Metem-me nojo!

O título podia aplicar-se a inúmeras situações que se vivem no nosso país, mas não é o caso. Esta história passa-se com alguém que me é muito próximo e que conheço melhor do que a mim própria.

A protagonista desta história tem 64 anos, chama-se Maria e trabalha num restaurante muito afamado da cidade onde vive. Aí desempenha as funções de cozinheira e, dizem muitos dos que frequentam aquela casa, faz um arroz de marisco de comer e chorar por mais.

Trabalha para aquela gerência há onze anos e, durante esse tempo, faltou apenas cinco dias por motivo de doença; substituiu o patrão quando este sofreu um enfarte do miocárdio e nunca reclamou as folgas que perdeu nesse período; para não comprometer os patrões, omitiu alguns factos à Inspecção do Trabalho, nomeadamente que não trabalha apenas as oito horas diárias que a lei prevê e que nunca lhe pagaram as horas extraordinárias, os domingos e feriados em que nunca deixou de trabalhar. Abdicou ainda de cerca de 300€ de retroactivos que o patrão lhe deveria ter pago, porque tem consciência que os tempos são de crise e que a casa tem trabalhado pouco. Recebe 630€ por mês, assina um recibo onde o patrão declara, apenas, o salário mínimo e trabalha, no mínimo, dez horas por dia.

Apesar de tudo isto, os patrões da Maria, na passada sexta-feira, não tiveram vergonha de lhe fazer a seguinte proposta: "Sabe, D. Maria, os tempos estão difíceis e temos que reduzir despesas ou, então, no fim do ano temos que fechar a casa. O seu salário é muito alto e, como tal, queria-lhe propor que escrevesse uma carta de demissão e, em troca, nós compromotemo-nos a pagar-lhe três meses de ordenado. Pense nisso e, depois, diga alguma coisa."

É certo que os patrões estão no seu direito quando querem reduzir despesas e é certo que podem fazê-lo cortando pessoal, mas daí a dizer que 630€ mensais é um salário muito alto e proporem que a Maria abdique de todos os direitos que adquiriu pelo trabalho efectuado ao longo de onze anos é demais. Uma funcionária que em Dezembro deste ano se vai reformar, que profissionalmente deu o melhor de si e que, em momentos difíceis, deu provas da sua lealdade e amizade para com os patrões merecia que não lhe fizessem uma proposta que põe em risco, pelo menos, um salário por cada ano de trabalho, os subsídios de Natal e de férias e, até, o direito ao subsídio de desemprego!

Esta é a história da Maria. A Maria que eu tão bem conheço. Mas, certamente, há, em Portugal, muitas outras Marias e muitas outras histórias deste género. Histórias que mostram de que é feito muito do patronato do nosso país, que ilustram a indiferença de uns pelo bem-estar de outros, que mostram que, infelizmente, não vale a pena ter amor à camisola.
E são pessoas como os patrões da Maria que me metem nojo, porque dizem não ter dinheiro para pagar os salários atempadamente (hoje, dia 9, a Maria ainda não recebeu), mas não deixam de ir ver os jogos do Porto quase todos os fins de semana, nem deixam de ir ao Brasil sempre que lhes dá na real gana!

13 comentarios:

korrosiva disse...

Sem dúvida que nojo é a palavra certa!

Bjs

salvoconduto disse...

Eu se fosse Maria gostava de cozinhar uma última vez, mas só para o patrão...

PreDatado disse...

Nojo é o título certo. Confiar em patrões é a atitude errada. E isto não é demagogia. Sei do que falo.

joshua disse...

Tenho sido muitas vezes essa Maria. Normalmente, são discretas e sofrem em silêncio essas Marias como eu. A falta de respeito pela Maria marina em revolta grossa mais dia menos dia.

Ferreira-Pinto disse...

São estas as histórias tristes do nosso Portugal real!

Infelizmente são histórias de ontem, de hoje e de amanhã ... no nosso Portugal existem coisas que pouco mudam.

E, nos dias que vão correndo, há muito quem cavalgue a crise para, através dos expedientes mais sórdidos ou mais legais a que possa deitar mão, esteja a tratar de resolver assuntos como este.

É sempre mais fácil atirar para as costas dos outros a solução das coisas.

António de Almeida disse...

Com todas as cautelas de quem desconhece o caso em concreto, julgo que a Maria terá direito a 11 meses de vencimento, em caso de supressão do posto de trabalho, que poderá ou não ser uma necessidade para a empresa/restaurante, não vou entrar pela questão dos jogos de futebol ou viagens, porque uma empresa pode ter por exemplo 100 em despesas, e 80 em receitas, nesse caso o empresário não se deverá endividar ou gastar do seu bolso, porque a prazo nem com os bolsos fica, aí terá mesmo de restruturar, respeitando os direitos dos outros, neste caso os 11 meses de salário a que a Maria terá direito. Uma vez que a sra. se reforma no final do ano, mais valia estarem quietos. Com as devidas reservas de quem não conhece os intervenientes, e não gosta de comentar casos concretos...

indomável disse...

