Lições... de Eduardo Lourenço

O senhor da foto que vêem, é Eduardo Lourenço, o pensador por excelência do carácter dos portugueses. Em vários ensaios e livros, faz uma radiografia ao panorama político e cultural do nosso povo e de forma tão lapidar, tão límpida e nítida, que dir-se-ia que o senhor está do alto a olhar-nos por dentro e por fora...
Se não reflictam um pouco neste excerto que vos deixo de um dos seus livros:

"A demagogia política e o reflexo estrutural que nos caracteriza combinaram-se para produzir o fenómeno pasmoso de alimentarmos a máquina económica com o dinheiro dos outros, gasto alegremente como se fosse nosso. Mas é escusado pensar que a metamorfose da maravilhosa revolução dos cravos em degradado banquete dos «cravas»[...] se deva nominal e grupalmente a alguém. É uma culpa anónima, uma maquinação de poderes obscuros, uma «pouca sorte» que nada tem a ver com a mentalidade colectiva tantas e tantas vezes demonstrada.
Culpados não existem, e sobretudo entre quem parecia lógico que o fosse. Todavia alguém terá de pagar, cedo ou tarde, o preço que a aparência exige para ter um mínimo de realidade.
Esse alguém é bem conhecido: chama-se... povo, o povo que efectivamente trabalha e para quem, como escrevia Goethe, a maioria da revoluções que se fazem em seu nome não significam mais que a possibilidade de mudar de ombro para suportar a costumada canga."

Ora bem, estejais ou não de acordo com o que o senhor pensa, diz e escreve, Eduardo Lourenço sintetiza, entre outras coisas, o estado de espírito nacional do "para inglês ver", sobretudo quando chega ao nível político.
Em abono da verdade deve dizer-se que o senhor acerta na mouche neste seu ensaio de 197e qualquer coisa. Sim, foi nos anos 70 que o senhor chegou a esta conclusão e desde já lhe presto homenagem e faço vénia, porque o pensador chegou a uma conclusão óbvia com várias décadas de antecedência.
É óbvia hoje, muito óbvia a campanha propagandista dos nosso políticos, que agem para a imagem e gastam alegremente o nosso dinheiro, o dinheiro público, como se fosse coisa sua.

Mas ao que Eduardo Lourenço escreveu e disse acrescento eu agora um ponto - os nossos empresários, sobretudo aqueles que mamaram dinheiros de incentivos, subsidios e outros quejandos, também o fazem e com gala.
Afinal, qual é o empresário que olha para a sua empresa como coisa pública?
E é que a verdade é mesmo essa. Uma empresa não é o lar do empresário que a criou. É quase como uma obra de arte que o artista criou, mas que ao soltar no mundo deixou de ser apenas sua, para passar a ser de quem a admira.

Para mim, uma empresa é coisa pública sim senhora. É dos seus funcionários, dos seus fornecedores, dos seus clientes.
Com que facilidade um empresário se pavoneia de Mercedes, Porsche, ou outro topo de gama, ostentado o dinheiro que os seus funcionários trabalharam para ser investido na Empresa.
Com que facilidade esse mesmo empresário depois diz aos empregados que a crise não lhe permite aumentar-lhes os ordenados...
Com que facilidade esse ladrão, que não tem outro nome, deixa a empresa falir e os funcionários na rua, em condições de sobrevivência miseráveis?

Como pode todo um povo deixar de viver "para inglês ver" para passar a viver para e pelo trabalho?
Como podemos exigir à classe política que nos depaupera, nos esvai e esgana na pobreza? Para depois esbanjar em salários obscenos, em almoços e jantares luxuosos, sem que alguém seja inculpado e chamado à razão?

Será necessário talvez começarmos todos por auto-avaliar o nosso canto, por olhar para nós mesmos com a lupa de Eduardo Lourenço e concluir que a realidade não é uma imagem cor de rosa, é isso sim, de vários tons de cinzento onde por vezes o dourado brilha com maior intensidade...

8 comentarios:

o que me vier à real gana disse...

Boa noite!
Sim, Eduardo Lourenço ensina-nos, assim o queiramos - e como precisamos de o querer! - a compreendermo-nos! Essencial uma perscrutação colectiva, não pq precisemos de uma catarse, não!, mas tão só pq nos é essencial agirmos em prospectiva!
Comecemos, pois, por uma aturada análise à paleta de côres! Depois, se quisermos, passamos à composição. A Tela está aí, temos k a ajeitar, sim, mas ela está aí!

