministro das Finanças se bata tanto pelo IVA das pontes que o senhor tem aí ao pé, como pelo IVA dos desgraçados aqui do Vale do Ave, de Trás-os-Montes, do Alentejo … afinal, somos todos portugueses, acho eu.

Ao colocar as coisas no pé que as coloca, Dr. Medina Carreira, o senhor condena-nos.
Quem andar deprimido, ouvindo-o desfalece em lágrimas, bate na mulher, nos filhos, no amante, embebeda-se ou mata-se. Não pode ser.
O senhor, Dr. Medina Carreira, tem a obrigação de, na próxima que me aparecer na televisão, nos insuflar ânimo e confiança. Nem que para isso, minta um pouco!

22 comentarios:

salvoconduto disse...

Como arauto da desgraça, Medina Carreira faz o seu papel...

joshua disse...

O Diagnóstico serve-se cáustico. A sociedade em Portugal só sabe reagir in extremis. Há quem prefira arautos da fantasia e da ilusão a vozes de Cassandra.

pedro oliveira disse...

Ferreira-pinto até concordo consigo, mas de mentiras já está um gajo farto.

Ferreira-Pinto disse...

As questões, meu caro JOSHUA, não são rectilíneas nem simplistas como nos queres fazer crer de forma abundante e cristalina como por vezes escreves.

Aliás, na tua cruzada pessoal até consegues vislumbrar que apenas um, e esse tal, se sente bem abraçado, irmanado até, na companhia dum José Eduardo dos Santos, quando, eu, certamente um dos que aos teus olhos prefiro arautos de fantasia a Cassandra, vi que também outros se deliciaram com o camarada agora não tão camarada Zédu!

No mais, queiras ou não, uma Nação precisa de homens bons que lhe falem verdade mas que lhe apontem caminhos, falando-lhe ao coração.

Experimenta tu, em tua casa, passar a vida a apontar apenas e só os erros e os defeitos aos teus filhos ou a tua esposa e verás os resultados.

O homem, meu caro, também se alimenta por via do ego e, no nosso caso, também é necessário que nos mostrem vias, abram caminhos.

Não são estes feitos por titubeanntes arautos do liberalismo que, à primeira onda, se arvoram em defensores do intervencionismo; ou aqueles que outrora nos amassaram e esmagaram e agora choram lágrimas de crocodilo; ou ainda um outro que, deliciando-se em bolo rei, se mostra preocupado e triste mas não sai de cima, nem ...

Ferreira-Pinto disse...

Meu ilustre e caríssimo Pedro Oliveira, a resposta que dei ao Joshua penso que ilustra um pouco o que acha.

Homens como Medina Carreira têm um dever moral de não se quedarem apenas pelo diagnóstico. É que este, todos o sabemos, é terrível ao ponto de matar o doente e a família!

Eu preciso que um homem daqueles, e outros, nos digam também que indo por aqui ou acolá, conseguimos.
Se calhar peço muito, mas precisamos dum vendedor de sonhos!

