A Pátria envergonhada!

O tempo não é muito nesta semana para escrever, mas para além disso o tema tratado por Mário Crespo toca-me particularmente, como também a alguns leitores deste espaço e no fundo a todos em geral.

Ao fim de 35 anos que saí da Guiné, ainda vêm ex-soldados que estiveram comigo na guerra, pedir-me para ser testemunha em processos intermináveis, que tem quanto a mim o fim último de tentar não pagar uns miseráveis subsídios ou tratamentos a quem gastou a vida psíquica e física ao serviço de Portugal.




Baixas em combate
Edição de 22.12.2008 do J.N

"Foi notável o apelo que o presidente da República se sentiu obrigado a fazer ao Governo para que cumpra com as responsabilidades que o Estado tem com os que sofrem as consequências das guerras coloniais.
A assistência aos deficientes das Forças Armadas tem sido considerada questão menor. Sucessivos governos têm aguardado que o problema dos antigos combatentes em geral e dos deficientes em particular se resolva por si. Na realidade é isso que tem acontecido. A morte prematura resolve com arquivamentos definitivos, um a um, processos protelados em burocracias complicativas, diligentemente alinhavadas para satisfazer expectativas orçamentais. Têm-se inventado redefinições dos graus de invalidez. Reavaliado o que são situações de guerra e de combate. Tudo para conseguir roubar na assistência aos veteranos. Burocratas que não imaginam o que foram as décadas de desumanidade que gerações de jovens dos anos 60 tiveram que enfrentar decidem agora em termos de custo-benefício se vale a pena rubricar nos orçamentos as verbas necessárias, ou se é de aguardar mais uns anos até que os problemas naturalmente se apaguem. Não se trata só de acudir às deficiências fisicamente mais óbvias, que infelizmente têm sido descuradas ou insuficientemente assistidas. Há graves consequências clínicas da guerra que estão a ser mantidas discretamente afastadas do foco mediático. O elevado número de antigos combatentes que padece hoje de uma forma particularmente virulenta de Hepatite C é uma dessas situações. São as vítimas directas das vacinações em massa sem seringas descartáveis, que eram norma nas Forças Armadas até bem dentro da década de 70. Centenas de milhar de jovens foram injectados nas piores condições sanitárias possíveis. Era usada a mesma seringa colossal de uns para os outros. Apenas substituíam as agulhas que depois de fervidas voltavam a ser reutilizadas. As hipóteses de contágio eram máximas. A Hepatite C é assintomática durante dezenas de anos até os danos no fígado serem irreversíveis e, numa alta percentagem, fatais. Nunca houve um programa de rastreio sistemático dos antigos combatentes. Mas já houve muitas mortes. Sei de várias e de casos em que, face a diagnósticos positivos em militares de carreira, não foram recomendadas medidas terapêuticas no próprio Hospital Militar. Porquê? Pode haver várias respostas. Que o tratamento é difícil e muito penoso. Que pode ser falível. Tudo verdade, como também é verdade que a despistagem e o tratamento são caríssimos e seria impensável nos actuais orçamentos da defesa torná-los extensivos aos sobreviventes da guerra colonial. Este é só um exemplo de consequências ignoradas da guerra que são responsabilidade do Estado. Haverá milhares de vítimas mortais se se mantiver a ligeireza fútil e desumana como o problema tem sido encarado em democracia. Atitude que em nada se distingue da bestialidade com que, em ditadura, se enviaram gerações sucessivas de jovens para conflitos absurdos. Um pormenor mais. O mesmo governo que disponibiliza verbas significativas para assistir drogados contaminados em trocas de seringas descartáveis, já pagas pelo Estado, não considera prioritário destinar pelo menos o mesmo montante para assistir em hospitais militares antigos combatentes que padecem dos males que involuntariamente contraíram, sem se drogarem".

7 comentarios:

salvoconduto disse...

"Corrijo" Mário Crespo, muitos tiveram que se "drogar" para suportarem esses males.

o que me vier à real gana disse...

Boa noite!

Lamentável o k têm feito com esse pessoal!
Serviço Público, o k aqui prestou!

Ferreira-Pinto disse...

Gostaria de afirmar e deixar bem claro que, apesar da minha experiência militar se ter circunscrito à breve passagem pelo CSP e depois pelo DRM para levantar a caderneta militar, e isto, porque segundo um sargento (acho eu) que lá estava e me entregou o documento, "para o que você para cá vem fazer, já cá nós temos muitos", dizia, apesar disso, tenho o maior respeito pela instituição Forças Armadas.
Embora não lhe conheça nem os meandros, nem saiba distinguir um coronel dum tenente!

Quero com isto dizer que o Estado devia, de facto, cuidar daqueles que serviram a Nação nos tempos da dita Guerra do Ultramar.
Mas, e é esta a minha perspectiva, esse cuidar passaria pelos que realmente precisam e não pela universalidade pois, como em tudo, há quem tenha vindo sem sequelas e não necessite de qualquer apoio. Médico, psicológico ou financeiro.

Honrar os mortos e tratar dos feridos, seja físicos ou da alma, não significaria que nos caíriam os parentes na lama!

Contudo, a partir do texto do Mário Crespo, não posso deixar de notar ou levantar uma dúvida ... o apelo feito ao Governo é notável, porquê?
Friso que estou a perguntar com a maior das sinceridades pois penso que desde 1974 nenhum Governo tratou seriamente desta questão. Ou estou equivocado?

Finalizo realçando que entendo que Portugal ainda precisa de exorcizar alguns fantasmas e precisa de abordar sem complexos alguns o que se passou na Guerra. Afinal, foi uma página da História onde existiram heróis, cobardes, vilões, camaradas ... e sangue!
Nesse pormenor, devíamos aprender com os EUA; até na Sétima Arte isso se vê, pois enquanto eles tiveram os seus "Platoon", "Apocalypse Now", "Born to Kill" (para mim excelentes abordagens à guerra do Vietname) e, porque não, os seus Rambos e aquele tipo de que o Bush gosta e agora não me lembra o nome, nós tivemos o quê? Umas coisitas ...

António de Almeida disse...

-Justiça lhe seja feita, Paulo Portas foi até hoje o único governante que vi interessado nos problemas dos ex-combatentes. Pelas melhores razões ou pura demagogia, tal é inquestionável, os outros nem isso, da esquerda à direita. Um Estado que não honra os que o serviram, muitos com a maior abnegação, pagando o sacrifício supremo, não é um Estado pessoa de bem, mas uma república de bandalhos e bananas. Serve para todos quantos nos governaram desde a abrilada de 1974.

Compadre Alentejano disse...

Portugal nunca soube honrar os compromissos que tinha para com os seus militares, especialmente, os que lutaram nas guerras de África.
Quando digo Portugal, estou a referir os governantes portugueses pós 25 de Abril.
O único que ainda fez alguma coisa, foi Paulo Portas. Bem haja!
Este Sócrates apenas tem cortado as poucas regalias que ainda tinham, como a assistência médica.
Espero que, nas eleições que se aproximam, as vítimas saibam retribuir da mesma moeda...
Compadre Alentejano

Adoa disse...

Se eu mandasse, fazia com que Portugal fosse demolido e construiria tudo de novo. Com pés e cabeca. A reciclagem já näo chegaria...

Peter disse...

Os meus parabéns por teres abordado um "problema maldito".
Destaco o último parágrafo, assim como destaco a atitude de Paulo Portas.