A embrulhada

Já tinha posto todo o meu engenho e arte em participar no blogue e escrevera com o devido cuidado um texto “a preceito”, quando um almoço com uns amigos me levou a guardar o artigo na gaveta e vir aqui, depois de um bom queijo de ovelha alentejano, um bom bife com batatas fritas, sem aquelas “ervas” que só servem para tirar o gosto à carne e tudo devidamente regado com um tinto da Fundação Eugénio de Almeida, passe a publicidade, contar o que me contaram e se por acaso estiver ainda em condições do fazer.

Normalmente, quando se conta um conto, começa-se sempre por “era uma vez…”.
No Portugal de hoje é mais seguro começar por “Parece”.

A empresa sueca Lundin Mining, que detém as Pirites Alentejanas (concessionária da mina de Aljustrel) e a Somincor (dona das minas de Neves Corvo) depois duma paragem de 15 anos, parece que se tentou fundir com a “gigante” canadiana HudBay Minerals após ter aceite uma oferta de compra no valor de 800 milhões de dólares, cerca de 497 milhões de euros. Todavia a fusão entre as duas empresas não se chegaria a realizar uma vez que a fusão só seria efectiva depois de aprovada em Assembleia-geral de accionistas, o que não teria acontecido.
Acabará por assinar um contrato com o Governo no dia 19 de Maio com a presença do primeiro ministro e de outros governantes, no sentido de reiniciar a extracção na mina de Aljustrel. Porém, seis meses depois de ter retomado a produção, a Lundin Mining anunciou que iria suspender a actividade das minas de Aljustrel, já que o preço do zinco, único metal extraído da mina, caíra 50% sendo que só quando o preço começasse a aumentar é que a empresa iria analisar a questão, a menos que encontrasse um comprador, pois senão, devido ao contrato assinado, entraria em incumprimento com o Estado português.

Parece que para o Governo não haveria problemas de maior, desemprego é o nosso dia a dia, havia era para os trabalhadores, mas afinal não havia, porque um “comprador misterioso” iria adquirir as minas. O tal comprador viria a revelar-se como sendo a empresa MTO, holding dos irmãos Carlos e Jorge Martins, proprietários da Martifer, em parceria accionista com a Mota-Engil. Embora seja irrelevante, acontece que Jorge Coelho, ex-ministro Ajunto, ex-ministro da Administração Interna e ex-ministro do Equipamento é por pura coincidência, administrador da Mota-Engil e conselheiro técnico do plano estratégico de construções da empresa para os próximos cinco anos.

Tudo bem portanto, o pior é que a TVI contactou a Lundin Mining que disse desconhecer totalmente o assunto. Posteriormente e já na altura em que o ministro da Economia discursava, o administrador da mesma empresa veio confirmar a venda. Aguardemos pois.

E enquanto aguardamos vamos pensando no BPP, depois de vermos na TV o Pinto Balsemão e o Stefano Saviotti a entrarem para a reunião de accionistas e possivelmente a saírem com a garantia de que o Governo não iria deixar afundar o banco, pois perderíamos a credibilidade junto da banca suíça e americana, embora estes mal-amados americanos se tenham estado “nas tintas” para a falência do Lehman Brothers.
Pois é, os americanos são muito ricos e nós uns “coitadinhos”, habituados que estamos a procurar parecer aquilo que não somos.

E para terminar, porque o texto já vai longo e o Eugénio de Almeida já quase não me deixa ver as teclas, parece que aquelas criancinhas a quem “emprestaram” os Magalhães só para lhes tirarem a fotografia, pois finda a sessão tiveram de os devolver, ficaram mesmo muito aborrecidas.

Estas por certo não irão escrever cartas à ministra da Educação a dizer-lhe que, quando forem grandes, irão votar PS…

15 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Bom, cabe-me a mim dar as boas-vindas a tão ilustre escriba; ilustre e conhecedor da matéria a verter para o copázio que a Eugénio de Almeida é conhecida pelas suas "pomadas" divinais.

Quanto ao resto, este é, de facto, o país do faz de conta, quase se parecendo com um enorme palco onde são milhões os actores... e cada um encarna múltiplas personagens!

Essas negociatas das minas parece que vão dar ao covil do Coelho, que anda irmanado com o Loureiro noutros negócios e este, por sua vez, andaria irmanado com um árabe qualquer que parece, mas só parece, que traficava armas!