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto

Permita-me discordar, o dr. Medina Carreira aponta um rumo, o que não explica é detalhadamente as consequências desse mesmo rumo, e tenho certeza que o povo português não estaria na disposição de segui-lo. Por exemplo quando afirma que o país vive 10% acima das possibilidades, o rumo seria reduzir os gastos, o que se traduz em niveis de conforto, casas, automóveis, plasmas, dvd's ou playstations, normalmente tudo pago a crédito (como tenho escrito, estava demasiado barato), estaremos dispostos a abdicar? Eu recordo os mais distraídos que antes da crise até existiu por aí uma associação do direito ao crédito, para pressionar a banca a facilitar aos poucos a quem o crédito não chegava, como se uma pessoa endividar-se fosse um factor positivo. Claro que tal imbecilidade foi remetida para o esquecimento. O sistema presidencialista americano tem uma clara vantagem, desde logo não termos dois órgãos de soberania numa espécie de híbrido, preferencialmente sem poder legislativo, que deveria ser um exclusivo da A.R., não tenha dúvidas que aumentaria a eficácia do executivo, a dignidade parlamentar, por falar nisso, o que me diz de mais de 240 substituições de deputados na presente legislatura? Isto num universo de 230, alguém saberá verdadeiramente quem o representa? Claro que não, isto é uma palhaçada política. Outro factor é a Justiça, foram reformados os CP e CPP, alguém acredita na Justiça? Em matéria de corrupção tivemos o Vale e Azevedo (apenas depois de sair do SLB), e agora o Oliveira e Costa, desde os anos 80, Fax Macau, UGT, até aos mais recentes Moderna ou UNI, alguém acredita que eram todos inocentes? A Justiça é mais uma palhaçada, o dr. Medina Carreira aponta as soluções, mas interessa ao Bloco central de interesses fazer algo para mudar? Claro que não, como bem diz, é tudo farinha do mesmo saco à procura do lugar, porque razão nunca foram criados os círculos uninominais? Não interessa que o deputado saia do rebanho. O nível da carga fiscal é pesadissimo, o Estado não quer aliviar nem tão pouco descentralizar competências, vivemos num tempo em que o chefe da repartição de finanças ou o responsável pelo centro de Saúde não acedem ao lugar pela carreira, mas pela cor do cartão partidário.

indomável disse...

Pois é, meu caro amigo,

tens a razão toda do teu lado ao falares de um idealista, um homem que venda sonhos para que nos erga aos pícaros da nossa nacionalidade.
Sabes, desculpa usar neste forum de boas ideias e liberdade o nome que vou mencionar, mas é o exemplo exacto do que quero ilustrar - Hitler soube usar a propaganda para reerguer a moral alemã após a primeira guerra mundial.
Era um vendedor de sonhos o senhor, era isso mais do que qualquer outra coisa e foi com os sonhos que transportava na bagageira que convenceu todo um povo que a sua era a raça superior.

O povo português sempre se moveu a sonhos, foi com eles que se fez ao mar desconhecido e povoado de monstros marinhos, foi com eles que sempre se fez à estrada por esse mundo fora e é de olho neles que ainda hoje emigramos e nos fazemos lá fora, quando percebemos o quão grandes podemos ser fora deste pequeno rectÂngulo.

É que, vês tu? Não há um português fora do país que não seja aclamado (à excepção do Vale e Azevedo, bem entendido!).
Pelo mundo somos conhecidos por algumas características - somos trabalhadores, honestos, acolhedores, bem humorados, desenrascados, organizados (e sim, isto é verdade!), geniais até!

Meu amigo, povo assim, merecia ser mais bem tratado dentro de casa, não achas?

O Guardião disse...

O homem foi duro e os portugueses preferem em geral a verdade embrulhada em pétalas de rosas e se possível com um lacinho. A verdade é dura, e não há como a amaciar.
Quem quiser de facto ganhar ânimo, ter uma lufada de esperança, então tem que começar de novo, afrontar os poderes instalados que nos conduziram ao ponto onde estamos e criar um país mais justo. Utopia, já ouvi, mas confessem lá que assim como vamos nunca sairemos da cepa torta...
Cumps

AP disse...

Não é preciso um vendedor de sonhos caro Ferreira-Pinto, basta que alguém como Medina Carreira faça o diagnóstico, como você disse, e aponte as soluções.
Que eu saiba quando vamos ao médico e algo nos é diagnosticado prontamente nos é prescrito uma receita.
Será que os economistas não sabem o significado da palavra MOTIVAÇÃO? Ao invés de reflectirem sobre teorias económicas, que eu assemelho a discutir o sexo dos anjos, seria bom que de vez em quando se sentassem a uma secretária e passeassem pelos escritórios de uma empresa, a gerir recursos humanos, materiais e de capital, ou seja que trabalhassem, para saberem o que é fazer pela economia! Isto de discutir o comportamento de um mercado é muito bonito quando nunca fizemos parte desse mercado, nunca demos o corpo ao manifesto numa empresa para saber como são as coisas na realidade. É quase o mesmo que discutir futebol sem nunca ter jogado à bola.
Por estas e por outras é que sempre preferi teóricos da Gestão a Economistas. Porque os primeiros dizem-me como fazer no dia-a-dia, os segundos limitam-se a ser profetas da desgraça e depois ainda vêm com tiques de "paternalismo" como Krugman a dizer que já há muito que avisaram! Ora bolas, avisar do mal sem dizer como o evitar de que serve?!

joshua disse...

