Sobre o vespeiro de Gaza!

Israel invadiu Gaza, procura retalhar o território e impedir que o movimento integrista HAMAS se abasteça de armas e, de caminho, faz ouvidos moucos aos pedidos de cessar-fogo. Nada de novo, portanto.
Então escrevo sobre isto para quê?
Porque lidos o JOSHUA e o CATAVENTO, não resisti a opinar.

Por exemplo, Tzipi Livni. Tendo o direito legítimo de querer que o seu país combata o terrorismo, não podemos esquecer que combate pelo seu futuro político.
Outro dado da questão é que esta guerra (agora) serve para comprometer uma nova Administração nos EUA que, aos olhos do poderoso lobby judeu (sim, que ele existe) não é suficientemente confiável.
E os ultra-ortodoxos, que à custa da religião, não fazem um chavo, que papel têm nisto tudo? Mau, parece-me.
Contudo, Israel não pode é querer, sabe-se lá em nome de quê, que tudo lhe seja permitido e desculpado. Como sucedeu ontem com as bombas sobre escolas!
Nem dar-se ares de superioridade ... quem ouve ou lê Ezter Muzcnick quase que se sente instintivamente atraído para um dos lados tal é o dom de infalibilidade que a senhora usa!

Do lado árabe, e não islâmico (pois isso é tomar a árvore pela floresta), um HAMAS dá muito jeito a uma capital como Riade.
Enquanto com uma mão vende petróleo ao Ocidente, com a outra financia "madrassas" no Paquistão, o HAMAS e quejandos. E assim se desviam as atenções duma ditadura!
E o HAMAS luta pelos palestinianos ou pela supremacia junto destes erradicando a FATAH?

E nós, europeus?

Como se sabe, as peças do xadrez são quase como a Corte; lá estão os monarcas na figura do Rei e da Rainha, bispos, os cavaleiros, as torres e afins.
Reza a História que toda a corte tem um bobo e aqui o bobo é ... a Europa!
Sim, eu sei que é triste, mas esta Europa enreda-se na teia dos seus delírios e é incapaz de se levar a sério.
Aliás, nem sei se nalguns chancelarias até não ficam contentes por Israel estar a fazer parte do trabalho sujo de, como se diz em bom português, “ir às trombas a quem nos quer matar!”
Disse.

22 comentarios:

salvoconduto disse...

Penso que a frase mais correcta seria "matar quem nos quer ir às trombas".

O resto é mesmo isso, a Europa faz o papel de bobo e há muito quem se ri...

joshua disse...

Às vezes penso que o partir para esta ofensiva impiedosa que no fundo vai trinchar Gaza é mesmo o aproveitamento oportunístico por Israel de um timming imperdível porque me parece que um homem como Obama que tem uma perspectiva da foreign policy na qual os inimigos que não se coloquem à partida numa posição irredutível podem e devem dialogar: assim, talvez venha a ser surpreendente uma diplomacia de condescendÊncia e aproximação, uma que se senta com Cuba, que se senta com o Irão, que se senta com a Coreia do Norte, que se senta não com o Hamas que visa exterminar a Fatah, mas com alguma liderança moderada que ainda por lá se aproveite.

Certamente que os Falcões Israelitas, sabendo que se seguirá a implementação de este ideário completamente oposto à brutalidade e irracionalidade bushiana a quem agrada o desencadear da morte on terrorists, não podiam perder tempo.

Acredito num dicurso Moral Novo da Parte de Obama. Um discurso que encontrávamos em João Paulo II e que semeava humanidade lá, onde o impulso e a malícia das violências indiscriminadas ferviam por se soltarem.

Mas isto sou eu a sonhar talvez, na esperança que a liderança obamaniana represente uma pedrada no charco em tanto caos, tanta desordem e onde as lideranças europeias competem entre si no campeonato pigmeu da insignificância.

Uma insignificância por défice de Cultura Europeia não na perspectiva de um pragmatismo económico e de um cientificismo autodeslumbrado, mas na perspectiva do Humanismo da Tolerância, do pensamento filosófico, da herança clássica, musical e literária.

Ou nos agarramos e nos argamassamos a isto ou pereceremos tarde ou cedo engolidos pela barbárie parte da qual se chama Descalabro Especulativo, Bancarrota, Crise Devastadora, Depressão. Mas isto são apenas as consequências de um desmazelo cultural e moral de fundo que eu, só para me situar, costumo corporizar em caracteres devoristas como Oliveira e Costa, Dias Loureiro e tantos outros e em matéria do pensamento político de não ter pensamento político nenhum somente uma práxis aparelhística e perpetuamente conspiratória dentro do sistema, José Sócrates.

Enfim, fiz uma viagem e parece que fechei um círculo aparentado com o obsessivo. É uma fase. É a atracção repelência pelo Abismo.

tagarelas-miamendes disse...

Ferreira Pinto
So me atrevo a dizer: BRAVO!
Pensei seriamente que estamos a sofrer de uma demencia generalizada que so nos permite ver o que os efeitos de uma propaganda bem organizada nos fornece. Mas heis que volto a ter experancas! Alguem que me parece lucido!

pedro oliveira disse...

Na Europa toda a gente fala e se coloca em bicos de pés para ver se as câmras os apanham, o emplastro ao pé destes senhores é um nabo.
Um tiro certeiro, ainda bem que não utiliza as pistolas de Porto de Mós, ao que parece não funcionam...

PO
vilaforte

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto

Permita-me esclarecer alguns equívocos:

Como sucedeu ontem com as bombas sobre escolas!

