Sarkozy, o Dalai Lama e a China

Este fim-de-semana que passou assistiu-se a mais um dos inenarráveis capítulos que constam da novela folhetinesca trágica que tem no Tibete a vítima silenciosa e na China o algoz, tal personagem principal odiosa.
Isto tudo a propósito do encontro entre Sarkozy e o Dalai Lama, encontro este havido em território neutral, a Polónia.

A China sente-se ofendida, o povo chinês sente-se vexado.
Apelos ao boicote a produtos franceses circulam na internet.
Admiro a máquina propangadística do Governo chinês. Sim senhora, aqui está um governo autocrático que gere eficazmente os vexames e ofensas que um quinto da população mundial deve (vulgo, é obrigada a) sentir.
Pergunto-me o que é que o povo chinês saberia, ou mesmo se estaria interessado em saber, que o Dalai Lama se encontrou com um líder ocidental se não fosse a berraria governamental?
Pergunto-me ainda o que é que o povo chinês pode boicotar em termos de produtos franceses? Foie gras e productos "L'Occitane" não será de certeza.
E as élites económicas bem se ralando estão para boicotes. É tão ridículo tudo isto.

E à medida que o vexame chinês se propaga alto e bom som através de um megafone global, o Tibete lá continua a sua existência colonial. Enquanto, neste início de século, outros territórios reclamam as suas independências nacionais - muitos justificando as suas aspirações autonómicas em premissas facilmente esboroáveis - o Tibete, que legitima e justificadamente, tem direito à independência e a decretá-la unilateralmente, prossegue sendo um exemplo perfeito de usurpação territorial. E quem ajuda o Tibete? Pois...

O Dalai Lama é uma figura simbólica, um líder espiritual que, dadas as contigências, se tornou num líder político. Porém, não deixa de ser um símbolo, uma personagem exótica e um pregador, ou seja, não é a personagem certa para encabeçar negociações políticas.
A ONU não tem feito do Tibete uma prioridade e, por muito que o Richard Gere tente, não tem havido campanhas suficientemente aglutinadoras da população global para a causa tibetana. Os EUA também não se estarão para interessar por uma região que, ainda que enorme em termos territoriais, é escassamente povoada e não possui outros recursos naturais mais valiosos do que a água torrencial e quilómetros de cadeias montanhosas com estradas intransitáveis.

Porém, no fundo, no fundo, congratulo-me por a China acusar tão notória e tão publicamente o desconforto que lhe causa a situação da sua província tibetana.
Tanto esforço propagandístico, tantas ameaças de boicote, tanta verbalização de uma afronta sofrida, tanto pânico e receio que a reunião Sarkozy/Dalai Lama possa ser uma ingerência num problema interno chinês, são sinais inequívocos de que a China sabe que o Tibete não é uma província igual a tantas outras: é um país - aniquilado, mas um país.
Ao fim e ao cabo, a China tem medo do Tibete, medo que um dia, finalmente, a comunidade internacional se interesse pelo Tibete, medo que a lei internacional reconheça o Tibete, medo, em suma, que a lei vença.
Golias e David e todos sabemos o final da história...

9 comentarios:

António de Almeida disse...

O problema da China não reside unicamente no Tibete, os comunistas quando tomaram o poder pretenderam unificar todo o império do meio, com paciência de chinês esperaram anos por Hong Kong e Macau, sem dispararem um único tiro, têm a questão da Formosa, independente de facto, mas não reconhecida, onde nem sequer se fala o mandarim. Libertar o Tibete para a China, significaria abrir uma caixa de pandora, até porque viram o resutado da implosão da ex-URSS, que se pulverizou em estados, e muitas provincias aspiram ainda hoje à independência. Tenho para mim que será uma inevitabilidade, talvez não durante o nosso tempo, julgo que o PC Chinês está para durar, mas algures no futuro será colocado em causa dentro da própria China, aí o sonho da grande China terá o mesmo destino dos grandes impérios do passado, os livros de História.

pedro oliveira disse...

Também concordo que a China ao dar tanta importência a este encontro está a alertar a Comunidae Internacional para a questão tibetana, pode ser o principio do fim desta triste História. Espero que o António tenha razão e que seja o mais rápido possivel.
PO
vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

O Tibete é uma província incorporada na República Popular da China, e persistentemente considerada por esta como Região Autónoma.

Possui uma área de aproximadamente 1,2 milhões de quilómetros quadrados
Pese o relativo desconhecimento ocidental sobre essa parte quase mitológica do Mundo, a verdade é que a história do Tibete teve início há cerca de 2.100 anos.

Em 127 A.C. uma dinastia militar fixou-se no vale de Yarlung e passou a comandar a região, perdurando-se esta situação por oito séculos. Por centenas de anos "belicistas", o Tibete investiu sobre terras vizinhas.

Este comportamento mudou em 617, quando o imperador Songtsen Gampo - 33º rei do Tibete – começou a transformar a civilização feudo-militar num império mais pacífico.

Foi neste reinado, que durou até 701, que foi criado o alfabeto tibetano; o sistema legal tibetano (baseado no princípio moral segundo o qual é valorizada a protecção do meio ambiente e da Natureza); o livre exercício religioso do budismo, e edificados vários templos.

A partir do século VII a região tornou-se o centro do lamaísmo, religião baseada no Budismo, transformando o país num poderoso reinado.

