A Igreja Homofóbica

Esperei que passassem as Festas para vir para aqui com este post que a mim, em particular, me fere imenso. Católica por convicção, praticante o quanto baste, mas sempre protestante no que a palavra significa de protesto, e, crendo, ademais, que a mutação do Cardeal Ratzinger para Papa Bento XVI ainda não se verificou, só posso lamentar e lastimar a mensagem pontifícia deste passado Natal. E esqueço-me de dizer que sou heterossexual, o que, para o que tenho a dizer, também conta.

Não percebi, e não quero perceber, as palavras homofóbicas do Papa. Sei que este "homofóbicas" é um vocábulo um tanto quanto duro para me referir ao Papa, figura terrena máxima da minha religião e a quem, supostamente, devo obediência. Pois, e para que conste, não mudo o vocábulo. Tenho vergonha de uma Igreja não inclusiva de todos os homens e mulheres. A espécie acabará por haver homossexualidade? Claro que não, como é óbvio. Mas o Papa não pensa assim. É desta maneira que a Igreja tenta congregar os fiéis e espalhar a Boa Nova? Bom trabalho, então: de afastamento de gente, de maior enraizamento da ideia de que a Igreja é retrógrada e ultra-conservadora, bem pensado, sim senhora. Aplaudo que se chegue por estas vias à comunidade crente e não-crente.

Concordo que um casamento canónico entre elementos do mesmo sexo não é coisa que reúna a minha anuência. Mas que diabo (ui, outro vocábulo maldito!), a comunhão de vida entre pessoas que se amam, sejam elas de que sexo forem, é algo para ser acarinhado, não ostracizado. Aliás, também nem nunca sequer ouvi a comunidade gay e lésbica reclamar o direito ao casamento religioso. Por isso, qual o propósito das palavras do Pontífice? Extemporâneas e totalmente desfazadas da realidade.

E já agora, se tanto estudo anda para aí a tentar provar o casamento carnal de Jesus, não me surpreenderia nada que um destes dias se começasse a polémica de que o Cristo tinha amigos gay como, aliás, acho que todos nós temos.
Bem... ele até há a teoria da Última Ceia de Da Vinci, não é? (Procurem pelo apóstolo efeminado... Mensagens subliminares, talvez, quem sabe...)

11 comentarios:

joshua disse...

Estava na hora de uma enorme corrente de ar que pegue Fogo, segundo o Espírito, ao acessório e ressalve o essencial: por exemplo, uma pastoral inclusiva, que eduque para a caridade incondicional; uma que dê o exemplo contra qualquer estigma sobre um modelo de amor excêntrico em relação ao veio criacional reprodutivo do amor heterossexual, mas que é amor em todo o caso, é preciso dizê-lo.

A fome desesperadora de afecto(s) em muitos casos [que o diga o Magnífico e atormentado Pe. Henry Nouwen do ainda mais magnífico livro «O Regresso do Filho Pródigo», entre outros prodigiosos livros na óptica de uma espiritualidade para o nosso tempo] que redunda numa tendência de natureza homossexualizante em segunda mão, ou mesmo quando ela é se resolve por ser, por assim dizer, inata, foi e poderá continuar a ser, pelo olhar que lhe lança a Igreja e pelas portas que a Igreja lhe fecha, injusta cruz sobre gente fabulosa, que não merece outra coisa que o carinho e a integração plenos numa Igreja Calorosa e Acolhedora, tendo em conta a sua humanidade fundamental e a nossa geral contaminação original no pecado como estrutura, no pecado como processo e no pecado como caso face ao que os sacramentos nos robustecem, confrontam e recolocam.

Nada, nenhuma realidade humana!, é à prova de Cristo, que venceu a Morte e, portanto, também deve ter vencido a mesquinhez e, de longe, qualquer preconceito judaizante, qualquer crivo burocrático de gente a aceitar e a rejeitar, mas é todo compaixão.

Lembro-me de ter lido «Já não há judeu ou grego, homem ou mulher, escravo ou homem livre... e, já agora, gay ou straight, todos são UM em Cristo.»

Graças a Deus que Cristo é bem maior que os critérios fuscos ou foscos das suas Igrejas muitas vezes tão teologais, definidoras e prescritivas, e pouco próximas da carne e do sangue falível de que todos somos efectivamente feitos.

Aí, o exemplo deveria vir de cima. Mas infelizmente de cime, nesta Colheita Papal pelo menos, só vem um Espírito de Gabinete.