-Dali foram disparados rockets, o verdadeiro criminoso pelo facto é o Hamas, que desprezando a sua população, é capaz das maiores atrocidades, mas que esperar de quem já utilizou ambulâncias para transportar guerrilheiros e armas?

Do lado árabe, e não islâmico (pois isso é tomar a árvore pela floresta), um HAMAS dá muito jeito a uma capital como Riade.

-Esta é completamente ao lado, se existe uma tríade da qual Riade nem quer ouvir falar, ela chama-se Hamas, Hezbollah, Irão (em particular o louco fanfarrão que governa Teerão)

-O Hamas por um lado, o Hezbollah por outro, forma bases estratégicas sobre Israel ao serviço de Teerão, razão pela qual, Egipto, Síria e Jordânia não manifestaram qualquer apoio aos terroristas do Hamas, foram eles quem deflagrou o presente conflito, convém ter sempre presente. Israel não pretenderá propriamente condicionar Obama, mas oferecer-lhe de bandeja uma oportunidade para brilhar no palco mediático internacional, logo a abrir o mandato, quer apostar que será Obama quem negociará um cessar-fogo? Iria dar tal trunfo a quem? Á U.E.? A Sarkozy? Ao Egipto? Á ONU? Não estou a ver. Com a vantagem de ser possível em 2 semanas, não direi liquidar (o ideal), mas pelo menos atingir brutalmente a cúpula do Hamas, permitindo à Fatah reassumir o controlo das operações e prosseguir o processo de paz.

korrosiva disse...

Lamentavelmente é sempre o povo que sofre as consequências.
O HAMAS luta pelos seus próprios interesses!

Ferreira-Pinto disse...

Caro António de Almeida, a propósito das suas erratas aos equívocos aqui fica a minha adenda (presumo que a leia):

- O facto de naquelas escolas se terem disparado “rockects”, por si só, é motivo suficientemente justificativo para que a resposta militar, dum exército armado com as mais modernas tecnologias, algumas até desconhecidas no Ocidente, seja efectuada de imediato?

Já uma vez nos enredamos numa discussão sobre a superioridade moral se perder quando, nalguns casos, se não ponderam todas as vertentes do problema.

Neste caso, e porque Israel sabe bem o peso que a propaganda tem, deveria ter cuidado deste pormenor.
E, ao mesmo tempo, espaldar convenientemente o seu aliado maior que são os EUA.
Ou acha que foi por acaso que só agora tenha vindo a própria Al-Qaeda apelar aos irmãos muçulmanos que lutem contra o opressor?

O maniqueísmo e as certezas dogmáticas não são boas conselheiras e aqui e ali, até na guerra, os compassos de espera são a melhor estratégia daquele momento. Qualquer general de pacotilha sabe disto e os israelitas também.

- Eu, se fosse a si, não seria tão assertivo sobre a bondade de Riade e da dinastia que lá preside não querer ouvir falar do HAMAS.

Aliás, vai-me desculpar a imodéstia, mas noto que passou tranquilamente ao lado do financiamento das “madrassas” no Paquistão.
Porque será?
Porque também sabe que dali o dinheiro vai direitinho para quem mais convém naquele momento?

Sobre o Hezzbolah não me pronunciei pelo que nada a opor.
Quanto a Teerão, que surge claramente como o fornecedor mor de armamento ao Hezbollah e, deste, ele segue para o Hamas, que eu saiba financiamento para outras actividades nada consta.

- No que concerne a quem desencadeou o conflito ou o António de Almeida não me leu ou não o entendo; então em que lado vê que eu diga que foi Israel quem começou?
E também infere do que eu escrevo que eu esteja lá a dizer que o Egipto, a Síria e Jordânia manifestaram apoio ao Hamas?

Quanto a Israel querer dar a Obama um palco para brilhar, vai-me desculpar mas essa é inaudita.
E inédita.

Israel não paga almoços a ninguém, antes pelo contrário.
E a Tel-Aviv tanto se lhe dá, tanto se lhe deu que Obama brilhe ou não.
O conflito foi desencadeado agora, isso sim, por questões de agenda interna de Israel e porque as autoridades israelitas bem sabem que a pressão seria bem menor com George W. Bush do que com Obama!

DANTE disse...

Aquilo já é 'marido e mulher' , não me atrevo a 'pôr a colher'...

Um abraço

Adoa disse...

A Europa neste e noutros casos parece-se a um pai que vê um filho a fazer asneiras , ao passar-lhe a mäo pela cabeca diz: Isso é muito feio, Joäozinho!

E vira costas...

MouTal disse...

Vejam no meu blog os melhores cartunes que diariamente se publicam na imprensa mundial e que complementam este bom texto.
Abraço.

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto

Transcrevo-lhe aqui exactamente a resposta que deixei ao seu comentário lá no espaço.

