O teatro da governação

Quando hoje de manhã pensava no texto que havia de escrever para cumprir o meu compromisso, perante os leitores e colegas de escrita deste espaço, veio ao meu pensamento o seguinte ditado: "Quem semeia ventos, colhe tempestades."
Fiquei a pensar o que me quereria dizer tal provérbio no contexto da actual situação de Portugal e assim aqui deixo as minhas cogitações.

Sente-se a sociedade portuguesa, para além de desanimada, irritada, conflituosa, em permanente confronto uns com os outros pelas razões mais espúrias, e descrente, claro está. Costuma dizer-se que os exemplos vêm de cima e então pensei um pouco no modo como temos sido governados. Este é um Governo que tem governado no permanente confronto, na arrogância, na falta de sentido de Estado no que ele representa de servir o povo, na pesporrência como responde normalmente à oposição, nas atitudes de falta de unidade e até lealdade entre as instituições mais importantes da Nação.
Este modo de agir e de actuar tem, quanto a mim, muito a ver com falta de preparação profissional e política para governar, e cheira a actuação de “chico-esperto”, ou seja, como não domino bem os assuntos, como não sei bem que volta lhes hei-de dar, vou fazendo umas medidas avulsas (que parecem reformas), vou-me servindo de tudo e de todos, com distribuição de benesses ou “avisos”, vou partindo para o confronto que sempre distrai da incompetência, vou criando ilusões, dizendo “inverdades”, e no diálogo sou sempre agressivo ou utilizo um humor de caserna, grosseiro, desviando assim a atenção das pessoas, do que é mais importante.

Mas este modo de agir e de actuar, transmite-se obviamente a todos os outros intervenientes na vida da Nação, e assim temos também uma oposição truculenta, que se agarra aos detalhes em vez de criar alternativas, que perante a falta de acordos, mesmo pontuais, parte para a assunção de que tudo o governo faz está mal feito, e que ela própria se vai atacando e minando a si própria por dentro, imitando o partido do governo.
Por outro lado, os governados (mas pouco) reflectem também este estado de espírito, e as relações entre as pessoas extremam-se e partem para o confronto e para a violência com incrível facilidade e como atrás dizia, por razões que nem sequer são razão, a maior parte das vezes.

Mas há mais, pois não há dúvidas, parece-me a mim, que este afrontar do Presidente da República foi uma tentativa nítida de tentar que o mesmo dissolvesse a Assembleia da República, (basta ler as mensagens do Presidente para se perceber como esteve perto este cenário), para num teatro de vitimização tentar alcançar nova maioria em eleições que seriam convocadas.
E quando recebem avisos mais ou menos perigosos, como receberam das Forças Armadas, correm a concertar os erros, para pacificado esse sector, poderem continuar o afrontamento noutras frentes.

Ou seja, governa-se representado, em teatro permanente, ou como disse o Presidente da República, em ilusão. Governa-se pelo poder e não pelo interesse superior de Portugal, ou muito melhor dizendo, dos portugueses.
A continuarmos assim, e não descortino qualquer sinal de mudança, porque a autoridade e firmeza é confundida com pura e simples teimosia, caminhamos para o impensável, ou seja, uma revolta dos governados, (olhemos para a Grécia), que pode ser mais ou menos violenta conforme o estado de saturação a que o povo se deixe chegar.
Por isso mesmo termino estas mal alinhavadas letras com outro ditado: "Quem com ferros mata, com ferros morre".

6 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

O texto em apreço merece-me algumas reflexões adicionais.

É dito que a sociedade se sente, a uma só vez, "desanimada, irritada, conflituosa, em permanente confronto uns com os outros pelas razões mais espúrias, e descrente".

Concordo integralmente com o que é dito mas já não, embora também não saiba se é esse o sentido que se quer dar, quando se aponta para o facto de aparentemente tal decorrer do topo, das instituições.

