O iceberg

Portugal é um iceberg vogando nas águas tormentosas da U.E.
Na parte visível aparecem (não quer dizer que ali pertençam) as multidões que enchem os mega-concertos de bandas famosas e que esgotam os bilhetes com meses de antecedência, que lotam os voos para a passagem do ano nos locais mais díspares do planeta onde haja sol e praia ou neve, bares, discotecas, pousadas, eu sei lá...
Desde Outubro que está tudo esgotado nas Agências de Viagens: Funchal, NE Brasileiro, Caraíbas… só há vagas em hotéis do Algarve, demasiado “pindérico” para este “novo-riquismo” nacional. Sinceramente não sei onde vão buscar o dinheiro! Anda tudo a vender droga?

Abaixo da superfície do mar, como todos sabem, encontra-se a parte mais volumosa. É aí que vivem as pessoas que viajam comigo nos transportes colectivos, quando se podem dar a esse luxo e que habitam os prédios dos anos 40, ou mais antigos. Sobretudo viúvas de funcionários, professores primários, empregados do comércio, (...) habituadas a um determinado nível de vida, honestas e modestas.
Mas também mulheres mais jovens, abandonadas pelos maridos que não sabem onde se encontram e que, portanto, deixaram de receber a pensão a que estes foram obrigados para o sustento delas e dos filhos e que já não têm pais a quem recorrer, pois estes ainda se encontram em pior situação.

- Vê este fogão? Está avariado, mas ainda não está pago.
- E este televisor em cima do frigorífico, está desligado. Está avariado, não tenho dinheiro para o mandar arranjar, mas também ainda não está pago.
-Está é da "Financiadora"? Precisava dum crédito.
- Certamente, nada mais fácil, quanto precisa? Os nossos juros são iguais aos cobrados pelos cartões de crédito e ainda hoje terá o dinheiro nas suas mãos.

Ela sabe que não poderá pagar, mas que importa, se já não paga as prestações da casa há meses, o mesmo acontecendo com a luz, a água e o gás, que dentro em pouco lhe serão desligados.
É preciso ir sobrevivendo, não sabe o que lhe vai acontecer e já nem se importa. Alguma coisa se há-de arranjar.

E os habitantes dos bairros degradados?
Estão também na parte submersa, mas mais acima, junto ao mar. De vez em quando deitam a cabeça fora de água. Sobrevivem com "esquemas" e sempre, toda a vida, viveram na miséria e em ambientes degradados.
Mas as novas gerações querem agora e já, aquilo a que se julgam com direito como seres humanos e por isso os "esquemas" de que se servem, muitas vezes entre curtas, ou mais longas estadias na prisão. Por vezes há o azar das coisas correrem mal ...
As "velhas" ainda se vão arrastando como "empregadas da limpeza", enquanto os maridos vão fazendo "biscates" que por vezes aparecem.

Penso nisso enquanto vou navegando no Titanic.
Parece que o navio roçou um iceberg, mas não vai haver azar pois a orquestra continua a tocar...

4 comentarios:

tagarelas-miamendes disse...

Peter, impressionante estes texto.
Muito realista.
Vivemos todos na parte submersa do iceberg. E as vezes. as vezes, subimos a superficie e viajamos nos Titanics.......

lusitano disse...

Realmente meu caro amigo o teu texto representa bem o que vamos vivendo.

«Pão e Circo»

Só que o pão vai escasseando e o circo aumenta todos os dias.

Abraço

Ferreira-Pinto disse...

Caríssimo, concordo plenamente com a acutilante análise social que aqui é feito deste nopsso Portugal social-irreal.

Lentamente as pessoas vão começando a admitir aquilo que já nos tempos do guterrismo se descortinava ... que nos afundamos e que a tormenta começa a ser cada vez maior à medida que a torneira dos generosos fundos comunitários se fecha!

Constatei isso hoje mesmo num local insuspeito já que um passeio a Montalegre à cata dum cozido e da neve que por lá caiu abundante me proporcionou ver um restaurante despido de clientela ... onde outrora ou se marcava ou se esperava!

Disse-mo a dona da casa, onde uma dose que dá para duas pessoas custa 15,00€, que os tempos iam mesmo maus. E vão mesmo.
Eu que o digo esmigalhado num parco vencimento de técnico superior numa autarquia!
E que, precisamente por isso, me interrogo onde alguns vão buscar os euros?

Compadre Alentejano disse...

A diferença que há, é que um é o Portugal cor de rosa de Sócrates (concertos, férias no Brasil, passagens de ano faustosas), e o outro, praticamente o de nós todos, é o Portugal real. Aquele que nos aparece pela frente no dia-a-dia, no trabalho, nos transportes públicos, nos mercados, nas ruas,etc., fora das ajudas do governo.
Sócrates, apenas ajuda os bancos e os milionários, nunca os pelintras...
Parabéns pelo post.
Compadre Alentejano