-A questão rockets /morteiros foi de facto um lapso meu, motivado pelo excesso de informação que vou lendo, embora seja uma questão de pormenor, não deixa de ser diferente, como bem aponta.
-A defesa é um direito totalmente legítimo e inquestionável. O Hamas provocou lançando mísseis e rockets para as cidades fronteiriças dentro de Israel, procurando atingir a população civil , das duas uma, Israel permanecia quieto ou atacava, simples até aqui, certamente concorda. Pois eu sou daqueles que deixo para Jesus Cristo a oferta da outra face, logo penso que Israel deveria atacar, ao fazê-lo o objectivo teria de ser eliminar todos os locais de lançamento da agressão, e se possível varrer do planeta com a liderança do Hamas , que saudades não deixarão. Repito, a alternativa seria caírem projecteis diariamente em Israel, sem que eu tenha visto algum pacifista de pacotilha ficar incomodado com a questão. A desinformação é de tal ordem, que nos combates entre Hamas e Fatah , a comunicação social falava em militantes mortos, mas neste conflito, por qualquer "milagre" que me escapa, ainda só li, ou ouvi falar em baixas civis no território de Gaza, aliás o exército de Israel deve andar a combater uma espécie de Rambo's , porque pelos vistos do Hamas ainda não morreu ninguém, excepto dirigentes que viram os seus lares bombardeados enquanto dormiam.
-Quanto ao palco para Obama , não passa de teoria minha, não li até agora ninguém levantar tal hipótese, no entanto Sarkozy tenta brilhar a todo o custo conseguindo um cessar-fogo, que chegou a ser anunciado hoje, mas prontamente desmentido por Telavive . Aqui é simples, veremos se tenho razão ou não nos próximos dias, se a guerra durar até Obama tomar posse, e forem os EUA a conseguir negociar, ou forçar, como queira, um cessar-fogo, a minha teoria estará próxima da verdade, de contrário terei errado. O que não quer dizer que Telavive não espere obter de Obama algo em troca, isso já é outra questão, também não sou ingénuo ao ponto de acreditar nas palavras de Obama , que espera que W. Bush consiga negociar, como se a actual administração ainda fosse relevante, ou que a equipa de Hillary Clinton não esteja já trabalhando nos bastidores.
-Quanto ao Paquistão, é um caso muito complicado, um país que nenhum governante controla verdadeiramente, onde existem vários poderes, que têm sistematicamente originado tragédias, para bem deles espero que não tenham estado por trás de Mumbai ...
-A dinastia que governa Riade não pretende ceder influência para Teerão, está cada vez mais óbvio, claro que o fundamentalismo colhe adeptos em todo o mundo islâmico, até mesmo convertidos à religião que habitam outras paragens, mas não forçosamente nos governos dos respectivos países, veja que já nem a Líbia adere entusiasticamente à causa.
-Mais uma vez repito, não para si, porque julgo que já me terá lido a defender a criação do Estado Palestiniano, mas uma vez que o nosso diálogo è público, Israel tem, e muitos, esqueletos no armário, nomeadamente na sua política de colonatos, mas o Hezzbollah ou Hamas , são terroristas como a Al-Qaeda , o Irão um Estado pária, o Afeganistão e Paquistão dois problemas, muito pelos seu tribalismo.

Ferreira-Pinto disse...

Meu caro, António de Almeida:

- Um lapso é sempre legítimo;

- Plenamente de acordo quanto ao direito de defesa. Mas, insisto, há ocasiões em que a acção directa deve aguardar por momento mais oportuno. Ainda na história das escolas, assim a quente proporciona, no palco mediático e na guerra da propaganda, uma enorme vantagem ao HAMAS.
Note. Ao HAMAS, não aos palestinianos.

-Quanto ao palco para Obama, eu não digo que não tenha direito à sua teoria inédita (eu também as tenho). Só quis explicitar que, na minha modesta forma de ver, a Tel Aviv pouco se lhe dá como se lhe deu, já que por aí tem a retaguarda coberta pelo lobby judaico nos EUA e até por Hillary que, nesse domínio, penso ser mais “falcão” que Obama!

-Quanto ao Paquistão, aquilo é um vespeiro e, sem pretender ofender quem quer que seja, como aqueles membros do casal infiéis que dormem com dois ou três!

-Que Riade não quer perder influência para Teerão é óbvio mas, como bem diz a propósito do próprio Paquistão, ali no Médio Oriente a teoria do jogo de espelhos e das sombras chinesas ganha adeptos. Ou, se quiser, com aqueles cavalheiros nunca se sabe o que é trunfo!

- No mais, e também quero frisar que esta resposta pretende apenas servir de ponte a um diálogo que acho interessante (e mal de nós, ambos e o Homem, quando não haver desacordo em nada):
Estado Palestiniano? Absolutamente.
Israel tem direito a existir? Também.
Esqueletos no armário? Aquilo é em cada gaveta!

No mais, meu caro, aqui este que agora lhe replica, é dos que entende que aqueles tipos que apregoam o ódio ao Ocidente em nossa casa, rua! Aos restantes, seja no Afeganistão, seja no Paquistão é dar cabo deles antes que seja tarde. E na Somália o mesmo!
Há inimigos com os quais, para se negociar, se segue a máxima “se queres a paz, prepara-te para a guerra”.
E, neste caso, ouso mesmo dizer que perder o conflito no Afeganistão será perder a face de vez e abrir porta sabe-se lá a quê.

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto

Este comentário coloquei lá no espaço, deixando-o aqui, para que eventuais interessados em seguir a nossa agradavel troca de argumentos possam acompanhar:



Tenha eu tempo, e uma civilizada troca de argumentos é algo a que nunca viro a cara.