DANTE disse...

Ler o post li atentamente , comentar também me apetece mas , como ando zangado com esses senhores de que falas já vai para uns tempos , e como não quero aqui ferir a susceptibilidade nem as crenças de ninguém , subscrevo-me sem mais.

Jokas Blonde :)

lusitano disse...

Caríssima Blonde
Li atentamente o discurso de Bento XVI à Cúria Romana.
Em ponto nenhum o Papa ataca ou exclui os homossexuais, tal como a Igreja não o faz, havendo até documentos pastorais de acolhimento e acompanhamento dos homossexuais.
O que o Papa condena, bem como a Doutrina e moral católica é a homossexualidade, considerando os actos homossexuais pecado, tal como, por exemplo o sexo fora do casamento.
É Doutrina da Igreja e todos o sabemos que o sexo fora do casamento é pecado, por isso não poderia ser de outro modo com os actos homossexuais.
Mas a Igreja, tal como Jesus Cristo ensinou, não condena o pecador, (que aliás somos todos nós), mas sim o pecado.
A Igreja, tal como Jesus Cristo ensinou, não exclui o pecador, mas sim o pecado.
Aliás, se a Igreja excluísse o pecador, não existiria, porque segundo a Doutrina Católica todos os homens, (entendida a humanidade), são pecadores.
Jesus Cristo diz claramente que veio para os pecadores, para os libertar da lei do pecado, e por isso mesmo a Igreja fundada em Pedro, (ele próprio um pecador que negou Cristo três vezes), é constituída por pecadores, todos sem excepção.
Por isso é que me sinto bem nela, porque senão teria também de me auto-excluir, pois não lhe pertenceria, nela não poderia estar.
Repara, caríssima Blonde, que tu mesma afirmas que «Concordo que um casamento canónico entre elementos do mesmo sexo não é coisa que reúna a minha anuência.»
Então e sabendo nós que o sexo fora do casamento é pecado, (conforme a Doutrina), como poderia a Igreja abençoar ou dar concordância a uma qualquer união homossexual, mesmo não entendida como Sacramento do Matrimónio?
Se a Igreja pede aos homens heterossexuais a castidade, porque não a pode pedir aos homossexuais?
Uns como os outros têm acesso ao Sacramento da Confissão para obterem o perdão das suas fraquezas, dos seus pecados.
Muitas vezes a comunicação social pega nas palavras da Igreja, retira-as de contexto, exclui o seu enquadramento e pretende levar-nos a ver intenções que nela não estão expressas.
Se Jesus Cristo teria amigos homossexuais? Porque não, se Ele veio para os pecadores!
Quanto aos “estudos” sobre o “casamento carnal” de Jesus Cristo, ou a pretensa “efeminidade” do Apóstolo, entram na mesma linha dos “Códigos da Vinci” dos “Evangelho de Judas” e por aí fora.
Sempre os haverá, mas a verdade, para os cristãos, é que o dom da Fé é uma graça de Deus e quando é alimentada na prática constante dos Sacramentos, ajuda-nos a entender que a Palavra de Deus contida na Bíblia, embora escrita por homens, é de inspiração divina e portanto embora possa ser interpretada pela ciência humana, carece sempre para seu entendimento total, da Fé e da luz do Espírito Santo.
Abraço amigo

António de Almeida disse...

-Embora tenha sido educado na religião católica, actualmente não a pratico, esse actualmente vem desde os 15 anos, apenas me desloco à Igreja para casamentos, baptizados, missa de corpo presente ou muito excepcionalmente missa do 7º dia, (verdadeiramente aconteceu apenas 1 vez, e apenas por não ter estado no funeral da pessoa, que me dizia muito), para simplificar diria que sou agnóstico, sim, daqueles que lêm os manuscritos do mar morto, os evangelhos apócrifos, e tudo o mais, na realidade a I.C. não condena expressamente os homossexuais, apenas a homossexualidade enquanto acto, o que tecnicamente é diferente. A I.C. anda desde tempos imemoriais a reboque dos acontecimentos, a mim (embora o problema não me diga respeito) causa-me maior estranheza a não ordenação de mulheres no sacerdócio e a proibição dos padres em casarem. Querem falar em Homofobia, falem primeiro no Irão, onde o "crime" é punido com a forca. O que a I.C. não quer, curioso, eu também não, é conceder aos homossexuais o direito ao casamento, uma União Cívil contratualizada (com todos os direitos, assistência na doença, herança, etc, etc) tudo bem, resolver problemas concretos de pessoas reais, que existem, mas casamento NÃO.

pedro oliveira disse...

