Conto de Natal

Estava ali, deitado no chão frio daquele passeio.
A noite inclemente abatia-se sobre ele, indiferente ao seu frio, ao seu mal estar.
Mas também que interessava isso, se para ele a vida já não tinha nenhum sentido, nenhum interesse, nada que valesse a pena lutar.
Ainda tinha prometido a si próprio que não ia desistir, não se ia dar por vencido, mas depois de tanto procurar, de tantas portas fechadas, umas mais abruptamente, outras com delicadeza hipócrita, a sua vontade, a sua força, tinham-se extinguido.
Para além do mais não ajudava nada ser Noite de Natal, ver as pessoas a caminharem em passos rápidos para casa, onde o calor do aquecimento e sobretudo o calor da família os esperava.
Já não estou cá a fazer nada, pensou, não tenho ninguém, ou melhor, ninguém se interessa por mim, passam por mim e já nem desviam a cara, olham através de mim, como se eu não existisse, e realmente, pensou, eu já não existo.

Vou-me deixar ficar aqui, ao frio, sem comer (no seu interior ainda houve espaço para um sorriso, sem comer, como se ele tivesse alguma coisa para comer), à espera da morte libertadora. Não vou procurar vão de escada, nem protecção, fico aqui mesmo, para que seja mais rápido o fim.

Deixou-se assim ficar e apesar do frio adormeceu.
De repente sentiu alguém ao seu lado.
Uma mulher tão pobre e mal vestida como ele, deitara-se e encostara-se a si.
Ficou quieto e reparou que nos braços da mulher estava uma criança recém nascida, que dormia sossegada, com um sorriso nos lábios.

Depois de passado o espanto e um momento de silêncio, voltou-se para ela e perguntou:
- O que é que tu queres?
Com um olhar assustado, mas ao mesmo tempo doce, a mulher respondeu:
- Só quero calor, só preciso de calor. Não é para mim, é para ele.
E olhou a criança com uma ternura que ninguém desconfiaria nela.
Continuou a falar, numa voz baixa, mas forte.
- Disseram-me para não ter o bébé, que iria ser um desgraçado, um abandonado da vida, que mais valia não nascer sem amor, sem futuro. Mas não, eu não fiz isso! Quem sou eu para decidir da vida de alguém, mesmo que pareça não haver presente, quanto mais futuro? Mas olha tinha decidido acabar com tudo! Morria eu e morria ele, talvez assim fosse melhor. Mas depois pensei, que culpa tinha ele que eu seja assim? Quem é que me diz, que ele ainda não vem a ser um grande senhor, uma pessoa importante, se calhar até para fazer bem aos outros.

As palavras agora saíam-lhe mais fortes, quase empolgadas:
- Uma coisa já fez esta criança por mim. Fez-me desistir da morte, fez-me lutar pela vida, fez-me encontrar o que eu achava que estava perdido, a vontade de viver, viver por ele.
Nessa altura ele levantou-se, ajudou-a a levantar-se e disse-lhe:
- Vamos procurar abrigo, seja onde for. O bébé precisa de calor, de estar protegido, precisa que lhe dês o teu leite e aqui no meio da rua não pode ser.

Encontraram um vão de escada, uns cartões, e sentaram-se enquanto a mulher dava de mamar à criança.
- Chega-te mais para mim - disse-lhe ele - temos que o envolver no nosso calor, não podemos deixar que ele apanhe frio.
Dentro de si nasceu um compromisso forte.
Não iria deixar aquela mãe e sobretudo aquele bebé morrerem de frio ou de qualquer outra coisa, porque ele tudo iria fazer para que tal não acontecesse.

Foi então que veio à sua memória aquilo que há tão pouco tempo tinha decidido: deixar que tudo acabasse, porque a sua vida já não tinha sentido.
Sentiu que lhe tocavam no ombro, que o chamavam e percebeu então que tinha estado a dormir. Eram uns jovens que percorriam as ruas à procura de gente como ele para os ajudarem com roupas e alimentos e naquela noite até um abrigo.
Levantou-se, seguiu-os e percebeu que dentro de si tinha nascido outra vez a vontade de viver, percebeu que uma vida não acaba assim, que tinha de lutar pois que apesar de nada ter, se calhar havia alguém que precisava dele.
Lembrou-se do sonho, da mulher, da criança, da Noite de Natal, da família que já tinha tido, do que os pais lhe tinham ensinado e percebeu então o sonho que tinha tido.

Levantou os olhos ao Céu, e disse de todo o coração:
- Obrigado Jesus, que quiseste precisar do meu calor, para me ensinares o valor da vida.

Escrito em 13 de Dezembro de 2006.

5 comentarios:

António de Almeida disse...

-Por vezes diante do abismo, quando se pensa não existir mais nada, surge sempre um caminho. Lá diz o velho ditado "enquanto há vida, há esperança".

Ferreira-Pinto disse...

Sempre ouvi dizer que o caminho se faz andando e, conforme nos retratas, mesmo no sonho é possível encontrar um rumo ... independentemente das opções que cada um tome na vida!
Porque pela Razão ou pela Fé, que não são inimigos inconciliáveis, progride o Homem desde que em cada uma encontra a pitada certa.

lusitano disse...

Caro Ferreira Pinto, tens razão.

A Fé e a Razão são perfeitamente conciliáveis como aliás nos diz João Paulo II logo no começo da enciclica Fides et Ratio.

«A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio»

Abraço

Peter disse...

Um bonito conto de Natal. Não aceito a toxicodependência, como não aceito o alcoolismo ou o fumar. Também já lutei e venci. Quem não luta e se deixa arrastar, perde o seu dom mais precioso: a VIDA.
Depois, depois atira as culpas para cima dos outros.

Tiago R Cardoso disse...

belíssimo momento.