... hip, hip ... hic, hic ...

Peço desculpa, mas não arranjei melhor! Vamos mesmo ter de regar a efeméride com uns copos de Herdade dos Grous ou Evel Super Reserva e, no remate final, um Murganheira ou um Mumm ... que cada um diga de sua escolha, se faz favor, e tenha um Próspero Ano Novo (vamos todos acreditar que sim!).
Em nome de toda a equipa do NOTAS SOLTAS, mas nem sempre IDEIAS TONTAS, assina o Ferreira-Pinto

Olha, hoje não me apetece!

É verdade!
Hoje não me apetece, imaginem só.
Não me apetece e acabou-se. Não se fala mais nisso. E nem me dói a cabeça …
Simplesmente "não me apetece": eis a fórmula mágica que as esposas, maridos, amantes, namorados, engates de ocasião dos nossos eminentes políticos e políticas deviam adoptar.

Discursava o Cavaco sobre o Estatuto e a Maria, no fim, “olha, hoje não me apetece …”; discursava o nosso Primeiro sobre a prosperidade que nos vai chegar às toneladas em 2009 e eu sei lá quem “olha, apesar de toda a felicidade que me prometes, hoje não me apetece”; berrava o Louçã no Parlamento com aquele ar esgazeado e chegado a casa levava com um sonoro “pois, meu lindo, hoje não me apetece …”.
Claro está que com alguns e algumas dificilmente se imagina apetecer qualquer coisa.
Aliás, quase que mais vale arrsicar apetecer algo com o Ambrósio!

Mas, como vos dizia, tenho cá para mim que em vez de andar aqui a perder o meu tempo, a dar-me ares de analista social e político justo, imparcial, honesto e escapa-me agora o último requisito que o Capitão Moura da “Liga dos Últimos” exige, mais valia que aqueles e aquelas fizessem greve em casa ou onde lhes costuma apetecer.
Murchava o pio aos visados e, às tantas, ante negas evidentes e universais a coisa endireitava porque os gajos e as tipas não são burros (gostam é de fazer de nós parvos) e iam logo topar que o "hoje não me apetece" estava ligado ao seu mísero desempenho nas funções que lhes estão confiadas ...
... ou arranjava-se tema para opinar quando algum fosse apanhado com as calças na mão ou alguma com as saias nos tornozelos porque nestas coisas do “ai, hoje não me apetece” já se sabe que há sempre uns fura greves dispostos a animar a malta!
Ah, por falar nisso, amanhã também não nos apetece escrever. Quer dizer, vai ser uma coisa mais pequenita! Para não aborrecer tão exigente clientela ...
Disse.

Para inglês ver...

A semana do Natal ficou marcada por mais um episódio de violência na escola. Não uma violência física, mas uma violência não menos importante - a violência psicológica.

Um grupo de alunos, de uma escola no Porto, apontou uma pistola de plástico à sua professora de Psicologia. Pelos vistos, a professora apercebeu-se quase de imediato de que a arma não era verdadeira e não se mostrou muito aflita com a situação, mesmo quando um deles adoptou a postura de um boxeur. O objectivo deles, ao que parece, era a de garantir nota positiva para um dos alunos em questão.
Após o términus da aula, a professora contou o episódio à presidente do Conselho Executivo que teve uma conversa com o grupo. Eles pediram desculpa à visada e ela desculpou. Assunto arrumado. Até que surgiu um vídeo do episódio a circular na internet. Aí caiu o Carmo e a Trindade!

A escola reuniu com os alunos, com a professora, com os pais e, pelas televisões, surgiu um coro de vozes que unanimamente desculpabilizava a atitude do grupo, referindo que são todos bons rapazes e que, pasme-se, até têm boas notas!

Tudo isto me fez recordar o que se passava no meu tempo de estudante liceal... Frequentei uma Escola Secundária que, durante muitos anos, foi considerada das mais exigentes e severas do distrito de Aveiro.
A minha turma do Secundário foi, desde sempre, a que melhor aproveitamento apresentava mas tinha um senão: era a pior no que dizia respeito ao comportamento! E porquê: porque nós, raparigas, jogávamos à sueca na sala de aula e conversávamos sem parar, enquanto os rapazes se entretinham a ver a Playboy ou a discutir os lances polémicos dos jogos de futebol...
Estas atitudes valeram-nos inúmeros castigos, que incluiram a limpeza de salas de aula e casas de banho, a arrumação da biblioteca da escola e várias conversas da Directora de Turma com os respectivos encarregados de educação e nossas com o presidente do Conselho Directivo (um senhor muito pouco agradável, diga-se de passagem).

Hoje o que é que vejo por aí?
Alunos a ameaçar e, por vezes, a agredir professores verbal e fisicamente, alunos a agredirem-se com facas, pais a agredirem docentes e pessoal auxiliar, etc, etc.
E o que é que lhes acontece?
Bem, nada! A não ser que haja um colega mais néscio que decida tornar pública a coisa e coloque as provas do crime a circular na internet... Aí, sim, lá poderão esperar um castigo que, muitas vezes, não passa de uns dias de serviço comunitário ou da obrigação de mudar de escola! (Uma situação verdadeiramente penalizante para o aluno, que terá de prevaricar noutra escola e com colegas novos...).

A sociedade portuguesa queixa-se da Justiça, de como esta é lenta e ineficaz mas ela própria possibilita que isso aconteça. Senão, vejamos, não é função da sociedade, que naturalmente inclui os pais, de incutir o respeito pela autoridade, de valorizar atitudes e valores positivos e penalizar comportamentos errados?

Então, quando um grupo de estudantes do 11º ano, pretende garantir uma nota com recurso à ameaça, ainda que com uma pistola de plástico e surge um coro que os desculpabiliza e classifica o episódio como uma brincadeira de mau-gosto, qual é a mensagem que se está a passar?!

Sinceramente, não estava à espera que os prendessem mas, no mínimo, esperava que alguém tivesse condenado veementemente o comportamento destes alunos e tivesse tomado uma atitude, de preferência antes do caso chegar à Comunicação Social...

O iceberg

Portugal é um iceberg vogando nas águas tormentosas da U.E.
Na parte visível aparecem (não quer dizer que ali pertençam) as multidões que enchem os mega-concertos de bandas famosas e que esgotam os bilhetes com meses de antecedência, que lotam os voos para a passagem do ano nos locais mais díspares do planeta onde haja sol e praia ou neve, bares, discotecas, pousadas, eu sei lá...
Desde Outubro que está tudo esgotado nas Agências de Viagens: Funchal, NE Brasileiro, Caraíbas… só há vagas em hotéis do Algarve, demasiado “pindérico” para este “novo-riquismo” nacional. Sinceramente não sei onde vão buscar o dinheiro! Anda tudo a vender droga?

Abaixo da superfície do mar, como todos sabem, encontra-se a parte mais volumosa. É aí que vivem as pessoas que viajam comigo nos transportes colectivos, quando se podem dar a esse luxo e que habitam os prédios dos anos 40, ou mais antigos. Sobretudo viúvas de funcionários, professores primários, empregados do comércio, (...) habituadas a um determinado nível de vida, honestas e modestas.
Mas também mulheres mais jovens, abandonadas pelos maridos que não sabem onde se encontram e que, portanto, deixaram de receber a pensão a que estes foram obrigados para o sustento delas e dos filhos e que já não têm pais a quem recorrer, pois estes ainda se encontram em pior situação.

- Vê este fogão? Está avariado, mas ainda não está pago.
- E este televisor em cima do frigorífico, está desligado. Está avariado, não tenho dinheiro para o mandar arranjar, mas também ainda não está pago.
-Está é da "Financiadora"? Precisava dum crédito.
- Certamente, nada mais fácil, quanto precisa? Os nossos juros são iguais aos cobrados pelos cartões de crédito e ainda hoje terá o dinheiro nas suas mãos.

Ela sabe que não poderá pagar, mas que importa, se já não paga as prestações da casa há meses, o mesmo acontecendo com a luz, a água e o gás, que dentro em pouco lhe serão desligados.
É preciso ir sobrevivendo, não sabe o que lhe vai acontecer e já nem se importa. Alguma coisa se há-de arranjar.

E os habitantes dos bairros degradados?
Estão também na parte submersa, mas mais acima, junto ao mar. De vez em quando deitam a cabeça fora de água. Sobrevivem com "esquemas" e sempre, toda a vida, viveram na miséria e em ambientes degradados.
Mas as novas gerações querem agora e já, aquilo a que se julgam com direito como seres humanos e por isso os "esquemas" de que se servem, muitas vezes entre curtas, ou mais longas estadias na prisão. Por vezes há o azar das coisas correrem mal ...
As "velhas" ainda se vão arrastando como "empregadas da limpeza", enquanto os maridos vão fazendo "biscates" que por vezes aparecem.

Penso nisso enquanto vou navegando no Titanic.
Parece que o navio roçou um iceberg, mas não vai haver azar pois a orquestra continua a tocar...

Conto de Natal

Estava ali, deitado no chão frio daquele passeio.
A noite inclemente abatia-se sobre ele, indiferente ao seu frio, ao seu mal estar.
Mas também que interessava isso, se para ele a vida já não tinha nenhum sentido, nenhum interesse, nada que valesse a pena lutar.
Ainda tinha prometido a si próprio que não ia desistir, não se ia dar por vencido, mas depois de tanto procurar, de tantas portas fechadas, umas mais abruptamente, outras com delicadeza hipócrita, a sua vontade, a sua força, tinham-se extinguido.
Para além do mais não ajudava nada ser Noite de Natal, ver as pessoas a caminharem em passos rápidos para casa, onde o calor do aquecimento e sobretudo o calor da família os esperava.
Já não estou cá a fazer nada, pensou, não tenho ninguém, ou melhor, ninguém se interessa por mim, passam por mim e já nem desviam a cara, olham através de mim, como se eu não existisse, e realmente, pensou, eu já não existo.

