Que seja feita a minha vontade!

A morte de Eluana Engaro, uma mulher de 37 anos em coma desde os seus 20 anos de idade, dividiu a sociedade italiana e relançou a polémica sobre a eutanásia.
Quem me acompanha neste blogue, desde o post de estreia que sabe que sou absolutamente a favor da eutanásia. Hoje, no entanto, não venho explicar os meus motivos, nem apresentar argumentos favoráveis à mesma.

A vida tem-me ensinado que há valores, princípios, ideias que estão de tal forma arreigadas no nosso ser que não há nada nem ninguém que os faça mudar. Nada do que eu aqui escreva fará com que aqueles que se opõem manifestamente à eutanásia mudem de opinião. O mesmo se passa relativamente ao aborto ou ao casamento de duas pessoas do mesmo sexo.

No entanto, assim como eu não posso impor as minhas ideias a quem me rodeia, não posso permitir que quem me rodeia faça prevalecer as suas ideias e desejos sobre mim. Daí que, hoje, como no dia da minha estreia como escriba do Notas, venha aqui defender o reconhecimento legal do chamado testamento vital que consiste num documento onde são dadas instruções sobre os tratamentos que a pessoa aceita ou recusa receber no fim da sua vida, caso esteja incapacitada de exprimir a sua vontade.

Assim, a partir do momento em que essa possibilidade existisse legalmente, eu poderia definir a forma como gostaria de morrer e, como tal, poderia fazê-lo com a dignidade que considero essencial. Para além disso, isso faria com que ninguém, um dia, tivesse ou pudesse tomar qualquer decisão sobre o prolongamento artificial da minha vida.

Em Portugal, já é possível definir que não se pretende que os nossos órgãos sejam recolhidos para transplante através do Registo Nacional de Não Dadores. Expliquem-me porque razão não poderei eu e outras pessoas que partilham da minha opinião, decidir a forma como vou morrer?!

Rui Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Bioética (APB), defende que a sociedade portuguesa ainda não está preparada para debater a questão da eutanásia, mas acredita que , até ao Verão, o testamento vital poderá estar legalizado.
Não sei se será bem assim mas, se isso acontecer, serei certamente das primeiras pessoas a fazê-lo. E, se isso acontecer, ao menos na morte saberei que a minha vontade será feita.

10 comentarios:

salvoconduto disse...

Eu seria certamente o segundo.

AP disse...

O problema é que para se fazer a vontade de uma pessoa que deseje morrer, alguém tem que o fazer. E essa é uma decisão deveras difícil.

pedro oliveira disse...

Temos esse direito.

Carol disse...

Na verdade, AP, penso que essa decisão, por muito difícil que seja, terá de ser respeitada. E há sempre alguém que nos ama o suficiente para o fazer porque amar é querer que o outro seja feliz, mesmo que isso signifique a nossa tristeza.
Esta é uma questão que já discuti com os meus pais e com o meu namorado. Eles respeitarão a minha vontade, mesmo que mais ninguém o queira fazer.E, convenhamos, há muita gente disposta a fazê-lo. Como dizia no meu post de estreia, 40% do corpo médico oncológico nacional defende a eutanásia.

korrosiva disse...

Acho que é o mínimo que se pode conceder a qualquer animal (racional ou não) morrer com dignidade!!

António de Almeida disse...

Não sendo contra o testamento vital, tenho algumas reservas, ou dúvidas se preferirem.
-Quando o mesmo é elaborado, todos pensamos num determinado cenário, por vezes poderá não ser exactamente esse o quadro, e algumas pessoas agarram-se à vida no leito de morte. Coloco ainda a questão da validade desse testamento, a existir teria a meu ver de ser renovado a cada 5 anos por exemplo, para garantir que a pessoa não mudou de ideias, até porque sabemos que os tratamentos que existem hoje serão ultrapassados pelos que existirão daqui a 20 anos.
Quanto à eutanásia existe um grande equívoco, desde logo por se misturarem diferentes conceitos, vejamos:
-Parar um tratamento, por exemplo desligar um ventilador, será eutanásia? A meu ver não é!
-Suicídio medicamente assistido, aquilo que pretendia na realidade Ramon Sampedro (ver filme Mar Adentro), quando a própria pessoa não está dependente dum tratamento para viver, mas não se consegue suicidar. Mais uma vez não estamos perante eutanásia.
-Eutanásia significa apenas administrar ao paciente uma substância letal, ora o testamento vital apenas poderia ser aplicável aos 1º e 3º casos, no segundo o paciente está sempre consciente, permitindo tomar uma decisão no momento, sem recurso ao testamento vital. No 1º caso, que foi o de Eluana, estamos todos de acordo quanto à classificação, julgo eu, sou contra o prolongamento indefinido da vida à espera de nada. Mas no 3º caso, uma verdadeira eutanásia, induzir drogas a alguém para parar um sofrimento, tenho dúvidas, porque se o paciente o faz de forma consciente passa ao 2º caso, se não o faz, a decisão passa para os familiares, ou para um médico que terão sempre de interpretar o testamento vital, ora a definição de sofrimento é um conceito lato. E aí temo sempre que as decisões médicas possam trazer acopuladas medidas economicistas como desinvestimentos em cuidados paliativos, e as familiares possam trazer benfícios colaterais, como por exeemplo heranças. É aqui que estão as minhas reservas.

Ferreira-Pinto disse...

O testamento vital será sempre a única solução.

As interrogações do António de Almeida são legítimas, mas discordo quando prognostica que as decisões médicas podem trazer associadas vertentes economicistas.

Têm sido sobejos os exemplos, especialmente em Portugal, de que se há coisa a que a classe e a sua Ordem não se subjugam são os interesses economicistas.

Seja como for, os casos mediáticos são apenas a ponta do icebergue e ouso mesmo questionar quantas máquinas, quantos tratamentos, longe das luzes da ribalta, não se interrompem convenientemente a pedido de alguém ou porque se entende que basta?

Seja como for, é um tema a pedir cuidados redobrados e explicações em dose industrial antes de se avançar com medidas legislativas.

Obviamente que os do costume estarão contra porque sim, assim como muitos outros estarão a favor porque sim!

Pessoalmente, gostaria que as minhas vontades fossem respeitadas.

mac disse...

E ainda por cima, no caso da Eluana,o tribunal tinha consentido a que se procedesse à eutanásia, mas a Igreja teve de meter o medelho na assunto...
Acho que quando já não houver qualidade de vida, se proceda a este método. Em casos como o de Ramon Sanpedro, por exemplo, ou em casos de doentes oncológicos, que já não tenham qualquer esperança de vida...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tema em que a Igreja meta o bedelho para fazer vingar a su aposição, torna-se sempre polémico. Só haverá liberdade a sério, quando a Igreja for remetida ao seu devido lugar. Negar o direito a uma morte digna não me parece nada cristão, mas enfim...

DANTE disse...

Realmente ser reanimado para passar o resto do tempo a 'vegetar' numa cama não me parece nada agradável.Para ninguém.

Jokas Carol :)