Ser português: o que é?

Ora bem pessoal, antes de mais um excelente dia para todos!
E assim começo uma nova era para o ser português.

Já todos ouviram elencar o que é ser-se português.
O português é capaz de ser mais crítico consigo próprio que com os outros.
O português conta anedotas sobre alentejanos, raianos, saloios, nortenhos, algarvios, políticos, alfacinhas, insulares, emigrantes, mas se calha ser uma anedota com estrangeiros, é o português sempre que fica a perder.

O português não gosta de pagar impostos, tem no fado a sua alma e a sua alma no fado.
O português ad nauseam, tem sido apregoado como um vigarista, pouco dado a... dar, reclama por tudo e por nada mas quando lhe calha a ele... foge com o rabo à seringa e eu sei lá mais o quê.

Mas a verdade, verdadinha, minha gente, é que nós, os portugueses somos um povo cheio de mazelas e tristezas, nos dias que correm, mas não somos as mazelas e as tristezas que nos vão impondo.
O português não gosta de pagar impostos? E quem gosta?
Acham que os noruegueses, os finlandeses, os britânicos e outros quejandos gostam?
Talvez o que aconteça nesses paraísos europeus, é que os respectivos povos vão tendo mais confiança em quem os governa para usar os impostos em proveito de todos e não apenas dos seus bolsos e os dos seus amigos...

O português é desorganizado? Faz tudo em cima do joelho? É bom é no improviso?
Ora bem, esta necessita de mais elaboração, porque são três e todos sabem que o três... foi a conta que Deus fez. Então vamos lá.

Em férias de Verão, rumámos, eu e família nuclear, a Espanha, perto o suficiente de Portugal para sentirmos que não estávamos cá, longe o suficiente para não ouvirmos falar o português. Ora bem, meus amigos, foi um momento revelador, iluminado até, se querem saber.
É bem certo que não se pode avaliar a parte pelo todo, nem o todo pela parte, mas acontece que aquela parte, mais outra parte que já conheci antes, mais outras que fui conhecendo ao longo da minha vida, sedimentaram bastante o pensamento criado nos oito dias de Verão deste ano.
O que encontrámos, de facto, foi um povo nada organizado, com pouco amor à limpeza, pouco dado à simpatia, sem nenhuns conhecimentos sobre maneiras ou tolerância ou mesmo civilidade e em termos de organização... só me lembro de o marido dizer que se fosse em Portugal nada daquilo se passaria e depois de isto dito, olharmos um para o outro com expressões de esclarecimento nos rostos!

Na verdade, se querem mesmo saber, Portugal não está assim tão desorganizado como isso. Somos bastante conscientes de como devemos fazer as coisas, temos uma consciência também bastante razoável de onde são os nossos pontos menos fortes e somos auto-críticos... E aqui é que começa a nossa verdadeira saga, sabem? A nossa extrema auto-crítica.

Eu bem sei que não somos um povo de filósofos, somos mais poetas... e navegadores, mas além disso, somos pensadores, extremamente pensadores!
Ah! Que devo estar a gozar e tal! Estarei mesmo?
Já viram povo em que houvesse tanta resmunguice tanto falatório e tão pouca acção?
Somos tolerantes, demasiado tolerantes?
Bem, na Grécia a morte de um jovem deu azo a motins que revolveram o país inteiro e eles são povo mediterrânico tal como nós.
Não se pode propriamente dizer que sejamos assim tão diferentes, não é?
Não, tem de existir algo mais que nos faça diferir dos outros, algo que nos determina como povo e nos distancia como Nação...
Sim, é isso, o improviso!
Ah! Vocês pensavam que isso era palavra feia? Que estava a insultar o povo?
Não, meus amigos, nada disso. É mesmo um valor a nosso... bem, favor.
Em tempos tive pretensões de ir trabalhar para a Comissão Europeia, quando ainda pensava que uma instituição desafecta ao controlo dos governos fosse mais imparcial e portanto menos propensa a compadrios, no tempo em que as minhas respostas eram ainda dominadas pela ingenuidade e fazia pouco tempo que o Pai Natal tinha desaparecido do meu horizonte imaginário... Enfim, na idade adulta mal saida da juventude.