Vou-me deixar ficar aqui, ao frio, sem comer (no seu interior ainda houve espaço para um sorriso, sem comer, como se ele tivesse alguma coisa para comer), à espera da morte libertadora. Não vou procurar vão de escada, nem protecção, fico aqui mesmo, para que seja mais rápido o fim.

Deixou-se assim ficar e apesar do frio adormeceu.
De repente sentiu alguém ao seu lado.
Uma mulher tão pobre e mal vestida como ele, deitara-se e encostara-se a si.
Ficou quieto e reparou que nos braços da mulher estava uma criança recém nascida, que dormia sossegada, com um sorriso nos lábios.

Depois de passado o espanto e um momento de silêncio, voltou-se para ela e perguntou:
- O que é que tu queres?
Com um olhar assustado, mas ao mesmo tempo doce, a mulher respondeu:
- Só quero calor, só preciso de calor. Não é para mim, é para ele.
E olhou a criança com uma ternura que ninguém desconfiaria nela.
Continuou a falar, numa voz baixa, mas forte.
- Disseram-me para não ter o bébé, que iria ser um desgraçado, um abandonado da vida, que mais valia não nascer sem amor, sem futuro. Mas não, eu não fiz isso! Quem sou eu para decidir da vida de alguém, mesmo que pareça não haver presente, quanto mais futuro? Mas olha tinha decidido acabar com tudo! Morria eu e morria ele, talvez assim fosse melhor. Mas depois pensei, que culpa tinha ele que eu seja assim? Quem é que me diz, que ele ainda não vem a ser um grande senhor, uma pessoa importante, se calhar até para fazer bem aos outros.

As palavras agora saíam-lhe mais fortes, quase empolgadas:
- Uma coisa já fez esta criança por mim. Fez-me desistir da morte, fez-me lutar pela vida, fez-me encontrar o que eu achava que estava perdido, a vontade de viver, viver por ele.
Nessa altura ele levantou-se, ajudou-a a levantar-se e disse-lhe:
- Vamos procurar abrigo, seja onde for. O bébé precisa de calor, de estar protegido, precisa que lhe dês o teu leite e aqui no meio da rua não pode ser.

Encontraram um vão de escada, uns cartões, e sentaram-se enquanto a mulher dava de mamar à criança.
- Chega-te mais para mim - disse-lhe ele - temos que o envolver no nosso calor, não podemos deixar que ele apanhe frio.
Dentro de si nasceu um compromisso forte.
Não iria deixar aquela mãe e sobretudo aquele bebé morrerem de frio ou de qualquer outra coisa, porque ele tudo iria fazer para que tal não acontecesse.

Foi então que veio à sua memória aquilo que há tão pouco tempo tinha decidido: deixar que tudo acabasse, porque a sua vida já não tinha sentido.
Sentiu que lhe tocavam no ombro, que o chamavam e percebeu então que tinha estado a dormir. Eram uns jovens que percorriam as ruas à procura de gente como ele para os ajudarem com roupas e alimentos e naquela noite até um abrigo.
Levantou-se, seguiu-os e percebeu que dentro de si tinha nascido outra vez a vontade de viver, percebeu que uma vida não acaba assim, que tinha de lutar pois que apesar de nada ter, se calhar havia alguém que precisava dele.
Lembrou-se do sonho, da mulher, da criança, da Noite de Natal, da família que já tinha tido, do que os pais lhe tinham ensinado e percebeu então o sonho que tinha tido.

Levantou os olhos ao Céu, e disse de todo o coração:
- Obrigado Jesus, que quiseste precisar do meu calor, para me ensinares o valor da vida.

Escrito em 13 de Dezembro de 2006.

Sem raízes, não há futuro!

Seria bom que este Natal tivesse sido o início de uma nova caminhada.
Onde algumas palavras ganhassem nova projecção, novo conteúdo e muitos, sob aquela capa de modernidade enfatuada, deixassem de ser ocos, despidos e, nalguns casos, burros como um penedo!
O elixir para a resolução de todas as inquietações mundiais não está dentro de alguém em especial, mas como tal fechadura só pode ser aberta se cada um começar por mudar algo dentro de si.

Ainda há dias sofri tratos de polé para chegar a Castro Laboreiro, mas por lá descobri em escassos dois dias algumas coisas que nas cidades nem sombra de pó, e aqui nesta amálgama de campo sufocado pela indústria em que vivo vamos tendo aqui e ali.
Notei como as gentes locais eram incapazes de passar por alguém sem saudar chegando um ou outro homem, respeitosamente, e ante a presença de três mulheres levemente erguer o chapéu!
Contrariamente, aquando do primeiro almoço (espantosamente em restaurante a pretender ser moderno e preços citadinos a quilómetros do serviço), foram três gerações de gordos e anafados citadinos quem me proporcionou a boçalidade no mais puro estado embora a Dona Avó, num tom galináceo, nunca tivesse sido capaz de tratar o Tomás por mais que “você” assim se esforçando por mostrar aos restantes, a quem pouco remédio restava senão ouvir-lhe o cacarejar, a sua superiodade. Moral e certamente intelectual!

E chegada a hora da janta, desta feita em frente a lareira descomunal, esmagado pelas pedras de granito da tarde, os tons mil da folhagem e o gorgolejar da água gelada, atirei-me decidido a uma sopa onde até as couves pareciam saber a terra e, juro-vos, pelos deuses, me refastelei com um bife que sabia a … carne!
Rumado ao hotel, onde nova lareira aguardava os atrevidos caminhantes nocturnos que mais pareciam almas penadas pois mais ninguém se via na rua, embora até as estrelas parecessem mais luzidias, sou surpreendido pela gentileza de “os cafés são por conta da casa”.

No dia seguinte, a surpresa de saber uma das empregadas do hotel prima duma doutora com quem a minha consorte estudou e que, face a esta amizade, não só se penitenciou ela pela prima ausente (que fora a Ourense) como ainda telefonou a duas tias que fizeram questão de ali comparecer com umas gentis ofertas de pão e fumeiro caseiro. E como uma das velhas se lembrava de “a menina que aqui esteve há vinte anos e está na mesma, que Deus a benza”.

Assevero-vos, ainda, que outra coisa que andamos a perder é aquele ar que de tão puro até parece que nos corta as entranhas.
E, no entanto, Castro Laboreiro não é o paraíso, antes um retrato deste nosso Portugal que se esqueceu de uma parte de si.
Os poucos jovens que lá vi asseguravam que lá não ficavam, os velhos aguardam chorosos pelos filhos que vêm para as festas, as estradas, essas basta atravessar a fronteira para percebermos que andamos a ser enganados há anos por quem nos garante a prosperidade … médico nem vê-lo, farmácia uma apenas mas nada de centro de Saúde ... nem advogado, pasme-se!
Restam as gentes, certamente que rudes aos olhos de um qualquer urbano metido a besta mas cuja simplicidade tocante devíamos procurar. Dentro de cada um de nós.
Estou cada vez mais convencido que só quem sabe onde estão as suas raízes pode procurar almejar o futuro!

Porque os dias que correm são especiais ...


Faltava um dia para o Natal...

... e por toda a casa se sentia a alegria da antecipação...
As luzes na árvore tremeluziam, o fogo na lareira crepitava e todo um halo de alegria transbordava nos rostos dos habitantes.
Lá fora, o frio e o vento faziam estremecer as pedras, mas as luzes montadas propositadamente para a época desde o mês de Novembro, pareciam querer aquecer os corpos daqueles que se tinham esquecido que a véspera foi feita para se passar em casa e não na rua...

Corpos enregelados e enfraquecidos pela fome, acotovelavam-se numa beira de escada, em busca de conforto e algum calor. O som do estômago sobrepunha-se ao sono e o mal estar era evidente. Ainda assim, os poucos transeuntes àquela hora, passavam sem olhar. Era hábito...

O vento e o frio desafiavam-se e juntar-se a eles veio a chuva. A tríade revezava-se na força e no desafio, o assobio e a saraivada, o ronco do estômago e o tremeluzir das luzes... tudo confluía numa harmonia difícil de igualar.

Os corpos enregelados já não pareciam ter vida. Aquela estava a ser uma noite particularmente difícil de aguentar.

Dentro das vidraças a família gargalhava com alegria. Estavam juntos novamente. Havia tanto tempo que não se encontravam todos à mesma mesa.
O filho perdido estava de novo ali. Tinham-no resgatado à rua, à droga, à podridão da morte em vida. Ele estava ali, e pareciam ter voltado a viver. A rua não se tinha ficado a rir, nem a droga, nem os que o queriam na lama. A família tinha conseguido ultrapassar a dor, o tormento e a desilusão. O orgulho era agora imenso, a alegria ameaçava transbordar o copo e elevá-los a todos a um estado de elevação possível apenas aos iluminados.
Seria aquilo a felicidade?

Nos rostos não existia carne, era luz, somente luz que irradiava e tornava os rostos quase que transparentes. As vidraças exalavam calor e no vão da escada já não parecia estar tanto frio.
O filho aproximou-se da janela. Um sorriso imenso irradiava-lhe o rosto e nenhuma sombra pairava sobre aquele olhar... até atingir aquele vão de escada ali em frente.
Aquele mesmo vão de escada onde tinha passado a consoada anterior...
aquele mesmo vão de escada onde se tinha tentado aquecer com um irmão de rua, sem êxito... aquele mesmo vão, onde havia um ano um corpo gelado e inerte tinha parado de roncar e onde ele se aninhara ainda mais em busca de calor, até ao ultimo suspiro do outro...

O filho deixou de sorrir... a mãe olhou-o e sentiu a dor, sentiu-a como se fosse dela e nela... cortou-lhe a respiração e viu o espírito do filho viajar para longe dali, para a rua, para há um ano atrás.
Foi buscar os casacos... a mãe foi buscar as luvas, os gorros e os casacos... Colocou-o nas costas do filho e fez sinal ao pai para que a seguisse nos movimentos, nos sentimentos...

