Será que queremos mesmo Democracia?

O que me traz hoje por cá?
Bom, pensei trazer um tema actual, que implicasse contestação, para ver se vos ponho a discutir comigo... ando com sede de reverberação, com fome de discussão acesa e esclarecida!
O que me levou de volta aos tempos clássicos de Atenas, onde primeiro surgiu esse tão difundido, debatido e amplamente aceite termo - DemoKratia.

Todos conhecemos o termo, muitos julgam conhecer o conceito por dentro e por fora e todos o defendem com unhas e dentes, como se dele dependesse a nossa liberdade e bem estar.
Mas então e se olhássemos de mais perto, não só o conceito, mas a forma como foi levado a cabo pelos Atenienses, shall we?

Pois bem, na sociedade ateniense, a demokratia respeitava ao poder nas mãos dos cidadãos - acontece que os cidadãos englobavam apenas os nacionais de Atenas, filhos de pai e mãe atenienses. De fora ficavam todos os outros, incluindo mulheres, estrangeiros e escravos.
Para além disso, existiam normas para se ser considerado cidadão, a saber:

  • Não dever nada ao Tesouro Público
  • Ser legitimamente casado
  • Possuir bens em Atenas
  • Ter cumprido os deveres para com seu pai e mãe
  • Ter feito expedições militares sem “arremessar o escudo”
  • Ser filho de pais atenienses
  • Trabalhar (ou na politica ou no comercio ou na construção) de Ágora
  • Gostar, amar e honrar Atenas
  • Pagar impostos altos.
  • Nunca ter cometido crime contra a cidade.
Ora bem, se repararem bem, neste tipo de Democracia, não é o cidadão que está acima da Nação, é esta que está acima de todos.
Lá teria razão John F. Kennedy com o seu "ask not what the Country can do for you, but what you can do for the country!"

Quantos de nós se pergunta o que realmente pode fazer pelo País? O que podemos dar ao País?
Quando o que mais se ouve nas nossas ruas é o Estado tem de me dar, tem de me sustentar...
Poderá ainda funcionar a democracia?

O conceito tal como o entendemos, requer direitos para os cidadãos e obrigações para o Estado, o que não estaria mal de todo, afinal abrange um equilibrio na balança, não fosse o caso de termos duas balanças presentes - a dos cidadãos e a do Estado, já que são partes distintas do que devia ser o mesmo corpo.
Temos então um corpo completamente desfeito, sangrando, com duas balanças de pesos diferentes, completamente desiquilibradas, onde alguns dão e muitos tiram.

Se o nosso País fosse o corpo de um de nós, onde reinasse o conceito de Democracia tal como o conhecemos, o nosso coração deixaria de funcionar assim que as plaquetas sanguíneas resolvessem fazer greve por excesso de trabalho e os glóbulos brancos se recusassem a trabalhar por excesso de toxinas!
Um conceito teórico é sempre bom nisso mesmo - na teoria - assim que é alargado, adaptado sem ser bem compreendido, normalizado r normativizado, passa a usar-se a sua forma sem se ter muito em conta o seu conteúdo.
É um pouco como o baptizar-se um filho ou casar-se pela Igreja sem se voltar a pisar o chão de uma igreja outra vez na vida, só porque é tradição, porque ficaria mal.
Temos uma concha cujo conteudo faleceu há séculos.

Será que defendo aqui, neste espaço democrático de partilha de opinião, o fim da democracia?
Não sei. Que tal trocarmos uma ideias sobre o assunto?

18 comentarios:

joshua disse...

Devias ter falado do conceito de Tirania na Antiga Grécia para me abrires o apetite de discorrer sobre a actual Democracia Invertida na ordem do contributo e do zelo de cada qual por ela em Portugal, como se não minasse tudo isto o oportunismo de um punhado silencioso de favorecidos.

Estigmatizas pedagogicamente o português dependentão de subsídios sob esta 'democracia'? Em trinta anos desmantelou-se intensivamente o Emprego em Portugal, sobretudo com a adesão e o fluxo de fundos comunitários directamente para os bolsos improdutivos de um empresariado cangaceiro e furtivo. Em quatro descobriu-se a pólvora: será o professorado a pagar os desmandos orçamentais das Clientelas do Centrão e é justamente um homem cujo percurso escolar e académico tem mais hiatos que o sorriso do Emplastro a servir-nos sadicamente a Reforma de Nome Mentiroso.

Não poderá haver sequer cidadãos sem solidariedade e sentido comunitário, quando lhes é roubada a dignidade, quando a injustiça grassa por todo o recanto e a loucura acabada é que os que melhor e mais extensivamente exploram os seus 'concidadãos' suponham que todos poderíamos ser empresários de sucesso e com cagança como eles, esses animais requintados!