Concordo em absoluto contigo. Mas deves reconhecer que a minha cruzada pessoal, a minha causa presente, passa muito pelo retroceder eleitoral da agremiação decadente do Centrão. O homem do Tabu e do Bolo-Rei atafulhando-lhe a boca tem-me parecido apenas mais decente, mas, como dizes e bem, é dos tais, pertence ao clube, conhece-lhes todos os vícios, tem poucos, mas não é incisivo nem ousado numa palavra mais clara e denunciatória. Mas, meu caríssimo amigo, sinceramente para mim e para Portugal isto é Um Medina e Dois Lexotan. Há por aí um empresariado que alardeia lucros e que precisava de vir e assumir funções executivas nacionais a fim de salvarem a sua galinha dos ovos de ouro, ovos de ouro evidentemente para si e só para si. Mas se a galinha morre, adeus lucros. Sei lá. Há aí um empresariado que saberia bem melhor o que fazer para nos corrigir o curso despesista.

Admite comigo que matar-nos-á mais depressa a alienação mentirista dos do costume, que aquele amaro escaqueirar com tudo de Medina. De resto, é como te digo: Um Medina. Dois Lexotan (ou lá como se escreve isto, que eu nunca tomei nem vi tomar).

Peter disse...

Apreciei o texto e li todos comentários que constituem um diagnóstico excelente do "trinta e um " em que estamos metidos.

Gostaria de apontar um aspecto, que não tenho visto debatido:
a proliferação de anúncios e de contactos telefónicos para nossas casas e até pelos telemóveis de "abutres" que se propõem emprestar-nos dinheiro, rapidamente e sem formalidades.

Qualquer pessoa em situação desesperada, acaba por "embarcar".

Ferreira-Pinto disse...

Meu caro António de Almeida era o que mais faltava que não pudesse discordar. Logo você, com quem muitas por vezes não concordo, que nunca o fez por mero “snobismo”, antes alicerçado em argumentos a ponderar.

Tem razão quando diz que provavelmente muitos não o quereriam seguir e eu até admito que o caminho fosse doloroso. Sê-lo-ia, de certeza absoluta.
O Dr. Medina Carreira, contrariamente a muitos, aponta o dedo a todos (o que é justo), mostra-se pessimista por todo e não pede que os sacrifícios caiam apenas sobre alguns!
Contudo, e como é uma vez recorrente no panorama televisivo, entendo que deve ir muito para além do diagnóstico. Porque ele, contrariamente a outros, não tem que gerir uma carreira, interesses ou uma imagem. E se a ele se juntassem outras vozes, podia ser que dessem azo a que a sociedade civil se movesse mesmo por razões de sobeja e não por motivos espúrios.

O que lhe de digo a mais de 240 substituições de deputados na presente legislatura, pergunta-me?
Desde logo que o número de deputados a que temos direito é excessivo.
Em segundo lugar que, salvo razões ligadas à renúncia do mandato ou nomeação para funções governativas, não devia ser admitida a substituição a ninguém.

Quanto ao presidencialismo, pela explicação que dá até pode ser mais que isso, em minha opinião, importaria acabar com a bicefalia do poder.

Ferreira-Pinto disse...

Caríssima INDOMÁVEL eu seu que tenho razão e isso é que me aborrece ainda mais.
Porque sei do que podemos ser capazes se quisermos, só que infelizmente não temos tido condutores à altura. Homens ou mulheres de visão rasgada, que tivessem sabido lançar logo depois da Grande Guerra, por exemplo, raízes para um Portugal moderno, de futuro.