Olá meus amigos,
desculpem lá estar sempre a olhar com esta minha visão bifurcada, mas neste caso não consegui mesmo evitar.
Eu mesma já fui a Maria. Eu já estive grávida e fui mandada embora de uma empresa do Estado por essa mesma razão, sem que me fosse dado o direito de ter pelo menos um subsidio de desemprego, afinal tinha sido contratada com recibo verde e ainda tive de pagar a segurança social...
Eu mesma já deixei de ser aumentada na empresa do meu sogro, por não ter sido produtiva durante os quatro meses em que estive de licença de parto... É, é verdade!

Mas agora, agora que eu e o meu marido assumimos uma empresa que mal se aguenta com 7 empregados, uma empresa que está estabelecida há mais de 20 anos e que coxeia por falta de visão empresarial do gerente, meu sogro, mas que apesar disso nunca deixou de pagar aos fornecedores e sempre houve forma de pagar os salários no fim do mês... agora que me vejo do outro lado do muro, confronto-me com a realidade sórdida de empresas que arranjam todas as desculpas para não pagarem facturas com anos de vida, com funcionários que faltam tardes e dias inteiros porque sim, sem apresentarem um justificativo sequer e ainda nos acusarem de injustos por lhe exigirmos um... enfim, vejo-me confrontada com um tecido empresarial tão podre, tão podre, tão mal formado, que parece que para salvar agora alguma coisa, teríamos de incendiar e destruir, para depois reconstruir!

Sabes que diria eu à Maria?
Que mandasse esses patrões às urtigas, porque para quem trabalha bem há sempre sitio para onde ir.
Mas também sei que a crise bate à porta de todos, a crise, real ou fictícia para servir os propósitos de desonestos e aproveitadores, magoa e destrói primeiro quem não tem para onde fugir.

A Maria que previna e procure alternativas e depois, proverbialmente dê um xuto no rabo de quem se aproveita do mal dos outros para se prover a si próprio.

Abraço Carol,

AP disse...

Não há palavras...
Infelizmente há muitas "Marias" assim pelo país. E muitos mais pseudo-empresários, obtusos, incompetentes, sem visão, sem formação, sem valores, sem cultura, enfim... São patrões destes que formam a grande maioria do nosso tecido empresarial!
Há esperança para a nossa economia? Há, mas apenas quando as mentalidades mudarem. Quer dos empresários, quer dos funcionários. Porque os primeiros também estão calejados pelos segundos que passam o dia a olhar para o relógio à espera do dia 30, e depois paga o justo pelo pecador.

Carol disse...

Sabem, o meu pai foi, durante muitos anos, empregado e, em determinado momento da sua vida, tornou-se patrão. Cresci a ouvi-lo dizer que era mais fácil ser empregado do que patrão e, hoje, constato-o pela minha própria experiência.

No entanto, sempre acreditei que se deve separar o trigo do joio e, acreditem, a Maria não merece ser tratada desta forma. Ela é pontual (demasiado, até, porque chega sempre antes dos patrões), responsável, preocupa-se com o restaurante como se fosse dela e é competente. Ao longo dos anos, teve várias oportunidades de sair, mas nunca quis fazê-lo por um conceito de lealdade que já não se vê nos dias de hoje. Nunca faltou ao trabalho, nem mesmo quando eu fui operada. A Maria, meus caros, é minha mãe.

Podia não sê-lo que eu saberia, de qualquer das formas, reconhecer o seu valor enquanto pessoa e profissional competente.

Lamento, no entanto, que os patrões não saibam reconhecer a dignidade da sua forma de ser e estar. Lamento que lhes tenha servido enquanto foi jovem e que, agora que os 65 se aproximam, a considerem e tratem como um fardo.

Lamento, sobretudo, que o patronato, na sua globalidade, não premeie quem tem amor à camisola e se lamente, apenas, pelos trabalhadores que estão lá só à espera do dia 30. Esquecem-se, talvez, que ao tratarem assim a Maria só estão a mostrar aos outros que não vale a pena serem como ela e seguirem o seu exemplo.

Joaninha disse...

Carol minha linda,

Indecente. A Maria que não assine nada! Rigorosamente nada, só o recibinho de vencimento. O resto, eles que a despeçam ;)

beijos

JOY disse...

A ingratidão é das atitudes que mais repudio no ser humano. Por muitas dificuldades que esses Srs. tenham para manter o seu negócio, e que pelo que nos é dado a conhecer não abdicam de um estilo de vida que não é compativel com as dificuldades que dizem atravessar, esta atitude é lamentável, uma vez que se a Maria Aceitar esta proposta não tem direito ao Subsidio de desemprego.
Por isso e como aqui já foi sugerido eles que procedam ao despedimento e que paguem aquilo que a lei obriga, vão ser menos umas viagens ao Brasil menos uns jogos do Porto, mas a Maria merece.
Infelizmente esta é a imagem de algum patronato que prolifera em Portugal.

Joy

Carol disse...

Claro que ela não vai escrever nenhuma carta de despedimento, JOANINHA! Brincamos ou quê? Para já, a senhora minha mãe de néscia não tem nada e, para além disso, se se armarem aos cucos estão bem tramados comigo!

Compadre Alentejano disse...

Mete nojo e é uma sacanice o que querem fazer à sua mãe.
Aqui, no Algarve, há muitos casos desses. Como é uma zona balnear, casos desses é mato!
Boa sorte.
Compadre Alentejano