Essa loucura fará sufocar a muitos nela inebriados: afoguem-se lá no seu vinho, no seu leite e no seu mel. Morram nesse egoísmo e nesse orgulho miserável conforme condenam uma maioria à maior das penúrias e à morte social mais suja.

AP disse...

O fim de qual democracia?
Da Portuguesa? Que eu saiba em Portugal nunca tivemos democracia.
Tivemos um regime totalitário substituído por uma partidocracia...

indomável disse...

JOSHUA! Que bom ler-te de novo!

Bem, comecemos então as hostilidades. Queiras ou não, sou obrigada a concordar contigo em muito do que dizes, sobretudo porque, apesar de com outras palavras, já tenho dito o mesmo.
Ataco sempre que posso o regime subsidio-dependente do país, sobretudo no que diz respeito à dependência do dinheiro europeu.
Comecei por criticar o facto de nunca em Portugal ter-se feito um planeamento dos subsidios europeus, por forma a realizar verdadeira riqueza.
Sou menina da Moita do Ribatejo, e o que vi sempre por lá, antes de me mudar de malas e bagagens para o sul do país, foi pastores de vacas de repente a montar brutos jeeps, sem saber sequer falar nem escrever (a minha dúvida sempre foi como terão tirado a carta?).
Não me interpretes mal, não era o facto de os senhores serem pastores e terem carros topo de gama à epoca que me fazia confusão, era o facto de o terem conseguido sem esforço algum!
Eu, que não via o meu pai uma hora seguida, por ele trabalhar noite e dia desde que me conhecia como gente. Eu, que acreditava seriamente que para se ter alguma coisa que merecesse lutar por ela, teria de existir esforço.
Eu, que na escola lutava sempre por ter as melhores notas e tinha um sonho maior do que eu de ter sucesso na vida, Às custas do meu esforço pessoal e profissional.
Eu, que passei a vida a ouvir os meus pais dizer, estuda, estuda que só assim conseguirás ser alguém!

Bem, escusado será dizer que os meus padrões não mudaram, continuo a pensar da mesma forma, há que haver esforço para conseguir alguma coisa que valha a pena.
Mas agora diz-me lá uma coisa, como é que eu consigo manter essa ideia na cabeça dos meus filhos, quando ao lado deles um colega só tira más notas e todos os meses tem algo novo para mostrar aos colegas?

Quando leccionei, foi um ano mas serviu-me de emenda para a vida toda. Adorei os meus alunos, a forma como os miudos absorvem tudo o que vêm, ouvem e lêm, como nos agradecem ao aprender e nos adoram quando gostamos deles também. Mas uma coisa devo confessar-te, do que menos gostei quando leccionei? Dos colegas, daqueles que estavam instalados na escola e no trabalho, os que tratavam os alunos todos da mesma forma como cordeiros, aqueles para quem leccionar era só algo que faziam até encontrar algo melhor e, desculpa, mas eram a maioria.
Ao leccionar ensinei aos meus alunos mais do que matéria, ensinei que quando se esforçam sabe melhor a vitória. Para terem boa nota comigo o esforço tinha de ser grande, apesar de lhes dar inumeras hipóteses de mo mostrar - já leccionei há 12 anos Josh, 12 anos. Tenho antigos alunos, adultos agora, que vêm ter comigo e abraçam-me como se eu tivesse marcado as suas vidas de alguma forma... Não consigo evitar uma lágrima sempre que estou com eles - tenho saudades!

Os professores deviam ser das classes profissionais mais acarinhadas, mas para isso também acho que devem ser das contratações mais bem executadas, os critérios de escolha devem ser muito bem definidos.

Mas agora para ir de encontro aos teus pensamentos, não acho que este governo saiba fazer isso.
PAra o fazer, os membros de um governo teriam de ser igualmente muito bem escolhidos, com critérios definidos pelo povo como um todo, tendo em conta o bem geral e não apenas de alguns,poucos.

indomável disse...

Meu caro AP,

é verdade, não posso deixar de concordar com isso que escreve. Mas acontece que as pessoas que nos governam há coisa de trinta anos, e os que lhes querem seguir-se, pensam sempre que a alternativa não se adequa ao nosso povo, porque para existir Demokratia em Portugal, teríamos que ser um povo participativo, interessado, preocupado e politicamente e socialmente activo...

Agora pergunto eu, não seria já altura de mostrarmos a esses senhores e seus clientes que como povo já estamos fartos que nos tomem por parvos?

indomável disse...

