A sociedade da indiferença

No passado dia 1 acordei a meio da manhã e preparei o saco para ir até casa dos meus pais. Aproveitei a boleia para a estação e dirigi-me para um café com o intuito de ler o jornal e tomar qualquer coisa. Aí chegada, dei comigo a observar um grupo de míudos cujas idades deviam rondar os 12 e 15 anos. As roupas tornavam por demais evidente que tinham andado a festejar o Halloween.

Nunca percebi como é que acabámos a celebrar uma festividade que não faz parte das nossas tradições e que, ainda por cima, conseguimos adulterar por completo, mas isso é outra conversa...

Tomei o café e peguei no jornal. Sinceramente, não consegui ler grande coisa, porque o jornal, diário e local, não tem muito que ler (um dia, ainda hei-de falar aqui da falta de qualidade de muita imprensa escrita nacional) e porque o grupo que descrevi inicialmente decidira agir como se não houvesse mais ninguém à volta.

O facto de estarem todos, sem excepção, alcoolizados era bem visível. Entretanto, chegaram mais dois rapazes que, pelo que pude perceber, não eram propriamente bem-vindos. Os insultos começaram de imediato e, acreditem, ouvi coisas que nunca tinha ouvido na vida. Daí às agressões foi um passo. Felizmente, tiveram o bom senso de sair do café e resolver as coisas no exterior.

Ninguém agiu. Ninguém tentou separá-los e acalmá-los. As pessoas reagiram como se nada se passasse. Disse ao dono do café que chamasse a polícia, pois sabia-se lá como é aquilo podia acabar! O senhor, com toda a sua delicadeza, disse que não estava para se meter em chatices...
A hora do meu comboio aproximava-se. Paguei a conta, saí e telefonei para a PSP. Expliquei o sucedido. A resposta foi pronta: «Ó menina, devem estar bêbados, não ligue. De qualquer das formas, mando um carro para aí assim que puder.».

Onde estavam os pais destes míudos? Como é possível que os deixem andar até às 11h da manhã a festejar o Halloween?!

Como é que ninguém se incomodou ao vê-los esmurrarem-se e pontapearem-se como autênticos selvagens?!

A indiferença desta sociedade choca-me...

21 comentarios:

Peter disse...

Carol

Tens razão: vivemos na sociedade da indiferença e tudo se resolve com um encolher de ombros e um virar das costas.
Até mesmo aqui nos blogs é desencorajador. Tenta-se chamar a atenção para problemas que existem, que são graves e não têm solução fácil e o resultado é o mesmo.
Diariamente faço a contabilidade do blog. Ontem escrevi um artigo sobre um assunto que me preocupa e do qual as pessoas não se apercebem, e o resultado foi 120 visitantes e 1 comentário.

Vou também virar as costas e seguir em frente. Escrever coisas agradáveis sobre este país de "faz de conta" e ler os comentários de "beijinhos e abraços".

Compadre Alentejano disse...

Uma vez, em Faro, assisti a uma zaragata entre dois rapazes já adultos, armados com navalhas.
Encontrando um agente da PSP na rua ao lado, parei o carro e comuniquei o o estava a acontecer. O homem agradeceu e deu meia-volta afastando-se do local da peleja...
É a PSP que temos!...

António de Almeida disse...

Acabámos (not me) a celebrar o Halloween importado directamente dos filmes, com um empurrãozinho comercial por parte de quem encontra sempre uma oportunidade de negócio. Quanto ao dono do estabelecimento comprendo-o, se tivesse chamado a polícia provavelmente iria sofrer consequências nos dias seguintes, ambos os grupos iriam ficar contra ele, afirmar que não tinha de se meter onde não era chamado, e sofrer actos de vandalismo no seu estabelecimento. A polícia sabe que não pode deter ninguém, para quê maçar-se? É a sociedade em que vivemos, onde nos conduziram a falta de respeito e autoridade...

Ferreira-Pinto disse...

