Será preciso ter fé?

Numa entrevista dada ao "Público" na sexta-feira passada, Joe Berardo diz: "Há tanta gente que pergunta: queres vender a posição na Zon? E eu pergunto: quem és tu? E ele diz quem é. Mas isso não significa nada para mim. É necessário que digam de quem parte a proposta. E que o façam por escrito. "

Ora bem, já dizia o povo que mais vale prevenir do que remediar e além de que existe ainda aquele outro ditado que diz que ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão... Não que o Joe seja ladrão, ou que o estejam a tentar roubar com ele a ver, não... nada disso.

Mas vem esta posta a respeito dessa tão bela tradição portuguesa - a palavra de honra.
É claro que esta tradição já não existe e todos sabem que a tradição já não é o que era, nem sequer era preciso o "Johnny Walker" a avisar-nos.
Palavra de honra é coisa que já não existe e portanto, nos dias que correm, empresário que se preze tem mais é de ter tudo escrito, preto no branco, com honras de carimbo e selo branco, só por coisas.

Dir-me-ão que ando azeda e com os azeites e dir-vos-ei que ando mesmo é virada do avesso.
Querer ter uma empresa bem organizada e com tudo legal, é muito bonito e está muito certo. Fazer cumprir a lei dentro da nossa casa, prezar a ordem e pagar os impostos é também muito nobre e pagar a fornecedores a tempo e horas, cumprir com as nossas obrigações perante os clientes para que nos voltem a visitar também está muito certo...
Mas acontece que o bonito, o certo e o legal também começam a ter os dias contados.

Já não é bonito confiar-se na palavra dada e não é certo que o acordo tácito seja cumprido, muito menos é legal acertar verbalmente um trabalho, porque se sabe de antemão que não será pago.
Ora bem, o azedume vem todo a respeito das relações empresariais que se estabelecem hoje no nosso tecido económico. Sendo eu própria empresária com várias obrigações para com empregados, clientes e fornecedores, sou assaltada pelas dúvidas colocadas a qualquer empresário português - como pagar as dívidas e sair com algum lucro para reinvestir no fim do exercício?

Por estes dias, a questão ainda tem sido mais premente, porque a par da crise, existem alguns empresários de meia tigela, que aproveitando-se do semi-caos instalado, se põem ao fresco com o dinheiro que devem a todos.
Resultado: milhões de euros de prejuizo, desconfiança e descrença... o que provoca uma notável quebra nas relações comerciais que deviam ser fluidas e sem demasiadas burocracias.
Papéis para acertar obras, assinaturas para adjudicar, papeis para facturar, assinaturas para cobrar e o simplex que se queria para o Estado, começa a tardar para o tecido empresarial.

E com tudo isto, nem sequer a ginástica orçamental que se vai fazendo todos os dias, é suficiente para cumprir com a obrigação fundamental para qualquer empresa, seja ela grande, média ou pequena - a motivação dos recursos humanos.
Haja alguém que me dê uma luz!

9 comentarios:

indomável disse...

Aproveito a luz do dia, para esclarecer um ponto - quando falo em simplex, fluidez nas trocas comerciais, não me refiro ao neo-liberalismo que grassou nos EUA até ao ponto em que estamos. Refiro-me, isso sim, a relações comerciais onde não tem de se ter um papel para cada passo que se dá, desde o momento em que se orçamenta até ao momento em que se cobra, incluindo papeis para alterações concertadas com cada um dos engenheiros, clientes, fiscais, varredores de ruas, peixeiras e toda e qualquer pessoa que tenha uma opinião a respeito!

Sim, estou mais ou menos zangada, porque o Estado exigir papelada para se organizar é uma coisa, agora, quando um cliente nos exige um papel quando é para pagar, depois de nos mandar avançar com a obra sem querer assinar qualquer papel... isso já é má fé!

pedro oliveira disse...

O mais engraçado, que não tem graça nenhuma, é quando se assina um contrato e alguém diz, bem isto é só uma formalidade, pois se algum de nós não cumprir o contrato já sabemos que não acontece nada.

PO
vilaforte

AP disse...

A burocracia em Portugal tem o efeito contrário, pois serve apenas para desresponsabilizar.
Em caso de incumprimento são tantas as papeladas, as assinaturas e as clausulas que nunca se consegue encontrar o responsável pelo erro ou falha. Ou alguém dúvida que se houvesse menos burocracia seria muito mais fácil apontar responsáveis e culpados? Mas isso não interessa.
(Refiro-me ao Estado, é claro!)
Agora no caso dos particulares, como refere a Indomável, já se trata de má fé.

Ferreira-Pinto disse...

O Joe até tem razão, embora quem o ouvir falar até pareça ser o tipo mais “honest” do mundo!
Logo ele que arrotava por aí postas de pescada, e a quem a nossa sempre generosa Comunicação Social tão depressa deu colo como é bem capaz, descoberto agora o mar encapelado de dívidas e falta de liquidez financeira em que navega, de o trucidar!