Querido Joshua,

não resisto a escrever-te mais uma coisa. Sei que em determinado momento da nossa história bloguista, terás ficado com a impressão de que sou uma tia pedantolas que tem a vida facilitada e olha de cima para os outros, julgando-os de barriga cheia...

Mas digo-te agora isto - muitas vezes faço uma auto-avaliação. Por vezes concordo que estou a começar a julgar os outros e acabo por rir-me das minhas próprias deficiências.
Já passei por algumas dificuldades nesta vida, por choques que me deixaram quebrada e o desespero quase me levou a desistir da vida, momento de fraqueza que depressa foi colocado para trás - gosto demasiado da vida, por simples que seja!

Já trabalhei para o Estado por duas vezes - fui professora e trabalhei na Segurança social. Em ambas não tive direito a nada quando acabou o meu tempo e na Segurança social fui mandada embora por estar mais do que um mês em licença de maternidade!
Por fim, após ter andado um ano em busca de emprego, sem direito a subsidio de desemprego, porque o Estado sabe fazer melhor que os privados as coisas e não tive direito a nada, como já te tinha dito, andei em bolandas entre procuras.
O IEFP chamou-me para inúmeras entrevistas, mas acontece que nas ditas, os possíveis empregadores diziam-me que queriam era pessoal com o 12º e mesmo esses já sabiam demasiado.
Fiquei chocada nesse ano. Destruida mesmo.
Finalmente o meu marido fartou-se de me ver assim e, falando com o pai, decidiram que eu viria trabalhar na micro-empresa deles, até encontrar outra coisa "melhor".
Aqui fui tratada sempre como qualquer outro funcionário e aqui introduzi o que de melhor sei fazer e isso não é dizer pouco.
Escusado será dizer que o meu marido já não quis que eu saísse, mas o meu sogro sente-se ameaçado por mim e favorece sempre a minha colega que não sabe sequer trabalhar no computador.
Foi por causa dessa preferência e de constantes humilhações que aquele meu momento de fraqueza se deu, porque ninguém gosta de ser humilhada e ninguém gosta de trabalhar sem lhe ser dado o devido valor!

Não quero que sintas pena de mim, porque tenho força suficiente para ultrapassar o que quer que seja, já o fiz antes. Alem do mais, sou venenosa o suficiente para virar a mesa a meu favor.
MAs quero que compreendas que nem sempre o que parece é!

Eu também sei o que é estar desempregado, meu amigo.
Sei o que é contar os tostões e não chegar ao fim.
Sei o que é os nossos filhos olharem para nós com o mundo inteiro nos olhos e nós pensarmos que talvez o mundo todo não chegue.

O que eu não sei é avaliar os outros pelo que eu senti e passei. Não sei fazê-lo, perdoa-me!
Não sei pelo que estarás a passar. Não sei avaliar a tua dor. Não sei se os professores que foram admitidos serão melhores do que tu.
De uma coisa tenho a certeza, muitos deles não mereciam estar a leccionar e a destruir as imaginações e criatividade dos nossos filhos! Desculpa, mas é o que penso.

Para além do mais, podes crer que acuso todos aqueles que pedinchões se deixam ficar sentados no café à espera do próximo quadro de apoio, do dinheirinho que há-de chegar da Europa, como se a Europa fosse um corpo estranho onde vamos apenas mamar para sobreviver.
Podes acreditar que muitas vezes tenho vergonha de dizer que sou portuguesa, e dizerem-me jocosamente que os portugueses são os vitelos da vaca Europa.

Actualmente preparo-me para agarrar numa empresa que passa por dificuldades económicas, fruto da crise e de uma gestão cega que andou durante anos a descurar o mundo à sua volta.
Se perguntares aos funcionários que comigo laboram, todos te dirão, na minha frente ou não, que sou sobretudo justa, posso ser muitas vezes franca demais, mas sou justa e não procuro prejudicar ninguém. (que é mais do que posso dizer da minha colega... mas enfim...)

Talvez até tenhas razão, devo estar a ficar uma pedantolas. Os meus critérios alteraram-se.
Vejo agora o outro lado e digo-te uma coisa - não gosto nada do que vejo, acredita!

mac disse...

Acabei de ler um livro que retrata o papel dos EUA no 25 de Abril, e uma caracterização que os americanos faziam dos portugueses, é que nós éramos um povo desinteressado e passivo anível político e cívico.
Não terá este desinteresse a ver com tantos anos de ditadura, sempre habituados que o Estado tome as suas decisões por nós? Nós gostamos muito que o paizinho tome as decisões por nós, assim não teremos de nos responsabilizar por nada.
E não terá este desinteresse a ver com a política suja, de compadrios e de contornos pouco claros a que se assiste?

indomável disse...