Tudo boa gente ao que parece. Sempre disponíveis para ajudar e com dinheiro de sobra para investir embora, ao que parece, sempre sem tempo para ocupar cargos de relevo!

Peter disse...

Ferreira Pinto

Agradeço as boas vindas ao nick, identificador da pessoa, que tanto expremeu as meninges para escrever este texto de coincidências. Elas são tantas que quase davam para escrever um livro, assim houvesse tempo.
Tenho para ali o PÚBLICO de ontem, o de hoje a VISÃO e o SOL e não sei como vou arranjar tempo para os ler. É que, sabes, gosto de ler biografias e na revista, com a biografia não autorizada de Dias Loureiro, ou no SOL com o "bunker" de Oliveira e Costa, deve haver "pano para mangas".
Esperemos então por 2009 para vermos o início da construção das infra-estruturas do TGV, do novo aeroporto do "deserto", das várias pontes, etc.
As grandes construtoras, como a Mota-Engil, estão ansiosas por começar.

joshua disse...

Grande, grande Peter! A Cosa Nostra-PS soma e segue: empresas do Regime, Comunicação Social do Regime, Negócios do Regime, Marcas de Automóveis 'alavancadas' pelo Regime para minimizar as estatísticas de desemprego sistémico que por aí virá em peso.

Um Abraço e espero muitas mais luminosas revelações [inspiradas ou não pelo Fundação] com que autopsies a Cosa Nostra-PS, esse grande obituário de um país plural e livre do rodízio de tachistas devoristas do Erário Comum.

Alexandre Corrupto disse...

quem conta um conto... acrescenta um ponto. O teu é óbvio :)

Compadre Alentejano disse...

As coincidências são mais que muitas, e todas vão dar a "artistas" dos PS(D), o chamado Centrão.
Como se esperava o (des)governo, para além de proporcionar estas negociatas, ainda lhes atribui milhões em subsídios a fundo perdido. Ah, grande Sócrates!!!
Saudações
Compadre Alentejano

Zé Povinho disse...

Começam a vir a lume algumas das muitas cumplicidades entre o poder político e o poder económico, e nem sempre pelas melhores razões nos últimos dias.
Não será por culpa da pomada que o assunto veio a lume, porque estas ligações são conhecidas, e com mais ou menos detalhes, conhecidas.
Abraço do Zé

joshua disse...