Uma lágrima pairava no rosto lívido do filho e a luz que antes ali transbordara, escondia-se por trás da sombra das recordações. A mãe vestiu o filho, como todas as mães vestem os seus filhos, com amor, com ternura e uma infinita paciência. Nos olhos e no rosto o amor imenso que aquece uma casa e que há dois mil e oito anos aqueceu uma criança acabada de nascer deitada em palhas.
A mãe abriu a porta, levando consigo uma trouxa que nem pai nem filho conseguiam identificar.

Por baixo do vão de escada, dois corpos rígidos tremiam, buscando conforto um no outro, estômagos roncando de infelicidade.
Debaixo do braço da mãe a trouxa transformou-se como que por milagre e de dentro de um saco, saíram duas mantas, dois pares de pantufas e gorros e luvas e calças e camisolas e o que parecia ser uma garrafa de chá quente.
Uma luz resplandecia daquela mãe. Não haviam palavras ali, só gestos e um sorriso que fazia transbordar a taça da felicidade.
A família voltou para casa... maior desta vez...

Havia 2008 anos, uma pequena família tinha feito nascer uma boa nova, estrelas e reis tinham viajado para dar as alvíssaras ao portador da nova era e numa gruta fria, aquecida pelos corpos de uma mãe, de um pai, de uma vaca e um burro, uma criança sorria de felicidade... a mãe e o pai sorriam com ela... prometendo uns aos outros que seriam sempre uns para os outros a salvação dos piores dias, a alegria dos melhores...

Na casa tudo reluzia agora.
De três passaram a cinco e de sorrisos passaram a gargalhadas de luz.
No vão de escada procuravam agora conforto mais dois corpos esquecidos da realidade...

P.S. - Perdoem este meu conto. Não sou pessoa muito dada a contos de Natal. Tenho festas verdadeiramente felizes, tenho uma família que adoro e que me ama e tenho duas luzes que me alumiam os dias e as noites.
Mas este Natal, sobretudo este, sinto que haverão muitas famílias a precisar de um ombro amigo, de um pedaço de calor alheio para as confortar e isso deixa-me com um sentimento misto de tristeza e alegria.
Afinal, o que é o Natal, senão a alegria da partilha?

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

Espero que estejas bem e que esta carta te encontre com saúde e disposição para atender um pedido muito especial. Este ano queria que me oferecesses uma fábrica de calçado. Não precisa de ser uma muito conceituada e responsável pela produção de sapatos de designers de renome. Quero, apenas, que esteja numa boa fase de laboração.

Sabes, Pai Natal, há um homem, num país africano, que sujeita o seu povo às mais terríveis barbáries, que o mata de fome e de cólera mas que, paradoxalmente, vive na maior das opulências. O país em questão, disse-me o meu pai, era um dos mais ricos, senão mesmo o mais rico, do continente africano e o seu povo vivia com uma qualidade de vida muito boa. Até que, um dia, esse homem, que o meu pai apelida de Monstro, subiu ao poder.

Isso já aconteceu há muitos anos, mas ele nunca mais deixou o poder e, aos poucos, qual parasita, foi aniquilando esse país e a sua riqueza, foi sugando a energia e a vida do seu povo. Neste momento, Pai Natal, o país, que se chama Zimbabwe e o seu povo estão agonizantes.

Mas, esse Monstro, de seu nome Mugabe, continua cego ao sofrimento que aí se vive e diz, sem qualquer vergonha, "o Zimbabwe pertence-me a mim" e reitera que "nunca irão ter a minha rendição!".
Por isso, Pai Natal, eu lembrei-me que se tivesse muitos, muitos, muitos sapatos podia atirar-lhos e fazê-lo afundar-se neles. Assim, podia salvar o povo do Zimbabwe e tu serias o responsável maior pela salvação desse país.
Quem sabe, assim, o Zimbabwe poderia voltar a ser o que era?

Agora, Pai Natal, espero que não me desiludas e cumpras este meu desejo natalício.
Beijinhos.

P.S: Estava aqui a pensar... Se calhar, é melhor trazeres boa pontaria junto com a tal fábrica de sapatos. No outro dia, vi um senhor a atirar sapatos a outro (o meu pai disse que era um personagem de banda desenhada. Acho que ele lhe chamou Pateta, mas não tenho a certeza...) e ele, em duas tentativas, não acertou uma única vez e eu quero muito acertar no Mugabe, está bem?
Obrigada, Pai Natal!

Não, obrigado

O Conselho da Shura Mujahedine, organização que reúne vários grupos iraquianos, incluindo o ramo local da al-Qaeda, num comunicado colocado na Internet, ameaça: "O adorador da cruz (Bento XVI) e o Ocidente serão derrotados como acontece no Iraque, Afeganistão e Tchechénia. Vamos quebrar a cruz e derramar o vinho ... Alá permita que os degolemos e faça dos seus descendentes e do seu dinheiro a recompensa dos mujahedines"

Sinto-me directamente ameaçado porque pertenço à Civilização Ocidental, com todos os seus defeitos e virtudes e quero continuar a pertencer a ela e a viver à minha maneira:

- quero continuar a comer umas febras de porco com batatas fritas, acompanhadas duma, várias, imperiais no Verão, ou de um bom tinto alentejano no Inverno, assim como quero continuar a beber os meus whiskies;
- quero continuar a ir para a praia e a ver todo aquele desfile de garotas em bikini, ou monokini;
- não estou interessado em deixar crescer a barba, nem em colocar-me cinco vezes por dia de cu para o ar. E sabem porque eles deixam crescer a barba? Não, não é por questões políticas como fazem muitos dos nossos “parolos” esquerdistas-oportunistas de fresca data, é para combaterem a homossexualidade masculina;
- quero continuar a passear por esta linda Lisboa e a admirar os belos seios que as mulheres generosamente expõem, quando sabem que o podem fazer, porque o que é bom é para se ver. Não quero ver esta cidade povoada de "avejões", cobertos de negro da cabeça aos pés;
- quero gozar livremente a minha vida, sem quaisquer peias, ou restrições e desde que o meu comportamento não colida com os direitos, ou com os sentimentos dos outros.

Como escreveu Fernando Madrinha, num seu Editorial do "Courrier Internacional", de que já não me lembro a data, "a arrogância desses líderes (muçulmanos) que mobilizam a rua, como que pretendendo impor a lei da mordaça ao Ocidente e ao próprio Papa*, é obviamente inaceitável".
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* Embora o que ele disse, ou deixou de dizer, não me interesse minimamente, admiro a sua coragem e frontalidade, quando vejo responsáveis políticos, e religiosos, que deviam discordar da sanha assassina dos terroristas islâmicos, todos de calças na mão, sem condenarem o terrorismo praticado em nome do Profeta e permitindo assim que chegue até nós ocidentais uma interpretação errada do Corão.

"O poeta é um fingidor"...

Aqueles que lêem os meus pobres escritos sabem que “não vou à bola” com José Sócrates e que não “morro de amores” pelo PS.
Vem este intróito a propósito das palavras e atitudes que vem tomando Manuel Alegre.

Daquilo que conhecemos (ou que eu julgo saber), Manuel Alegre começou a sua vida e carreira políticas nas lutas estudantis na Universidade de Coimbra e não sei sinceramente se chegou a estar preso pelo regime de então (julgo que sim), e por isto tudo, muito bem; para além de outras coisas, foi também desertor das Forças Armadas no verdadeiro sentido do termo, visto que, segundo sei, desertou quando já estava em “teatro de guerra” em Angola.

Num qualquer país com verticalidade, ditadura ou não ditadura, revolução ou não revolução, o facto de ser desertor em “teatro de guerra”, fossem quais fossem as razões, era o suficiente para já não ter grande carreira política.
Mas adiante…

Há uns anos atrás Manuel Alegre proferiu uma qualquer frase, que rezava mais ou menos assim: «A mim ninguém me cala».
Dá-me a impressão que o “sucesso” dessa frase o tornou ainda mais “cheio de si próprio”, e, desde então, tomou a frase como um compromisso e não se cala, quando tem razão e mesmo quando não tem razão.

Mais recentemente e perante o apoio de várias pessoas, sobretudo os eternos descontentes com os seus partidos (que não fazem o que eles querem), decidiu candidatar-se à Presidência da República, contra o seu próprio partido, que tinha decidido ir buscar como candidato outro igualmente “muito cheio de si próprio” (que os há também nos outros partidos e muitos), acreditando que a “mesma água passa duas vezes debaixo da mesma ponte”, o que se veio a verificar ser um erro.

Abro aqui uns parênteses para reflectir no que aconteceria agora se Mário Soares tivesse ganho as eleições. Tenho sérias dúvidas que José Sócrates tivesse a vida tão facilitada. Não me espantaria até que o “engenheiro” tivesse votado em Cavaco Silva no segredo da câmara de voto!
Mas voltemos ao “poeta”.
O resultado que obteve nessas eleições ainda veio encher mais o seu ego, já de si bastante avantajado, e ei-lo agora a fazer oposição ao seu próprio partido.
Claro que pode e deve fazer essa oposição, mas quanto a mim não da maneira como a faz, nas palavras e na prática.

Podia convocar um Congresso (julgo eu que os estatutos lho permitiriam se tivesse apoiantes para tal), e assim discutir a liderança do partido.
Podia fazer oposição interna nos órgãos próprios do partido, sem vir para a praça pública, pois os problemas das famílias resolvem-se em família.
Podia sair do partido e fazer oposição então como independente do partido.
Podia fundar o tal novo partido de esquerda, para o qual teria já e de certeza militantes que iriam, cheira-me, desde a Direita até à Esquerda, e ainda mais Esquerda, lembrando-me por exemplo de Rosetas, Britos, Sá Fernandes, e se calhar até alguns Freitas!

Mas não, não o faz!
Continua assim, chamando a atenção para si próprio, numa qualquer construção de uma nova etapa da carreira política para se alcandorar a voos mais altos, tanto mais que já se viu no que dá essa coisa de novos partidos, com os exemplos do PRD e outros mais.
Assim tem tribuna, num qualquer partido que tivesse fraca prestação eleitoral, acabava-se-lhe o tempo!