Raio de sina esta que depois de um tiranete nos saem uns tecnocratas de pacotilha que, entre uns perdões fiscais e umas negociatas, saem do Governo para bancos e afins em prantos tais que até o chefe estava agoniado; e a estes sucedem uns homens de sorriso de plástico e fácil que ameaçam convencer e depois saem barrete de primeira apanha.

Se é para isto, então deixem-nos … em paz!
Porque, como dizes, todos merecemos que nos tratem com dignidade.
Bem, deixando de lado a hipocrisia social, quase todos!

Ferreira-Pinto disse...

Ora aí está, meu ilustre AP … MOTIVAÇÃO!
Eis uma das coisas de que o País necessita e que Medina Carreira não nos dá. Talvez por feitio, mas não dá.

E a ideia que aponta de meterem a mão na massa (não no sentido de massa = dinheiro e de o roubarem, pois que isso já há muito quem) até lhes ficava bem, não tivessem eles medo de se sujarem e de acharem que não são nenhuns borra botas para andarem pelos recantos da empresa a darem duas de troco a qualquer funcionário.

Ilustre JOSHUA bem sabes que te acompanho, apenas divergindo nalgumas paragens de caminho. E na distribuição generosa da bordoada!

No mais, já reparaste que estes tipos só nos pedem que trabalhemos ainda mais e que nos preparemos para ganhar menos? Depois das reformas, agora atacam ou anunciam ataque aos salários?
Quer dizer, a mim e a quem, como eu, vive do salário, podem surripiar o que quiserem em taxas, impostos e descidas reais de salário mas, e nota bem, onde andam esses mesmos filhos da Grande Meretriz da Babilónia quando os preços fazem o caminho inverso?

Ferreira-Pinto disse...

PETER a esses abutres há que os "abater"!
Claro está que também só cai no êngodo quem se deixa levar!

Guardião utopia ... e luta. Pois, o problema é que muitos também se deixaram levar pelo vazio da aparência e perderam os valore. E só quem os tem, luta!

Compadre Alentejano disse...

O Dr.Medina Carreira fala-nos de uma forma real e objectiva. Nada de cor de rosa, como muitos de nós gostam de ouvir.Muita realidade e pouca esperança.
Mas, vamos ter esperança com esta gente que nos (des)governa? Não tenhamos ilusões...
Compadre Alentejano

DANTE disse...

Ele já mente amigo Ferreira. Só não sabe é mentir.
Há quem não nasça para falar a uma nação...
'Organização dos nórdicos', essa estamos a desenvolver , para já temos apenas um adereço , o 'valente par de cornos político'.

Um abraço

Adoa disse...

Ferreira-Pinto!!!

Mas mentiras já nos dá o primeiríssimo!

Queres mais?

Eu acho é que todos nos conformamos com essa coisa de "nós näo podemos alterar as coisas, têm de nos ajudar"...

Enquanto os portugueses näo se ajudarem a si próprios, nunca se conseguirá mudar nada.

Imagina que os espanhóis ou os alemäes ficavam à espera que o estado ou alguém de fora os ajudasse.

Nós temos de o fazer por nós! E todos!

Daniel J Santos disse...

ou minta muito.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Já anteriormentetrocámos opiniões sobre esse senhor e estamos de acordo. Só queria avrescentar que não entendo a razão para lhe ser dado tanto tempo de antena pela comunicação social, mas enfim.Por mim enchi. Já não tenho pachorra para o ouvir.

Joaninha disse...

Isto agora falando depressa e bem (ou neste caso muito mal)

Meu carissimo Ferreira!

Do que nós (nós portugal, pais, sociedade e tal) estamos a precisar é de um verdadeiro pontapé nos ditos a ver se acordamos!

Claro que, se depois nos poderem dar uma ajudinha e indicar o melhor caminho para tirar o focinho da lama, agradecida, mas principalmente chega de treta, tá na horinha de acordar.


Beijos meu honroso chefe, da sua futura ministra (sim que eu não me esqueço ;)

manuel gouveia disse...

O exasperante Medina veio estragar a festa? Mauzinho...

Uma pena que não tenha deixado parte da sua sabedoria ao serviço do país quando passou pelo governo!