Aprender... é ser feliz

Há dias começávamos uma conversa, os meus filhos e eu, sobre como a educação é o que temos de mais importante na vida. Aprender, saber, são o que de melhor temos, as nossas maiores riquezas, dizia-lhes eu muito confiante de que eles iriam compreender um dia. Eles limitaram-se a revirar os olhos e garantir-me que preferiam fazer qualquer outra coisa, em vez de irem para a escola todos os dias da semana, ouvir a professora e de quando em vez, fazer fichas de avaliação.

Os meus filhos sofrem do mesmo síndroma de milhões de outras crianças por esse mundo ocidental fora - o síndroma do "para que é que me serve a escola?".
A conversa invariavelmente acabou com o usual generation gap, ou o mais português, conflito de gerações, em que eu fazia o papel da mãe que sabe o que é melhor e eles a fazer o de filhos que têm a certeza que sabem tudo muito melhor do que eu!
Concluindo e resumindo, regressámos ao ponto de partida, em que eu mantinha a minha opinião mais que formada e eles ficaram com a sua, ainda em processo de evolução, mas muito certa quanto à inutilidade da escola e do conhecimento.

Essa conversa pôs-me a pensar no estado da educação do mundo em geral e resolvi recorrer ao meu baú do tesouro, onde vou muitas vezes para pensar e descobrir o quão ignorante eu realmente sou, comparada com alguns dos maiores cérebros da actualidade - a TED.
A TED é um ninho para gente empreendedora, com ideias e que têm a veleidade de querer mudar o mundo com elas.
Até há bem pouco tempo, uma ilustre desconhecida, ficou recentemente nas bocas do mundo por causa de uma conferência do Bill Gates, em que ele soltou um monte de mosquitos da malária em plena sala, como forma de demonstrar um ponto de vista.

Sou ávida apreciadora das conferências TED há cerca de ano e meio e em cada TALK a que assisto aprendo algo, para não dizer muita coisa. Uma das coisas que aprendo é que as ideias do mundo estão a mudar e isso é tão visível que chega a ser físico, material.
Uma das maiores preocupações das conferências deste ano tiveram a ver com... a educação e a forma como encaramos a educação das nossas crianças.
O Bill falou disso, o Barry falou disso e houve até demonstrações de projectos escolares por todo o mundo que tentam um dia de cada vez, alterar a forma como se educa.

Ora bem, depois de recorrer ao meu baú, cheguei a uma triste conclusão que é ao mesmo tempo também, uma luz de esperança, uma espécie de farol que me fez olhar para a educação dos meus filhos de outra forma.
Dizia Barry Schwartz que os programas escolares tal como existem, com cada tarefa do professor escalpelizada ao mílimetro, previne desastres e fracassos, mas no lugar destes promove a mediocridade. Não há espaço para a liberdade de improviso do professor, não há lugar à aprendizagem personalizada de cada aluno, da descoberta individual...

Foi neste ponto que se me fez luz!
Os meus filhos têm razão, pensei eu, para que lhes serve uma escola que lhes ensina a eles tal como ensina a outro menino a horas de distância, exactamente o mesmo, da mesma forma, com as mesmas palavras, só para que nas estatísticas pareçam crianças muito bem sucedidas... em testes?
Que me interessa que os meus filhos saibam resolver testes, se não souberem como actuar na vida real?
Que me interessa que tenham boas notas, se não tiverem curiosidade em descobrir as coisas por eles mesmos, se tiverem um livro a explicar tintim, por tintim como fazer tudo?