E assim vai o reino da política e da pouca ética que toda esta gente dos partidos demonstra nas suas palavras, nas suas atitudes, nas suas práticas.
Resta a José Sócrates ir provando do seu “próprio veneno” e ir pedindo todos os dias a um qualquer deus em que acredite: “Livra-me deus dos meus amigos que com os inimigos posso eu bem”.
E agora não batam muito no “ceguinho”, que sou eu!!!

Lei da Paridade ou da burricada ...

Já ouviu falar na Lei da Paridade?
A dita cuja é a lei que estabelece as chamadas quotas das mulheres na política.
Tudo com belíssimos propósitos certamente, mas não mais que isso.
Desde logo, porque há mulheres que já demonstraram que estão na política por mérito próprio e nunca precisaram das quotas para terem chegado onde chegaram.

Consagra a Lei que nas listas para a Assembleia da República, Parlamento Europeu e Autarquias Locais se entende por paridade a representação mínima de 33,3% de cada um dos sexos nas listas. Portanto, em cada 9, 3 devem ser do mesmo sexo.

Depois, e para evitar uma distribuição criteriosa, consagra-se ainda que “as listas plurinominais apresentadas não podem conter mais de dois candidatos do mesmo sexo colocados, consecutivamente, na ordem da lista”.
Nas minhas modestas filosofias jurídicas, significa isso que em cada três um há-de ser de um sexo e os que sobram doutro. Por exemplo, um homem, duas mulheres; dois homens, uma mulher …

Quem não cumprir sofrerá sanções na carteira.
Como é sabido, os partidos e as candidaturas organizadas têm direito a uma subvenção financeira em termos fixados em lei e que leva em linha de conta os resultados eleitorais, por exemplo.
Portanto, não cumpre? Recebe menos euros!
E chega este "castigo"?

Não, digo eu.
Isto porque, por exemplo, nos órgãos autárquicos “as vagas ocorridas são preenchidas pelo cidadão imediatamente a seguir na ordem da respectiva lista ou, tratando-se de coligação, pelo cidadão imediatamente a seguir do partido pelo qual havia sido proposto o membro que deu origem à vaga”.

Significa isto que, ou muito me engano, ou nas próximas autárquicas vamos ver uma corrida cerrada às candidatas femininas para que, na maior parte dos casos, façam figura de corpo presente e, depois de contados os votos, estas renunciaram ao respectivo mandato, redesenhando-se o corpo de eleitos conforme se quer.
Ora, se isto não foi legislar como quem brinca às casinhas, então já cá não está quem falou!

(Ainda) A Declaração Universal dos Direitos do Homem

Sim, este texto peca por tardio, já que foi no passado dia 10 de Dezembro que se assinalaram os 60 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos do Homem, documento, aliás, sem validade legal e não impositivo. Digamos, apenas, que se trata de uma honrável declaração de boas intenções na ideia utópica de que o mundo poderia ser igualitário, uma ideia muito John Lennon.

Dividimos o mundo entre civilizado e desenvolvido e os outros, os que vivem no mundo da barbárie. Pensamos, na nossa maneira ocidental e hegemónica, que somos os detentores das tais boas intenções, pensamos que face a esses outros somos o pólo civilizacional a ser emulado porque dentro das nossas fronteiras se respeitam direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. Era bom que assim fosse.

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade", lê-se no artigo 1º, mas uns nascem com maior dignidade e mais direitos do que outros.
É um chavão sem originalidade, eu sei.
Sessenta anos depois de o mundo ter saído de um Holocausto impossível de descrever, de esquecer e pouco se andou no sentido de tentar fazer algo mais do que plasmar palavras num documento que só tem a força do simbolismo. Como me parecem eternamente válidas as palavras da Hannah Arendt: "the banality of evil" (a banalidade do mal).

Vivemos entre o mal e a nossa exposição a ele torna-nos invulneráveis à sua catástrofe.
Quem é que ainda se choca com as imagens das crianças do Darfur?
Dos mutilados da Libéria?
Das crianças-soldado do Congo?
Dos depósitos de cadáveres da Bósnia e do Kosovo?
Das meninas prostitutas da Tailândia?
Sentimos apenas a breve comoção que dura enquanto observamos as imagens fugazes dos noticiários, tantas vezes enquanto estamos confortavelmente em casa.
E afinal, é também "humano" que o mal dos outros, e sobretudo dos que mais longe de nós estão, nos seja indiferente. É humano que o nosso mal não seja banal e que o dos outros o seja.

Por outro lado, é humano ser-se utópico, querer-se a desbanalização do mal.
É humano crer numa justiça simbólica de Tribunais de Haia, de Nações Unidas, de Declarações Universais.
É humano o assinalar de grandes datas de charneira, marcos, passos importantes.
E aplaudir as intenções passadas, presentes e, sobretudo, futuras.
Contudo, no dia seguinte e na realidade quotidiana e problemática, o momento assinalável, urgente e monumental esfuma-se na banalidade e resta a vacuidade. E no fim, o pessimismo também é humano porque humana é a duplicidade e a oscilação entre o utópico e o tangível. Neste balanço instável, louvo o pensamento humanizado que delineou uma Declaração Universal dos Direitos do Homem (D.R), enquanto me remeto ao pessimismo banal de que direitos universais para os seres humanos não passa de uma quimera.
É Natal e eu não devia dizer estas coisas, mas também não podia, na minha humanidade pouco original, deixar passar em claro um marco destes.

O nosso (único) deputado não faltoso!

O que é que distingue um deputado da Nação dum vulgar assalariado?
Desde logo, o salário.
Sim, porque eu escrevi “vulgar assalariado” e não do Vítor Constâncio.
Depois, e segundo a mais novel doutrina, porque ao deputado a semana de trabalho de cinco dias não se pode aplicar. Almeida Santos, entre outros,”dixit”.

Isto porque a alguns dos nossos parlamentares, especialmente aos que exercem no foro, surgem horas do diabo e, volta e meia, quer o Senhor Magistrado, quer o Senhor Presidente se equivocam e agendam votações e julgamentos para o mesmo dia e hora.
Não se faz.
E, óbvio, a ter de se escolher, escolhe-se o julgamento.
Mas não é pelo dinheiro, é pela realização pessoal, pelo servir a Justiça, por sentido de responsabilidade … blá, blá, blá …

Outras vezes é aquela misteriosa justificação do “trabalho político” que serve para limpar uma falta.
Reunião da Comissão Política para escolher o candidato à freguesia? Trabalho político.
Reunião da Assembleia Municipal? Trabalho político.
Jantar de homenagem a alguém do partido? Trabalho político.
Fico cá com a dúvida se o deputado Z do partido X (o do poder) começar a dormir com a deputada B do partido Y (da oposição) se isso também é trabalho político sob o pretexto de sacar informação ao adversário?

No meio desta tempestade de deputados, sobressai um nome: Strecht Ribeiro (AQUI).
Constato que é, conforme relatava o jornal “Público” na sua edição do passado sábado, na actual Legislatura, um deputado que nunca faltou.
“Deputado desde 1995, Jorge Strecht Ribeiro diz que nunca faltou porque entende que não o deve fazer e confessa que não se arrepende de ter feito opção de ir para a AR, mesmo que nunca tenha conseguido virar as costas à sua grande paixão: a advocacia.”

Notem, por favor, que o deputado não falta porque acha que o não deve fazer!
Simples, prosaico e honesto.
Aos que assim não agem, ou assim não entendem apenas se pode dizer que é preciso topete!

Ser português: o que é?

Ora bem pessoal, antes de mais um excelente dia para todos!
E assim começo uma nova era para o ser português.

Já todos ouviram elencar o que é ser-se português.
O português é capaz de ser mais crítico consigo próprio que com os outros.
O português conta anedotas sobre alentejanos, raianos, saloios, nortenhos, algarvios, políticos, alfacinhas, insulares, emigrantes, mas se calha ser uma anedota com estrangeiros, é o português sempre que fica a perder.

O português não gosta de pagar impostos, tem no fado a sua alma e a sua alma no fado.
O português ad nauseam, tem sido apregoado como um vigarista, pouco dado a... dar, reclama por tudo e por nada mas quando lhe calha a ele... foge com o rabo à seringa e eu sei lá mais o quê.

Mas a verdade, verdadinha, minha gente, é que nós, os portugueses somos um povo cheio de mazelas e tristezas, nos dias que correm, mas não somos as mazelas e as tristezas que nos vão impondo.
O português não gosta de pagar impostos? E quem gosta?
Acham que os noruegueses, os finlandeses, os britânicos e outros quejandos gostam?
Talvez o que aconteça nesses paraísos europeus, é que os respectivos povos vão tendo mais confiança em quem os governa para usar os impostos em proveito de todos e não apenas dos seus bolsos e os dos seus amigos...

O português é desorganizado? Faz tudo em cima do joelho? É bom é no improviso?
Ora bem, esta necessita de mais elaboração, porque são três e todos sabem que o três... foi a conta que Deus fez. Então vamos lá.

Em férias de Verão, rumámos, eu e família nuclear, a Espanha, perto o suficiente de Portugal para sentirmos que não estávamos cá, longe o suficiente para não ouvirmos falar o português. Ora bem, meus amigos, foi um momento revelador, iluminado até, se querem saber.
É bem certo que não se pode avaliar a parte pelo todo, nem o todo pela parte, mas acontece que aquela parte, mais outra parte que já conheci antes, mais outras que fui conhecendo ao longo da minha vida, sedimentaram bastante o pensamento criado nos oito dias de Verão deste ano.
O que encontrámos, de facto, foi um povo nada organizado, com pouco amor à limpeza, pouco dado à simpatia, sem nenhuns conhecimentos sobre maneiras ou tolerância ou mesmo civilidade e em termos de organização... só me lembro de o marido dizer que se fosse em Portugal nada daquilo se passaria e depois de isto dito, olharmos um para o outro com expressões de esclarecimento nos rostos!