De acordo quando afirma que o episódio da escola é uma vantagem para o Hamas , pessoalmente estou convencido que ainda assistiremos a uma Mesquita ou Hospital como cenário. Repare, a convenção de Genebra proíbe terminantemente que se utilizem ambulâncias para fins militares, e prevê que os feridos possam ser transportados em segurança por pessoal médico, que não deverá andar armado, acontece que o Hamas não é civilizado, representa a barbárie quando transporta guerrilheiros e armamento em ambulâncias, colocando em causa a segurança do próprio povo, que aliás nem lhes interessa, porque os fanáticos reciclam os cadáveres em mártires. O dilema está, atacar ou não atacar, é a questão à qual tudo se resume, há quem defenda que pesando prós e contras Israel deveria permanecer quieto, mas isso significaria receber diariamente projecteis no seu território, porque o Hamas continuaria hoje a lançar mísseis e rockets , a alternativa seria atacar posições em Gaza, procurando obviamente causar o mínimo de vítimas, mesmo sabendo à partida que iriam ocorrer algumas, mas simultaneamente decapitar o mais possível a cúpula dirigente do Hamas , que mesmo aí è algo diferente das suas bases, os tais voluntários fundamentalistas manipulados por gente sem escrúpulos. O resto não posso dizer mais nada, apenas esperar para ver.

Ferreira-Pinto disse...

António de Almeida, sobre a Convenção de Genebra teria de ter aqui à mão de semear para avaliar melhor se ela se aplica ao HAMAS. Confesso que aí tenho as minhas dúvidas.

De qualquer modo, o uso de meios civis e de civis como escudos é intolerável e não encontra jutsificação a não ser nessa mísera aritmética do número de feridos e mortos para se exibir.

De qualquer modo, gostaria de esclarecer que, e ainda a propósito das escolas, quando falo num compasso de espera reporto-me apenas a que ali se calhar melhor fora fazer de conta que não se vira nada e passados umas horas ou dias apertar o torniquete a sério noutro sítio e onde mais doesse.
A arte do disfarce e a técnica de "dar dois passos atrás para dar um à frente" tem muito que se lhe diga.

No mais, e na essência, estamos de acordo.

Já agora, não sei se viu mas que este é um tabuleiro complicado aí está a FATAH a afirmar que não pretende tirar partido da actual situação para tentar ganhar hegemonia em Gaza! Pudera ...

Tiago R Cardoso disse...

Concordo quando dizes que Israel não pode achar que tem sempre desculpa.

Compadre Alentejano disse...

E alguma vez o Hamas parou com os bombardeamentos do sul de Israel, apesar dos inúmeros apelos internacionais? Nunca!
O Hamas apemas pretende, tal como muitos grupos radicais, a extinção de Israel...
Compadre Alentejano

Blondewithaphd disse...

E depois do excitante ping-pong Quinn/António, segue-se o comentário desta loura que se assina em epígrafe: Só a Europa? Ó meu querido Quinn, se fosse só a Europa...

Daniel Santos disse...

Não espero nem acredito que alguma vez aqueles senhores da bandeira verde façam mais do que terrorismo e morte, só assim terão poder.

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto

A convenção de Genebra não se aplica ao Hamas porque Gaza não é tecnicamente um estado, nem tem exército. O que não invalida que um movimento que aspire à legitimidade e reconhecimento internacional não deva respeitá-la. Mas o Hamas como sabemos, não pretende tal objectivo, já a Fatah não necessita reivindicar nada, sabe que tudo lhe pode caír no colo, por um lado ainda bem, mas o importante será o que fizer no futuro, a forma como negociará com Israel, e da parte deste espero que aproveitam a oportunidade para resolverem criar duma vez por todas o Estado Palestiniano, ainda que seja necessário adiar a questão de Jerusalém, problema bem mais complexo.

Ferreira-Pinto disse...

A Convenção de Genebra, caro ANTÓNIO DE ALMEIDA,aplica-se, em princípio, apenas a Estados soberanos que são os sujeitos passíveis de ratificar e celebrar tratados internaconias; consequentemente aos exércitos. Do coligação entre o artigo 3º e 4º penso ser legítimo que o HAMAS não se enquadra nesse conceito.
Mas, atenção, isto à luz da III Convenção de Genebra, já que existem outros tratados.

Seja como for, e fiz esta descoberta há pouco, o que me diz desta: os EUA criaram a Al-Qaeda para combater a URSS no Afeganistão e Israel, pela Mossad, patrocinou e incentivou a criação do HAMAS para combater a OLP/Fatah; e esta?

Já agora, e porque acho o texto interessante, fica aqui, para quem quiser, um excerto de um texto concebido para um manual de Filosofia da autoria de Álvaro Nunes:

Karl von Clausewitz (1780-1831) de definiu a guerra como a «continuação da política por outros meios». Embora isto seja em geral correcto, diz-nos muito pouco sobre a natureza da guerra. Alguém que soubesse apenas isto, nunca poderia ter qualquer ideia de que a guerra é, por exemplo, um conflito armado. Contudo, nem todos os conflitos armados são guerras. As pequenas escaramuças ocasionais de fronteira não têm nem a dimensão nem a importância necessárias para serem consideradas guerras. E o mesmo é verdade de tumultos, motins, rebeliões e outras formas de violência colectiva. Apenas os conflitos armados intencionais de larga escala, mobilizando as forças armadas e uma importante parte dos recursos, em homens, meios e bens, de comunidades políticas, que são ou pretendem vir a ser estados são considerados guerras. Além disso, estes conflitos têm de ser sempre relativos ao governo de um território: quem manda, que leis devem existir, quem usufrui dos seus recursos; que ideias são aceites, que religiões permitidas, etc. Os exemplos clássicos de guerras são as guerras entre estados, como as duas guerras mundiais. Mas as guerras civis, como a Guerra Civil Espanhola, e as guerras de guerrilha, como as que os movimentos de libertação das colónias portuguesas em África moveram contra o Estado português, são também guerras. Há quem pense que mesmo alguns dos conflitos em que uma das partes é constituída por grupos terroristas devem ser considerados guerras. São conflitos entre comunidades políticas que pretendem governar ou influenciar o governo de um território e essas são as características essenciais de todas as guerras.

