Desencanto

Num artigo que publiquei aqui sobre o primeiro dia do Presidente Obama, "alf" escreveu como comentário: "Eu já culpei os políticos... mas depois, à medida que vou conhecendo as pessoas, que olho à volta, vejo que os políticos não são diferentes dos outros. Há pessoas excelentes por toda a parte; mas também há muita gente sempre de olho no seu interesse pessoal imediato e que se dane o resto. Os médicos não querem cumprir horários, os juízes andam em guerra com o poder, os professores não querem ser avaliados...
Parece que não andamos a fazer nada por uma sociedade melhor, não é verdade? Parece que não estamos, na verdade, interessados numa sociedade melhor para todos, estamos apenas interessados em «safarmo-nos».
E aqui a grande diferença para os americanos - o discurso que os empolga é o discurso de uma sociedade melhor."


Concordo inteiramente com o que ele escreveu e, ao ler os dois últimos textos aqui publicados, mais se fortalece a minha convicção. Assisto diariamente nos noticiários da TV à fila interminável de empresas falidas e ao desespero de toda aquela gente desempregada.
Mas isso parece não ser o mais importante, para os nossos políticos, o que conta são os números, os índices, as percentagens, todos sacudindo a água do capote para cima dos que estão no Poder, ou dos que estiveram antes. Ou definindo prioridades: até aqui o prioritário era o casamento dos homossexuais, agora deve ter passado para 2ª prioridade e o "caso Freeport" para 1º.
Irra! Estou a escrever isto e a ouvir na TV, pela 3ª vez neste dia, a versão do Primeiro-Ministro.

Não sou economista, mas não é preciso sê-lo para ver que a insistência nas grandes obras públicas não resolve nada, ou resolve a curto prazo, o que, ao fim e ao cabo é o que interessa ao Governo actual, porque quem vier depois que feche a porta:
1 -Vamos endividar-nos por duas gerações.
2 -Os milhares de trabalhadores que temos em Espanha, com a falta de trabalho que já ali se começa a verificar, vão para França e Itália ganhar três vezes mais do que viriam ganhar em Portugal. Logo teremos de importar mais trabalhadores do Leste ou de África, que depois das obras terminadas irão engrossar o número de desempregados, com o consequente aumento da intranquilidade e da falta de segurança.
3 - O "elefante branco" do TGV imposto pela Espanha (?).

O que se passou na Grécia (não foi só em Atenas) o que já está a acontecer na Islândia e o que irá acontecer por cá quando o mais de meio milhão de desempregados deixarem de poder contar com os familiares que, por enquanto ainda os conseguem ir ajudando, têm um denominador comum: "O facto desta geração ser a primeira, desde a Segunda Guerra Mundial que já não espera viver melhor do que os pais."

8 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

A partir de um texto sobre Obama, discorreu o dito "alf" tendo, a dada altura, afirmado que "parece que não andamos a fazer nada por uma sociedade melhor (…)" , tendo depois rematado com um parece que só nos queremos safar.
Fico com a dúvida se somos só nós ou ele também!

Devo aduzir, como ponto prévio, que presumo que o meu último texto não me enquadre na categoria dos visados pelo "alf" embora seja certo que o termo "safar" tenha e abra porta a várias conotações e interpretações.

Por exemplo, se eu no meu posto de trabalho, vejo, ouço e calo, e às vezes engulo, é porque tenho obrigatoriamente que me safar pois os romantismos e floreados sociais são muito bonitos mas é como prescrição que se dá aos outros, pois à nossa família quem tem de lhe colocar pão na mesa somos nós!

Penso que o mesmo sucederá com o indivíduo que, vendo a fábrica fechar, anda aos biscates ou pega nas trouxas e vai para Espanha ou onde calhar … mas isto já sou eu a cogitar e às tantas não era nada disto que o "alf" queria dizer!

Quanto aos políticos sacudindo água do capote, aí, lamento, acho que é um caso perdido.

Eu não sei que dá àqueles tipos que parecem não saber fazer outra coisa … sacudir água do capote e viver de e para a política, embora seja mais da política!

Ainda na quinta-feira, em jantar de amigos, tive um de segunda linha ali à minha frente … o homem, desde 1980, que foi vereador, deputado, deputado no Parlamento Europeu, governador civil, e nada no PS concelhio e distrital se faz sem que a sua mão, de forma visível ou invisível se faça sentir.

Também minha esposa nesse mesmo dia participou num evento público onde pôde constatar que, muitas vezes, mais papistas são os figurantes de segunda linha que o próprio Papa!

Esta profissionalização da classe política, que todos nós permitimos, é um dos grandes cancros da nossa sociedade.