Dizia eu então, que nessa altura, tive um professor inglês de Política Comunitária que engraçou comigo e com quem tinha conversas de tardes inteiras. Eram conversas sobre povos, sobre Nações e sobre comportamentos, sobretudo sobre comportamentos.
Para ele, o pior povo da Europa, como não podia deixar de ser, era o francês. Arrogantes, desorganizados, dizia ele, soberbos, ou melhor, com a mania da soberba, eram a epítome do que um povo não deveria ser.
Os alees, contava ele, pareciam relógios... suiços, máquinas de organizar tudo e mais alguma coisa, eram bons parceiros de equipa, até ao momento em que alguma coisa corresse mal e então era um disparar em todas as direcções menos na sua.
Com espanhóis e gregos não queria trabalhar nem morto, porque eram mal educados, antipáticos e desorganizados, nunca entravam a horas e escapavam ao trabalho sempre que podiam.
Assim, entre portas e travessas chegámos aos portugueses e por esta altura já o inglês não tinha nenhum pejo de me dizer fosse o que fosse porque eu própria já teria por mais de uma vez, atacado o povo de sua Majestade.

Chegados aos lusitanos, disse-me o anglo-saxónico que somos um povo com mau sentido da pontualidade, mas com um carácter francamente forte, com quem se pode ter uma conversa e trabalhar ao mesmo tempo e aqui emocionei-me, porque ele garantiu-me que o português trabalha de facto!
Não manda fazer a outro, não deixa para o dia seguinte, não, o português trabalha mesmo e é amigo, é solidário. Não entra a horas, mas se necessário for faz horas extra.
Contou-me ainda uma pequena história. Num grupo heterogeneo de trabalho, os alemães lideravam. Estavam sempre a horas e com os planos na mão antes de começar, para tudo correr sobre rodas. Naquele dia tudo tinha começado muito bem, estavam dentro do plano alemão e nada parecia correr mal, até que... algo correu. Nada parecia encarrilhar, ou faltavam páginas de um documento, ou o que estava nelas não fazia sentido. O espanhol chegado à hora do almoço saiu e não voltou. O grego parecia estar a dormir. O francês acusava o inglês de ter feito mal as coisas. O alemão estava perdido, as coisas tinham saido dos eixos e agora nada fazia sentido...estava emperrado...
O português? Bom, o portuguès estava a rever tudo para trás e para diante, para trás e para diante, para trás e para diante. Praguejou umas duas ou três vezes, levou as mãos à cintura e disse alto: "Bem, já que tenho a fama, que tenha também o proveito."

O que é que ele fez, perguntais-me vós?
O que qualquer bom português faria - improvisou.
Não está como no plano?
Então arranja-se outro plano!
Descobri a pólvora?
Não.
O que pensam que faziam os nossos marinheiros há uns séculos atrás, quando se deparavam com coisas nunca antes vistas?
Acobardavam-se? Voltavam para trás?
Não! Faziam um novo plano!

Na história do meu ilustre professor, o português salva o grupo e descobre uma solução!
Por alguma razão, fora do nosso país, somos considerados, pessoas geniais!
Será assim tão difícil começarmos a pensar que somos um povo genial também?

11 comentarios:

pedro oliveira disse...

Pois auilo que o professor disse de nós é a pura realidade a questão é a nível superior,politica e estratégia, necessitávamos de pessoas que soubessem o que querem de nós, mas como não sabem andamos ao Deus dará.Daí que quando vamos paar fora ninguém nos bate,SOMOS OS MELHORES!

PO
vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

O português não gosta de pagar impostos?
Pois não gosta …
Uns porque é da sua natureza serem vigaristas e aldrabões e temos de o assumir sem qualquer pejo que boa parte da nossa sociedade se move nessa lógica; tal como outras mas sempre ouvi dizer que com o mal dos outros podemos nós bem!
Outros porque, como dizes, se calhar desconfiam dum Estado e, por arrastamento, porque sabem que para além do Estado também estão a alimentar os tais vigarista s e aldrabões, e assim sendo procuram fugir com o dito cujo à seringa …
Obviamente que nesses míticos países nórdicos de que falas se calhar também se range os dentes ao peso da máquina fiscal, mas ali os cidadãos sabem que o Estado aplica normalmente bem os dinheiros dos seus impostos.
Basta ver que a prudente Noruega, sabendo que o petróleo não é eterno, canalizou muitas das verbas para investimentos reprodutivos, digamos assim, e ainda põe uma parte de lado.
Fosse em Portugal e quase que aposto que deixava meio país de trabalhar.
E quem disser o contrário que vá reler a lusa história e depois venha cá dizer o que sucedeu com os ciclos das especiarias e do ouro do Brasil!