São as contradições de uma igreja à deriva.Estive em Roma este fim de ano e assiti aà missa de fim de ano na Basilica de S,Pedro,chefiada pelo PAPA, o que mais me impressionou foi a Feira que se instalou aquando da chegada do PAPA toda a gente aos gritos em cima de cadeiras e a atropelarem-se uns aos outros par tirar uma foto.Lembrei-me da passagem da bilbila em que Jesus disse para ques e respeitasse a casa de DEUS e que era casa de oração e não de feira.

PO
vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

Na edição de 23 de Dezembro de 2008 o jornal “Diário de Notícias” afirmava que “o Papa disse ontem que a homossexualidade e a transexualidade são uma "destruição da obra de Deus". Bento XVI apelou a uma "ecologia do homem", que garanta o respeito da distinção entre homens e mulheres tal como aquela é interpretada pela Igreja a partir da linguagem da criação.

"É necessária uma certa ecologia do homem," alertou o sumo pontífice num discurso de balanço à Cúria, a administração central do Vaticano, na sumptuosa Sala Clementina no Palácio apostólico do Vaticano . "As florestas tropicais merecem a nossa protecção. Mas os homens não merecem menos do que isso," acrescentou.

Segundo Bento XVI, se a Igreja Católica assume a defesa da obra da criação de Deus, "não deve apenas defender a terra, a água e o ar, mas também tem de salvar o homem da sua própria destruição". "O homem quer ser o seu próprio criador, ser o único a dispor daquilo que lhe diz respeito, mas ao agir dessa forma, ele vive contra a verdade, vive contra o seu criador," acrescentou o líder dos católicos.

Bento XVI criticou abertamente as teorias do género que se impuseram nas ciências sociais na Europa e nos EUA e estabelecem uma diferença entre a pertença a um determinado sexo - a identidade biológica - e o papel que a sociedade atribui aos indivíduos - a forma como cada um vive. Segundo Bento XVI são essas teorias que justificam a homossexualidade e a transexualidade e, assim, afastam os homens da "obra do criador".

A Igreja Católica considera que a homossexualidade não é pecado, mas o actos homossexuais são-no. O Vaticano opõe-se ao casamento entre indivíduos do mesmo sexo - uma prática legalizada em Espanha, Holanda e Bélgica, no que toca a países europeus. Em Outubro um alto responsável da Igreja Católica classificou a homossexualidade como "um desvio, uma irregularidade, uma ferida".


De facto, lidas as coisas assim, e atentas as explicações do LUSITANO, haveria que distinguir as coisas entre o ser em estado puro e o passar daí à consumação de actos sexuais.

O problema é que a Igreja Católica contribui, também ela, para a tal confusão que o LUSITANO aponta quando refere a incorrecta contextualização das palavras do Papa.
Que, é bom que se recorde, é Ratzinger e não Bento XVI. Quero com isto dizer que o nome até pode mudar, mas não sei se o pensamento e a prática mudam assim num ápice.
E, ou o Papa tem tido um azar tremendo e vê muitas palavras suas retiradas do contexto, ou tem um problema de comunicação.

De qualquer modo, eu, que estou neste domínio como o ANTÓNIO DE ALMEIDA (quer dizer, agnóstico quanto baste e esse baste é muito), gostaria de realçar que a relação da Igreja Católica com a homossexualidade é complexa. Muito até. Como quase tudo na Igreja Católica que envolva o relacionamento com a sociedade e o poder temporal.

Para se tratar do papel da Igreja Católica em questões morais, é preciso levar em conta a complexidade institucional da própria Igreja, bem como a ampla diversidade presente na identidade católica. Além das posições oficiais do Papa e da Cúria Romana, deve-se considerar a actuação dos bispos e suas conferências regionais espalhados pelo mundo, os teólogos e suas reflexões, os trabalhos pastorais em comunidades locais, os movimentos religiosos e a consciência dos fiéis, à qual se atribui um papel fundamental e insubstituível nas decisões morais.
Há uma forte tensão entre o mundo homossexual e a Igreja por conta da doutrina católica, que basicamente condena as relações homossexuais e o casamento gay.
O João Paulo II, por exemplo, lançou em 1992 o Catecismo da Igreja Católica, um compêndio doutrinário com ampla divulgação. Segundo o Catecismo, a tradição cristã tem como base as Sagradas Escrituras que consideram os actos de homossexualidade graves depravações, “intrinsecamente desordenados”, contrários à lei natural e que em nenhum caso podem ser aprovados.
As pessoas homossexuais, portanto, são chamadas a viver a abstinência sexual.