Antigo objecto de cobiça dos chineses, no século XVII o Tibete é declarado incluído no território soberano da China. A partir daí seguem-se dois séculos de luta do Tibete por independência, conquistada - temporariamente - em 1912.

Em 1950 o regime comunista da China ordena a invasão da região, que é anexada como província. A oposição tibetana é derrotada numa revolta armada em 1959. Como consequência, o 14° Dalai Lama, Tenzin Gyatso, líder espiritual e político tibetano, retira-se para o norte da Índia, onde instala em Dharamsala um governo de exílio.

Em Setembro de 1965, contra a vontade popular de seus habitantes, o país torna-se região autónoma da China.
Esta é, numa breve sinopse, a verdadeira História do Tibete que confirma não só a sua existência com actor de pleno direito no coro das nações, mas a sua própria capacidade de afirmação.

Em Agosto de 1993 iniciam-se conversações entre representantes do Dalai Lama, laureado com o Prémio Nobel da Paz em 1989, e os chineses, mas mostram-se infrutíferas.

De qualquer modo, esta tem sido a postura persistente e insistente das autoridades de Pequim (agora Beijing) que vão ocasionalmente, e quando pressionadas ou em cenários de necessidade de limpeza da imagem (como sucedeu aquando dos Jogos Olímpicos), admitindo que querem negociar embora nunca o façam!

E note-se que o próprio Dalai Lama apenas reivindica a autonomia do Tibete e não a independência.

Contudo, a República Popular da China que tem a braços outros focos internos de contestação (nomeadamente em regiões de maioria muçulmana) e continua a ter como pedra no sapato a caso de Taiwan, não quer admitir qualquer cenário destes pois, na lógica do Partido Comunista Chinês, o Estado e a Pátria não se discutem.

Mais a mais, e como se disse, o Estatuto Especial de Macau e Hong Kong (resultantes mais do facto de estarem sob domínio de potências europeias) é uma coisa diferente e à parte, embora também ali vigorem princípios comunistas nuns domínios e capitalistas no que convém.

Só com a implosão do PCC é que, eventualmente, a causa tibetana sofrerá novo impulso.

O que, naturalmente, não deve coibir qualquer Estado e os seus representantes de não se deixarem condicionar pelas autoridades chinesas.

Quanto mais não seja, em nome do princípio da reciprocidade já que é essa a conduta chinesa face aos restantes estados.

DANTE disse...

Permite-me dizer que isto , Blonde , não é um conto de fadas...
A ter um fim não vai ser de certeza nehum David.

Jokas :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Isto dava pano para mangas, mas vou procurar ser sintético.
Reconhecer o Tibete seria, para a China, abrir uma Caixa de Pandora de consequências imprevisíveis, em virtude dos vários conflitos internos a que já outros comentadores ( especialmente o Ferreira Pinto) já fizeram referência. Na verdade o Ocidente também não está interessado na independência do Tibete, porque sabe as consequências que isso teria à escala global.
Comparando com a nossa vizinha Espanha, o que aconteceria se reconhecesse o Páis Basco? Ainda rercentemente pudemos verificar os resultados da impensada decisão da UE em reconhecer o Kosovo. A Rússia aproveitou para invadir a Georgia e, hoje em dia, apesar de não se falar disso, a Ossétia e a Abecazia estão praticamente desligadas da Geórgia.
Voltando ao início: a questão do Tibete funciona como um "fetiche" para a UE, que utiliza a situação para fazer pressão sobre a China. No entanto, tem o cuidado de não exagerar, porque sabe que afrontar a China, na situação actual é um acto de loucura. Aliás, se recordarmos o que sucedeu em 1989 com Tianan Men, percebemos como funciona a Ue em rlação à China. No dia imediato à declaração de boicote às relações comerciais com a China, a Itália estava a celebrar um acordo comercial com a China! A hipocrisia não tem limites e, sejamos claros, O Dalai Lama e a História do Tibete também estão cheios de contradições

Carol disse...

Pena que os finais felizes só aconteçam nos contos de fada...

Peter disse...

Nâo gosto dos chineses, poderei ser xenófobo, talvez seja, mas não gosto de chineses.
Quando penso neles estou sempre a lembrar-me dos condenados à morte com um tiro na nuca e depois a família a receber em casa uma carta a cobrar o preço da bala.
Não gosto de chineses que abrem lojas por todo o lado, funcionando 365/6 dias por ano, funcionando 12/15h/dia, empregando só familiares e outros chineses e rebentando tanto ou mais que os hipermercados o comercio de bairro. Ao menos os hiper ainda empregam portugueses nas caixas, embora lhe paguem miseravelmente.
Que lucra o país com eles?
Não gosto de chineses porque lhes concedem durante 4 anos (julgo) todas as facilidades fiscais, findos os quais fecham a loja e abrem noutro lado e com outro nome. Alás como se faz no Vale do Ave, mas aí são portugueses.
Não gosto de chineses.

lusitano disse...

O que eu acho fantástico são estes paises sempre tão orgulhosos como a França, ou a Inglaterra, que perante as diatribes e ameaças chinesas, calam-se e assobiam para o ar.

Se fossem os desgraçados do Burkina Faso, invadiam-nos logo, faziam logo um bloqueio e por aí fora.

Julgo que ainda temos de esperar muito até ver David vencer Golias outra vez.

Abraço

Victor Afonso disse...

À parte das questões políticas relativas ao Tibete (importantes, claro), queria dizer que a música dos monges budistas tibetanos é das mais bonitas e sedutoras do mundo. Pronto, já disse.