Lembrei-me então daquele maravilhoso, cansativo, desastroso, glorioso ano em que leccionei.
Os meus miudos eram praticamente todos crianças com dificuldades, ou de aprendizagem, ou de abuso familiar, ou de miséria e fome. Estavam todos nas mesmas turmas, uma espécie de concentrado de problemas, para os identificar bem e os separar melhor...
Nesse ano aprendi mais que em todo o resto da minha vida.
Aprendi que por vezes um sorriso faz milagres e que uma palavra compreensiva abre imensas portas. Aprendi que não se pode dar demasiada liberdade, nem ser demasiado rígido. Aprendi que a distância professor/aluno é necessária, mas que deve igualmente existir respeito mútuo...
Mas o que aprendi ainda mais e que me estava a esquecer com os meus filhos, é que por vezes o verdadeiro conhecimento está por detrás de camadas e camadas de saber inútil, de palavras que não servirão nunca para nada nos nossos cérebros.
Recordei aquele aluno que tinha uma dislexia tão profunda, que confundia todas, mas mesmo todas as letras de um texto, ao ponto de ele não conseguir ler uma única palavra. Os professores chamavam-lhe burro e nem sequer o tinham em conta. Perguntei aos colegas como se fazia com um aluno disléxico, quais as recomendações dos psicólogos, dos especialistas. Nenhum me soube responder e não foi por não terem perguntado também...
Investigação em livros, na internet levaram-me a bibliografia estrangeira, muita, nada em português e o Hugo passou a ter tratamento diferente nas minhas aulas. Não haviam textos escritos para o Hugo e quando tinha de ler algo, as letras tinham cores diferentes. As avaliações eram feitas oralmente e... surpresa das surpresas, o Hugo era só, o miudo que mais sabia sobre gramática, sobre recursos estilisticos e sobre criatividade... O Hugo foi o meu melhor aluno!

Também me recordo daquele miúdo que no primeiro teste que fez tirou nota negativa e desatou num pranto colossal, com soluços à mistura até me deixar a mim desesperada, sem saber como reagir. Tinha medo do que o pai lhe ia fazer quando visse o teste...
Acordámos que o teste seria substituído por uma composição em que ele teria de fazer uso de tudo o que aprendera até ali, as regras gramaticais, os recursos estilísticos...
Na própria aula escreveu o texto, eu mandei um recado aos pais e levei o texto comigo para casa.
Duas páginas, duas páginas de uma estória que me marcou até hoje...
No dia seguinte cheguei àquela sala de aula triunfante. Levava comigo um tesouro, o testemunho de que aquele aluno aprendera tudo o que era suposto aprender sobre a Língua Portuguesa até àquele ano lectivo, aprendera todas as ferramentas que era suposto ter para usar na vida real e mais ainda, dera-me de presente a sua criatividade explosiva, uma luz que me fez acreditar que aquele miúdo poderia um dia vir a ser aquilo que muito bem entendesse!
Disse-lho, disse que era um escritor em potencial, que tinha em si o espírito necessário para ser tudo o que quisesse, só teria de se esforçar, de aprender, de sugar com prazer o conhecimento do universo...
Qual foi o meu prémio? Ver a luz nos olhos dele, a esperança de sair da miséria de vida que vivia, ter a certeza de não ser o burro que pensava ser, querer saber mais, aprender mais, questionar mais... Ver nos olhos daquela criança o verdadeiro conhecimento...

Quero o mesmo para os meus filhos, pensei, quero ver nos olhos deles o privilégio de saber, de aprender... Porque o saber rouba-nos à miséria, o conhecimento faz-nos voar para outras dimensões, outros sonhos, outras realidades e isso não é ser idealista, é ser realista. quando o conhecimento e a experiência se cruzam, tornam-nos excepcionais e não medíocres.

Mostrei-lhes então outro tesouro do meu baú TED. O mesmo que vos vou deixar a vós:



Notem que esta orquestra tem dos melhores músicos da Venezuela, roubados aos... Bairros de Lata...

9 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

O saber abre-nos portas, rumos e vias. De progresso, conhecimento e novas vidas.
Mas não este saber sebentuário que hoje, em nome duma escola inclusiva e democrática, querem à viva força que sirva de colete e fato a todos!

Fa menor disse...

Deliciei-me a ler este texto...

Parabéns!

indomável disse...

Ferreira-Pinto,

meu amigo, tu conheces-me bem. Sabes quais as minhas ideias àcerca do ensino e educação tal como são hoje.
Eu vou mais pela teoria de Einstein de que a escola é um veneno que devemos poupar aos nossos filhos.
Contudo... e este contudo é enorme, contudo é o que temos e prefiro que os meus filhos vão a uma escola que até pode ensinar-lhes pouco, do que eles ficarem sem aprender absolutamente nada.
Eu acredito que a semente tem de partir da família. A escola pouco pode fazer por uma criança cuja família pouca importância dá ao saber. Um professor, por mais bem intencionado que seja, de pouco pode servir, se um pai ou mãe não quiserem tomar parte na educação do filho.