Cá está ... um não está para se maçar porque, se calhar, no dia seguinte tinha lá à porta o pai de um dos meninos a pedir-lhe satisfações; a polícia não se incomóda porque "se calhar estão bebâdos" e "está um frio do caraças para se sair da esquadra" e os pais porque, se calhar, mas mesmo só se calhar, ainda sentem um orgulho enorme em ter um gajo de 12 anos a chegar a casa no outro dia e a cheirar a álcool!

Mas isto, meus caros, é normal num país onde todos achamos que para os nossos lados só existem direitos. E que os deveres só impendem sobre os outros!

Carol disse...

É verdade, PETER, que, às vezes, dá vontade de desistir e deixarmo-nos embrenhar nesse mundo de fantasia que rodeia algumas pessoas e seguir a vida ao rumo do deixa andar. Mas acho que o Peter não é desses, dos que se calam e fingem que não se importam.

Carol disse...

Mas, ó COMPADRE, a culpa não é só da PSP! E a sociedade civil, não tem obrigações?! Eu, se fosse homem, acredite que me tinha metido!

indomável disse...

Ó Carol, e as mulheres não se metem porquê?
achas realmente que por seres mulheres tens menos obrigação de acabar com uma briga?
Que me digas que o fazes de maneira diferente de um homem...
Se vejo uma briga, seja entre que idades for, meto-me, separo e levo no processo, mas acabo também por dar se me afinfarem com força!
e não seria a primeira vez que o faria, e com homens a olhar para mim como se fosse louca por me meter "onde não era chamada"!
E já vi isso acontecer entre crianças de 8 anos, com requintes de pancadaria que julguei só existir entre adultos e que me assustou verdadeiramente. No entretanto os pais e os funcionários da escola onde se passava a cena olhavam-me com ar de desaprovação e eu gritava com os miudos como se fossem meus filhos e perguntava-lhes se achavam que era assim que se resolviam as discussões!
Ainda consegui que os meus filhos me perguntassem se tinha alguma coisa a ver com aquilo! É claro que aproveitei a ocasião para lhes dar uma lição de cidadania, porque pelos vistos na sociedade em que vivemos, as lições de cidadania só existem na teoria, na prática nem sequer sabem do que se trata!
O mal está na raiz, Carol, na raiz das coisas, não está na ponta do iceberg que nós vemos.

pedro oliveira disse...

Partindo do principio que não frequenta os mesmos locais do carlos Oliveira,crónicas do rochedo, somos levados a concluir que está tudo perdido.É que o Carlos fez um texto em tudo idêntico a este em relação a protagonistas e situação em concreto(alcoolizados e má educação).É o Portugal no seu pior, hoje e amanhã.

PO
Vilaforte

Carol disse...

Ó INDOMÁVEL, sinceramente não acho que só os homens é que se podem meter nesse tipo de aventuras, mas os ganapos eram míudos só nas idades porque em tamanho eram bem maiores do que eu! Pode achar que sou tão culpada como os outros, mas não estive para levar na cara!

Não li o texto em questão, PEDRO, apesar de visitar o blog do Carlos frequentemente. No entanto, parece-me que o problema é geral pois, definitivamente, eu e ele somos de áreas geográficas diferentes, pelo que já pude perceber.

indomável disse...

Carol, não não não
eu não quis dizer que tenhas sido tão culpada como os outros, porque pelo menos chamaste a atenção, chocou-te e tentaste fazer com que as autoridades resolvessem a questão.
A minha saida à Rambo teve mais a ver com a lassitude que se vê hoje em dia a todos os niveis e sobretudo com desculpas de trazer por casa, sabes?
É que a questão das mulheres não se meterem porque são mulheres é tão fajuta mas tão usada que me faz imensa confusão.
Bem sei que os miudos de 12 anos hoje em dia são maiores que nós (eu incluida também, querida, acredita!), mas há senhoras, funcionárias e professoras, que pura e simplesmente se colocam à parte, à espera da divina intervenção, porque são senhoras e não se podem manifestar...
E por vezes até lhes dou razão, porque quando há uma que se manifesta, ainda leva dos pais, que é para aprender a estar quietinha.
Preso por ter cão, preso por não ter!
Mas ainda assim, continuo a achar que não calando e consentindo que se consegue dar a volta seja ao que for e por isso não me calo, mulher ou não!