Quanto à questão das obras públicas, e quem me lê sabe que eu sou frontalmente contra o TGV, o Aeroporto e essa miríade de auto-estradas em regime de concessão, deixo aqui, no entanto, à consideração as seguintes questões:

- Obama, tão glorificado que anda, tem um plano que está agora em negociação com o Congresso e depois no Senado onde uma das grandes apostas são precisamente obras públicas!

- Nos restantes países, é um pouco do mesmo;

- Serve isto para dizer que, em bom rigor, penso que ninguém sabe muito bem (para não dizer que não sabem) o que fazer;

- Há quem pugne pela descida de impostos para permitir um aumento do consumo, mas tenho para mim que foi precisamente o aumento do consumo que nos trouxe até aqui, ou não? E que foi graças a esse consumismo desenfreado que o endividamento galopou;

- Não creio que França e Itália estejam em muito melhores condições que Espanha para agora absorverem milhares de portugueses …

Quanto ao repto do texto, tenho declarado que pela minha parte estou disponível para dar o tal contributo solidário à causa nacional, agora não me peçam é só a mim que dê!

Aliás, eu até já dou e muito pois pago religiosamente os meus impostos todos, taxas de água, saneamento, electricidade e gás exorbitantes, combustíveis a peso de ouro, raramente vou ao médico ou ao Serviço Nacional de Saúde, nunca tive ligações piratas fosse do que fosse … ajudo e contribuo para o Banco Alimentar e até no partido em que milito sou tido como um herege!

Não vejo é muitos dos tais que dizem que é preciso baixar ou conter salários, que acumulam vencimentos, que têm carro e motorista à disposição, que nos roubam indecentemente nos impostos (como o "Furacão" veio provar) estejam para aí virados.

Se aqui vai acontecer o mesmo que na Grécia? Admito que sim!

Peter disse...

Ferreira Pinto

1.A situação descrita no comentário a que me refiro diz respeito a todos nós portugueses, assumo-o e os exemplos apresentados são casos concretos que actualmente se verificam entre nós e que em nada contribuem para a resolução dos problemas gravíssimos com que o país se debate. Parece que não andamos a fazer nada por uma sociedade melhor, não é verdade? Parece que não estamos, na verdade, interessados numa sociedade melhor para todos, estamos apenas interessados em «safarmo-nos». Cada um por si e os outros que se lixem.

2.«Quanto aos políticos sacudindo água do capote, aí, lamento, acho que é um caso perdido. Eu não sei que dá àqueles tipos que parecem não saber fazer outra coisa … sacudir água do capote e viver de e para a política, embora seja mais da política! Esta profissionalização da classe política, que todos nós permitimos, é um dos grandes cancros da nossa sociedade muitas vezes, mais papistas são os figurantes de segunda linha que o próprio Papa!.»
O “que dá” é que a maior parte deles não sabe fazer mais nada e por isso ingressaram na política, como tu próprio reconheces.

3.Sou a favor da construção faseada de um novo aeroporto na margem Sul, mantendo o actual de molde a tirar dele o máximo proveito possível. O resto sou contra, em especial o TGV. Para que é que já gastaram 33 milhões de contos no aeroporto de Beja? Para transportar carneiros?
Obama fará o que puder pelos EUA e a Europa já se dará por satisfeita se ele contribuir para a resolução do problema financeiro, pois serão muito mais credíveis as obrigações emitidas pelos EUA, do que as que um país quase falido como é o nosso, possa emitir para realizar capital. E quanto às obras públicas ele não tem a maior parte da sua mão de obra não qualificada a trabalhar no estrangeiro, como sucede connosco.

4.O que “nos trouxe até aqui” foi o “subprime” e o caso Madoff e as repercussões que os mesmos tiveram nos grandes bancos mundiais. E, claro, entre nós o consumismo desenfreado e o endividamento galopante, fomentado pelos bancos e, principalmente, pelo “crédito fácil” largamente publicitado.
“Não vejo é muitos dos tais que dizem que é preciso baixar ou conter salários, que acumulam vencimentos, que têm carro e motorista à disposição, que nos roubam indecentemente nos impostos (como o "Furacão" veio provar) estejam para aí virados.”
Como não estão os deputados ignorantes que dizem que a capital do Paquistão é Nova Delhi, ou Ankara (fazem-me lembrar Bush), ou que desconhecem qual é o salário mínimo nacional e que ao fim de 8 anos têm a sua reforma garantida e depois continuam trabalhando e acumulando pensões noutras sinecuras.