Na verdade, se querem mesmo saber, Portugal não está assim tão desorganizado como isso. Somos bastante conscientes de como devemos fazer as coisas, temos uma consciência também bastante razoável de onde são os nossos pontos menos fortes e somos auto-críticos... E aqui é que começa a nossa verdadeira saga, sabem? A nossa extrema auto-crítica.

Eu bem sei que não somos um povo de filósofos, somos mais poetas... e navegadores, mas além disso, somos pensadores, extremamente pensadores!
Ah! Que devo estar a gozar e tal! Estarei mesmo?
Já viram povo em que houvesse tanta resmunguice tanto falatório e tão pouca acção?
Somos tolerantes, demasiado tolerantes?
Bem, na Grécia a morte de um jovem deu azo a motins que revolveram o país inteiro e eles são povo mediterrânico tal como nós.
Não se pode propriamente dizer que sejamos assim tão diferentes, não é?
Não, tem de existir algo mais que nos faça diferir dos outros, algo que nos determina como povo e nos distancia como Nação...
Sim, é isso, o improviso!
Ah! Vocês pensavam que isso era palavra feia? Que estava a insultar o povo?
Não, meus amigos, nada disso. É mesmo um valor a nosso... bem, favor.
Em tempos tive pretensões de ir trabalhar para a Comissão Europeia, quando ainda pensava que uma instituição desafecta ao controlo dos governos fosse mais imparcial e portanto menos propensa a compadrios, no tempo em que as minhas respostas eram ainda dominadas pela ingenuidade e fazia pouco tempo que o Pai Natal tinha desaparecido do meu horizonte imaginário... Enfim, na idade adulta mal saida da juventude.

Dizia eu então, que nessa altura, tive um professor inglês de Política Comunitária que engraçou comigo e com quem tinha conversas de tardes inteiras. Eram conversas sobre povos, sobre Nações e sobre comportamentos, sobretudo sobre comportamentos.
Para ele, o pior povo da Europa, como não podia deixar de ser, era o francês. Arrogantes, desorganizados, dizia ele, soberbos, ou melhor, com a mania da soberba, eram a epítome do que um povo não deveria ser.
Os alees, contava ele, pareciam relógios... suiços, máquinas de organizar tudo e mais alguma coisa, eram bons parceiros de equipa, até ao momento em que alguma coisa corresse mal e então era um disparar em todas as direcções menos na sua.
Com espanhóis e gregos não queria trabalhar nem morto, porque eram mal educados, antipáticos e desorganizados, nunca entravam a horas e escapavam ao trabalho sempre que podiam.
Assim, entre portas e travessas chegámos aos portugueses e por esta altura já o inglês não tinha nenhum pejo de me dizer fosse o que fosse porque eu própria já teria por mais de uma vez, atacado o povo de sua Majestade.

Chegados aos lusitanos, disse-me o anglo-saxónico que somos um povo com mau sentido da pontualidade, mas com um carácter francamente forte, com quem se pode ter uma conversa e trabalhar ao mesmo tempo e aqui emocionei-me, porque ele garantiu-me que o português trabalha de facto!
Não manda fazer a outro, não deixa para o dia seguinte, não, o português trabalha mesmo e é amigo, é solidário. Não entra a horas, mas se necessário for faz horas extra.
Contou-me ainda uma pequena história. Num grupo heterogeneo de trabalho, os alemães lideravam. Estavam sempre a horas e com os planos na mão antes de começar, para tudo correr sobre rodas. Naquele dia tudo tinha começado muito bem, estavam dentro do plano alemão e nada parecia correr mal, até que... algo correu. Nada parecia encarrilhar, ou faltavam páginas de um documento, ou o que estava nelas não fazia sentido. O espanhol chegado à hora do almoço saiu e não voltou. O grego parecia estar a dormir. O francês acusava o inglês de ter feito mal as coisas. O alemão estava perdido, as coisas tinham saido dos eixos e agora nada fazia sentido...estava emperrado...
O português? Bom, o portuguès estava a rever tudo para trás e para diante, para trás e para diante, para trás e para diante. Praguejou umas duas ou três vezes, levou as mãos à cintura e disse alto: "Bem, já que tenho a fama, que tenha também o proveito."

O que é que ele fez, perguntais-me vós?
O que qualquer bom português faria - improvisou.
Não está como no plano?
Então arranja-se outro plano!
Descobri a pólvora?
Não.
O que pensam que faziam os nossos marinheiros há uns séculos atrás, quando se deparavam com coisas nunca antes vistas?
Acobardavam-se? Voltavam para trás?
Não! Faziam um novo plano!

Na história do meu ilustre professor, o português salva o grupo e descobre uma solução!
Por alguma razão, fora do nosso país, somos considerados, pessoas geniais!
Será assim tão difícil começarmos a pensar que somos um povo genial também?

Mas alguém percebe isto?!

Em Portugal, realmente, há formas de actuar que não se compreendem...

Um destes dias verifiquei que já não tinha em casa nenhuma caixa do contraceptivo oral que utilizo. Normalmente, tenho a quantidade suficiente para um ano, já que frequento as consultas de Planeamento Familiar e, aí, me disponibilizarem gratuitamente esse mesmo contraceptivo mas, na última consulta, a marca que utilizo estava quase esgotada e, como tal, só trouxe para três meses.

Claro que me poderia ter dirigido à minha Unidade de Saúde Familiar, mas as entregas de contraceptivos são feitas em horário laboral e eu não podia deixar de trabalhar por essa razão. Como tal, optei por enviar um mail à enfermeira desse serviço a agendar uma entrega noutro horário e, este mês, efectuar a compra da pílula numa qualquer farmácia.

Uma vez que a minha área de residência dista da farmácia mais próxima, optei por fazer a compra numa dessas farmácias novas onde podemos adquirir medicamentos e outros produtos que não necessitam de receita médica. No entanto, aí chegada, qual não foi o meu espanto quando me disseram que não podiam vender pílulas, com excepção da pílula do dia seguinte.

Exacto. Para quê perder tempo a prevenir se podemos evitar as consequências depois de fazermos as asneiras...?! Pensava eu que o ideal era evitar a gravidez antes de ter relações sexuais mas, afinal, tudo se conjuga para que essa prevenção não exista ou, então, seja feita depois do acto consumado. Afinal, é muito mais fácil adquirir a pílula do dia seguinte do que a pílula normal. Depois, admiram-se que haja tanta gente a usar o método de contracepção errado...

Outro assunto que me anda aqui a apoquentar é uma cirurgia... O meu pai, senhor dos seus 71 anos, doente de Parkinson, diabético, hipertenso e com colesterol alto apercebeu-se da existência de uma hérnia numa virilha. Dirigiu-se à médica de família, realizou uns exames e foi encaminhado para um médico da especialidade no hospital da localidade onde reside.

A consulta foi marcada com alguma celeridade e realizou-se em meados de Outubro. Após a mesma, ficou decidido que teria de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Antes disso seria necessário efectuar análises sanguíneas, um electrocardiograma e uma ecografia abdominal.

Em meados de Novembro, foi chamado ao hospital onde se realizará a cirurgia e efectuou os exames em questão. Automaticamente, concluímos que a cirurgia deveria ocorrer em oito/ quinze dias.

Afinal, estávamos enganados pois, volvido um mês, a cirurgia ainda não foi marcada... Pensava eu que o objectivo desses exames era prevenir eventuais complicações e verificar se o paciente está em condições de se submeter a um procedimento médico dessa qualidade. Numa pessoa com o historial clínico do meu pai, penso que faria todo o sentido mas, afinal, parece que ando com as ideias totalmente erradas.

Um estranho fenómeno

Estamos a assistir e não é só de agora, não assaquemos pois as culpas do “fenómeno” ao governo Sócrates (o 6º homem mais bem vestido do mundo, mais que o príncipe Juan Carlos de Espanha, mas também porque motivo é que o chefe de um governo dito socialista, não há-de ter o direito de se vestir bem?) estamos pois assistindo à transformação de políticos e governantes autárquicos de uma situação de indivíduos pertencentes a uma classe que dantes se chamava ”média” e até “média baixa”, em indivíduos que na opinião dos mesmos (de quem haveria de ser?) não são ricos, embora sejam detentores de algumas dezenas de milhões de contos. Leram bem, não são reles euros, são contos, os da moeda antiga.

“País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?” (Eça de Queiroz, 1867 in “O distrito de Évora”)

Não sou eu que o escrevo, foi Eça de Queiroz em 1867, portanto o mal já vem de longe, arrisco-me a dizer que o mesmo é intrínseco aos nossos governantes, pequenos ou grandes. Evidentemente que não vou aqui citar nomes.
São casos do domínio público, que têm o seu tempo e que com ele acabarão por cair no esquecimento, pois a imprensa não está interessada em os alimentar quando o público leitor já se habituou a eles e encolhe os ombros, ou porque no Portugal de hoje desagradar ao Poder político tem os seus custos.

Como é que se pode aceitar que um político, ex-governante, ou presidente de autarquia que se perpetua no poder, possa acumular tanto dinheiro durante o seu mandato? É só pegar no lápis e na calculadora e fazer contas. Até aceito que sejam excepções (que confirmam a regra…) mas tal não impede que seja chegada a altura de “separar o trigo do joio”, pois quem governa fá-lo por delegação nossa e com o Poder que é nosso, não o esqueçamos. Mas essa delegação quando aceite, deve ser considerada como um motivo de orgulho e não como um factor de enriquecimento. Governar é servir, não é servir-se.

