Kristallnacht ... nunca mais!

A Alemanha recordou ontem um acontecimento que se afirmou como o prelúdio do Holocausto, esse acontecimento infame que marcou o século XX - a Kristallnacht ou, em português, a Noite de Cristal.

Há 70 anos atrás, nessa mesma data, as sinagogas e cerca de 7.500 estabelecimentos comerciais de judeus alemães e austríacos sofreram a ira, a intolerância e o preconceito dos nazis e foram totalmente destruídos. Cerca de 91 pessoas (número oficial, mas muito discutido) foram mortas e 30.000 detidas e enviadas para campos de concentração. Tudo porque um diplomata alemão de seu nome Ernst von Rath foi assassinado por um estudante polaco judeu, como vingança pela expulsão da sua família e de outros 15.000 judeus.

A cerimónia evocativa decorreu na sinagoga de Rykestrasse, em Berlim e contou com a presença de vários líderes da comunidade judaica, a presidente do Concelho Central de Judeus da Alemanha, vítima e testemunha viva deste acontecimento e de Angela Merkel. As palavras da chanceler alemã foram, aliás, bem claras e não deixam margem para dúvidas quanto ao posicionamente assumido relativamente à comunidade judaica e aos fenómenos contemporâneos de anti-semitismo, destacando que "a complacência" coloca em risco os "valores essenciais da democracia". Efectivamente, a líder alemã afirmou que "não podemos ficar indiferentes quando extremistas de direita marcham através das portas de Brandenburgo, ou conquistam lugares nos órgãos legislativos. Não podemos ficar em silêncio quando os rabinos são perseguidos nas ruas, quando os cemitérios judaicos são profanados ou quando são cometidos crimes anti-semitas" e salientou que atitudes como as do Irão e da Palestina não podem ser toleradas.

No Vaticano, por seu turno, o Papa Bento XVI, no final da oração do Angelus, também recordou o evento afirmando que "até hoje eu sinto a dor pelo que aconteceu naquelas trágicas circunstâncias, e cuja lembrança deve servir para que horrores como estes não se reproduzam mais" . Por outro lado, apelou a que as gerações jovens actuais e vindouras sejam educadas com base na ideia de "respeito recíproco".

Como é óbvio, há, no entanto, quem não perceba que datas como esta devem ser recordadas pelas piores razões e, apenas, para que as vítimas não caiam no esquecimento, para que irracionalidades deste género não se repitam. De facto, há quem ontem tenha festejado este acontecimento como se de um acto louvável se tratasse.

Na cidade de Praga, na República Checa, algumas centenas de neonazis tentaram ontem à tarde dirigir-se para o bairro judeu da cidade, na intenção de ali celebrarem este aniversário. No entanto, depois da convocatória por parte do movimento de extrema-direita dos Jovens Democratas (?!) Nacionalistas, deu-se a organização de contramanifestações, que juntaram pessoas de várias origens políticas, as quais desfilaram pacificamente, muitas ostentando estrelas judaicas amarelas e bandeiras vermelhas.

Noites de Cristal, como a que aconteceu em 1938, deviam ser proibidas. No entanto, o nosso mundo, o dos seres supostamente racionais, continua a ter noites e dias de cristal. Um cristal negro de ódio e intolerância, um cristal vermelho tingido de sangue...

12 comentarios:

Peter disse...

Associo-me à dor do povo judeu, todavia não quero deixar de recordar os "pogroms" de Stalin e ainda o facto do dia 9 de Novembro marcar também o fim da separação da Alemanha. O muro de Berlim foi derrubado neste dia, em 1989, abrindo o processo de unificação da Alemanha.

pedro oliveira disse...

Infelizmente continuam a existir muitos dias negros na humanidade.
Veja-se o que se passou no Congo.
Veja-se a intolerência entre cristão que houve ontem em Jerusalém entre ortodoxos Arménios e Gregos.
PO
vilaforte

DANTE disse...

Nas ilhas também tiveram o 'bom gosto' de fazer uma alusãozita ao tema...E ainda se riram.Tristeza...

Jokas carol :)

lusitano disse...

De acordo, completa e totalmente de acordo.

Mas como diz o Peter muito bem, há sempre uma tendência para "esquecer" os genocídios da URRS e outros como tais.

Para aqueles que são mortos ou perseguidos, tanto lhes faz que seja à direita como à esquerda...

Obrigado por nos lembrares isso mesmo.

Abraço

António de Almeida disse...