Não é de hoje este individualismo assente numa ostentação materialista e numa falta de civismo e de valores atroz. Não. Isso está-nos na massa e tem, quando muito, sido agravado por uma aparente, mas não mais que isso, opulência e riqueza.
Não somos ricos, mas vivemos como tal …

A nossa ausência de consciência social e até de colectivo afiro-a pelo dito “vê-se logo que é português” que um português costuma dizer quando vê outra a fazer grossa asneira.
Reparem, por favor. Um, o que vê e comenta, é português nas vê-se a si próprio como uma casta superior, até como um estrangeiro sendo o outro o quadrúpede!

E enquanto isto durar, lamento dizê-lo não há instituição ou governante que nos valha ou que mude isto. Pois, também se vê logo que são portugueses.

Quanto aos comentários aduzidos em relação ao Governo subscrevo-os quase na íntegra e, curiosamente, vendo-os e lendo-os quase que me revejo nos tempos em que o PSD era senhor absoluto por obra e graça do seu menino de ouro, hoje Presidente da República.
Confronto? Leiam-se as crónicas da época para se ver como era.
Arrogância? Leiam-se as notícias da época e veja-se como era. Nesse mister Mira Amaral e Valente Oliveira eram dois exemplos acabados dessa qualidade.
Falta de sentido de Estado no que ele representa de servir o povo? Cavaco foi acusado, e na minha opinião justamente, de ser demasiado tecnocrata e pouco sensível às questões sociais.
Aliás, foi por aí que Mário Soares lhe topou o buraco pelo qual havia de cavar …
Pesporrência como responde normalmente à oposição? Ora deixa-me ver … Guilherme Silva, Jaime Ramos e mais alguns delfins que medraram à sombra do cavaquismo …
Falta de unidade e até lealdade entre as instituições mais importantes da Nação?
Veja-se o que os autarcas diziam na altura …

Daí que seja legítimo que quem votou neste PS se sinta defraudado. Pessoalmente sinto-me defraudado neste domínio, pois recordo que o combate contra a hegemonia do PSD passou muito por aqui e porque muitas das reformas efectuadas não são mais que continuação de políticas anteriores.

Aliás, Cavaco Silva foi claro ao dizer que o País se afasta da média da União Europeia há oito anos. E, lamento ter de o dizer, Sócrates não está no poder há oito anos. Antes dele estiveram lá o hoje Presidente da Comissão Europeia devidamente acolitado pela hoje dirigente do PSD e que, por exemplo, porque é bom que haja memória, vendeu créditos a um banco estrangeiro deixando aos vindouros o dever de pagar não só esse empréstimo, mas ainda o que daqueles créditos (alguns incertos) se não cobrar.

Falta de preparação profissional e política para governar?
Por aí dou de barato pois tem sido essa a prática da casa. Recorrente, aliás.
Neste País, por exemplo, nunca ninguém se perguntou porque é que sendo Ferreira do Amaral um génio das obras públicas o IP5 e o IP4 tenham os traçados que têm sem que nunca ninguém tenha sido responsabilizado?
Ou que a Linha do Norte seja o sorvedouro de dinheiros públicos que é?
Tenho para mim que somos um País de recursos escassos e onde as obras públicas deviam ser feitas de uma só vez e em condições.

Ora, e como bem diz o Lusitano isto é tudo massa do mesmo fermento, pão da mesma massa embora haja sempre umas naturais diferenças e umas cosméticas inovadoras.

Veja-se justamente o Presidente da República que hoje se comove com os deserdados da fortuna e antes fazia de conta que no Vale do Ave e em Setúbal não havia fome, tendo tido até o seu Manuel Pinho em forma de Braga de Macedo que anunciava o oásis quando todos víamos o deserto.

Fosse Portugal um País a sério e há muito que teríamos todos unido esforços no sentido de levar esta choldra a algum lado.

Agora, quando se vê cavalheiros para quem menos de 500,00€ por mês são salário mais que suficiente para um pai de família prover ao sustento do seu agregado familiar, mas não se ensaiam nada em estourar 50.000,00€ por ano num carro novo, estamos conversados. Claro está que haverá quem me diga que é com o dinheiro deles e eu respondo que é mentira pois ou é com dinheiro emprestado (mais endividamento externo) ou com dinheiro meu como bem o demonstrou a Operação Furacão e outras mais se elas existissem!