Podem as guerras ser morais?

A história mostra que a guerra faz parte da vida humana desde tempos imemoriais, apesar do enorme cortejo de sofrimento e miséria e do elevado preço, em mortos, feridos, mutilados, desalojados, refugiados, etc., que invariavelmente arrasta consigo. Embora isso possa desagradar-nos, é possível, como alguns autores sugerem, que ela seja inerente à natureza humana e que, apesar dos esforços recentes da comunidade internacional, através, por exemplo, da Carta das Nações Unidas, para a limitar — e até erradicar —, ela continue a existir ainda por muito tempo.

Devido ao seu carácter violento e aos enormes efeitos na vida das pessoas e das sociedades, a guerra é uma fonte óbvia de questões de natureza moral. A mais importante dessas questões é a de saber se a guerra pode em alguma circunstância ser justificada ou se, pelo contrário, é sempre errada. Outras questões importantes são também as de saber como deve ser travada e o que se deve fazer uma vez terminada a guerra. São três as principais teorias que tentam responder a estas questões: o realismo, o pacifismo e a teoria da guerra justa.

Realismo: a moral não é para aqui chamada

O realismo é uma teoria popular sobretudo entre os cientistas políticos e aqueles que, por profissão, lidam com questões respeitantes às relações entre estados. Estas pessoas tendem a ver a cena política internacional como uma espécie de arena anárquica, sem outras regras que aquelas que os estados conseguem impor, e na qual as questões dominantes são as questões relativas ao poder, à segurança e ao interesse nacional. Por esse motivo, é muito comum pensarem que a política internacional não está sujeita a quaisquer regras morais. As considerações de carácter moral, embora possam ser convenções apropriadas para regular as relações entre pessoas individuais, são, quando aplicadas às relações entre estados, um mal, uma vez que um estado que tenha em conta normas de natureza moral nas suas relações com outros estados coloca-se necessariamente numa situação de fragilidade. Nas relações entre estados, a única regra que conta é a do «direito do mais forte à liberdade». Qualquer outra regra é contrária aos interesses dos estados e, por isso, não deve nem pode ser tida em conta. A única política correcta nas relações internacionais é a «realpolitik».

Como a guerra é apenas a continuação da política por outros meios, os realistas aplicam à guerra as suas ideias sobre a política internacional. A guerra só deve ser travada se servir os interesses do estado e, uma vez em guerra, o estado deve fazer tudo ao seu alcance para a ganhar. Consequentemente, tendem a pensar que a guerra está fora da moralidade. «No amor e na guerra vale tudo» ou «inter arma silent leges» («em tempos de guerra as leis calam-se») são expressões a que recorrem frequentemente para resumir a sua posição, querendo com isso dizer que nenhuma lei se deve sobrepor aos interesses e aos decretos do estado que, por sua vez, deve guiar-se sempre nas suas decisões pelo interesse nacional.

Há duas espécies de realismo de alguma forma mescladas nesta exposição: o realismo descritivo e o realismo normativo. O realismo descritivo é o ponto de vista segundo o qual os estados não se comportam ou não se podem comportar de forma moral. Os estados são motivados por questões de poder, de segurança e de interesse nacional e, para servirem os seus cidadãos de forma eficaz, não podem agir moralmente, pois movem-se numa arena internacional onde existem outros estados dispostos a fazer tudo para atingirem os seus objectivos. Como o nome indica, o realismo descritivo pretende ser factual e, portanto, é constituído por juízos de facto. A sua verdade ou falsidade depende da sua adequação aos factos.

O realismo normativo, pelo contrário, pretende estabelecer como os estados se devem comportar na cena internacional e é completamente independente do realismo descritivo: um pode ser verdadeiro sem que o outro o seja. Segundo o realismo normativo, os estados devem (um dever prudencial e não moral) ser amorais em matéria de relações internacionais, porque, se agirem com base em princípios morais serão explorados por estados menos escrupulosos ou correm o risco de ofender estados e comunidades com outros valores, prejudicando assim a defesa dos seus interesses. É melhor olhar apenas ao interesse nacional e deixar a moral fora das relações internacionais. Esta forma de realismo, em vez de pretender descrever como as coisas são, pretende estabelecer como devem ser. Daí o seu nome.

Os mais importantes defensores clássicos do realismo são Tucídides, Maquiavel e Thomas Hobbes. O realismo também tem defensores nos tempos modernos. O mais importante é, talvez, Hans Joachim Morgenthau (1904-1980), um alemão que se radicou na América pouco antes do começo da Segunda Guerra Mundial e que estabeleceu os princípios pelos quais se guiou a política internacional americana do pós-guerra. O mais conhecido, no entanto, é certamente Henry Kissinger, que foi Secretário de Estado durante as presidências de Nixon e Ford, nos anos setenta do século passado.

Pacifismo: todas as guerras são imorais

O pacifismo, ao contrário do realismo, não separa a ética da guerra. Os pacifistas consideram em geral que a guerra está dentro da esfera da moral. O problema está em que, do ponto de vista dos pacifistas, nenhuma guerra pode ser moralmente justificada. Seja por razões de princípio seja devido às consequências que dela resultam, a guerra é sempre errada.