Caro mac,

ora aqui está um debate esclarecido em que vou adorar tomar parte...
Segundo tenho lido, e não tem sido pouco, Portugal anda há séculos, sensivelmente desde o século XVI, a ser governado por estrangeiros ou por ideias estrangeiras.
Senão vejamos, primeiro foram os Filipes, depois foi Napoleão a breve trecho, depois Beresford com as suas ideias britânicas, enquanto a nossa monarquia governava o Brasil, depois foi um constitucionalismo copiado do britânico, depois foi uma República copiada a papel químico de outras que nada tinham a ver com o nosso povo e as nossas ideias...
Quem que ouvir político português esclarecido, é ouvi-lo falar do que se faz na Islândia, na Suécia, na Inglaterra, França, Áustria e outros que tais...
Não há, há séculos, uma ideia original de um político português, uma ideia que se enquadre a nós como sociedade e assim, como pedir aos cidadãos que se interessem?
É claro que a sociedade como um todo está dissociada da nossa política, a nossa política demitiu-se do seu povo!

Fomos a primeira nação da Europa e isto não é coisa fácil de conseguir. MAs desde então não houve mais ninguém a não ser, desculpem-me que escreva isto e eu mesmo me vou flagelar depois, a não ser Salazar, que tenha compreendido o nosso povo tal como ele é!

Por isso, agora teremos de começar do zero, teremos de mostrar que queremos uma política nova, pensada em nós, por nós e para nós.
...mas para isso... teremos de saber o que é isso que queremos!

Ferreira-Pinto disse...

Convinha que se começasse por elucidar que sendo as berças do nosso conceito de Democracia atenienses, não menos verdade é que parte dos seus ramos assentam no ideário da Revolução Francesa esse evento sangrento que, pela força da guilhotina e ao som de “A Marselhesa”, escancarou portas à Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Tríptico certamente louvável mas que ainda hoje, na maior parte dos casos, anda pelas ruas da amargura.
Com a introdução do conceito de representatividade alargada e universal, surgiram os órgãos colegiais onde supostamente teriam assento as elites (fossem políticas, económicas, sociais, por exemplo) mas nem os mais de mil anos de experiência parlamentar adquirida através do Althing permitem que todo o conceito de Democracia tenha encontrado pleno eco e realização na realidade!
O início da discussão, vamos ver se há discussão, regista uma série de requisitos para se poder ser cidadão e, consequentemente, beneficiar e colher os frutos da democracia.
É certo que, ao caso, era o bem colectivo que se sobrepunha ao bem individual, mas isso também em Esparta assim era. A verdade, de verdade mesmo, é que Atenas era um arremedo de Democracia e não o espelho da Democracia tal como hoje a concebemos.
Assinalo, contudo, que algumas das virtudes elencadas pela INDOMÁVEL mais do que princípios da democracia ateniense, devem ser vistos como princípios inerentes à condição de cidadãos, logo princípios de Direito Natural.
Ora, sendo esses princípios de Direito Natural, deveriam ser inerentes a todo e qualquer comportamento e postura enquanto cidadãos.
Mas não são.
Porquê?

Porque temos de considerar depois a crise de valores e até civilizacional que, por exemplo, o Ocidente atravessa e que, na minha perspectiva, a não suceder uma ruptura absoluta, nos conduzirá fatalmente a um enorme ciclo de declínio e de perda dum papel de liderança civilizacional.
Não é possível manter este estado de coisas por muito mais tempo. E note-se que nem falo da crise, a tal crise que a todos preocupa mas que se circunscreve ao económico.

A INDOMÁVEL lança uma série de perguntas e de acusações, acrescentando eu outras (talvez mais politicamente incorrectas e perturbadoras): quantos de nós estariam ou estão na disposição de pegar em armas para combater por um ideal, pela defesa do seu País tal como sucedeu, por exemplo, na II Guerra Mundial?; quantos de nós estariam e estão disponíveis para baixar os seus rendimentos em prol da manutenção do posto de trabalho e do bem comum?; quantos de nós, sabendo da vigarice que um vizinho comete ante a Segurança Social, por exemplo, ou o Fisco, a denuncia? …

Ora, aqui estará, porventura, um bom tópico de análise.
Quantos são verdadeiramente os portugueses que estão disponíveis para exercer a cidadania na sua plena acepção?
Quando digo isso reporto-me a exemplos comezinhos e mesquinhos como instigar o vizinho do lado a não deixar o lixo do lado pousado no chão junto ao ecoponto e ainda a exigir à Câmara Municipal ou aos serviços concessionados que façam a recolha, que é principescamente paga, a tempo e horas?
Quantos já se perguntaram porque devemos ser dos poucos países da Europa onde um peão que acaba de atravessar numa passadeira ergue a mão para agradecer ao automobilista?