Mas também quando se vê o tal assalariado estourar não sei quanto por mês para poder ir assistir aos jogos do seu clube … então não sei que diga!

lusitano disse...

Meu caro Ferreira Pinto

De acordo com o teu comentário embora haja uma diferença de estilo, de palavra, entre Cavaco Silva nos seus anos e Sócrates agora, mas que julgo sai de um aquestão de educação.

Quando assacava responsabilidades aos governantes por este modo de ser, de viver dos portugueses, era precisamente porque, sendo eles governantes e deviam ser exemplo, (deixa-me rir), mas ao contrário portam-se ainda pior do que o povo, tratando-se grosseiramente uns aos outros, enganando-se uns aos outros, teatrializando tudo e todos, e passando por cima de tudo para atingir os seus fins.

Se o povo português não tem, (concordo contigo), consciência social, nem colectiva, nunca virá a ter precisamente porque aqueles que deveriam dar o exemplo se dedicam ao indidualismo, ao engano, á ilusão, para levarem a água aos seu moinho, ou seja, para agarrarem ou manterem o poder.

Quanto à preparação profissional e política basta ver quem nestes últimos 10 anos, por exemplo, esteve à frente do governo, (e ministros também), que trabalharam nalguma empresa, nalgum lado, mesmo o estado, ou seja, trabalharam a "sério".

Os "saídos" do 25 de Abril ainda eram gente que tinha trabalhado, ganhado a vida trabalhando.
A maior parte destes saem das "escolas" de politica dos partidos que convenhamos, não são escolas que ensinem valores verdadeiros.

Abraço.

DANTE disse...

"Governa-se pelo poder e não pelo interesse superior de Portugal, ou muito melhor dizendo, dos portugueses."

Confesso que li o texto atentamente.
Confesso também que não sou muito entendido nas questões políticas , mas , depois de ler este parágrafo do qual fiz copy/paste e peço já desculpa por o ter feito sem autorização do autor , pus-me a pensar...realmente deveria de ser tal como está escrito mas , a União Europeia não existe exactamente para pôr interesses nacionais de parte?
Cheguei á conclusão de que a Europa está num regime de ditadura.Até posso (e espero) estar errado.
"E esta hein?"

Um abraço

Ferreira-Pinto disse...

LUSITANO de acordo no essencial, meu caro.
Tomei agora conhecimento que parece que temos por aí dois ex-administradores da CGD reformados por invalidez naquela, mas a trabalharem noutras instituições financeiras!

Ora cá, com exemplos destes como raio posso eu condenar aqui o vizinho do lado a receber fundo de desemprego mas a fazer uns biscates na construção civil e a receber em notas?

No mais, a Cavaco Silva tenho de respeitar a honorabilidade e o saber quanto custa a vida; o outro, José Sócrates, nesse aspecto é um menino bem a quem nunca nada custou!

E como ele, muitos.

Compadre Alentejano disse...

Estou convencido que Sócrates lançou a casca de banana a Cavaco Silva. Este calendário eleitoral, como está, não agrada ao sr. Zé, de modo que, se houvesse dissolução da Assembleia da República o que iria provocar eleições legislativas antecipadas, seria uma boa oportunidade para o "engenheireiro" se armar em vítima e tentar nova maioria absoluta...
Mas saiu-lhe o tiro pela culatra, e ainda bem!
Um abraço
Compadre Alentejano

O Guardião disse...

O português é por natureza individualista, egoísta e foge da confusão sempre que pode. Isto de generalizar é perigoso, porque quando a situação aperta, quando o descontentamento aumenta, quando são muitos os que reclamam, também os mais medrosos (ou mais cautelosos"?"), se juntam às massas e multiplicam subitamente o ruído da fúria contra quem nos dirigiu para o buraco.
Cumps