-A Alemanha ontem evocou não um, mas dois importantes acontecimentos, a "Noite de cristal" e a "queda do muro da vergonha". Claro que manifestações de intolerância religiosa ou qualquer outra são inaceitáveis no mundo moderno. Não só a sra Merkel, também B. Obama já garantiu defender Israel contra os inimigos da paz, aliás a administração Democrata irá incluir vários judeus. Quanto aos neonazis, posso até compreender a sua existência na Alemanha e na Áustria, embora defendam uma doutrina inaceitável concebo que alguns gostassem que a W.W.II tivesse conhecido um desfecho diferente, felizmente não passam de esmagadora minoria, custa-me mais a compreender o conceito da própria existência de neo-nazis fora do território do III reich, julgo mesmo que muitos não terão lido a doutrina, segundo a qual eles são considerados inferiores.

Ferreira-Pinto disse...

A Noite de Cristal é motivo de reflexão, mas não deve servir para escamotear, como aqui já foi recordado, outras noites tenebrosas.

Aliás, e correndo o sério risco de me cairem em cima, gostaria de recordar que temos a tendência a associar de forma automática a palavra "Holocausto" aos judeus, assim menosprezando a memória dos alemães vítimas da mesma política e que morreram nos mesmos campos de concentração, dos ciganos, dos mais diversos europeus que morreram ali enquanto deportados e prisioneiros de guerra.
Bem sei que a perseguição incidiu mais sobre os judeus, mas fica a lembrança!

Assim como já aqui outros recordaram que seria bom não deixar cair no esquecimento Katyn, por exemplo, massacre da exclusiva responsabilidade soviética mas durante anos assacado a quem perdeu a guerra!
E demais desmandos estalinistas sobejamente conhecidos ... por exemplo, as tropas soviéticas tiveram um inaudito percalço (!?) que as levou a ficar paradas às portas de Varsóvia um dia ou dois enquanto no "guetto" os alemães faziam aquilo que os soviéticos também faziam ... como se costuma dizer, se arranjamos quem faça o serviço sujo por nós!

E mais recentemente Srebeninca, o Congo, a Somália são exemplos que o Homem quando quer, é o seu pior inimigo.

Vi aqui uma referência a Israel e à política americana de protecção ao estado de Israel; penso que não se devendo discutir a existência de Israel, podemos e devemos discutir se as suas práticas foram as mais adequadas e consentâneas com um estado que se reivindica de Direito ...

indomável disse...

Oh pá! assim não dá Quint, eu ia falar precisamente do mesmo!

É que é muito bonito sair toda a gente em defesa do povo judeu, porque realmente existiu um holocausto e realmente foram perseguidos...
No entanto não estou completamente de acordo com a Sra. Angela Merkel. A Palestina não pode ser comparada à alemanha do III Reich, simplesmente porque a Palestina está a proteger parte de um território que foi seu durante séculos e séculos e que lhe foi retirado de forma unilateral sem direito a explicações.

Convenhamos senhores, é muito fácil agirmos e falarmos aqui de longe, mas se alguém nos vem dizer que vamos ser expropriados de um metro ou dois de terra para o bem público, gritamos, esperneamos e ameaçamos com tribunal e etc... agora imaginem a expropriação sem direito a retorno de kilómetros kilómetros de território e permanência de guerra desde então e implantação de colonatos cada vez mais para dentro do nosso território?
Conseguem imaginar? Pois então estão no lugar dos palestinos...

Carol disse...

A minha intenção não era, de todo, colocar os judeus num patamar de superioridade ou de maior importância face a outros povos ou minorias. De facto, a URSS, através deEstaline e Lenine, não se ficaram nada atrás de Hitler. Mas, para recordar esses casos teríamos que referir muitos, muitos outros nomeadamente o Camboja,o Ulster (embora com outras dimensões, nunca vi ninguém na Europa muito incomodado pelo facto de uma minoria católica se impor a uma maioria protestante), a Somália, o Haiti, o Congo, o Ruanda... Enfim, uma lista interminável.

Compadre Alentejano disse...

Que essas noites tenebrosa sejam um alerta para o que NÃO PODE ACONTECER!!!

O Guardião disse...

A intolerância continua a existir, pelo que a memória não se pode apagar, se não queremos que tudo se repita de forma tão trágica.
Cumps

Adoa disse...

Ontem vimos na tv a Angela Merkel, juntamente com outros políticos numa Sinagoga. Foi transmitido em directo. Mostraram imagens dessa noite.

Outras noites e dias aconteceram no antes e depois. Escolhemos lembrar aquelas que mais nos dizem respeito... Nao há dor maior que outra. Todas devem ser respeitadas.

"Noites de cristal", que nome mais errado...

E sim, essas noites sao proibidas... O que acontece é que continuam a acontecer por que há sempre quem goste de "fogo"...

David disse...

O texto começa bem "A Alemanha recordou ontem (...)"

E termina ainda melhor "No entanto, o nosso mundo, o dos seres supostamente racionais, continua a ter noites e dias de cristal. Um cristal negro de ódio e intolerância, um cristal vermelho tingido de sangue..."

Nomenclatura diferente... a mesma coisa.