É, contudo, e obviamente, mais fácil, mais cómodo alijar e atirar para cima dum Estado (ainda por cima uma entidade assim abstracta) toda a responsabilidade.
Pegue-se, por exemplo, no caso já aqui profusamente debatido do professorado. Por aqui já se constatou que existem duas posições … uma que se bate empedernida contra os actuais responsáveis do Ministério (mas não contra o Ministério) por causa dum modelo esdrúxulo de avaliação; a outra trazendo novas questões para cima da mesa e que não podem ser esquecidas.
Insisto: durante longos anos especialistas, resmas deles, impingiram-nos uma versão pretensamente moderna, neo-futurista e de progressão geométrica dum modelo de ensino e de pedagogia onde aos discentes nada se podia exigir, ou quase, e aos docentes muito se tinha de dar sem poder pedir nada em troca.
Falemos claramente, sim?
A avaliação tal como proposta não presta? De acordo.
A exigência na contratação devia ser maior? De acordo.
A guerra surgiu nos moldes em que surgiu não pela escola pública, antes porque se quer impedir, não por questões de mérito, antes corporativas e economicistas, a chegada garantida e automática de todos ao topo da carreira? É verdade.

Se não existissem os Pedreiras que directamente do mundo sindical foram para o governativo, se não existissem os Nogueiras que durante décadas se mantém num sindicato sem porem os pés numa sala de aulas, se não existissem nas escolas os ditadores de pacotilha que apanhando-se num Conselho Executivo fazem tábua rasa da dita escola pública e democrática com que enchem a boca, se não existissem nas escolas os que distinguem bem entre colegas e contratados, se não existissem nas escolas alimárias e luminárias misturadas com óptimos, excelentes profissionais, se os meninos e as meninas sentissem que a escola é um local de aprendizagem e de exigência, se os políticos apostassem em escolas decentes com condições de excelência, nada disto existiria!

Quanto ao regime dos subsídio-dependentes, não é isso, afinal, aquilo que somos como Nação, como País até?
Critica-se quem recebe o Rendimento Social de Inserção e não faz a ponta dum corno para sair dessa situação, mas não se pode criticar o chico-esperto que embolsou generosas maquias através de candidaturas manhosas? Alguém faz bem ideia de quanto gasta o País em técnicos, assistentes, consultores e afins que movimentam toda a máquina do Rendimento Social de Inserção?
Mas desses parasitas não se pode falar.
O mesmo se diga para os dirigentes profissionalizados das Instituições Particulares de Solidariedade Social que se eternizam nos cargos, que recebem chorudos vencimentos, têm acordos de cooperação com números de utentes largamente superiores aos que realmente têm, apresentam pedidos de subsídios inflacionados!
Querem mais?
Quantos cavalheiros vivem à custa dos estudos, da consultoria, das campanhas de imagem e dos pareceres que por esse País fora autarquias, instituições públicas e afins pedem?
E a estupidez de até nos Fundos Comunitários, nas suas mais diversas vertentes, se prever como obrigatório que parte das verbas têm de ser gastas em divulgação, sendo esta traduzida em esferográficas, pastas, desdobráveis, pens, guarda-chuvas e afins …

E, mantendo-me na linha, é por isso que acho imensa graça àqueles que enchem a boca com o Cavaco Silva. Ele que, enquanto Primeiro-Ministro, teve um ministro das Obras Públicas que permitiu “cagadas” como o IP5 e o IP4, por exemplo. Ou a vergonha da Linha do Norte que anda há décadas em obras!
Ou os PEDIPS e as OID que deram em quê? Ou as famosas campanhas do então ICEP de internacionalização disto e daquilo e hoje, volvidos 20 anos, ainda não internacionalizamos coisa nenhuma!
Ou as escolas que se construíram e que têm as condições que têm; ou os tribunais que depois caem aos bocados mas que é sempre mais fácil dizer que a culpa é do PS!

É evidente que o PS também tem as suas fartas culpas no cartório, sendo que esta geração de Varas e Sócrates, mancomunados com as Edites e os Alegres que nem f … nem saem de cima (e sempre assim foram, mas agora recolhem muitos aplausos porque fazem umas diatribes) não auspiciam nada de bom.

Mas, já agora, de onde é que algumas pessoas acham que eles saíram?
De Marte, não?
As Margaridas Moreiras deste mundo e deste país existem por aí ao pontapé e se é tão condenável o espírito de bufaria que ela cultiva, falemos claro e digamos alto e bom que um cavalheiro como o Charrua que nas horas de serviço, fazendo cera, se permite chamar filho da puta ao Primeiro-Ministro também não é gado que se aconselhe!
É um pouco como o Rodrigues dos Santos que há uns três anos, coitadinho era um perseguido, um mártir da liberdade e da democracia e lá continua impávido e sereno na RTP. Naquela em que ele, o impoluto, dizia que havia pressões e controlo de informação!