De um modo geral, os últimos papas têm seguido a moral sexual de seus
antecessores.
Certos pontos, no entanto, tiveram alguma alteração recente. O Catecismo diz que “um número não negligenciável de homens e mulheres apresenta tendências homossexuais inatas. Não são eles que escolhem sua condição homossexual” .
Penso que a versão posterior e definitiva do mesmo texto substitui tendências inatas por profunde radicatas (profundamente enraizadas).
De qualquer modo, há algo novo aqui. Isto significa admitir que algumas pessoas são estruturalmente homossexuais e que carregam esta condição por
toda a vida. Não se trata, portanto, de algo que possa ser revertido ou ‘curado’, como se fosse uma doença.

O Catecismo afirma ainda que os homossexuais “devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta”.
A homofobia é em tese condenada, mas não se especifica o que seja “discriminação injusta”.

Outro importante marco doutrinal da Igreja é o Concílio Vaticano II, realizado nos anos de 1962 a 1965. Este Concílio propôs um diálogo amplo, aberto e respeitoso com a sociedade moderna.
Nesse momento, a Igreja reconheceu a liberdade de consciência - o
direito de a pessoa agir segundo a norma recta de sua consciência - bem como a “legítima autonomia” das ciências e das realidades temporais. Estas realidades incluem o poder político, o que justifica a separação entre Igreja e Estado.
Em séculos passados, estes elementos da modernidade foram causa de fortes conflitos com a sociedade. Ao aceitá-los, a própria Igreja entra em um dinamismo que desestabiliza muitas certezas imutáveis do tempo da cristandade.


Mesmo sendo contra a legalização da união civil de pessoas homossexuais, há
bispos que não se opõem a direitos decorrentes destas uniões, como o direito de herança.
No âmbito da teologia moral, vários teólogos chegam a criticar o ensinamento oficial. Alguns entendem que pessoas estruturalmente homossexuais não devem ser encorajadas a viver a abstinência mas, sim, a procurarem relacionamentos estáveis onde possam amar e serem amadas.
Outros até aceitam a união civil.
Em diversas comunidades e ambientes católicos, é crescente a tolerância de padres e religiosos para com fiéis que não seguem à risca a moral sexual oficial da Igreja. Esta tolerância inclui os fiéis homossexuais que possuem companheiros.

Há no catolicismo uma forte tendência de adaptação à sociedade contemporânea, sobretudo no nível das bases. Esta tendência às vezes entra em conflito com a hierarquia e com segmentos conservadores da própria Igreja.

Como foi dito no início, as diversas posturas da Igreja e de seus membros
alimentam de um passado distante onde se constituiu a tradição judaico-cristã e uma determinada ideia de natureza. Para analisá-las, recorrer-se-á à perspectiva histórica da longa duração. Um autor que muito trabalhou nesta perspectiva, desenvolvendo um respectivo instrumental teórico, foi o historiador francês Fernand Braudel (1902-1985).

A sua obra se liga a um grande movimento renovador da historiografia francesa oriundo da geografia, no fim do século 19 e início do século 20. Este movimento deu origem à chamada nouvelle histoire (nova história), uma historiografia em permanente diálogo interdisciplinar com outras ciências, aglutinada em torno da revista Annales d’histoire économique et sociale, fundada em 1929.
Os geógrafos anteciparam a nova história, colocando problemas mais pertinentes a partir do ponto de vista da ciência social, como o da relação entre as sociedades, tomadas em sua evolução, e o meio físico e biológico em que se situam.
A obra principal de Braudel é O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II, onde ele elabora uma engenhosa divisão dos processos históricos segundo suas diferentes velocidades. O livro está dividido em três partes, onde cada uma pretende ser uma tentativa de explicação do conjunto. A primeira trata de uma história lenta, quase imóvel, que é a do homem nas suas relações com o meio que o rodeia, uma história de lentas transformações, muitas vezes feita de retrocessos, de ciclos sempre recomeçados. É a chamada “história geográfica”. Acima desta história, desenvolve-se uma outra com um ritmo menos lento, a “história social”, dos grupos e agrupamentos. Aí entram as economias, os Estados, as sociedades e as civilizações. A terceira parte, por fim, é a da história tradicional, do indivíduo, uma história de acontecimentos, da “agitação da superfície”, das
ondas levantadas pelo poderoso movimento das marés, uma história com oscilações breves, rápidas e nervosas. Das três, é a mais apaixonante, e também a mais perigosa. É necessário desconfiar desta história ainda quente, tal como os contemporâneos a sentiram, descreveram e viveram, segundo o ritmo de suas próprias vidas.
As três partes correspondem a temporalidades diversas: a geográfica, a social e a individual, com suas respectivas velocidades. E, em seguida, Braudel admite que não há só duas ou três temporalidades, mas sim dezenas, cada uma implicando uma história particular. Só a sua soma, apreendida no feixe das ciências do homem, constitui a história global cuja imagem é difícil reconstituir plenamente.