O pacifismo moderno é de dois tipos, consequencialista e deontologista. A principal diferença entre estes tipos de pacifismo está na razão evocada para considerar as guerras injustas. O pacifismo consequencialista baseia-se normalmente na alegação que os benefícios da guerra nunca superam os seus malefícios, ao passo que o pacifismo deontologista parte da ideia que a guerra é intrinsecamente errada porque viola deveres absolutos como o de não matar seres humanos.

Embora o pacifismo moderno seja sobretudo uma teoria secular, as suas origens são religiosas. Muitos dos primeiros cristãos, com base na Bíblia (por exemplo, em Mateus 5:38), pensavam que a mensagem de Cristo proibia completamente a guerra e eram fortemente pacifistas, opondo-se a todo o uso da violência, mesmo para fins exclusivamente defensivos. Esta posição, no entanto, impedia a defesa do mundo cristão dos ataques dos seus inimigos e acabou por levar ao desenvolvimento da terceira teoria ética da guerra que vamos estudar, a teoria da guerra justa.

Teoria do justum bellum: nem todas as guerras são imorais

A teoria da guerra justa é a resposta cristã ao problema moral da guerra. Na sua essência, essa resposta consiste em dizer que a guerra, ao contrário do que pensam os realistas, é abrangida pela moral e que, apesar disso, ao contrário do que pensam os pacifistas, por vezes é justificada. A teoria opõe-se, assim, tanto ao realismo como ao pacifismo.

Embora tenha antecedentes em Aristóteles e em Cícero, é comum considerar Santo Agostinho o fundador da teoria da guerra justa. Depois dele, outros nomes importantes na tradição cristã da guerra justa são São Tomás de Aquino, Francisco de Vitoria (1486-1546) e Hugo Grotius (1583-1645), pensadores que, de uma forma geral, articularam e desenvolveram a teoria. No nosso tempo, devido ao surgimento do armamento nuclear, à intervenção americana na guerra do Vietname e, mais recentemente, aos ataques de 11 de Setembro de 2001, e a guerra do Afeganistão e do Iraque, o interesse pela teoria renovou-se, ao mesmo tempo que ela perdeu o cunho especificamente cristão para se tornar uma teoria secular, isto é, independente de considerações de carácter religioso.

A influência da teoria tem sido enorme. Ela está na base das Convenções de Genebra de 1949 e de vários outros protocolos com que a comunidade internacional procura delimitar e regular a prática da guerra. Também há cada vez mais políticos e militares a reconhecer a importância da teoria (embora seja difícil determinar quando isso não é apenas por razões de propaganda). Lembremo-nos do grande esforço que os Estados Unidos fizeram para tentar convencer o resto do mundo da justeza da guerra contra o Iraque e da preocupação dos militares em evitar atingir as populações civis. A opinião pública mundial está também cada vez mais atenta às condições em que as guerras são praticadas exigindo quer que sejam justificadas quer que sejam travadas no respeito pelos direitos humanos.

A teoria da guerra justa estabelece um conjunto de princípios que visam determinar as condições em que a prática da guerra é justa. É costume distinguir entre os princípios que visam determinar quando é legítimo recorrer à guerra (jus ad bellum) e os princípios que procuram estabelecer como conduzir a guerra (jus in bello). Recentemente, alguns pensadores acrescentaram uma terceira categoria, relativa ao que se deve fazer uma vez a guerra terminada (jus post bellum).

jus ad bellum

As regras do jus ad bellum são dirigidas principalmente aos governantes, uma vez que são eles que dentro dos estados têm o poder de declarar a guerra. Se os governantes violam declaradamente estas regras, cometem crimes contra a paz e podem ser julgados pelos seus actos por tribunais internacionais, como foi o caso do antigo dirigente sérvio, Slobodan Milosevic. As regras principais do jus ad bellum são as seguintes:

1. Causa justa. Esta regra é a mais importante de todas. Um estado só pode declarar guerra pelas razões correctas. Estas razões podem ser a defesa de uma agressão, a defesa de outros países de uma agressão ou a protecção de inocentes de regimes agressivos. A maior parte dos teóricos pensa que uma agressão física é sempre injusta e que, por si só, fornece a um estado uma causa justa para se defender, sendo considerada uma agressão o uso de forças armadas contra os direitos básicos de um estado ou de uma comunidade. Um exemplo clássico de agressão foi o ataque da Alemanha à Polónia no início da Segunda Guerra Mundial e o ataque do Iraque ao Kuwait, que deu origem à primeira Guerra do Golfo.

2. Recta Intenção. Um estado deve fazer a guerra apenas devido a uma intenção que seja correcta. Normalmente, a intenção correcta é atingir os objectivos que fazem com que haja uma causa justa de guerra, por exemplo, eliminar uma agressão. Mas não é fácil saber quais são as intenções dos estados e é sempre possível que embora aleguem motivos correctos os estados tenham também outros motivos. Por exemplo, a rapidez com que os Estados Unidos responderam à invasão do Kuwait pelo Iraque na primeira Guerra do Golfo foi determinada pela vontade de responder a uma violação dos direitos básicos do Kuwait ou de aceder mais facilmente ao petróleo do Golfo? Seja como for, uma guerra não pode ser considerada justa se o interesse nacional supera a intenção de combater uma agressão.

3. Autoridade apropriada e declaração pública. Para que uma guerra seja justa, a decisão de um estado de entrar em guerra deve ser tomada pelas autoridades competentes, de acordo com as leis desse estado, e dada a conhecer aos seus cidadãos e ao estado inimigo. O ataque de surpresa japonês a Pearl Harbour, que deu origem ao envolvimento americano no teatro de operações do Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, violou esta regra.