5.Quanto a Atenas, já hoje ouvi no noticiário das 13h que continuam os distúrbios e os incêndios. Claro que continuam a bater na tecla da morte do jovem estudante pelo polícia, quando os verdadeiros problemas são os escândalos políticos, a corrupção e o desemprego sobretudo dos mais jovens. Sem carácter de propaganda, aconselho a leitura do artigo de Valia Kaimaki, “Aos bancos, dão dinheiro… aos jovens, dão balas”, publicado no “Monde diplomatique” deste mês.

Compadre Alentejano disse...

Neste momento, o mais importante é o caso Freeport, e eu, como o Olho Vivo, que colocou a questão nos comentários do Público, gostava de saber como é que o "engenheireco" explicasse como é que de um estúdio na Reboleira, passou a ser proprietário de um apartamento no Heron Castilho, custo de cerca de um milhão de euros, e ainda deu para pôr mais um em nome da mãe...Dá para entender?
Expliquem-me por favor!
Compadre alentejano

Peter disse...

Compadre Alentejano

Através dos e-mails que circulam, já tomara conhecimento do que me dizes. Se é verdade, ou não, não me interessa, embora me interrogue e inveje a capacidade de aforramento de tantos políticos.

Quanto ao caso Freeport é um assunto que diz respeito ao 1º ministro, embora, segundo li nos jornais de hoje, o PR se tenha mostrado preocupado.

A mim não me interessa, pois nunca foi minha intenção votar no PS com o actual secretário geral.

Fernando Vasconcelos disse...

Pois eu tenho uma teoria. Numa democracia temos exactamente os políticos que merecemos. Se não temos melhores políticos é simplesmente porque não os elegemos. Não se esqueçam que somos os que elegem pessoas que no mínimo ... Querem mudar ? É fácil a nossa arma é o voto e a opinião. De resto quanto às obras públicas existe um grande equivoco em alguns raciocínios. O TGV, o aeroporto, as autoestradas de uma forma geral não são despesas. são investimentos. além de que a maioria deste dinheiro não sai do país, é re-injectada na nossa economia. Aliás como decerto sabem essa (a das obras públicas) foi a receita para ultrapassar a depressão de 1929. Não digo que todos os investimentos citados são razoáveis, mas não podem ser vistos como despesa. Criam postos de trabalho agora e no futuro, geram riqueza. Podem argumentar que esses valores seriam melhor empregues noutros investimentos. Até poderia concordar. Digam é quais ...

pedro oliveira disse...

Estamos a viver num não país, onde tudo é cabala e nada se explica.
Como diz MFL, também gostaria de viver num palácio, mas não tenhom dinheiro, parece que para alguns querer é poder efectivamente.

PO
vilaforte

Peter disse...

Fernando Vasconcelos

1.“Numa democracia temos exactamente os políticos que merecemos. Se não temos melhores políticos é simplesmente porque não os elegemos.” Ou porque eles não existem, o que é o panorama político actual.

2.De facto o grande investimento em obras públicas foi uma das medidas defendidas por John Maynard Keynes para ultrapassar a depressão de 1929 nos EUA e posta em execução com a construção das grandes barragens.

3.Outra das medidas tomadas foi evitar o desemprego com o trabalho parcial. Assim os operários sempre tinham algum dinheiro para gastar fomentando a economia e se estivessem desempregados não tinham nenhum. Poderá argumentar e com razão que temos o “subsídio de desemprego”, mas eu pergunto: até quando, se há perto de 135 mil pessoas que já não o recebem? Talvez a redução do IVA fosse uma boa política.

4.Considero o TGV como uma enorme despesa não rentável e que se irá traduzir num pesado encargo para o Orçamento anual. Esse dinheiro seria mais bem aplicado no desenvolvimento do interior e no auxílio às pequenas empresas. Conceder-lhe linhas de crédito, como se está a fazer, só contribui para lhes aumentar o endividamento.

Peter disse...

Pedro Oliveira

1.Como é que se justifica que o parque auto junto das n/Faculdades tenha as dimensões que tem? Os alunos estrangeiros que por lá passam nos cursos de férias
ficam espantados.

2.Idem no que respeita ao envio de sms. São centenas de milhar por ano.

3.Em 01AGO08 o Fisco lançou a "Operação Resgate Fiscal": Teixeira dos Santos ameaçou milhares de contribuintes com processos-crime por abuso de confiança. Assustados com a possibilidade de irem parar à cadeia, correram às repartições de Finanças para pagar o imposto em falta. O "susto" valeu 250 milhões de euros ao Estado,e cerca de 90% dos processos foram arquivados. Numa das maiores Rep Finanças do país, cerca de 22.000 processos foram arquivados e apenas 700 foram enviados para o Min Público.