No fundo, no fundo o que queremos é o bem bom e que ninguém nos toque nas mordomias. Mais nada.
E nisso, meus caros, os políticos são exímios.
Mas há muitos mais que o são.

António de Almeida disse...

A DemoKratia ateniense representou um avanço civilizacional comparada com todas as formas de governo experimentadas à época. Os estados subrepunham-se aos cidadãos, que não eram totalmente livres. Hoje acredito na Democracia, mas não exactamente a que vivemos em Portugal, acredito mais no Homem do que no Estado, e vivemos demasiadamente oprimidos com impostos excessivos que nos cortam o empreendedorismo, e muito expectantes do que o Estado pode fazer por nós, quando não deveria fazer praticamente nada. O melhor resumo da Democracia foi descrito por Tocqueville, igualdade de oportunidades entre os cidadãos em total liberdade, sem a intromissão do Estado.

indomável disse...

Ora aqui estás tu meu caro Ferreira-Pinto e faltavas mesmo para a discussão.

Pois é, eu sabia que tu trarias mais luz à questão, pela tua condição de jurista, pelo conhecimento que tens po dentro do sistema político e municipal, por toda a sabedoria que trazes a uma discussão que se quer iluminada!

As farpas que fui lançando, serviriam, pensava eu, para acordar espiritos mais desatentos.
Escrito assim, de sopete, perguntar claramente se queremos a democracia? Estarei eu louca?

A meu ver, nos dias de hoje, as pessoas preocupam-se mais com a concha do que com o conteúdo. Poucos saberão exactamente o que implica a democracia, qual a sua história e quais as condições para a colocar em prática.
Poucos sabem hoje, o que implica ser-se cidadão, e se perguntares a um aluno da maravilhosa escola que temos, o que é a cidadania, o que é a democracia, quais as suas bases e quais as melhorias que poderiamos implementar, é ouvir um arrazoado de bués e fixes pouco esclarecidos, que me fazem doer o coração.

Há as excelentes excepções a esta infeliz regra, mas já são tão raras, que em poucos anos prevejo um retroceder à idade da pedra, ou pior...
O que a maioria não se dá conta, é que esta ignorância consentida nos deixa vulneráveis, nos infantiliza e nos coloca à disposição dos interesses dessas elites que acusamos de corrupção e avareza...

Quando ouço um avô dizer que quer é que o neto seja bom jogador de futebol, que os estudos nao interessam para nada porque os doutores estão todos desempregados e os jogadores é que ganham bem, apetece-me bater naquele avô, mas afinal só lhe digo que espero que o neto dele seja tão bom como o Cristiano e tenha a mesma sorte que ele, porque senão acabará os dias a viver do RSI, ou pior, a pedir esmola à porta dos restaurantes...
A miséria não está na falta do dinheiro, ela reside nas cabeças dos que preferem ser pouco esclarecidos!
Sempre ouvi dizer ao meu pai, Homem honesto para além do possível e incomensuravelmente trabalhador, que a ignorância é o nosso pior inimigo!
Não consigo evitar de concordar com ele em todas as etapas da minha vida, cada vez mais e sempre!

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto

É certo que, ao caso, era o bem colectivo que se sobrepunha ao bem individual, mas isso também em Esparta assim era.

-Embora fã incondicional de Leónidas, considero Esparta a mais perfeita máquina militar existente até às legiões de César, a verdade é que para Esparta apenas interessava o bem da cidade. O desprezo pela liberdade era absoluto. Quanto à revolução francesa, passados que foram os excessos da turba quando a estupidez reinou, (em St Germain existe uma igreja ornamentada com bustos de reis, na época decapitaram-nos, julgando tratar-se dos reis de França, quando perceberam que afinal eram os reis bíblicos, restauraram-nos, isto é apenas um exemplo), os seus valores a par da revolução americana influenciaram as nossas vidas até ao momento presente.
-Na diagnóstico que apresenta do país estou no essencial de acordo consigo, não estarei depois no caminho a seguir, por mim reduziria o Estado ao mínimo, terminando com o parasitismo instalado. Entendo que a igualdade que uma sociedade deve permitir aos cidadãos, é a igualdade de oportunidades, a partir daí cada um que obtenha os resultados que conseguir, excepto uma componente de solidariedade (se quiser chame-lhe fraternidade) que deve existir para com deficientes, acidentados, ou doentes (algumas doenças), não faz qualquer sentido redistribuir riqueza.

indomável disse...

