A reunião política!

Sentados à volta da grande mesa redonda, os ministros viam o Primeiro, irritado, preocupado, andar em passo apressado, atravessando a sala de parede a parede num movimento sem parar, vociferando palavras, algumas delas completamente incompreensíveis.

Não ousavam dizer nada, pois conheciam bem o chefe e as suas fúrias.
Quando assim estava era melhor sair de perto dele!
Olharam todos para o adjunto, aquele que lhes parecia estar assim mais perto do chefe, mais na sua simpatia, e fizeram-lhe sinal para ele dizer alguma coisa.

Um bocado receoso, apesar de tudo, o adjunto arriscou:
- Ó Primeiro, acalme-se, vamos pensar juntos e tudo se vai resolver.

O Primeiro parou a sua caminhada, olhou para eles com um olhar que cortava como facas e disse: - Acalme-se, acalme-se! Acalmo-me uma “porra”! Cambada de incompetentes que só me arranjam “chatisses” e depois sou eu que tenho de as resolver!

- Mas ó Primeiro, retorquiu o outro, essa coisa da educação acaba por cair no esquecimento e depois o povo vota outra vez na gente.

O Primeiro nem queria acreditar no que ouvira:
- É pá, mas vocês não aprenderam nada nestes anos todos que estão na política?
Vocês não percebem que agora são os professores, mas se os outros percebem que a coisa dá, vêm logo a toque de caixa os funcionários públicos, os enfermeiros, os camionistas e tudo quanto é classe profissional neste país?
“Possara”, a Lurdinhas com a mania das firmezas levou a coisa longe de mais e agora deixou-me aqui neste imbróglio que me está a custar votos.
Se cedo aos gajos, é porque cedi, se não cedo vai ser um arraial de manifestações de tal ordem que ainda me arrisco a vir o de Belém dar algum conselho que depois tenho que seguir.
Gaita pá, vocês tem de pensar nas coisas antes de avançar por aí como um elefante numa loja de cristais.
E escusam de estar a olhar para a Lurdinhas, porque todos vocês já meteram a pata na poça.

Novamente o silêncio tomou conta da sala e os ministros todos de cabeça baixa nem olhavam uns para os outros, quanto mais para o Primeiro.
- Bem, diz o Primeiro, a única coisa que vos safa, ou melhor, que nos safa, é que o pessoal da oposição ainda é pior do que vocês!
A Nela só diz bacoradas, o Paulinho quer é vir para o governo, o Jerónimo ninguém lhe liga que já tem a cassete gasta, e o Xico já ninguém o pode aturar com aquele discurso de ex-seminarista frustrado.

Aí o adjunto teve uma ideia luminosa que logo tratou de expor ao Primeiro com um sorriso orgulhoso.
- Ora bem, disse ele, o Paulinho das feiras afirmou que até ao fim do ano iam apresentar uma nova formar de avaliação dos professores.
A gente espera, aguenta a coisa até lá, e aproveita a ideia dos gajos do CDS e aplica-a!

Ficaram, a olhar para ele, para ver quando é que o Primeiro lhe atirava com um cinzeiro às ventas!
Espantosamente o Primeiro disse:
- Ó pá, explica lá isso.

O adjunto, sentindo-se encorajado, aclarou a voz e falou com um ar de superioridade em relação aos outros.
- Então é assim: Os gajos querem vir para o governo se a gente não tiver maioria nas próximas eleições.
Ora bem, então damos-lhe agora um sinal de que até nos damos com eles e passamos a imagem de que até aceitamos as coisas vindas da oposição.
Os gajos não têm hipótese no governo connosco, pois basta dar-lhes umas coisitas e eles ficam todos satisfeitos.
Se a coisa da avaliação der, fomos nós que fomos democratas e aceitamos as ideias da oposição que aliás só teve sucesso porque fomos nós que a implementámos.
Se a coisa der para o torto, a culpa é dos gajos, porque nós numa tentativa de resolver as coisas até aceitámos as ideias deles, mas como se vê pelo exemplo, não nos resta outra solução senão pedir uma nova maioria absoluta ao povo, porque não se pode governar sem ela, como fica demonstrado.

O Primeiro olhou para ele com alguma empatia e pela primeira vez sentou-se.
Depois fitando os outros com um sorriso de desdém, disse:
- E vocês, não dizem nada?

Depois de um longo silêncio, aquele que já é conhecido também pelo nome de “JAMÉ” disse como se tivesse encontrado a pólvora:
- Então e se avaliássemos a Lurdinhas?

Escusado será dizer que a reunião acabou ali em grande tumulto, porque o Primeiro saltou sobre a mesa direito às goelas do “JAMÉ”.

Desculpem, mas hoje deu-me para o humor!

9 comentarios:

indomável disse...

Ó Lusitano,

É por estas e por outras que tenho orgulho da raça portuguesa... empregamos como mais ninguém no mundo, a ironia, com uma causticidade que até levanta as pedras da calçada.

Não consegui evitar uma boa gargalhada... além de que não consigo tirar da cabeça a ideia das mãos do enginheiro nas goelas do Jamé...
Ahahahah!

Ferreira-Pinto disse...

Eu quase não me atrevo a acrescentar mais nada em nota de rodapé ao imaginado Conselho de Ministros ... ah, por acaso consigo ... todos malham na pobre da Lurdes, e ninguém diz ou faz nada no pateta do "Jamé" ou naquele assomo de coisa nenhuma chamado Pinho ... pois, às tantas, quanto mais ar de anjola e pateta alegre, melhor!

Peter disse...

O adjunto para 1º Ministro. JÁ!

António de Almeida disse...

-Então e o Pinho? Esteve na reunião ou terá ido inaugurar algo? O problema deste governo é ter vários ministros a criar problemas obrigando o PM ao papel de bombeiro, salvam-se Severiano Teixeira, Luis Amado, Vieira da Silva e Silva Pereira, empatam os inócuos Mariano Gago, Pinto Ribeiro e Ana Jorge, Santos Silva aguenta-se na luta política, os restantes é cada tiro cada melro.

Compadre Alentejano disse...

Essa cena passou-se numa reunião especial do conselho de ministros, realizada no Júlio de Matos?
Só podia...

Tiago R Cardoso disse...

ainda bem que te deu para o humor, muito bem conseguido.

Adoa disse...

Por acaso seria uma grande ideia... nós todos avaliarmos os políticos!
lololol

pedro oliveira disse...

passei, na sexta -feira num restaurante, os olhos pelo CM à hora do almoço e li mais uma do "jamais", estava ele e a secretáia de estado a explica a cena dos contentores e do negógio com a lisconte, quando o "jamais" se sai com esta: "as contas foram feitas, podemos é perguntar se foram bem feitas, quem as fez foi a secretária de estado".O Máximo!

Po
vilaforte

Fa menor disse...

Então se a gente não levar a coisa na desportiva, fica para aqui atrofiado...