Portugal não está assim tão desorganizado como isso?
Desculpa contrariar, mas nalguns domínios está.
Basta pensares que por tudo e por nada nomeamos comissões, fazemos reuniões de “brainstorming” (e como nós adoramos o recurso a estes estrangeirismos) mas dali raramente saem frutos que se veja; na execução duma obra normalmente há sempre uns deslizes orçamentais por trabalhos a mais e por aí …
Podemos é não ser piores que os restantes mas lá que temos fama!
E, de qualquer modo, entre o rigor germânico e o nosso “vai-se fazendo” há uma enorme diferença.
Mas o teu britânico tinha razão quando dizia que temos carácter francamente forte, com quem se pode ter uma conversa e trabalhar ao mesmo tempo e trabalhamos de facto.


Será assim tão difícil começarmos a pensar que somos um povo genial também?
É porque precisamos de novas lideranças.
Se reparares um dos segredos do nosso sucesso além fronteiras é porque trabalhamos sob ordens e chefias que nos são estranhas, que não são massa do nosso pão.
E isso faz toda a diferença.

Por cá, normalmente a solução dos nossos chefes costuma passar por manterem os privilégios, exigirem aos outros o que muito raramente eles conseguem fazer e cortar nos parcos direitos dos subalternos.
E isso, queira-se ou não, faz um mar de diferença.

A Gata Christie disse...

Hum... Post complicado, este. Em parte concordo com o que nele é dito, mas por outro lado discordo.
De facto, nós não somos muito diferentes dos outros. Não gostamos de pagar impostos, somos desorganizados, não somos pontuais... Enfim, temos uma panóplia de defeitos.
No entanto, o pior é que também não percebemos a razão de pagar impostos, não vemos porque razão devemos ser organizados ou pontuais. E porquê? Porque as nossas chefias não dão o exemplo devido. As chefias, em Portugal, nasceram para se servir dos outros enquanto nos outros países elas nascem para servir o bem comum.
Essa é a diferença lapidar e essa é a razão pela qual, lá fora, nós somos geniaias. Porque temos quem nos mostre que devemos ser organizados, que devemos ser pontuais, que valoriza o facto de termos um plano alternativo...

joshua disse...

É bom ler palavras reconfortantes do ser português sob o prisma de nacionalidades outras. Só lamento que, no território, estejamos num tempo de franca detracção e perseguição dos portugueses concretos, do que não faltam exemplos quotidianos.

Quando o espírito de facção partidária fosse rasgado, a chicana e a trica politiqueira dessem lugar a atitudes superiores e de uma nobreza cristalina e, nessa altura, se fizesse um pacto social, patriótico, transparente, à imagem dos países nórdicos, os nossos problemas começariam a resolver-se.

Se o egoísmo de uma classe política, habituada a alternar nos tachos, e a sua sofreguidão determinam a escandaleira que agora se vai revelando nas contaminações corruptas fora as que se ocultam, também assim se explica por que motivo o Estado Português é ainda organizativamente primitivo, submetido a lógicas devoristas, ao desperdício e à ostentação, pervertendo a sua natureza fundamental de servir o melhor que possa e saiba as pessoas.

Mas há também quem pense que o espancamento deve ser sobre as classes e o povoalho. Mas é assim que os verdadeiros oportunistas e incompetentes distraem a opinião pública.

Adoa disse...

Aqui na Alemanha paga-se impostos até dar com um pau... e claro ninguém gosta. Mas também vês onde o dinheiro é aplicado! As estradas sao das melhores que já vi, mas estao sempre em obras... chateia...

Os alemaes sao complicadinhos sim. acham que conseguem prever tudo. Planeiam, planeiam... para usar um aspirador, só como exemplo, têm várias escovas, cada qual com a sua funcao. Uma escova serve para aspirar parquet, outra para tapetes e outra para tapetes com um pelo diferente.... se tentas usar uma das escovas para outro fim, eles passam-se porque nao lhes entra na cabeca... Lá está, nao conseguem inprovisar com a mesma facilidade que um Português. Vou ao médico e venho já...

depois acabo a resposta...

António de Almeida disse...

Para ele, o pior povo da Europa, como não podia deixar de ser, era o Francês.