Estou descontente com o estado da nossa educação? Claro que sim, não gosto dos manuais repletos de erros óbvios e que podia ser detectados numa simples revisão, mas uqe deixam as cabeças dos miudos mais confusas que uma emaranhado de linhas.
Abomino estes programas escolares que não deixam margem À criatividade de professor nem aluno e querem à viva força que se aprenda a história de Portugal em três meses...
Não gosto do acumular de testes e fichas de avaliação que de pouco mais servem que dar uma opinião estatística acerca do trabalho do ministério da educação e não do saber dos miudos em si...

Não faço como a minha mãe que se zangava quando não trazia excelentes e muito bons para casa, notas máximas que me conferiam o saber de um ancião, ou não...
Não quero isso para os meus filhos. Quero fazer-lhes perguntas de porque é que um planeta não brilha e parece que brilha e que eles saibam responder-me que reflectem apenas a luz de uma estrela. Quero que saibam a tabuada e raciocinem em pouco tempo, porque descobriram para que lhes serve a tabuada. Quero que escrevam a lingua deles sem erros porque leram vários livros que lhes deram prazer ao ler...
Depois disso, se uma professora ou professor não lhes der uma boa nota, basta que eu saiba que eles sabem... pouco me importa o resto...
Muito sinceramente!

Quero ver nos olhos dos meus filhos a excelência de um assombro perante um fenómeno natural, tal como quando vêm um golo. Gosto que me façam perguntas, que sorriam ao perceber algo que lhe parecia impossível de entender... para mim isso é mais enriquecedor que uma boa nota.
Sei lá, chamem-me doida varrida, mas é assim que entendo as coisas.

indomável disse...

Fá menor

Espero realmente que gostem de o ler, tanto como a mim me deu prazer escrevê-lo.
A verdade é que os meus filhos são sempre uma grande inspiração!

Fernando Vasconcelos disse...

Excelente texto. Parece-me que o problema foi muito bem descrito. Se repararmos bem a questão é que se confunde demasiado a necessidade de costumizar com a falta de exigência. A professora neste caso não teve falta de exigência, adaptou, compreendeu, motivou. Faz de forma extraordinária o seu papel. O problema é que para isso precisa de energia, tempo, vontade. A massificação a uniformização permite fazer aparentemente o mesmo com menores recursos e menores custos. Aparentemente claro. Se todos os professores fossem como a Indomável a escola seria certamente muito diferente. Eu posso dizer-vos que na minha vida tive a sorte de ter alguns professores de que nunca me esqueci e que me ensinaram coisas que ficaram para toda a vida. Talvez tenha esquecido o nome de algumas figuras de estilo mas nunca esquecerei a Madame Di Marco, minha professora de Francês, ou o Friedman meu professor de Filosofia, ou a minha professora de História ou de Ciências Naturais de que esqueci o nome é certo mas de que não esqueço as aulas. Há coisas que ficam para sempre. Será pouco? Talvez seja. Mas será tanto menos quanto a importância que lhe damos, os recursos que lhe alocamos e a exigência que passe o pleonasmo "lhes exigimos".

C Valente disse...

O saber não ocupa lugar proverbio antigo e sempre actual
Saudações amigas

Compadre Alentejano disse...

Por vezes, perdem-se bons alunos porque não têm um professor à altura.
Adorei o texto. Parabéns.
Compadre Alentejano

O Guardião disse...

A escola deve fornecer-nos as ferramentas para encontrarmos os saberes que nos serão úteis durante a vida. Não se sai sábio ou génio da escola, disso podem todos estar cientes...
Cumps

indomável disse...

Meus amigos, mil perdões pela minha ausência neste espaço de comentários... mas a terça-feira de Carnaval é grande e atarefada aqui no meu canto...
Estive ausente, pois estive, mas apreciei a vossa participação e os vossos pensamentos a respeito do tema.
Obrigada a todos.