Dalaila disse...

nem sei o que te diga!!!!! aqui pela minha terra, queimaram ecopontos com abóboras..... e não foi preciso sewr até às 11 da mannhã

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

No sábado assisti a uma cena muito idêntica ( que relato no Rochedo), com a diferença que a única violência foi a verbal. Talvez porque o grupo fosse constituído maioritariamente por meninas...
Coloco as mesmas questões da Carol, mas pergunto ainda mais uma coisa: será que a "globalização" do Halloween serviu apenas para evidenciar o aspecto negativo de alguma juventude portuguesa e pôr a nú o desinteresse dos pais pela educação dos filhos?
Conchinhas

Carol disse...

Eu percebo-te, INDOMÁVEL e, acredita que, às vezes, vejo coisas que me dão ganas de arregaçar as mangas e pegar o touro pelos cornos. Mas, no fundo, sou um bocadito chicken! ;)
Mas tens muita razão quando dizes que há mulheres que usam essa desculpa quando, simplesmente, se estão a borrifar...

DALAILA, eu pergunto-me que geração é esta que estamos a criar...

Pois, já ouvi dizer, CARLOS... Tenho que ir ler esse teu relato. Mas, olha, em relação às meninas, acredita que as há bem piores que os rapazes!

DANTE disse...

È realmente uma pena ver que a boa educação se está a perder.
Hoje já não se convive , tenta-se só viver.

Jokas carol :)

lusitano disse...

O que é que podemos esperar de uma sociedade que estimula o "chico-espertismo", o passar por cima dos outros, o ser malcriado como oposição a ser "betinho"?

Tem que dar nisto!

Já repararam por exemplo na linguagem desbragada das raparigas hoje em dia?

Pois se o amor dos pais, (que raio de ideia que eu tive em falar nessa coisa careta de amor dos pais), é a maior parte das vezes substituido por bens de "primeira necessidade" do tipo play station, telemóvel de 500,00€ e por aí fora o que esperam que os jovens transmitam a não ser indiferença e violência?

E já dizemos isto há tanto tempo!!!

Abraço

o que me vier à real gana disse...

Olá,boa tarde!

De há muito que as famílias se eximiram da educação dos filhos... Ou, no mínimo, auto-mitigaram esse seu papel... Empurraram-no para a Escola.
Ministério do Ensino, deveria ser a designação daquele k é chamado da Educação. Ensinar matérias específicas, é a terefa dos professores... Em termos de Educação, poderão estes coadjuvar, mas tão só - e já não é pouco! - os pais.
Famílias, atentem na realidade; observem!

Quanto à comemoração de tradições dos outros?... Mostra k somos facilmente aculturáveis. A globalização até k é óptima, se o preceito fundamental das diferenças, do diverso - k faz a riqueza do mundo - não for negado.

João Castanhinha disse...

Boys will be boys

Também em Espanha se comemora agora o Helloween, vi alguns tipos na noite de Sábado nas ruas em zaragatas e com alguns narizes ensanguentados e ai também ninguém se meteu, (eu de certeza que não me metia, nem sei falar espanhol) vai na volta é uma tradição Americana que desconhecemos, quanto ao seu texto, não concordo com a amplitude e comentários aqui relatados, pelo simples facto que boys will always be boys, com ou sem pais, ás 4 ou ás 11 da manhã parece-me a mim demasiado puritanista, até tiveram o bom senso de não chatear ninguém e de irem se esmurrar para a via publica, o que é que queremos mais?

Já agora, iam fantasiados de quê?

Carol disse...

Pois,JOÃO CASTANHINHA se calhar sou puritanista mas filho meu, boy or girl não andava a festejar o Halloween com bebidas alcoólicas e, muito menos, àquelas horas.
As meninas iam de bruxas; os meninos de vampiros.

Adoa disse...

A indiferenca paira em todo o lado e já nao é novidade para ninguém, infelizmente...

O pior é que quem se meter, ainda apanha por cima, por isso ninguém se quer meter...

João Castanhinha disse...

Pois, eu também não vou querer isso...e vá lá, podiam ter ido de pugilistas:)

Abraço

Carol disse...

Também é verdade, JOÃO...