Aí está o dito país real

Confesso que nunca fui muito dada às políticas, apesar de lá por casa haver quem por ela nutrisse grande interesse e, curiosamente, em campos diametralmente opostos. Desde pequena que me habituei a ver o meu pai e irmão esgrimirem argumentos sobre as mais variadas questões.
Para mim, a política sempre foi um mundo de gente cínica, ambiciosa e, a maior parte das vezes, incompetente. Não ponho todos no mesmo saco, já que acredito que há gente de valor nos meandros politiqueiros, que deseja o melhor para o seu País, com ideiais, ideias e sonhos que nunca conseguem o que querem porque são afogadas pelas ondas de interesses pérfidos e jogos de ambição que os rodeiam.

Mas sempre existiu uma expressão usada por políticos e jornalistas que me deixava intrigada: "o país real". Mas, então, aqueles viviam onde, num mundo virtual? Sendo eles os representantes do povo não tinham que conhecer o mundo que os rodeia?!
À medida que os anos foram passando comecei a ter maior discernimento, maior capacidade de análise e, como tal, comecei a perceber que realmente os políticos não conhecem o país em que habitam. Mas continuava a achar que conheciam minimamente Portugal e os portugueses...

A semana passada, no entanto, percebi que estava completamente enganada!
Na SIC Notícias discutia-se a malfadada crise e as suas consequências. Diogo Feyo, deputado do PP, e Saldanha Sanches, fiscalista, comentavam o assunto, apontavam dedos acusadores, discutiam números. Eis senão quando, o primeiro dispara esta pérola: "Por exemplo, no distrito de Espinho, que foi o distrito onde decorreu o congresso PS, o desemprego é xis%".
Fiquei incrédula a olhar para o televisor, à espera de uma correcção que nunca chegou.
Diogo Feyo nem sequer teve noção do disparate que disse ao afirmar que Espinho é um distrito... Saberá ele, sequer, quantos distritos constituem o nosso país?! E das suas gentes, saberá ele alguma coisa?! Parece-me que não...
Assim como a maior parte dos deputados, ministros, autarcas...

Infelizmente, muitos dos nossos políticos não sabem que há quem viva e tenha de sustentar uma família com um salário mísero (e muitos desconhecem, até, qual o valor do mesmo); que há gente que vive sem as mínimas condições (como saneamento básico); que há quem viva nas ruas e se alimente do lixo dos outros...
Agora, sim, percebo do que falam quando falam do país real. Falam daquilo que não sabem, daquilo que não conhecem, daquilo que não fazem um mínimo esforço para conhecer...

11 comentarios:

pedro oliveira disse...

Uma boa razão para fazer a regionalização, são só 5,eheheheheh

Ferreira-Pinto disse...

Um mero lapso e estás aqui tu a zurzir em pessoas tão dedicadas, esforçadas e trabalhadoras?

Um exemplo de abnegação que, começando nas juntas, passando pelas câmaras municipais, e até pela Assembleia da República estão lá quase todos a perder dinheiro?

António de Almeida disse...

Julgo que Diogo Feyo terá cometido um lapso, por sinal até foi eleito pelo Porto, dificilmente desconhecerá que Espinho não pertence a Aveiro. Quanto a desconhecerem o país real, é um facto decorrente da pouca próximidade entre eleitos e eleitores, pese embora exista algum trabalho no terreno, mas a democracia representativa leva a que os deputados quando se deslocam ao terreno acabem por contactar sobretudo autarcas, entidades locais ou regionais, empresas emblemáticas. Os autarcas sim, por terem uma relação mais próxima conhecem melhor o terreno...

Carol disse...

Mania das exigências, não é, mano?!

Curiosamente, António, o senhor deputado repetiu várias vezes o erro e nunca, em momento algum, o corrigiu.

Ah, e o erro não seria dizer que Espinho pertence ao distrito de Aveiro, porque pertence mesmo. O erro é dizer que Espinho constitui um distrito...

Quanto ao facto de, numa democracia representativa, os deputados só contactarem com autarcas e afins parece-me que o problema não está na democracia representativa. Estará, isso sim, na falta de vontade que esses senhores têm em misturar-se com a plebe...

Carol disse...

Facilitava muito, não era, Pedro?! ;)

Compadre Alentejano disse...

Os políticos não conhecem a geografia do país, nem sequer as suas gentes.
Calcule-se que o sr.Sócrates disse desconhecer que havia estudantes a abandonar a Universidade, porque não têm dinheiro para as propinas!!!...
Os políticos, quanto eu sei, têm a cultura das Novas Oportunidades!
Não podemos exigir mais...
Compadre Alentejano

Carol disse...

Eu iria mais longe, Compadre: parece-me que há gente nas Novas Oportunidades que sabem mais do que os nossos políticos...

PreDatado disse...

Carol e a sociedade civil é aquela que vive no país real? e o país republicano ó que é? aliás eu acho até que a república é um espinho na garganta de muitos politicos. isto só lá vai com distritos e mais não comento.

O Guardião disse...

O divórcio dos políticos em relação aos cidadãos, ou ao país real como aqui se diz, é uma triste realidade, e é por isso que os partidos e a classe política merecem cada vez menos credibilidade.
Cumps

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Há poucos meses, num rápido inquérito junto dos deputados, ficou-se a saber que eles nem sequer sabiam qual era o salário mínimo. E os que arriscaram, pensavam que era superior ao real!

Peter disse...

Os lugares de deputados são a passagem para outros "tachos". Vi na imprensa que a maior parte dos eleitos já tinham transitado...