4. Último recurso. Um estado tem legitimidade para fazer a guerra apenas se essa for a única forma de resolver o conflito, isto é, se tiver esgotado todas as alternativas pacíficas ao seu alcance. Apesar de imensamente criticados, os esforços do primeiro-ministro inglês, Neville Chamberlain para obter uma paz negociada com Hitler podem ser vistos em parte como uma tentativa de cumprir esta regra.

5. Probabilidade de sucesso. Um estado só pode fazer a guerra se for provável que dessa forma consiga resolver a situação. O objectivo desta regra é impedir a violência gratuita e a perda injustificada de vidas humanas. Durante a Segunda Guerra Mundial, os dirigentes checos, temendo que a força aérea alemã bombardeasse Praga, preferiram submete-se ao domínio nazi a envolver-se num conflito armado que sabiam que não tinham a mínima hipótese de vencer.

6. Proporcionalidade. Antes de iniciar a guerra, um estado deve comparar os benefícios que espera que resultem dela com os malefícios. Só se os benefícios para todas as partes envolvidas justificarem os custos, é que um estado deve travar a guerra. A guerra de Israel contra o Líbano, que, em 2006, provocou a destruição do sul daquele país, constituiu uma violação desta regra se, como alguns afirmam, foi uma resposta ao rapto de dois soldados israelitas pelo Hezbollah.

Para que uma guerra seja justificada estas seis condições têm de ser todas cumpridas. De notar que as primeiras três regras são regras deontologistas e constituem, portanto, aquilo a que podemos chamar deveres, ao passo que as últimas três são regras consequencialistas, uma vez que tratam das consequências que se espera que resultem da guerra.

jus in bello

O jus in bello respeita à justiça na guerra, àquilo que é permitido fazer na guerra. A responsabilidade pelo cumprimento das regras do jus in bello recai principalmente naqueles que formulam e executam a estratégia de guerra, isto é, os militares. Quando algumas dessas regras é violada, os responsáveis pela violação podem ser julgados por crimes de guerra, seja por tribunais nacionais seja, desde 1 de Julho de 2002, pelo Tribunal Penal Internacional, um tribunal da ONU criado para julgar este tipo de crimes. Um exemplo claro de violação das regras do jus in bello foi a tortura de prisioneiros iraquianos por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, em 2003. Um exemplo mais antigo, mas igualmente famoso pela sua barbárie, foi o massacre de My Lai, em que cerca de 500 camponeses vietnamitas indefesos foram mortos por soldados americanos, durante a guerra do Vietname. As regras do jus in bello são as seguintes:

1. Obedecer a todas as leis internacionais sobre armas proibidas. As armas químicas e biológicas são proibidas por muitos tratados internacionais. Embora não existam exemplos recentes da sua utilização em guerras entre estados, as armas químicas foram insistentemente usadas durante a Primeira Guerra Mundial e suspeita-se que alguns países, apesar dos tratados internacionais, continuam a desenvolvê-las. Recorde-se que a suspeita de estar a desenvolver armas deste tipo foi um dos motivos mais alegados pelos Estados Unidos para atacarem o Iraque. As armas nucleares, embora não sejam banidas por tratados internacionais (há tratados que limitam o seu desenvolvimento e número, mas não a sua utilização), são largamente condenadas e a sua utilização em Hiroshima e Nagasaki pelos americanos na Segunda Guerra Mundial sobre populações civis é ainda hoje largamente criticada.

2. Discriminação e imunidade dos não combatentes. Só aqueles que participam no esforço de guerra do inimigo, seja directamente como militares seja indirectamente trabalhando nas infra-estruturas que contribuem para esse esforço, são alvos legítimos na guerra. Por conseguinte, deve-se distinguir a população civil, que, embora possa — como é normal — apoiar os dirigentes e as forças armadas do seu país, não constitui um alvo legítimo, dos alvos militares, políticos e industriais que são objectivos legítimos. A população civil nunca pode ser um alvo intencional na guerra, embora seja admissível — e até de esperar, dada a natureza de conflito violento da guerra —, que ocorra a morte acidental de civis. Exemplos de desrespeito por esta regra são, primeiro, o bombardeamento, pela Alemanha, da cidade de Londres, e, mais tarde, o bombardeamento de Dresden e outras cidades alemãs pela aviação aliada, durante a Segunda Guerra Mundial.

3. Proporcionalidade. Os exércitos devem usar uma força proporcional ao fim que visam atingir. Isto exclui imediatamente a utilização de armas de destruição massiva, mas aplica-se também à utilização de armas mais convencionais e visa impedir a ocorrência de carnificinas. Sempre que, por exemplo, o exército israelita, para eliminar um terrorista palestiniano, utiliza uma força de fogo tal que destrói um prédio onde vivem mais vinte pessoas e as mata, está a usar uma força desproporcionada e a violar esta regra.

4. Prisão benévola para os prisioneiros de guerra. Se os soldados inimigos se rendem e se tornam prisioneiros, deixam de ser uma ameaça. Por esse motivo, é errado matá-los, torturá-los ou maltratá-los de qualquer outra forma. Eles devem ser tratados de acordo com o estabelecido pelas Convenções de Genebra. Uma questão que tem gerado grande controvérsia é a de saber se os terroristas detidos pelos Estados Unidos em Guantánamo e noutros pontos do globo devem ser tratados como prisioneiros de guerra, isto é, de acordo com as Convenções de Genebra.