A história lenta, quase imóvel, dominada pelas permanências, foi novamente
tematizada por Braudel sob o título de “longa duração”. No centro da realidade social nada seria mais importante do que a oposição viva, íntima, repetida indefinidamente entre o instante e o tempo lento a escoar-se. É a “dialética da duração”.

A longa duração também estaria presente na Reforma Protestante e na Contra Reforma Católica. Seria por acaso que a antiga fronteira do Império Romano, o Reno e o Danúbio, da velha Europa e da Europa recentemente “colonizada”, constituiu em grande parte a fronteira que dividiu o mundo católico e o mundo protestante? Não se nega à Reforma razões puramente religiosas: a subida visível de águas espirituais em toda a Europa, que tornou o fiel atento aos abusos e às desordens da Igreja, e as insuficiências de uma devoção demasiado terra-a-terra, feita mais de gestos do que de verdadeiro fervor. Este sentimento, entretanto, toda a cristandade teria experimentado. Só que a velha Europa era mais apegada às suas tradições religiosas antigas, que a ligavam estreitamente a Roma. Por isso manteve o vínculo. A nova Europa, mais mesclada, mais jovem, menos apegada à sua hierarquia religiosa, consumou a ruptura. Uma reacção nacional estava em curso.
Depois da Guerra dos Cem Anos, a cristandade teria sofrido o assalto de uma
imersão de águas religiosas. Sob o peso destas águas, rompeu-se como uma árvore estalando a casca. No norte, a Reforma se espalhou pela Alemanha, Polónia, Hungria, Península Escandinava e Grã-Bretanha. No sul, difundiu-se a Contra-Reforma e em seguida a civilização barroca.
Nos movimentos que afectam a massa da história actual haveria uma herança fantástica do passado. O passado lambuza o tempo presente. Toda sociedade é atingida pelas águas do passado. Este movimento não é uma força consciente, é de certa forma inumana, o inconsciente da história. O passado, sobretudo o passado antigo, invade o presente e de certa forma toma nossa vida. Por mais que nos esforcemos, diz Braudel, somos arrastados pela massa. O presente em grande parte é a presa de um passado que
teima em sobreviver; e o passado, por suas regras, diferenças e semelhanças, é a chave indispensável para qualquer compreensão séria do tempo presente. Em geral, não há mudanças sociais rápidas. As próprias revoluções não são rupturas totais