Ó António de Almeida,

e que bom seria se Tocquevile tivesse ensinado como fazer isso no mundo real, não?

Li recentemente um texto de intervenção de Pessoa, em que ele analisa o estado da sociedade portuguesa. Dizia então esse nobre pensador, que Portugal olha para as experiências estrangeiras e tenta adoptá-las sem se preocupar em as adaptar ao nosso povo, à nossa realidade. Queremos simplesmente fazer igual.
Ora, como se pode transpôr uma revolução francesa para um país onde as revoluções se fazem com cravos nas espingardas, sem se derramar uma gota de sangue?
Em França a revolução foi sangrenta e destruiu-se antes de se reconstruir.
Em Portugal, por vontade do povo, Salazar nunca teria caído da cadeira e teria vivido para sempre.
Então como fazer? Manter-nos eternamente neste rame-rame do mesmo sempre igual, como diz o nosso Primeiro?
Não, não pode ser...
Teremos de juntar as nossas vozes, as nossas vontades e exigir que tudo seja mudado, mas com planeamento, sem propaganda fácil e bajuladora.
É o povo que tem de se sublevar, não são as ideias alheias que nos transformam...

Estarei assim tão errada?

Ferreira-Pinto disse...

As farpas, minha cara, hoje em dia de nada servem.
Aliás, estou sumamente convencido que mais de metade das aventesmas que se julgam iluminadas, nem as do Ramalho Ortigão conhecem quanto mais …

Sabes, tal como dizia e cantava o Jim Morrison, “people are strange”, as pessoas são estranhas e, nestes domínios, todas se julgam arautos de uma nova verdade, sacerdotes ou vestais dessa verdade a qual há-de ser absoluta.

No fundo, o debate que tanto procuras e que eu também queria neste espaço vive sufocado e é asfixiado a partir do momento em que ousas questionar o rebanho!
É por isso que a tua pergunta “queremos a democracia?” não vai colher grandes respostas.
É que todos a querem, embora todos a queiram à sua maneira.
Repara só.
Uns gostariam de erradicar do mapa a Maria de Lurdes Rodrigues e assim se resolvia duma penada só todos os males da Educação; outros ainda, lutam e proclamam que devíamos deixar o Estado com um papel profundamente residual e virtual deixando tudo entregue nas mãos de pretensas elites, ao caso as económicas que, libertas da tutela asfixiante do Estado, nos iriam conduzir ao Paraíso; outros ainda aspiram e desejam um mundo onde o seu querido PSD ou o seu amado PS se eternizassem no Poder; finalmente, alguns não querem coisa nenhuma de especial, pois não conseguem gerar uma ideia de jeito que seja.

Democracia? Cidadania? Participação cívica?
Queres ver?

Dão-se guerras surdas e profundas no seio das sedes partidárias para se ser delegado a um Congresso, a uma mesa eleitor porque isso, na hierarquia dos valores internos mostra que estamos mais próximos de quem manda, que somos importantes!
Quando chega a hora de nomear os membros das assembleias de voto o primeiro pensamento é o controlo da Mesa e o segundo a senha de presença mais o dia seguinte sem trabalhar!
Na Freguesia, em ambos os seus órgãos encontras indivíduos que o querem são as senhas de presença e aquela remuneração certa a que os vogais têm direito por força do exercício das funções de secretário e tesoureiro, por exemplo. Agora pedir-lhes que façam atendimento, que acompanhem uma obra, que vejam as valetas e por aí … está quieta!
No Município, na assembleia municipal quanto mais sessões, reuniões e comissões melhor. Nas câmaras municipais a muitos o que importa é o telemóvel de serviço, o portátil alegadamente de serviço, os jantares e almoços de trabalho, a assessoria esconsa, a nomeação para um cargo qualquer, o emprego para a família inteira (conheço alguns casos assim) …

Com massa desta, não se vai longe não senhor!
Mas são muitos destes que rangem os dentes contra os grandes.
Não porque os mesmos “mamem” proporcionalmente mais, antes porque não conseguem lá chegar.
Mais de metade dos portugueses que hoje dizem mal do Governo, transformar-se-iam nos maiores e mais acérrimos dos seus defensores se lhes dessem uma secretária, poder de com uma assinatura decidir alguma coisa e “cacau” certo ao fim do mês!
A inveja é mãe de muita coisa.
E a ignorância igualmente.

Daí que continue a pensar que o maior erro deste país foi nunca ter apostado a sério na Educação.
Numa Educação de rigor, de exigência e de esmero.
Esmero de instalações, por exemplo.
De exigência ante discentes e docentes.
De rigor no aproveitamento de recursos, na avaliação e de não contemplação com as negociatas que por aí se fazem.
Só um povo profundamente letrado e instruído pode ser exigente consigo mesmo, com os outros e capaz de alavancar o progresso do país.