5. Não se pode utilizar meios que são maus em si mesmos. Os exércitos não devem recorrer a armas ou métodos que são «maus em si mesmos», como violações em massa, genocídios, limpezas étnicas ou armas cujos efeitos não podem ser controlados, como as armas biológicas. As limpezas étnicas na ex-Jugoslávia e no Ruanda, na década de noventa do século passado, são bons exemplos de violação desta regra.

6. As represálias são proibidas. Ocorre uma represália quando um estado viola as regras do jus in bello e o outro estado responde violando também as regras do jus in bello. Há boas razões para acreditar que as represálias só servem para aumentar a morte e a destruição, sem qualquer influência na resolução do conflito. Na guerra entre israelitas e árabes, as represálias são frequentes levando normalmente a novas e indiscriminadas represálias, cujas consequências são sobretudo suportadas pela população civil.

A maior parte dos especialistas pensa que as regras do jus ad bellum e do jus in bello não têm qualquer relação. Uma consequência interessante desta ideia é que um estado pode combater justamente uma guerra injusta (isto é, para a qual não tem causa justa) ou, inversamente, combater de forma injusta (violando as regras do jus in bello) uma guerra justa.

jus post bellum

O jus post bellum refere-se à justiça durante a fase final da guerra, quando esta está já decidida e as operações bélicas propriamente ditas estão a terminar ou já terminaram. Basicamente, trata-se de saber o que fazer uma vez ganha a guerra. Certos autores têm vindo a defender que a teoria da guerra justa, que tem sido tão eficaz a estabelecer as normas para as fases anteriores da guerra, deve fazê-lo também para esta última fase. Esta é, no entanto, a parte da teoria a que até agora foi dada menos atenção e, por isso, não há para ela, como para as anteriores, um conjunto definido de regras aceite por todos os teóricos (na verdade, alguns teóricos ignoram mesmo completamente o jus post bellum). Algumas ideias importantes têm, no entanto, sido propostas:

1. Castigo. Se o estado derrotado violou sistematicamente os direitos básicos dos outros estados, os seus responsáveis devem ser julgados por tribunais internacionais para crimes de guerra, como o Tribunal Penal Internacional. O mesmo deve acontecer aos soldados de ambas as partes, se cometeram crimes durante a guerra.

2. Compensação. O estado agredido deve ser compensado financeiramente pelos danos causados, dentro de limites que evitem condenar o estado agressor à pobreza.

3. Reabilitação. Nos casos em que isso se justifica, as instituições políticas do estado agressor devem ser mudadas. As medidas podem consistir na reforma do sistema judicial e policial, na desmilitarização e no desarmamento desse estado, (como aconteceu com a Alemanha e o Japão, na Segunda Guerra Mundial), e até, como está agora a acontecer no Afeganistão e no Iraque, na tentativa de instaurar regimes democráticos, que respeitam os tratados e as convenções internacionais.

A teoria da guerra justa não é uma teoria que vise justificar ou impedir a guerra quaisquer que sejam as circunstâncias. Ela não é um cheque em branco nem um cartão vermelho. A teoria da guerra justa é antes um instrumento que permite aos decisores políticos e àqueles que têm a responsabilidade de conduzir a guerra tomar decisões de acordo com um conjunto de regras que visam garantir a correcção dessas decisões, ao mesmo tempo que permite aos cidadãos em geral apreciar a correcção das decisões tomadas. Num mundo em que as guerras são uma presença constante, é preferível ter algumas regras que permitam determinar quando a guerra é ou não justificada a não ter quaisquer regras, como resulta do pacifismo e do realismo e, na prática, dar completa liberdade aos decisores políticos e aos exércitos no terreno para agirem como muito bem entenderem. Afinal, nem o realismo nem o pacifismo permitem justificar e explicar a condenação geral dos acontecimentos da prisão de Abu Ghraib.

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto, estou apenas a responder à primeira das respostas que me deixou, as outras pela sua extensão merecem leitura atenta, pelo que deixarei para amanhã.


Seja como for, e fiz esta descoberta há pouco, o que me diz desta: os EUA criaram a Al-Qaeda para combater a URSS no Afeganistão e Israel, pela Mossad, patrocinou e incentivou a criação do HAMAS para combater a OLP/Fatah; e esta?


-Não será exactamente toda a verdade, mas não andará muito longe, os EUA na realidade financiaram Bin Laden que criou a Al-Qaeda, visando agrupar grupos tribais dispersos no Afeganistão. Depois a Al-Qaeda mudou de objectivos, obtendo outros financiamentos. A história do Hamas tem algumas semelhanças ao que já li, mais tarde foi recriada pelo Irão, com o objectivo de funcionar conjuntamente com o Hezbollah sobre Israel, observando o mapa da região percebe-se claramente a estratégia. Mas são hoje organizações totalmente diferentes das que foram criadas, por oposição a Fatah deixou o terrorismo. Quanto ao texto de Álvaro Nunes, brilhante, mas pouco desenvolvido. Não se aplicando a convenção de Genebra ao Hamas, poderiam estes voluntariamente praticá-la se reivindicassem para si o estatuto de exército, mesmo que de libertação, se de facto procurassem obter um reconhecimento que não lhes interessa, não é o que os move.

o que me vier à real gana disse...

Boa noite, amigo Ferreira Pinto!

É clichê: a culpa nunca mora só num lado!... É sim, agora atentemos sempre é nas doses! Isso parece passar ao lado dos decisores, nas questões do Médio Oriente. Isso, isso das doses, é-lhes despiciendo.
Então agora bombardeia-se, impunemente, uma Escola... que, ainda por cima, ostentava a Bandeira da ONU. Ai ONU!!! Há k repensar-te!

Abraço