Mas ele lá na participação social da ZON até deve saber do que fala, pois muito negócio neste País se faz através de convenientes testas de ferro que dão a cara e recebem uma migalha em negócios de milhões ou de tostões e muitos a cheirar à mais pura das vigarices!

Deixado o Joe, vamos à empresa.
Eu acho que a perspectiva que defendes é a correcta e a única eticamente aceitável.

Já sei que haverá quem defenda como receituário que esse teu desejo passa por reduzir impostos, o Estado sair da economia, pagar a tempo e horas e coisas assim, esquecendo convenientemente outra vertente do problema e que aqui afloras: a da concorrência desleal motivada pela ganância, falta de escrúpulos e de honestidade!

E cuidado que eu estou a ser generoso, pois podia antes dizer vigarice, burla, esperteza saloia e filha da …!

Eu aqui na minha terra conheço alguns assim e um, ao que se sopra, só o FURACÃO levou-lhe 3.500.000,00€! Leram bem e não há dúvida.
Se isto não tem nome, então não sei que diga.

O mesmo para aqueles que não pagando a fornecedores, aos trabalhadores, à Segurança Social e ao Fisco vendem a baixo custo, competindo deslealmente com empresários do mesmo ramo.

Outro tanto para os que entre pagar a Segurança Social ou comprar o último modelo da Audi, BMW, Mercedes e por agora Jaguar, optam pelo carro!
Ou que sebosamente recusam aumentar em 50,00€ um empregado, mas não se importam de estourar 5.000,00 num relógio embora os calotes sejam mais que as mães.

E estes, tenham paciência, não é o Estado quem os afoga!

Aliás, pelos dias que correm assistimos aos estados e governos a deitarem generosas maquias para os cofres da banca e dos grandes grupos económicos e estes, gulosos, a dizerem que não chega e a despedirem aos milhares. Assim por alto, só hoje soube que a IBM são 2.000, a Pfeizer à volta de 17.000, a Caterpillar 20.000 e por aí fora.
Ora, digo eu, que se é para esta merda, então mais vale deixar ir tudo à falência e em vez de engordar as vacas de sempre, pagar subsídio de desemprego!

indomável disse...

Pois bem,

O que vos digo é o seguinte, com esta história da crise, o que mais tenho visto ultimamente e sentido na pele, são clientes que se passeiam pela rua de porsche e mercedes topo de gama e depois quando é para pagar a história é sempre a mesma - ah e tal, a coisa está mal, também não nos pagam, estamos à espera de uns pagamentos... Um dos tais, resolveu que a vida estava tão má, que colocou tudo o que tinha no nome de uma amante brasileira, incluindo o porsche e pegou nela, nas malas e mudou-se para parte incerta, deixando-me a arder em 10 000 euros. Por acaso não é nenhuma fortuna, se pensarmos numa empresa grande. Mas se pensarmos que a minha é uma micro-empresa, onde todo o dinheiro é contabilizado para não faltar ao pessoal que trabalha e que não tem a culpa destes ursos que só querem é governar-se... Dá que pensar, não é?

António de Almeida disse...

Poderia não ser a solução milagrosa para todos os problemas, mas a dedução dos custos após recibo, e não apenas após factura, e não me refiro apenas ao IVA, mas a todo o resultado de gestão empresarial, poderia bem ser uma contriuição para a diminuição da praga que representam os maus pagadores, pois sem recibo para deduzirem nas receitas, ficariam sujeitos a uma fiscalidade que não desejariam. Claro que a diminuição de impostos, em particular da TSU também seriam factores positivos, aliás o valor da TSU é uma obscenidade, um verdadeiro incentivo ao trabalho clandestino.

Ferreira-Pinto disse...

Pois é, minha cara INDOMÁVEL, como vês a esse custou-lhe pagar-te o que te devia e tu, se quiseres demonstrar a fraude, ainda tens de provar que o "camarada" usou uma testa de ferro ...

O António de Almeida propõe uma alteração no regime de dedução de custos e uma baixa da Taxa Social Única, apodando o valor da mesma de obsceno, mas sobre esta parte do problema nada disse!

Pois bem, eu proporia que a "camaradas" como o que te ludibirou a ti fosse decretada prisão imediata e apreensão/arresto de todo o património que tivesse ou que num período estimado entre meio a um ano antes da vigarice estivesse em seu nome ou associado a si e viesse a ser descoberto!
É que cheio de tipos que hoje abrem falência para amanhã abrirem no mesmo local, com o mesmo equipamento e tudo está Portugal cheio.
E estes, creio, até o António gostaria de ver atrás das grades!

António de Almeida disse...

Caro Ferreira-Pinto
-Optei por fugir ao caso concreto, ficando-me pelas generalidades, mas é óbvio que defendo uma Justiça mais célere e eficaz, por mim substituia amanhã todo o nosso edifício judicial pela melhor tradição anglo-saxónica. Vai uma aposta que Madoff terá o julgamento terminado antes de começado o de Oliveira e Costa?

Ferreira-Pinto disse...

António de Almeida, só se for a um copito ou dois de bom uísque ... sempre damos duas de prosa!