UM GRANDE CIENTISTA, geógrafo e historiador americano, Jared Diamond, publicou, há uns anos, um formidável livro recentemente editado em Portugal (Gradiva). O título, “Colapso”, refere-se a uma realidade que estudou com pormenor e imaginação: há povos, países ou Estados que “escolhem” acabar, morrer ou desaparecer. Os Maias, os povos da ilha de Páscoa ou das ilhas da Gronelândia e populações do Ruanda contemporâneo são alguns dos exemplos. Por várias e complexas razões, tais povos, a partir de um certo momento, desistiram e caminharam direitos para o fim. Uns fizeram tudo o que era necessário para destruir ou esgotar as bases da sua sobrevivência, outros renderam-se aos inimigos humanos ou às ameaças naturais. Podem as escolhas não ser datadas e deliberadas, mas são actos de vontade motivados, talvez não pelo desejo de morrer, mas sim pela ilusão de outra vantagem ou pela complacência com que se vive uma circunstância conhecida.
.
ESTA SEMANA foi fértil em situações e acontecimentos que sugerem o colapso, tal como Diamond o estudou. A analogia pode parecer forçada. Os processos históricos demoram séculos, aqui estamos a falar de anos. Aqueles dizem respeito a povos inteiros, aqui referem-se instituições ou regimes. Mas o paralelo é irresistível. O Parlamento português, por exemplo. Tem vindo gradualmente a falhar os testes de prova de vida. Dá de si uma imagem confrangedora de ignorância e incompetência. Obriga os seus deputados a abdicarem da liberdade e da independência. Aprovou por unanimidade diplomas recheados de inconstitucionalidades. Transforma o orçamento de Estado numa futilidade adjectiva. Faz seu o confronto que o PS deseja criar com o Presidente da República. Cauciona a abertura de uma crise institucional, inventada por motivos menores, sem se preocupar com os efeitos nefastos do seu comportamento. Caminha cegamente para as trevas exteriores. Tal como os Vikings das ilhas da Gronelândia, não percebe que já não é útil e que, por este andar, é dispensável. E não entende que o seu fim pode já ter começado.
.
O PSD CONTINUA a dar exemplos de preparação para o suicídio. As mudanças sucessivas de presidente nada adiantaram. Manuela Ferreira Leite não conseguiu pôr o partido em ordem. Poucos meses bastaram para que os seus rivais criassem a desordem habitual. Creio que não existe, na recente história política portuguesa, nenhum caso onde sejam tão frequentes a mentira e a traição. Onde a luta fratricida atinja os cumes do assassinato velhaco. Onde o maior prazer é a derrota dos amigos. Onde a maior festa é a morte dos correligionários. No Parlamento, esta semana e a propósito de uma votação relativa aos processos de avaliação dos professores, as faltas de trinta ou quarenta deputados fizeram com que a oposição perdesse e o governo ganhasse sem mérito nem justa causa. Pode pensar-se que foi preguiça, afazeres, negócios ou prazer. Eventualmente vingança ou vontade de criar o caos. Mas tudo isso, por parte ou atacado, configura a indiferença. Eles estão-se simplesmente nas tintas! E, tal como os habitantes da ilha de Páscoa, não sabem que estão a escolher a morte. Se fosse só a deles, não se perderia grande coisa. Mas também pode ser a do Parlamento.
.
O REGIME DEMOCRÁTICO português é frequentemente elogiado. Ou antes, foi. Instalou-se em poucos anos. Tem resistido à prova do tempo. Já foi considerado o “bom aluno” da Europa. Há mesmo quem pense que foi a primeira “revolução democrática” a preceder todas as outras de Leste e alhures. Na verdade, não foi. Terá talvez sido, com as suas ilusões absurdas, a última revolução socialista, mas é indiferente. Nesta democracia que já foi “exemplar”, as recentes agitações financeiras abriram definitivamente uma ferida tão repetidamente mencionada mas raramente concretizada: a da promiscuidade. Infelizmente, os costumes locais não fazer a distinção entre fraude, corrupção e promiscuidade. Para muitos, é a mesma coisa. Ora, não é. A promiscuidade entre a política e os negócios pode ser perfeitamente legal, mas pode matar um regime. Pode levá-lo ao colapso, mas legalmente. A política como fonte de acumulação primitiva de uma classe recém-chegada pode utilizar apenas meios legais ou, no máximo, não recorrer a ilícitos. Até porque os verdadeiros patrícios do regime português têm sabido fazer as leis capazes de sustentar as festividades.
.
A sucessão de “casos” que envolvem grandes recursos financeiros, enormes obras públicas e colossais adjudicações sem concurso tem vindo a criar mal-estar e a mostrar as fragilidades do regime. A revelação das galáxias empresariais torna evidentes ligações insuspeitas entre partidos e empresas. Mas também o seu tutano, aquela área feita ora de luz, ora de sombra, onde se ganham eleições, se fazem negócios, se recrutam quadros e prestam favores. Ou aquele espaço intersticial onde se acumulam riquezas e fazem reis. As lutas intestinas de um banco, as rivalidades agressivas entre outros, as fraudes cometidas por um e a falência iminente de outro tiveram um denominador comum: a presença directa ou indirecta do Estado no capital, no negócio, na estratégia, no salvamento, na recuperação ou no amparo. Antes, durante e sobretudo depois das crises. Se o que estivesse em causa fosse só o papel do Estado, talvez houvesse razão e desculpa. O problema é que apareceram os rostos áulicos, com nome e currículo, dos que ora agem pelo Estado, ora por si próprios, ora por mandantes. O facto, em vez de sublinhar a força do Estado, põe em relevo a sua fragilidade e o modo como se deixou apoderar pelos predadores do regime. E exibe os circuitos do Jogo da Glória, ou do Monopólio, por onde circulam os novos Barões. Banca, energia, obras públicas e telecomunicações: parecem ser estes os territórios preferidos dos grandes partidos do regime. É possível que a maior parte dos homens de que se fala hoje não tenha cometido um só crime. É possível que não tenham tido, jamais, um comportamento ilícito. Mas tal se deve ao facto de as leis permitirem que se faça o que se faz. Até porque foram eles que as fizeram.

«Retrato da Semana» - «Público» de 7 de Dezembro de 2008

lusitano disse...