Por isso, tens muita razão no que dizes e escreves, e talvez por isso muitos optem por ignorar o que dizes.
É que é sempre mais fácil dizer que portugueses são os outros, não nós!

Ferreira-Pinto disse...

Caro António de Almeida quando chamei à colação Esparta era precisamente nesse sentido do bem da cidade.
Teremos de admitir que, partindo de concepções diametralmente opostas, no fundo em Atenas e em Esparta sempre se visou acima de tudo o bem da Cidade-Estado, do colectivo.
Note-se e veja-se que a provar esta tese temos o sucedido a Sócrates, o filósofo a quem as elites dominantes imputaram o perigoso risco de insuflar a desordem e a anomia no seio da sociedade.

É certo que aos atenienses eram dadas garantias e liberdades de que os espartanos não gozavam.

Quanto à Revolução Francesa, e como diz, que se aprenda com os erros e se colham os benefícios. Afinal, todas as revoluções são o resultado de ambos.
Até a nossa Revolução dos Cravos deu no que deu nalguns aspectos, mas nem por isso deve ser desconsiderada.

No receituário eu estarei perfeitamente de acordo consigo no dia em que a ética for um imperativo.
A visão que defende, nos dias que correm e com o amoralismo que campeia no seio da sociedade, não traria certamente mais que uma segunda revolução industrial às sociedades.
Daí que, quando eu defendo um Estado relativamente forte, não é para andar a tirar a ricos para dar a pobres, é para ser justo, recto, praticar a equidade e aplicar a justiça distributiva e comutativa.
Para que isso suceda precisamos de quê?

Dum povo instruído, exigente consigo e com os outros.
Dum Estado forte e rigoroso na aplicação da Justiça e na aposta em políticas de prevenção e dissuasão e não de punição.
Duma iniciativa privada que queira mesmo colher os riscos e os benefícios da sua actividade e não, como se vê, que em tempos de prosperidade quer o Estado longe e em tempos de crise … colo!
De trabalhadores moldados em aço, mas que vejam a sua produtividade e a sua participação firmemente reconhecidas.

É complexo?
É. E muito.
Será possível?
Não creio.

António de Almeida disse...

Para além da educação, considero que se deveria apostar fortemente na Justiça. Quando falam em ética, respondo com uma Justiça célere e eficaz. Aposto o que quiserem, que Madoff estará com o julgamento terminado, antes sequer de Oliveira e Costa ser pronunciado. A partir daí, Justiça? que Justiça? Claro que a educação deveria ser uma prioridade, não no sentido de proporcionar condições a todos, que basicamente já existem, essa foi uma aposta ganha da Democracia, mas introduzir uma cultura de mérito e exigência. Com a redução do peso do Estado viria também a reforma do sistema político, acredito que tal seja possível? Dificilmente o será nas próximas décadas...

Ferreira-Pinto disse...

António de Almeida, meu caro, é evidente que se carece de uma Justiça célere e eficaz, especialmente com os poderosos.

Vai-me desculpar, mas se o têmpero da Justiça é essencial não menos o é o da Ética.
Sabe porquê? Porque nem tudo o que é correcto aos olhos da Lei o é aos olhos da Moral!

Peter disse...

“A década de 1990 assistiu à propagação de um vírus global: a democracia. O desmembramento da União Soviética libertou o “bichinho da liberdade” e, no espaço de uma década, o número de países democráticos em todo o mundo aumentou de 69 para 118. Milhões de pessoas, que durante décadas tinham sido inoculadas contra a democracia, celebraram enquanto as defesas desses países falhavam e ruíam. (…) À medida que a democracia se propagava, o mesmo acontecia com a escravatura. No fim da década, estimava-se que 27 milhões de pessoas tivessem sido escravizadas em inúmeros países, incluindo em alguns da Europa ocidental. Já em 1990, escravas sexuais eslavas do antigo Bloco Soviético começaram a inundar os mercados ocidentais. (…) No entanto, o novo tráfico sexual era apenas a ponta do icebergue. A globalização permitiu a exploração do trabalho escravo a um nível industrial, atingindo uma intensidade nunca antes vista, nem mesmo durante o comércio transatlântico de escravos.”

(Loretta Napoleoni, “O lado obscuro da economia”, Editorial Presença, Janeiro 2009)

pedro oliveira disse...

Chamar democracia ao regime em que vivemos é um pouco exagerado.Nem sei bem ao que chamar a este regime, mas democracia não será amelhor defiição.