Carnaval!

Uma simples caraça tem o poder mágico de manter o anonimato e afastar a vergonha do desejo de ser outra pessoa por alguns dias no ano. Olho com estranheza o Carnaval português. Num país machista, em que a cultura masculina dominante assim o é, em que os valentões de café, de escritório, de praia, de carro, proliferam, subitamente chega o Carnaval e todos eles descem à rua vestidos de mulher, aos magotes, exibindo as mamas falsas e os collants. Há qualquer coisa de estranho em tudo isto. Por isso este período é marcado por excessos que procuram a liberdade que não têm durante o resto do ano.

O Carnaval em Portugal abrasileirou-se, ou melhor, tentou abrasileirar-se, pois os desfiles das Escolas de Samba são inimitáveis, mas enfim lá vamos vendo as nossas moças mais ou menos descascadas, antes mais que de menos, e ninguém se escandaliza. Ninguém, não. Uma senhora zelosa da moral pública (?) veio protestar por um dos ícons do Governo, o computador Magalhães (“mata gatos e esfola cães”, como nós dizíamos na escola do antigamente, referindo-nos ao navegador) ter colada no ecrã uma página do Google com senhoras menos vestidas. Perante tamanho escândalo, uma não menos zelosa procuradora do Ministério Público, ordenou a remoção do autocolante do computador Magalhães, sem se ter preocupado, ao que parece, em analisar se havia no mesmo a “pornografia” em que fundamentara o seu despacho.
O Magalhães readquiria a sua função educadora.
Eis senão quando o Magalhães voltou à sua imagem “debochada” pois o despacho fora anulado e as senhoras voltaram a exibir os seus dotes físicos.
Afinal em que ficamos?
Por mim, até porque já nada me espanta, vou deixar o carnaval de Torres Vedras e dar uma espreitadela ao “Portugal profundo”.

Em Lazarim, no concelho de Lamego a tradição ainda se mantém. Os jovens solteiros envergam máscaras diferentes de ano para ano, feitas ainda de forma artesanal, de madeira de amieiro. Fica a cargo de quem a usa, a idealização da vestimenta que a acompanha.
Antes do Carnaval, as associações dos Compadres e das Comadres reúnem fundos para os festejos que preparam em segredo e criam as quadras destrutivas do Testamento lido na terça-feira. A leitura é um confronto verbal onde impera a “má língua”. A rivalidade dos sexos é o grande impulsionador deste “ajuste de contas” que termina com a imolação de bonecos e o cortejo com os “caretos” (nome dado aos foliões) a juntar-se à festa. Antes do dia acabar há ainda tempo para a realização do concurso de máscaras que premeia os artesãos com mais talento.

Já perto de Macedo de Cavaleiros, em Podence, também perdura o costume das máscaras.
Aqui tudo é permitido ao "careto". Pertence ao sexo masculino e simboliza o demónio. Actua em grupo envergando um fato colorido de lã em franja, pula e corre semeando o pânico. De cara tapada por uma máscara de metal tem como vítimas preferidas as mulheres solteiras e os homens que estes foliões sabem ser detentores de pipas de vinho que obrigam a abrir. A festa continua então nas adegas.
Todo o fato é feito na aldeia. A roupagem com lã colorida e a máscara de zinco tem a forma simples de nariz em bico, não demasiado comprido… Os “caretos” penduram grandes chocalhos pelo corpo e contribuem para o barulho assustador dos movimentos. Abanam o corpo de forma a atingir as raparigas com os seus chocalhos. Acompanham os “caretos” os “facanitos”, rapazes mais jovens ainda sem idade mas com a ambição de com o tempo chegarem a “caretos”. Assim será.
Divirtam-se enquanto é tempo ...

5 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Sobre este roteiro, necessariamente breve, carnavalesco, repiso duas notas ... a primeira é que de facto também a mim me parece relativamente estranho terem-se adoptado os padrões do Carnaval brasileiro para abrilhantar os nossos corsos!

Nada tenho contra a exibição das carnes, antes pelo contrário, mas então, e ao menos, que seja como em terras de Vera Cruz e que seja pelo todo!

Sobre a rábula do "Magalhães" em Torres Vedras, a maior parte das pessoas se não tivessem ido pressurosas vociferar contra a censura do Governo, tinha era parado para pensar como se ministra a Justiça em Portugal!
Basta ver este caso ...

Carol disse...

Confesso que nunca apreciei a tradição carnavalesca. Desde míuda que achei sempre ridículo que me quisessem transformar noutra figura que não a minha! Felizmente, os meus pais nunca me forçaram a fazer figuras tristes e a encarnar uma personagem.

Quanto ao Carnaval brasileiro, acho que deve ser um espectáculo grandioso e digno de ser visto pelo menos por quem aprecia o género e gosta de um bom samba.

O único Carnaval que sempre me fascinou foi o de Veneza e, sim, esse gostaria de vivê-lo ao vivo.

Em Portugal, esta tendência de abrasileirar a coisa considero-a estúpida, até porque o samba não faz parte da nossa cultura e, convenhamos, as condições climatéricas serão, no mínimo, diferentes.

O caso do Magalhães nem merece comentários de tão anedótico que é... Como vai mal a Justiça em Portugal...

O Carnaval de Vale d' Ílhavo, nos arredores de Aveiro, é também bastante típico e tradicional, mas confesso que os trajes e as máscaras dos cardadores me causam uma certa impressão...

Peter disse...

Têm ambos razão: como vai mal a Justiça em Portugal...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Olá Pintinho

Sendo Ferreira, tens de ser um gajo bué da fixe. Se fosses do Sporting, ainda melhor...

Muito obrigado pela tua inscrição na minha famigerada lista e pelo cumentário, com o, à triste cena dita carnavalesca sucedida com o meu Rodrigo - que está também bué da fixe, só que continua com o chumbinho no pescoço. Parece haver alguns desenvolvimentos no assunto, disse a PSP à Margarida e ao Miguel. Verá-se como diz o ceguinho...

E, claro, chateado que nem um perú no dia 23 de Dezembro, perante o desastre ocorrido no mais lindo estádio do Mundo... do Lumiar.

Volta depressinha à Minha Travessa que é de um Ferreira, não te esqueças. E, se nela quiseres colaborar - imeila 30 linhas - e já está... Censura não faço, já me bastou a que me fizeram. Podes mesmo mandar as mulheres descascadinhas do Magalhães.

Mesmo assim, Carnaval e crise, coisas que estão muito mal!...

Abs

Peter disse...

Ferreira Pinto

Às 00.35 a SIC Notícias transmitiu uma pequena reportagem do Carnaval em Podence. Algo de diferente, sem multidões, nem mulheres nuas, nem escolas de samba. Uma íntima participação dos visitantes com os "caretos" com boa disposição, convívio e alegria.
Talvez valha a pena em 2010 uma ida a Trás os Montes o "país esquecido".
Eu contnuo na Meia Praia.