Ferreira-Pinto disse...

Eu começo por comentar reflectindo sobre uma das raras reportagens que vi com algum fio condutor na TVI, emitida no passado domingo, sobre os portugueses que vivem do Rendimento Social de Inserção.

Para além de ter contribuído (ou, pelo menos, devia) para quebrar o mito que todos os ciganos vivem do RSI (afinal, segundo a TVI, são só 3% dos beneficiários e isto num universo de mais de duas centenas de milhar), a reportagem, a dada altura, descambou no populismo e na demagogia.

A jornalista não conseguiu resistir a tentar entalar Edmundo Martinho, responsável pelo programa, quanto aos beneficiários que usufruem deste apoio social indevidamente.

Chegada a este ponto, ficou quase histérica faltando apenas erguer o dedo em riste …
É preciso mais fiscalização? Obviamente que sim.

Mas não será também necessário mais consciência social e espírito de cidadania?
Quantos portugueses sabendo duma situação de fraude a denunciam ante as instâncias devidas?
Não é essa a obrigação de qualquer cidadão?

É, só que é mais frequente é vermos uns a pedirem ao vigarista que ensine como se faz; outros a louvarem a esperteza do indivíduo que consegue ludibriar o Estado … e, normalmente, quando o energúmeno é descoberto, normalmente levantam-se as carpideiras a proclamar que é uma injustiça!

O remate final na reportagem, esse fez as delícias do povo e ia direito ao encontro do que acabo de escrever pois dizia a jornalista que havia muita preocupação com o roubo de tostões, mas nenhuma com os ricos que roubam milhões.

Ela formalmente até pode ter razão, mas não é por aí que se educa uma Nação.
Dizer a alguém que não faz mal estar de baixa fraudulenta ou andar a enganar a comunidade vivendo do RSI porque há banqueiros que roubam milhões ou bancos que não pagam IVA é apenas um incentivo a que todos continuem a roubar!

Quanto aos políticos, o melhor é nem debruçar-me sobre a coisa.
Sobre os empresários, eu desde já proclamo que não tenho nada contra os empresários. Tenho, isso sim, contra os patrões.
Coisa diferente!

Porque quem mamou dinheiros de incentivos, subsídios e outros quejandos, não é empresário, é patrão. Dos brutos, burros e bestas!
Porque um empresário, como dizes, olha para aquilo que criou como uma obra de arte, com paixão onde procura envolver todos.

Dou, como exemplo, a GELPEIXE que foi galardoada com um prémio qualquer. Ali, os funcionários sabem que dispõem de 2.500,00€ anuais para consultas médicas e, segundo percebi, um fundo individual de até 25.000,00€ para tratamentos médicos. E podem receber entre 100,00€ a 1.000,oo€ por cada ideia que apresentem e que se revele viável para utilizar na empresa!

Devo dizer que conheço poucos empresários assim. Conheço alguns, mas são poucos.
Aqui no Vale do Ave conheço alguns, mas a maior parte são como um que eu cá sei para quem os funcionários não passam de umas bestas e de uns montes de bosta!
Infelizmente, é este o espelho.

pedro oliveira disse...

Essa do Porshe, faz-me lembrar o que vi estes fds, um proprietário de um restaurante a carregar o seu porshe com as compras para o seu estabelecimento, o local onde estava era a MAKRO.Devia ter a kangoo avariada...

PO
Vilaforte

indomável disse...

Pois eu estou de acordo contigo amigo Ferreira-Pinto.
Realmente os patrões bestas quadradas é que são como tu dizes e eu reflecti. Os empresários dignos do nome gostam de primar pelas boas práticas com todos os seus parceiros.

Ainda hoje tive de ser desagradável (coisa que detesto fazer, porque sou basicamente uma pessoa agradável... nada de risinhos cínicos!) com uma funcionária de uma empresa cujo PATRÃO pensa que os seus parceiros comerciais são animais, bestas com quem não tem de cumprir coisa nenhuma!
Irrita-me sinceramente ter de mandar recados por alguém que se limita a fazer o seu trabalho, sem ter culpas na forma de agir de quem é seu superior hierárquico.
Acredita-me, eu sou daquelas pessoas para quem no trabalho não existe democracia política - existe uma hierarquia por alguma razão, assim como na sala de aula é o professor quem dirige a orquestra e mais nada, mas também acho que tudo deve ser feito pelo principio do respeito mutuo e não com sobranceria!