Abreviando, a longa duração está presente no discurso eclesiástico que considera os actos homossexuais antinaturais e reprováveis. A sua origem está no primeiro livro da Bíblia, o Génesis.
No relato bíblico, Deus criou o ser humano homem e mulher para se unirem
“formando uma só carne” e para procriarem. Daí se supõe, portanto, uma
heterossexualidade universal. O contacto erótico entre pessoas do mesmo sexo foi logo associado ao pecado de Sodoma, que despertou a ira divina e o castigo arrasador.
Também se pode reconhecer a longa duração na acolhida e no tratamento de portadores de HIV realizados por entidades católicas. A compaixão para com enfermos e desvalidos remonta o próprio Evangelho e a ininterrupta tradição cristã. Tal compaixão ainda vai além. Ela leva Jesus Cristo a se sentar à mesa com pecadores notórios e a relativizar a lei, chocando seus adversários.
Uma outra temporalidade, menos longa, está presente. É o avanço da modernidade, afirmando a centralidade do indivíduo, a autonomia secular e a racionalidade científica.
Depois de séculos de resistência, a Igreja aceitou estes valores modernos, tornando-os normativos com o Concílio Vaticano II. Esta aceitação, porém, não é irrestrita. Ela tem marcos precisos onde se quer preservar a validade da mensagem cristã oriunda da Revelação Divina.
A centralidade do indivíduo se expressa nos direitos humanos. Tais direitos foram contemplando progressivamente o indivíduo, as classes sociais, as mulheres, as minorias e o meio ambiente.
Estes três últimos são os chamados direitos de “terceira geração”.
As minorias em questão incluem os homossexuais. A autonomia secular foi ocasião para muitos Estados reconhecerem uniões entre pessoas do mesmo sexo e o direito de homossexuais adoptarem filhos, contrariando grupos religiosos. A racionalidade científica penetra na teologia e nos estudos bíblicos. No mundo católico, o método histórico-crítico já derrubou o sentido literal do relato da criação do mundo e do ser humano.
A heterossexualidade universal está em cheque ao se admitir que haja pessoas com inclinação homossexual profundamente enraizada e irreversível.
Diferentes processos históricos ou temporalidades actuam no mundo e na Igreja Católica, com tendências às vezes conflituantes e contraditórias. Mudanças em curso compõem com não mudanças e com inércias poderosas. Identificar cada processo, cada tendência e sua respectiva temporalidade na dialéctica da duração, é trilhar o caminho para
se aprofundar a compreensão de uma realidade bastante complexa e, ao mesmo tempo, milenar e contemporânea. As categorias da duração de Braudel são instrumentos bastante valiosos.

Serve tudo isto para dizer que nem a Igreja Católica é o tal muro sólido que Bento XVI porventura imagina, nem as suas prédicas são hoje tidas como dogmas. A experiência da própria Igreja o contradiz.
Contudo, não deixa de ser verdade que, apesar de ela (a Igreja) se mover (ou ser forçada a isso), ainda hoje aos olhos de muitos (mesmo os fiéis) surge muitas vezes associada ao mais elementar conservadorismo social.

Quanto ao fenómeno da homossexualidade, não tenho nada contra mas não vislumbro verdadeiramente qual o alcance de certas lutas encetadas exigindo igualdade de direitos nalguns domínios (a do casamento civil, por exemplo) quando esses mesmos sectores exigem depois direitos desiguais e consideram até que o tal casamento civil porque tanto lutam não passa dum contrato!

Blondewithaphd disse...

Pois... como eu não distingo bem o pecado do pecador tanto constrangimento me causa a acepção da homossexualidade como destruição da obra de Deus, como a ostracização de quem tem preferências homossexuais.

Já agora, nunca li, e desconfio alguma vez ler, "Códigos Da Vinci" e afins. Fico-me pelas coisas realmente subversivas e bem escritas, documentadas e bem-fundamentadas. E como fui catequista durante largos anos sei bem o que é de difícil e complexo pasar certas mensagens nos dias de hoje. Algumas nunca passei, confesso.

(não ler como resposta a nenhum comentário)

lusitano disse...

Caríssima Blonde

Permite que te cite uma passagem do Evangelho de São João 8, 1-11, onde se percebe bem adistinção que Jesus Cristo faz entre o pecado e o pecador.

"Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?»
Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra.
Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles.
Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»"

Aqui se percebe bem que Jesus não condena o pecador, «também eu não te condeno», mas condena o pecado, «não tornes a pecar».

Entendi bem que o teu comentário não era resposta a nenhum outro comentário, mas achei que seria bom dar este esclarecimento.

Abraço

korrosiva disse...

Prefiro acreditar que se existir um Deus será certamente um ser que aceita todas e quaisquer formas de amor!

A Igreja Católica (e as outras também) deveriam passar mais tempo a reflectir os seus próprios pecados.

Joaninha disse...

Blonde,

"Já agora, nunca li, e desconfio alguma vez ler, "Códigos Da Vinci" e afins"

Mantem esse pensamento, não cometas o dispautério de ler essa porcaria, ainda hoje choro a semana que perdi na praia a ler essa mer--!

É mau que doi :)

beijos

PS: Quanto ao assunto em questão no teu post...estranho é que na natureza existam animais qe PRATICAM actos homossexuais...Não são homossexuais, mas praticam actos dessa natureza...(Os carneiros são prodigos nisso...hehehe)

João Castanhinha disse...

de acordo, não são os actos homosexuais da espécie uma sua caracteristica?
Eu acho que sim, o advento do catolicismo criacionista dos ultimos 8 ou 9 séculos é que nos têm querido convencer que não.
E já há muito por cá andava a espécie antes Dele...