Caro Peter, um abraço de boas vindas.

Depois em relação ao assunto tratado, que representa mais uma das "moscambilhas" da política deste "cantinho à beira mar plantado", o mais importante é mesmo o Fundação Eugénio de Almeida.

É que nem precisamos de ir ao célebre Quinta Cartuxa, o "apenas" Fundação já é um vinho de "estalo"!

Pena é que quando apareceu era bastante mais acessivel ás bolsas dos portugueses do que agora, que é mais acessivel aos "portugueses da bolsa".

Abraço amigo

Peter disse...

joshua

Agradeço a "dica" sobre o livro "Colapso", da Gradiva que irá alimentar a fila dos que aguardam leitura, pois o tempo é cada vez menos.
Ainda não cheguei ao PÚBLICO de hoje, pois tenho estado às voltas com o SOL e neste encontrei tratados dois assuntos que abordas:
- "Sócrates afasta Cavaco";
- "Por que defendo Ferreira Leite?".
No que respeita ao primeiro, os dois articulistas defendem a idéia de que Sócrates quer "seduzir" a esquerda do PS, receoso do crescimento eleitoral do PCP e do BE, potenciado pelas eventuais fugas de votos, estimuladas pelos discursos de Manuel Alegre. Também não é despiciendo o receio da perda de votos dos socialistas açorianos. O momento teria sido bem escolhido, na medida em que o caso BPN teria deixado a posição do PR algo fragilizada.
No que respeita à MFL, José António Saraiva considera que ela estará a ser vítima de uma aliança objectiva entre a máquina de contra-propaganda do PS e os seus detractores internos no PSD.

Peter disse...

lusitano

Agradeço as boas-vindas e irei esforçar-me por não desiludir.

Quanto a vinhos, prefiro os tintos alentejanos, embora o 6º classificado em 2008 e a nível mundial, tenha sido um Douro de cujo nome não me lembro. Aliás não tem a mínima importância pois não deve estar ao alcance da minha bolsa. Em ocasiões muito, muito especiais, arrisco um "Quinta do Carmo" (Extremoz) Reserva.

Quanto ao artigo desenvolvo o caso das pirites, mas abordo "en passant" o caso BPP e os Magalhães de "dá e tira". Tudo faz parte da "embrulhada".

Abraço e bom feriado.

joshua disse...

Caríssimo Peter,

Trata-se de um oportuno artigo do António Barreto com um enunciado apocalíptico sobre a saúde do Regime, paz à sua alma ou antes pelo contrário.

O blogue Jacarandá do António Barreto pode ser comentado e merece bem sê-lo, defendendo os seus postulados que bem autopsiam o adiantado estado de devastação do Parlamento e demais estruturas do Estado Português.

A República não está a valer a pena. Precisamos de um renovo monárquico capaz de regenerar a honra e o orgulho nacionais, o espírito de serviço desinteressado dos altos servidores do Estado, de momento altos e obscenos servidores de eles mesmos.

Um Abraço e Parabéns pela estreia. Ânimo e fortaleza de espírito no combate civilizado das ideias e das propostas, das análises e saídas de esperança para Portugal, o Portugal que urge regenerar em todos os sentidos.

Peter disse...

joshua

Qual é o endereço do blogue "Jacarandá" do António Barreto?
Nestes assuntos informáticos é a "bluegift" que trata deles.

Em termos económicos a monarquia ficará mais barata que a república, com um parlamento cheio de deputados, ou vazio, uma vez que os mesmos trabalham (?) apenas 3,5 dias/semana (tarde de 2ª, 3ª, 4ª e 5ª).

joshua disse...

Sem dúvida, Peter!

Jacarandá: http://o-jacaranda.blogspot.com/

Aquele Abraço
joshua

Carol disse...

Isso é que foi uma pinga bem escolhida!
Já tinha conhecimento deste conto, mas Peter isso são tudo coincidências. A malta é que é má-língua e venenosa... ;)
Bem-vindo!

Peter disse...

Carol

Obrigado pelas boas-vindas.
Tinhas conhecimento do "conto"?
Mas são três "contos": o caso das pirites, o do BPP e o dos Magalhães de dá e tira.
Não os inventei, não estou no "segredo dos deuses", tenho de falar do que leio. Limito-me a apresentar factos, as conclusões são vossas.

Bom feriado!