-O pior povo da Europa é o francês. Arrogantes e soberbos, desde Azincourt que não levantam a cabeça, derrotados sistematicamente pelos ingleses desde Henrique V, mesmo Napoleão em cada uma que se metia saía sempre a perder, desde o Egipto onde saiu pelas traseiras, passando por Trafalgar, para acabar humilhado em Waterloo. Mais tarde voltaram a ser humilhados pela Prússia, na 1ª guerra só não foram varridos do mapa pelo auxílio anglo-americano, e na 2ª guerra tinham uma linha defensiva tão eficaz que os alemães marchavam 3 dias depois sob o arco do triunfo. Levantaram a cabeça mais uma vez graças ao auxílio americano, e continua a saga pelos nossos dias. Olho para Sarkozy e vejo um francês típico, e quem quiser ganhar dinheiro "compre um francês pelo seu valor e venda-o pelo valor que ele julga ter", é dinheiro em caixa. A língua já era, a grandeza colonial de África à Indochina, palavras para quê? Ao invés os portugueses têm um problema de auto-estima, passam a vida a lamentarem-se, mas logo que passam a fronteira, postos a prova perante as necessidades e adversidades, não falham. E já me desviei um pouco do post.

Peter disse...

Um artigo muito interessante e que não chateia.
Vou dar o meu pequeno contributo:
1. Os italianos, às pessoas que pretendem furar para entrar num espectáculo público, ou algo semelhante, sem pagar, chamam "portuguese". Não é calão, é uma palavra do vocabulário corrente.
2. Há duas palavras portuguesas intraduzíveis: uma, como todos sabem, é "saudade" e a outra é "desenrascar", a que chamaste "improvisar", mas é muito mais que isso.
3. Porque motivo as espanholas andam sempre todas perfumadas?
Porque é raro tomarem banho...

Ferreira-Pinto disse...

Lembrei-me agora que a banda sonora perfeita para este excelente texto seria "O Inventor" dos Heróis do Mar.

AP disse...

Grande texto! Realístico e comovente pela maneira como se fala da nossa pátria...Como se costuma dizer, só damos valor às coisas quando não as temos. Por isso, quando estamos no estrangeiro valorizamos tanto o "velho país à beira-mar plantado".

Parabéns pelo texto!

Cumprimentos do Réprobo

indomável disse...

Bom... gostei do debate...
Só tive pena de não ter participado activamente, afinal, fui eu que dei o repto e depois...
Mas um filhote doentinho e outro muito bem de saúde, não me deram tréguas...
Enfim, fica para a próxima e a posta seguinte já está na calha. Me aguardem!

Adoa disse...

...OK vamos lá tentar terminar...

Continuando com os Alemaes... Houve um pequeno bate-chapas agora, aqui na rua ao lado. Os carros continuam no lugar, está também um carro da polícia, fizeram agora fotos... Há mais de meia hora que estao ali... Dá vontade de chegar lá e usar uma palavra bem portuguesa: Desencaralhem!

Porque é isso que na realidade nós fazemos... desenrascamo-nos!

Na primária a professora dizia: -Se voces nao sabem escrever uma palavra, podem sempre recorrer a outra que quererá dizer o mesmo.
Já de pequeninos somos ensinados a desenrrascar-nos...

Os espanhóis... cambada de ignorantes que têm um umbigo maior que o universo...
Nao sabem nada do que existe para além de Espanha, do que é espanhol, da sua língua. Sao os senhores do Mundo e de todos os universos existentes e por descobrir...

Mesmo quando perdem ganham! Nao há volta a dar! É assim mesmo!

(Chegou agora um rebocador...)

Portugal é uma província de espanha e sem eles nao somos nada... Esta é a opiniao geral...
Dormem em vez de trabalhar e sao os primeiros a arrumar tudo para ir embora. Só têm pressa a conduzir.

Os Franceses... que mais falar?? É tanta soberba que faz impressao...

Ingleses... sao bons em jogos de bastidores, mas acabam por seguir o que os americanos "aconselham"...

Os Portugueses... Para onde vamos e perguntamos se precisam de alguém para trabalhar, agarram-nos logo. Até os espanhóis!

Ontem desliguei a correr o pc porque me esqueci que tinha aconsulta às 16h. Eram 15:27 e estava aqui a escrever e distraí-me. Vesti-me porque estava de pijama :) corri para o carro... corri com o carro... cheguei perto do local e arranjei logo estacionamento... usei o GPS para descobrir ao certo onde era exactamente o médico porque era a primeira vez que lá ía... cheguei apenas com 7 minutos de atrazo!

Isto é ser PORTUGUESA! Nascida e criada!
lololol

PS- Em Itália há um dia em que se mostrarmos o B.I. Português nos deixam entrar de graca. E nao é por alguma coisa pejorativa...