Faltava um dia para o Natal...

... e por toda a casa se sentia a alegria da antecipação...
As luzes na árvore tremeluziam, o fogo na lareira crepitava e todo um halo de alegria transbordava nos rostos dos habitantes.
Lá fora, o frio e o vento faziam estremecer as pedras, mas as luzes montadas propositadamente para a época desde o mês de Novembro, pareciam querer aquecer os corpos daqueles que se tinham esquecido que a véspera foi feita para se passar em casa e não na rua...

Corpos enregelados e enfraquecidos pela fome, acotovelavam-se numa beira de escada, em busca de conforto e algum calor. O som do estômago sobrepunha-se ao sono e o mal estar era evidente. Ainda assim, os poucos transeuntes àquela hora, passavam sem olhar. Era hábito...

O vento e o frio desafiavam-se e juntar-se a eles veio a chuva. A tríade revezava-se na força e no desafio, o assobio e a saraivada, o ronco do estômago e o tremeluzir das luzes... tudo confluía numa harmonia difícil de igualar.

Os corpos enregelados já não pareciam ter vida. Aquela estava a ser uma noite particularmente difícil de aguentar.

Dentro das vidraças a família gargalhava com alegria. Estavam juntos novamente. Havia tanto tempo que não se encontravam todos à mesma mesa.
O filho perdido estava de novo ali. Tinham-no resgatado à rua, à droga, à podridão da morte em vida. Ele estava ali, e pareciam ter voltado a viver. A rua não se tinha ficado a rir, nem a droga, nem os que o queriam na lama. A família tinha conseguido ultrapassar a dor, o tormento e a desilusão. O orgulho era agora imenso, a alegria ameaçava transbordar o copo e elevá-los a todos a um estado de elevação possível apenas aos iluminados.
Seria aquilo a felicidade?

Nos rostos não existia carne, era luz, somente luz que irradiava e tornava os rostos quase que transparentes. As vidraças exalavam calor e no vão da escada já não parecia estar tanto frio.
O filho aproximou-se da janela. Um sorriso imenso irradiava-lhe o rosto e nenhuma sombra pairava sobre aquele olhar... até atingir aquele vão de escada ali em frente.
Aquele mesmo vão de escada onde tinha passado a consoada anterior...
aquele mesmo vão de escada onde se tinha tentado aquecer com um irmão de rua, sem êxito... aquele mesmo vão, onde havia um ano um corpo gelado e inerte tinha parado de roncar e onde ele se aninhara ainda mais em busca de calor, até ao ultimo suspiro do outro...

O filho deixou de sorrir... a mãe olhou-o e sentiu a dor, sentiu-a como se fosse dela e nela... cortou-lhe a respiração e viu o espírito do filho viajar para longe dali, para a rua, para há um ano atrás.
Foi buscar os casacos... a mãe foi buscar as luvas, os gorros e os casacos... Colocou-o nas costas do filho e fez sinal ao pai para que a seguisse nos movimentos, nos sentimentos...

Uma lágrima pairava no rosto lívido do filho e a luz que antes ali transbordara, escondia-se por trás da sombra das recordações. A mãe vestiu o filho, como todas as mães vestem os seus filhos, com amor, com ternura e uma infinita paciência. Nos olhos e no rosto o amor imenso que aquece uma casa e que há dois mil e oito anos aqueceu uma criança acabada de nascer deitada em palhas.
A mãe abriu a porta, levando consigo uma trouxa que nem pai nem filho conseguiam identificar.

Por baixo do vão de escada, dois corpos rígidos tremiam, buscando conforto um no outro, estômagos roncando de infelicidade.
Debaixo do braço da mãe a trouxa transformou-se como que por milagre e de dentro de um saco, saíram duas mantas, dois pares de pantufas e gorros e luvas e calças e camisolas e o que parecia ser uma garrafa de chá quente.
Uma luz resplandecia daquela mãe. Não haviam palavras ali, só gestos e um sorriso que fazia transbordar a taça da felicidade.
A família voltou para casa... maior desta vez...

Havia 2008 anos, uma pequena família tinha feito nascer uma boa nova, estrelas e reis tinham viajado para dar as alvíssaras ao portador da nova era e numa gruta fria, aquecida pelos corpos de uma mãe, de um pai, de uma vaca e um burro, uma criança sorria de felicidade... a mãe e o pai sorriam com ela... prometendo uns aos outros que seriam sempre uns para os outros a salvação dos piores dias, a alegria dos melhores...

Na casa tudo reluzia agora.
De três passaram a cinco e de sorrisos passaram a gargalhadas de luz.
No vão de escada procuravam agora conforto mais dois corpos esquecidos da realidade...

P.S. - Perdoem este meu conto. Não sou pessoa muito dada a contos de Natal. Tenho festas verdadeiramente felizes, tenho uma família que adoro e que me ama e tenho duas luzes que me alumiam os dias e as noites.
Mas este Natal, sobretudo este, sinto que haverão muitas famílias a precisar de um ombro amigo, de um pedaço de calor alheio para as confortar e isso deixa-me com um sentimento misto de tristeza e alegria.
Afinal, o que é o Natal, senão a alegria da partilha?

7 comentarios:

lusitano disse...

Perante o que escreveste resta-me agradecer-te pelo verdadeiro espírito de Natal aqui bem expresso e desejar-te um Santo Natal para ti e todos os teus.

E claro a todos os colegas de escrita, de comentário e leitura deste espaço.

E de acordo com aquilo que acredito, vivo e sinto, que Deus vos abençoe, guarde e proteja.

Abraço amigo a todos.

António de Almeida disse...

-Precisamente pela parte final é que se costuma dizer que Natal é quando o Homem quiser, de preferência deveria ser Natal todos os dias.

Ferreira-Pinto disse...

Bom, se tu não sabes escrever contos então eu não sei o que são contos.

Pena é que muitos que deviam ler contos como o teu não o façam e assim não saibam encontrar o caminho para a rectidão!

Peter disse...

Um conto pleno de humanidade. Um dia, ao menos um dia, sejamos humanos.
O que mais me choca neste Natal são as idosas e idosos abandonados nos hospitais com moradas e telefones falsos dos familiares que ali os deixaram, para poderem festejar o Natal sem o incómodo dos velhos.

Compadre Alentejano disse...

Parabéns pelo conto de Natal. Simples e muito actual. Obrigado.~
Os meus desejos de Boas Festas
Compadre Alentejano

João Castanhinha disse...

Boas festas caro Ferreira Pinto, bem como a todos os restantes membros de tão prezado blog, um Bom Natal a todos.

João Pedro Castanhinha

tagarelas-miamendes disse...

Um bom conto de Natal!
Uma boa picadela nas nossas consciencias adormecidas.
Le-se com emocao e sentimento de culpa. Muito bom!