Os patrões que existem em Portugal são um pouco o espelho da sociedade em que vivemos, assim que temos um bocadinho de poder e dinheiro para gastar, parece que todos os outros nos devem obrigações e nenhuns direitos a reclamar!
Por isso detesto ser desagradável com alguém que apenas faz o seu trabalho, obedecendo a ordens.
Sou pessoa que gosta de sorrir e pedir com licença, se faz favor e agradecer a quem quer que seja... mas perco a paciência quando me tratam como animal, ou como se não merecesse respeito.

Por isso meu amigo, talvez o caminho seja mesmo fazer uma limpeza geral na sociedade, o RSI é apenas mais uma medida para aliviar o Estado da miséria que poderia grassar pelas ruas. MAs acontece que a miséria pior é aquela que se pavoneia pelas ruas, pintada de outro e brilhantes em cabeças ocas, ou em carroçarias cristalinas de topos de gama conquistados à custa do suor dos outros que talvez nem consigam ter dinheiro suficiente para levar os filhos a um pediatra...
Não gosto dessa maneira de pensar e vejo muito disso à minha volta!

AP disse...

Já varias vezes escrevi e sempre defendi a pouca inteligência dos nossos patrões, como diz o amigo Ferreira-Pinto.
Peter Drucker, que é "apenas" o pai da Gestão moderna, sempre afirmou que a empresa é um orgão da sociedade. Está inserida num contexto e numa rede social, pelo que a sua maior responsabilidade é criar valor na sociedade e não valor accionista como ignorantemente dizem os novos gestores! A empresa só vive para os clientes. Sem eles não existe.
Mas em Portugal vive para o patrão, para o seu topo de gama, para as suas férias de luxo e para os seus almoços e jantaradas com amigos. Como alguém que eu conheço na minha terra, que fechou uma das suas empresas, mandou uns quantos para o desemprego, mas um mês depois foi de férias para a neve!
Situação caricata em Portugal e que diz bastante da nossa mentalidade, é ver patrões de pequenas e micro empresas com melhores carros e casas que os donos de alguns dos grandes grupos...
Ou dar um salto a Badajoz e ver bons empresários com piores carros que alguns comerciantes elvenses.
No fim de contas tudo se resume ao provincianismo de que Fernando Pessoa falava.

António de Almeida disse...

-O Estado é demasiado culpado, em primeiro lugar porque acolheu uma série de práticas e serviços, e por consequência pessoas, que deveriam fazer pela vida. Isto tornou o Estado asfixiante, consumindo mais de 40% do PIB, com tendência para aumentar, a factura é apresentada aos cidadãos sob a forma de impostos, e claro está, quando eles são excessivos, a tendência será para a fuga. A TSU é directamente responsável por muito trabalho ilegal, para quem souber fazer contas, calcule para um trabalhador receber 1000 Euros (nem sequer é muito), quanto terá o empresário de gastar, mas coloquem todos os custos, seguros incluídos, TSU, IRS, etc. Depois temos a segurança social, um verdadeiro esquema "Ponzi" em grande escala e devidamente autorizado. A somar a tudo isto uma Justiça que não funciona, e temos Portugal, um país sem futuro. Coloquem os olhos nos EUA, lá o empresário é acarinhado, não é obscenamente taxado como cá, embora não lhe sejam permitidas veleidades na fuga ao fisco, lembro-me sempre de Al Capone, foi mais fácil de condenar por fraude fiscal do que por qualquer crime cometido.

indomável disse...

Caro AP,

então tem sido Peter Drucker que me tem soprado ao ouvido enquanto durmo (sem segundas intenções, meus senhores, que aqui fala-se de coisas sérias!).

É que a bem dizer, já não é a primeira vez que digo e reitero que uma empresa faz parte do tecido social, a responsabilidade da empresa extrapola de longe o dar emprego e prestar um serviço... muito mais será que o ganha pão do patrão, não é verdade?

Mas agora, meu caro AP, diga lá isso aos donos de empresas que por aí grassam! experimente!

Adoa disse...

Näo acredito que as coisas alguma vez se modifiquem.

Simplesmente porque ninguém tem os "§#$°#ßß##" para fazer todo um país mudar! É que para isso, a pessoa ou grupo de pessoas têm de ser moralmente superiores...

Quem é que se vai apontar como tal?

lolol