A legislação é feita por quem está no Poder, por isso haverá sempre “buracos” e “alçapões” susceptíveis de acautelar interesses. Haverá pois dois aspectos a considerar: o aspecto legal e o aspecto moral. Hoje em dia só o primeiro é que conta. A pessoa e chamemos-lhe assim para englobarmos o masculino e o feminino, foi presente a julgamento, mas como o processo ainda não transitou em julgado, porque estão correndo recursos ou por outras minudências jurídicas que se arrastam durante anos, poderá continuar a exercer as suas funções autárquicas. Autárquicas, porque nenhum chefe de governo o/a quereria no seu elenco. Ainda não chegámos a isso…

Por mera casualidade encontrava-me em Itália na década de 80 quando o juiz Antonio de Prieto com o precioso auxílio do inspector Corrado Catani desencadeou a operação “Mãos Limpas” (Mani Pulite) durante a qual foram ouvidos milhares de políticos, ministros, governantes autárquicos e empresários, todos por suspeita de corrupção, levando posteriormente ao desaparecimento do PS da cena política e a que o então primeiro ministro socialista Bettino Craxi (1983-87) fugisse para a Tunísia para escapar à Justiça de Roma.
Mas a casualidade ainda foi maior, pois o dono da casa para onde fui convidado para almoçar, juntamente com mais dois colegas italianos, era um autarca que tinha sido preso na véspera à noite. Mas fui por insistência deles e correu tudo “na maior”.
Ele há coisas do diabo…

A Justiça, ou o peso do passado!

Hoje vou escrever sobre a Justiça, ou melhor, aspectos da mesma em Portugal.
Descansem que não vou escrever sobre leis, porque para tal não tenho competência e além do mais, não vale a pena escrever muito sobre leis que estão sempre a mudar, e cuja maior parte é feita em “cima do joelho”.
Afinal, sempre escrevi qualquer coisinha sobre leis.

Há uns dias atrás, quando esperava pela saída dos meus filhos do colégio, estive a ouvir rádio no carro, o que é uma coisa que raramente faço.
Estava o Dr. Marinho Pinto, pessoa que não gera em mim grande empatia, a ser entrevistado e portanto a falar da Justiça.
Das muitas coisas que disse na entrevista, das quais concordei com algumas e com outras não, sobressaiu para mim, tocando-me assim, como se costuma dizer, cá no fundo do meu feitio, a imagem e postura que passou dos juízes portugueses, claro que admitindo excepções.

Contava ele, por exemplo, que viu um homem já de idade avançada ser achincalhado por um juíz, porque estava a falar com sua excelência com as mãos nos bolsos.
Aí, o entrevistador afirmou que também já tinha sido testemunha de um “ralhete” malcriado, de um juíz a um qualquer arguido, por causa do mesmo estar sentado quando sua excelência se lhe dirigia.
Daqui partiu-se para a imagem de medo que muitos juízes querem fazer passar, como senhores todo poderosos de uma qualquer ordem acima de todos os cidadãos, como se de “majestades” se tratassem.

Que não havia dúvidas, diziam eles, que os senhores juízes gostavam e exigiam ser tratados como “majestades”, e que toda a “entourage” à volta dos mesmos, vestimentas, etc., levavam a essas considerações.
Se somarmos a isto a notícia de há uns anos, poucos, que nos relatava que um juíz tinha dado ordem de prisão a um cidadão que se tinha insurgido, porque o dito juiz queria passar à frente de toda a gente numa fila de supermercado, compreendemos que alguma coisa está mal no “reino da justiça”.

Pus-me a pensar e realmente tive de reconhecer que qualquer pessoa normal, (e com este normal refiro-me a pessoas que não lidam dia a dia com os tribunais e com os juízes), quando recebe em casa uma qualquer notificação de um tribunal, sente-se pequena, preocupada, para não dizer amedrontada.
Não consigo perceber uma Justiça, ou os juízes que a exercem, que se afasta dos cidadãos, que os amedronta e que quer ser tratada com deferências que não são prestadas a mais ninguém neste país.

Com efeito, não estou a ver o Presidente da República a chamar a atenção a um cidadão porque o mesmo tem as mãos nos bolsos na sua presença.
Como também não nos incomoda nada sermos chamados ao Palácio de Belém para falar com o Senhor Presidente.
Compreende-se assim o desfasamento entre a população e aqueles que administram a justiça, em que a maioria dos cidadãos não quer sequer conhecer um destes senhores ou senhoras no seu local de trabalho.
Num mundo em que tudo muda cada dia, a administração da justiça continua monolítica e carregada de passado.
Tenho dito!

Por uma Educação (possivelmente) melhor!

A montanha na 5 de Outubro pariu mais uma ratazana!
Uns cospem para o ar e outros atiram calhaus. E assim vamos.
António Barreto, no seu magnífico TRÊS PODERES, afirma que, no actual quadro da Educação, se digladiam “duas teimosias, dois fanatismos”.
O Governo que quer centralizar, e os professores que não querem ser esbulhados do poder que lhes deram.

Porque o NOTAS é um projecto de debates e porque quando se critica devemos ter algo para oferecer em troca, deixo aqui algumas ideias. Para discussão, se possível sem sanhas!
Onde o Governo quer centralizar, descentralizava.
Não entregava nada de novo às autarquias, sob pena de ter de negociar um novo envelope financeiro que, quase de certeza, iria alimentar vaidades e apenas subsidiariamente escolas.
Não. Fosse eu a mandar e fazia com as escolas públicas o que já sucede, por exemplo, com as escolas profissionais.
Candidaturas apresentadas, analisadas e dotação orçamental assegurada em face do que foi aprovado.
A partir daí, limitava o papel do Ministério a gizar programas, manuais, reduzindo o número quase pornográfico de compêndios, materiais pedagógicos alternativos, pensar infra-estruturas, elaborar exames nacionais (de preferência sem erros) e pouco mais.

Aos professores garantia-lhes os direitos adquiridos em matéria de protecção social e do Estatuto nos demais direitos e deveres, mas no resto sujeitava-os às regras do mercado.
Admitia fixar limites mínimos e máximos para remunerações, permitindo que a escola pudesse jogar com os mesmos.
Ou seja, a contratação dos docentes seria efectuada pelas escolas de acordo com regras públicas de contratação.
Acabava com a admissibilidade de qualquer tipo de acumulação entre funções públicas e privadas, fosse no ensino, na formação ou em qualquer outra coisa.

À escola entregava aqueles poderes e dava-lhe autonomia quase absoluta, responsabilizando claramente os membros dos seus órgãos colegiais pelo êxito das suas políticas.
Aliás, a lei da responsabilidade civil do Estado podia ser adaptada a esta nova realidade.
Permitiria que a escola fosse escolhida pelos pais e pelos alunos, e onde tal não fosse possível encontraria mecanismos de apoio que procurassem dar aos estudantes uma teórica igualdade de oportunidades.
Admitira ainda que não é vergonha nenhuma que as crianças com necessidades educativas especiais podem não se compadecer com a massificação da escola inclusiva, esse monstro.
Não descuraria também os apoios nesse domínio

Separava claramente a vocação das escolas.
Às públicas os 2º e 3º ciclos, assim como o Secundário; às Profissionais os cursos profissionalizantes, os EFA e os CNO. Isto porque se o modelo funciona bem assim, não há que mudar como agora sucedeu.

Sarkozy, o Dalai Lama e a China

Este fim-de-semana que passou assistiu-se a mais um dos inenarráveis capítulos que constam da novela folhetinesca trágica que tem no Tibete a vítima silenciosa e na China o algoz, tal personagem principal odiosa.
Isto tudo a propósito do encontro entre Sarkozy e o Dalai Lama, encontro este havido em território neutral, a Polónia.

A China sente-se ofendida, o povo chinês sente-se vexado.
Apelos ao boicote a produtos franceses circulam na internet.
Admiro a máquina propangadística do Governo chinês. Sim senhora, aqui está um governo autocrático que gere eficazmente os vexames e ofensas que um quinto da população mundial deve (vulgo, é obrigada a) sentir.
Pergunto-me o que é que o povo chinês saberia, ou mesmo se estaria interessado em saber, que o Dalai Lama se encontrou com um líder ocidental se não fosse a berraria governamental?
Pergunto-me ainda o que é que o povo chinês pode boicotar em termos de produtos franceses? Foie gras e productos "L'Occitane" não será de certeza.
E as élites económicas bem se ralando estão para boicotes. É tão ridículo tudo isto.

E à medida que o vexame chinês se propaga alto e bom som através de um megafone global, o Tibete lá continua a sua existência colonial. Enquanto, neste início de século, outros territórios reclamam as suas independências nacionais - muitos justificando as suas aspirações autonómicas em premissas facilmente esboroáveis - o Tibete, que legitima e justificadamente, tem direito à independência e a decretá-la unilateralmente, prossegue sendo um exemplo perfeito de usurpação territorial. E quem ajuda o Tibete? Pois...

O Dalai Lama é uma figura simbólica, um líder espiritual que, dadas as contigências, se tornou num líder político. Porém, não deixa de ser um símbolo, uma personagem exótica e um pregador, ou seja, não é a personagem certa para encabeçar negociações políticas.
A ONU não tem feito do Tibete uma prioridade e, por muito que o Richard Gere tente, não tem havido campanhas suficientemente aglutinadoras da população global para a causa tibetana. Os EUA também não se estarão para interessar por uma região que, ainda que enorme em termos territoriais, é escassamente povoada e não possui outros recursos naturais mais valiosos do que a água torrencial e quilómetros de cadeias montanhosas com estradas intransitáveis.

Porém, no fundo, no fundo, congratulo-me por a China acusar tão notória e tão publicamente o desconforto que lhe causa a situação da sua província tibetana.
Tanto esforço propagandístico, tantas ameaças de boicote, tanta verbalização de uma afronta sofrida, tanto pânico e receio que a reunião Sarkozy/Dalai Lama possa ser uma ingerência num problema interno chinês, são sinais inequívocos de que a China sabe que o Tibete não é uma província igual a tantas outras: é um país - aniquilado, mas um país.
Ao fim e ao cabo, a China tem medo do Tibete, medo que um dia, finalmente, a comunidade internacional se interesse pelo Tibete, medo que a lei internacional reconheça o Tibete, medo, em suma, que a lei vença.
Golias e David e todos sabemos o final da história...

Senhor Primeiro-Ministro, use artigo fino! Use português!

Escrevo-lhe, Senhor Primeiro-Ministro, na vã esperança que Vexa, Engenheiro José Sócrates, leia esta em vez de a mandar ler a algum assessor e me dê respostas adequadas à minha pertinente interrogação.
Tomei conhecimento que foi eleito o sexto homem mais elegante do mundo e aguardei que os blogues de nomeada falassem deste feito. Nada.
Pudera, estão todos feitos, todos a denegrir a lusa imagem.
E assim sendo sobra aqui para este, produto de terceira linha mas olhe que sempre é melhor ser falado no NOTAS que ganhar o Bidão de Ouro como o Quaresma!

Mas voltando à elegância.
Só agora entendo o verdadeiro alcance daquelas inauditas corridas por locais famosos do mundo.
Lá está, por alguma coisa é Primeiro-Ministro e eu, mero subalterno.
Falta-me essa perspicácia de conseguir aliar relações públicas com exercício físico.
Também me falta o conforto dos euros para me abalançar a uns sapatos PRADA e a uns fatos ARMANI ou HUGO BOSS (repare, Senhor Primeiro-Ministro, que coloquei em maiúscula para que se veja bem que é artigo fino e distinto e não daquele de feira).

Mas, e desculpe que ouse questionar, não acha que sendo Primeiro-Ministro da República Portuguesa e mesmo estando o País em prosperidade, assegura-o Vossa Excelência todos os dias, bem podia gastar uns fatitos lusitanos?
E uns sapatos também?
Porquê?
Repare, por favor, que depois do Magalhães e o saber de experiência feito que ganhou na sua venda internacional, pouco lhe custava, entre dois nacos de prosa, tirar o sapato e mostrá-lo ali ao interlocutor?

Pense nisso, Senhor Primeiro-Ministro.
Veja o que podia fazer, como sexto homem mais elegante, pelas nossas exportações de calçado, fatos, camisas e gravatas. E, sei lá, até de “boxers”!
Ali os outros de tanga nas cimeiras internacionais, e o Senhor Primeio-Ministro de genuíno corte e costura lusa ao lombo. E sapato a condizer.

Senhor Primeiro-Ministro, pense nisso.
Pense nisso, veja bem a coisa.
Os outros ali a tugir "ai mãezinha qu' isto está mau" e nós aqui, graças ao seu engenho, firmes e hirtos.
Ora, com a tal ajuda suplementar de gastar artigo luso, pomo-nos à frente do pelotão em menos dum fósforo!
Endireita-se a balança de pagamentos num ápice, diminui-se às importações, aumenta-se às exportações ...
É a sua oportunidade de reservar não uma nota de rodapé, não um capítulo mas um volume na História da Lusa Pátria.
Com os mais profundos e respeitosos cumprimentos,

Portugal: que presente?

"Portugal é um país de fracos. Portugal é um país decadente:

1 – Porque a indiferença absorveu o patriotismo.
2 – Porque aos não indiferentes interessa mais a política dos partidos do que a própria expressão da pátria, e sucede sempre que a expressão da pátria é explorada em favor da opinião pública. Não é o sentimentalismo desta exploração o que eu quero evidenciar. Eu quero muito simplesmente dizer que os interesses dos partidos prejudicam sempre o interesse comum da pátria. Ainda por outras palavras: a condição menos necessária para a força de uma nação é o ideal político.".


"Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.".

"O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa? Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.".

"Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e os olhos para ele como para uma Providência sempre presente.".

Perguntar-me-ão então qual a conclusão a tirar deste texto?

Começo por explicar que a razão pela qual os vários parágrafos têm cores diferentes, é porque cada um dos parágrafos tem um autor diferente! De séculos diferentes, com experiências e realidades diferentes.
Dir-me-ão então vocês que não é compreensível que o discurso seja tão coeso, tão semelhante, tão consentâneo e contemporâneo… pois, é bem verdade que assim é! E é assim porque depois de séculos e séculos de independência, de sermos o país com, as fronteiras mais velhas da Europa, de termos uma história como mais país nenhum pode orgulhar-se de possuir… continuamos a voltar costas à nossa própria história. Continuamos a cometer os mesmos erros e a padecer da mesma ignorância.
Que diriam Antero, Almada, Eça ou Pessoa? Como cantaria agora Camões as nossas glórias? E de que modo o mestre Gil tornaria esta farsa de país em que vivemos numa peça ainda mais cómica?

O homem da sensibilidade feminina

António Alçada Baptista morreu ontem aos 81 anos e, como mulher das Letras e das Línguas, não podia deixar passar em claro esta data.
Este senhor, escritor e jornalista, abandona o mundo terreno deixando para trás uma notória obra na ficção e no ensaio, bem como uma imagem de "homem de causas", como referiu Inês Pedrosa, presidente da Casa Fernando Pessoa, à TSF.

Segundo ele, os seus livros vendiam "muito por uma razão simples": ele era "talvez o primeiro escritor que não teve vergonha dos afectos". A sua obra literária perpassa o ensaio, a novela, a crónica e o romance e contabiliza catorze títulos, nomeadamente Os Nós e Os Laços, Um Olhar à Nossa Volta, Catarina ou o Sabor da Maçã e O Riso de Deus.

No entanto, Alçada Baptista conquistou a unanimidade da crítica e do público com Peregrinação Interior - Reflexões Sobre Deus (1971) e Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança (1982).

Dizia ele que "quando não somos capazes de conquistar o mundo, seduzimos".
A mim, posso garantir, que não só seduziu como conquistou em absoluto.

A embrulhada

Já tinha posto todo o meu engenho e arte em participar no blogue e escrevera com o devido cuidado um texto “a preceito”, quando um almoço com uns amigos me levou a guardar o artigo na gaveta e vir aqui, depois de um bom queijo de ovelha alentejano, um bom bife com batatas fritas, sem aquelas “ervas” que só servem para tirar o gosto à carne e tudo devidamente regado com um tinto da Fundação Eugénio de Almeida, passe a publicidade, contar o que me contaram e se por acaso estiver ainda em condições do fazer.

Normalmente, quando se conta um conto, começa-se sempre por “era uma vez…”.
No Portugal de hoje é mais seguro começar por “Parece”.

A empresa sueca Lundin Mining, que detém as Pirites Alentejanas (concessionária da mina de Aljustrel) e a Somincor (dona das minas de Neves Corvo) depois duma paragem de 15 anos, parece que se tentou fundir com a “gigante” canadiana HudBay Minerals após ter aceite uma oferta de compra no valor de 800 milhões de dólares, cerca de 497 milhões de euros. Todavia a fusão entre as duas empresas não se chegaria a realizar uma vez que a fusão só seria efectiva depois de aprovada em Assembleia-geral de accionistas, o que não teria acontecido.
Acabará por assinar um contrato com o Governo no dia 19 de Maio com a presença do primeiro ministro e de outros governantes, no sentido de reiniciar a extracção na mina de Aljustrel. Porém, seis meses depois de ter retomado a produção, a Lundin Mining anunciou que iria suspender a actividade das minas de Aljustrel, já que o preço do zinco, único metal extraído da mina, caíra 50% sendo que só quando o preço começasse a aumentar é que a empresa iria analisar a questão, a menos que encontrasse um comprador, pois senão, devido ao contrato assinado, entraria em incumprimento com o Estado português.

Parece que para o Governo não haveria problemas de maior, desemprego é o nosso dia a dia, havia era para os trabalhadores, mas afinal não havia, porque um “comprador misterioso” iria adquirir as minas. O tal comprador viria a revelar-se como sendo a empresa MTO, holding dos irmãos Carlos e Jorge Martins, proprietários da Martifer, em parceria accionista com a Mota-Engil. Embora seja irrelevante, acontece que Jorge Coelho, ex-ministro Ajunto, ex-ministro da Administração Interna e ex-ministro do Equipamento é por pura coincidência, administrador da Mota-Engil e conselheiro técnico do plano estratégico de construções da empresa para os próximos cinco anos.

Tudo bem portanto, o pior é que a TVI contactou a Lundin Mining que disse desconhecer totalmente o assunto. Posteriormente e já na altura em que o ministro da Economia discursava, o administrador da mesma empresa veio confirmar a venda. Aguardemos pois.

E enquanto aguardamos vamos pensando no BPP, depois de vermos na TV o Pinto Balsemão e o Stefano Saviotti a entrarem para a reunião de accionistas e possivelmente a saírem com a garantia de que o Governo não iria deixar afundar o banco, pois perderíamos a credibilidade junto da banca suíça e americana, embora estes mal-amados americanos se tenham estado “nas tintas” para a falência do Lehman Brothers.
Pois é, os americanos são muito ricos e nós uns “coitadinhos”, habituados que estamos a procurar parecer aquilo que não somos.

E para terminar, porque o texto já vai longo e o Eugénio de Almeida já quase não me deixa ver as teclas, parece que aquelas criancinhas a quem “emprestaram” os Magalhães só para lhes tirarem a fotografia, pois finda a sessão tiveram de os devolver, ficaram mesmo muito aborrecidas.

Estas por certo não irão escrever cartas à ministra da Educação a dizer-lhe que, quando forem grandes, irão votar PS…

Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Leio um texto aqui, (um espaço que aconselho), e apetece-me desancar na política, nos políticos e até nos eleitores, nos quais me incluo, claro, embora neste caso concreto sem grandes culpas, porque não foi o meu voto que lá pôs estes, embora já tenha posto outros que cabem no mesmo saco.
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar como é possível enganar tanta gente, (a maioria dos portugueses), durante tanto tempo?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar porque é que cada vez há alguns portugueses mais ricos e outros portugueses mais pobres?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar se os portugueses gostam de pagar impostos mais do que os outros europeus, ou se é mesmo, inércia ou masoquismo, o facto de as sondagens continuarem a dar a vitória nas eleições a este governo?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar se só a mim é que ocorre pensar que o governo estará a tomar conta da banca, quando coloca um homem seu no BCP, controla a CGD e agora também o BPN e o BPP?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar se os estudantes hoje em dia sabem mais e estão melhor preparados para a vida?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar se a ministra de quem se fala é incompetente ou apenas teimosa?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar quem é que daqui a uns anos vai pagar a manutenção das inúmeras auto-estradas, TGVs, aeroportos, pontes sobre o Tejo e sobre o Douro?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar porque é que há cada vez portugueses mais velhos e cada vez menos portugueses a nascer?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar se a arrogância já vai tão longe, que num tempo de crise e de necessária união de esforços, o governo e o seu partido se podem dar ao luxo de entrar numa guerra com o presidente da república?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar se as sondagens que vão aparecendo não são “encomendadas” e já com os resultados “afinados” como convém?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar onde estão os jornalistas isentos e imparciais da nossa comunicação social, que não denunciam este estado de coisas?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar se só os políticos da oposição é que têm defeitos e são incompetentes, para a comunicação social?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar se foram os telefonemas para os directores de jornais que levaram a este estado idílico entre governo e comunicação social?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me perguntar onde estão os políticos da oposição e que ideias têm para mudar este estado da nação?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!

Claro, apetecia-me perguntar onde estão os portugueses de antanho que construíram este país à força do seu empenho e esforço, e que ainda há uns dias recordámos no 1 de Dezembro, até porque há muitas formas de dependência?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
Claro, apetecia-me mandar isto tudo à merda, porque francamente não vejo nenhuma luz no fundo do tal túnel?
Mas não, hoje não vou escrever sobre política!
E “prontos”, fico contente comigo mesmo porque consegui escrever um texto sem falar de política!!!

Em jeito de lembrete, não se esqueçam que amanhã temos aqui a estreia do amigo PETER.

Sócrates esbofeteia PR, mas vai levar ...

Uma parte do PS decidiu que estava na hora de mostrar os dentes ao Presidente da República.
Se calhar, e farto de levar nas orelhas, Sócrates, que já devia ter o famoso “moleskine” cheio de recados presidenciais (e quem pensar que Cavaco Silva é um santo, ou tem memória curta ou é anjola), decidiu que ia para a guerra.
Penso que se enganou. E bem.
E, com jeito, fez o que Cavaco queria.

Aliás, eu que serei dos poucos portugueses que nunca entregou um voto que fosse a Cavaco Silva, penso que o nosso Presidente da República está a fazer nem mais, nem menos que os seus antecessores. Um primeiro mandato sem muitas ondas, onde se abre portas à reeleição mas já a lançar sementes que procurem criar condições a que a família política regresse rapidamente ao poder.

Atento este desiderato, e quando tudo aponta para que Sócrates ganhe com maioria relativa, ter dado uma bofetada destas em Cavaco Silva pode sair muito caro.
Imagine-se um cenário em que não é possível estabelecer pontes de governação com o BE (pessoalmente tenho alergias a qualquer coligação com o PCP e mesmo com os bloquistas) … ou em que a fuga para a frente se faça à Direita com o delirante Paulo Portas?
Um Governo assim dura quê?
Este é, seguramente, o primeiro cenário em que Cavaco Silva joga e prepara eventualmente a sua retaliação … atómica. Dissolver o Parlamento.
Um outro cenário, mais improvável, é o de tanto Sócrates como Cavaco, embora cada um por razões diferentes, procurarem que a ruptura e o uso daquela arma de destruição maciça se faça antes do fim da actual legislatura.

Sócrates porque podia querer armar-se em vítima, num mimetismo de Santana mas sem que se vislumbre qualquer coerência nisso ou hipótese de ganho!
Já Cavaco, se a situação económica e social se agravar substancialmente, podia ver aí uma janela de oportunidade.
Não sei é se o PSD percebe isso!

Seja como for, afrontar o Presidente da República por causa do Estatuto dos Açores é uma tolice ainda pior que aqui as nossas ideias tontas.
Aliás, ainda ontem o DIÁRIO DE NOTÍCIAS dava conta que as tensões atingiam o próprio Secretariado do PS.
Ora, sabendo-se que este é o órgão colegial mais restrito e onde em princípio têm assento os notáveis dos notáveis ou os fiéis dos fiéis, está tudo dito quanto ao tamanho da asneira.

O coro dos incomodados passa por Vitalino Canas que disse sem dizer, Vital Moreira, António Vitorino, Vera Jardim e até Jaime Gama.
Começa a ser fruta a mais e ou muito me engano ou ainda vamos ver António Costa a liderar o PS antes do tempo!

A Nova Lei do Divórcio

Apesar de a nova Lei do Divórcio ter formalmente entrado em vigor no passado dia 1 de Dezembro, quem hoje for a uma qualquer Conservatória do Registo Civil não se aperceberá de nada. Porquê? Porque os funcionários dessas repartições públicas ainda não receberam formação para o efeito. Ridículo, no mínimo.

Mas vamos à lei, saltando o facto de que nem advogados, nem juízes a entendem ou sabem como aplicá-la face aos casos concretos da vida real. Acaba-se com o divórcio de mútuo acordo e com o divórcio litigioso. Em vez disso, passa a haver divórcio com consentimento e sem consentimento. Ora, como os divórcios sem consentimento implicam que os cônjuges não se entendem relativamente a questões patrimoniais e de custódia dos filhos lá vai tudo parar aos tribunais à mesma. Não sei bem qual a mais-valia da lei neste aspecto.

Continuando. Desaparece a atribuição de culpas porque se presume que a ruptura é causada por 50% de responsabilidade de cada membro do casal. Até aí concordo. Acho que os detectives privados é que não concordarão pois vão ficar sem um bom nicho de mercado porque passa a ser irrelevante se há/houve traição. Por outro lado, e aqui está outro grande escolho, se há agressões e abusos físicos e psicológicos durante o casamento, o agressor sai sem culpas e a vítima é somente isso: uma vítima e paciência. Onde há aqui justiça social?

Também se passa a presumir que cada cônjuge deve prover ao seu sustento e que não se pode esperar que, findo o casamento, as pessoas mantenham o mesmo nível de vida. Acho bem para se evitar situações clássicas de espoliação. Contudo, e se um dos cônjuges perdeu a sua vida activa para contribuir para o lar e para a família e, subitamente se vê sem profissão e sem meios de remuneração? É também preciso paciência?

Mas há coisas boas.
A primeira é a criminalização da desresponsabilização parental. Dito de outro modo, o pai ou a mãe (porque será que é quase sempre o pai?) que não cumprir com a periodicidade da pensão alimentar dos filhos incorre em crime.
E, até que enfim, que se passa a considerar que há casos em que um dos cônjuges contribui mais do que o outro para o agregado familiar, seja financeiramente ou em prestação de trabalho, nomeadamente o doméstico e de criação dos filhos.

Queremos ser europeus e ter leis de divórcio mais ágeis, o que me parece meritório, mas depois fazem-se leis ao arrepio dos casos reais que, ainda por cima, são sobejamente conhecidos, estudados e alvo de estatística. Nova lei sim, mas favor corrigi-la e limá-la.

Cai neve ... e logo isto fica de pantanas!

Nada como um fim-de-semana prolongado e uns centímetros de neve para animar a malta.
Qual desemprego, qual crise, quais pegas entre "comunas" e bloquistas … o que importa é sair para a rua e sentir na cara os flocos de neve que caem.

E, tal como outrora, quando nos lançamos a um mar desconhecido numas cascas de noz, também aqui basta ver as notícias da televisão para percebermos que continuamos a ser, nalgumas coisas e quando nos interessa, um povo afoito e temerário.
Pelas partes mais setentrionais deste pequeno Portugal, e onde houvesse um manto diáfano do neve, lá estavam uns quantos portugueses a brincarem.
Não interessa se a neve é pouca, e até nem era, nem a idade dos intervenientes; já que é fenómeno raro, sobretudo para os que vivem no litoral, e, convenhamos, bonito, arrisca-se e brinca-se!

Por um oceano de estradas cortadas era ver carros ligeiros a deslizar, incapazes de se moverem da forma em que é suposto fazerem-no … alto aí, dirão vocês, então estava tudo tão bem e lá começa este com os pessimismos dele?
Não, era mesmo só para reforçar que somos uns bravos quando nos convém.

Todos sabemos que conduzir quando está a nevar exige cuidados.
Desde logo, quando a maioria de nós tem carros ligeiros, umas correntes dão jeito, não?
Ora, então vão lá agora os amigos à mala do carro e digam se as lá têm?
Depois, quantos dos que se aventuram assim levam números de telefone de emergência na memória do telemóvel? E umas mantas e umas bebidas quentes não vá ficarem atascados e o socorro demorar?
Ou calçado adequado?
Ah, pois … mas, mesmo sem nada disto, e sabendo do perigo, arrisca-se!
Porque , e eu admito, a neve é mesmo bonita.

Paralelamente, e face a ISTO, por exemplo, ou ao que se viu na televisão que raio de país é este onde os bombeiros daquelas regiões têm toneladas de boa vontade, mas gramas de meios materiais? E que serviço é este que vai um cavalheiro na auto-estrada e não há meios mecânicos capazes de assegurar que a via não fica obstruída?
Eu já nem falo nas estradas nacionais, pobres coitadas que desde que nos deu a febre das vias rápidas se quedam para ali meias ao abandono …
Mas uma auto-estrada?

Admito que, para o nosso padrão, foi um senhor nevão, mas tenham dó.
Então as AENOR’s e quejandos, essa maravilha "tecnológica" privada não previnem que têm de assegurar vias desimpedidas 24 sobre 24 horas?
Já nem no IP4 se havia de admitir uma coisa destas, mas na A24? E na A7?

Mas isto, às tantas, vai-se a ver e sou eu que estou a ficar rezingão à conta do factor P.I!