G-20 ou um novo ciclo

Primeiro era o G-7, depois passou a G-8 (o G-7 mais a Rússia), agora temos o G-20 (bem, na verdade, o G-20 já cá anda desde 1999).
E como é simpático ver por lá o José Luiz Zapatero, enquanto nós por cá continuamos do lado de fora destes clubes privados que se proclamam líderes e epítomes do mundo desenvolvido e próspero.
Também é sempre grato ver na foto de família uma Angela Merkl a dar o tom feminino (bem podia ter escolhido outra cor mais feminina do que aquele cinzento cor de nada, mas enfim, as alemãs não são conhecidas pelo seu fashion sense).
Conclusão apriorística: continuamos num mundo de clivagens económicas e sexistas.
Deixa-me só ver se me estou a situar bem temporalmente; estamos em 20 de Novembro de 2008, correcto?
Pois...

Então se é para ser G-20 que seja G-20 (lá vou ter de explicar aos alunos o que é este G que agora ganha contornos mediáticos e gastar mais tempo de aula, enfim...).
Ao que parece o G-8 que, supostamente, deveria ter sido ofuscado, para não dizer deposto, por este G que se reuniu em Washington no Sábado passado, continuará existindo como um grupo de países amigos, eu diria mesmo um clube restrito daqueles à inglesa com exclusivos direitos de admissão. Perverso, no mínimo.
A novidade dos 20 é que as economias ditas emergentes (e como vamos longe dos anos 80/90 e das denominações de países em vias de desenvolvimento) passam a ter assento neste clube mais alargado que tem honras de site oficial (VEJA AQUI, POR FAVOR) e que é actualmente presidido pelo Brazil, nada mais, nada menos.

A mim irritam-me particularmente as divisórias mundiais entre "uns" e os "outros".
Se bem que, na verdade, essa seja uma classificação confortável para entendermos o nosso posicionamento no planisfério global.
Já com Heródoto o mundo se dividia entre o nós helénico e o bárbaro e quem melhor que o Tzvetan Todorov para explicar o porquê e o como das divisões entre nós e eles?
Por isso, em 20 de Novembro de 2008, o mundo continua tão bipolar como sempre (e volta Said que estás perdoado).

Porém, para nós portugueses o desagradável disto tudo é que, querendo fazer parte do "nós" desenvolvido, continuamos do lado de fora a olhar pela janela. Certo que somos apenas um país de 10 milhões, mas então e a Austrália que é um deserto de 19 milhões, um país que nunca terá sustentabilidade para uma população superior a 25 milhões na melhor das expectativas? E que tal vermos lá a Turquia? A mim choca-me, no mínimo dos eufemismos.

Mas voltando à reunião de Washington. Bush fez o papel do defensor do capitalismo à americana e assegurou ao mundo que a equipa do novo Presidente-Eleito não se desviará desse padrão. No final dos trabalhos nada mais ficou acordado do que uma série de intenções para debelar a crise.

Quais em concreto não sabemos.
São intenções. São boas, como todas as intenções. Falta saber como se materializarão.
É preciso aumentar a transparência das grandes operações financeiras.
É necessário regular o sistema. Pede-se uma maior coordenação entre os supervisores bancários de cada país. Pois muito bem, até aí nada de novo.
Como é que isso se vai processar e efectivar? E depois vem um dos grandes pontos de discussão: dar mais poder decisório aos países das economias emergentes no seio do FMI e do Banco Mundial. E como?

Bem, lá teremos de esperar até 30 de Abril de 2009 pela nova reunião dos 20 Magníficos.
Até lá o mundo que vogue ao sabor da crise.

11 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Isto de uma pessoa ter escrito um longo, profundo e sereno comentário e quando o vai mandar publicar, o senhor BLOGGER nos mandar passear tem muito que se lhe diga!
No mínimo, obriga-nos a escrever tudo de novo e desta feita sem o brilhantismo e a sagacidade das primeiras palavras.

As intenções, e não mais que isso, saídas da cimeira do G20 estão para a actual crise como as boas intenções de que o mundo está cheio e que todos os dias vemos por aí expressas em profusão.
Basta ver que, por aqui, na blogosfera, todo e qualquer um de nós tem capacidade analítica bastante para, à sua maneira, solver todo e qualquer problema da nação; quer dizer, não é bem de todos que isto ultimamente anda tudo muito mais preocupado com a avaliação dos outros do que com a sua própria produção!

A falta de um rosto, uma visão e uma marca inquestionável naquele friso de notáveis que se reuniu é um dos grandes problemas do mundo; não há, quer se queira, quer não ali uma marca de fibra e de carisma.
Sarkozy não é um Mitterand, embora seja muito melhor que um Chirac; Merkl, que bate aos pontos um Schroeder, não se eleva à estatura dum Kohl; Zapatero que, para mim, é um bocadinho melhor que um Aznar, não chega aos calcanhares de um Gonzalez; Bush nem ao chinelo do pai, que foi fraco quanto baste, quanto mais de um Clinton, e por aí fora.
E, seguramente, nenhum deles tem aquela aura messiânica que tem um Obama ou tiveram um Kennedy, por exemplo, ou a coragem dum Churchill que, arregaçando as mangas, e entre duas baforadas de fumo, prometeu que só podia prometer “sangue, suor e lágrimas”!

Aliás, a nossa cobardia colectiva e o nosso comodismo individual levar-nos-iam de imediato a repudiar, nos dias que correm, qualquer candidato que se apresentasse apenas prometendo “sangue, suor e lágrimas” porque os tempos, contrariamente ao que muito pateta alegre que por aí pulula pensa, são mesmo, mas mesmo de crise.

Seria bom que em Portugal todos, sem excepção, se inquietassem seriamente com os cenários que se vivem por esse mundo fora.
Basta que, no actual quadro de crise que vive a indústria automóvel, uma “Auto-Europa” feche para rapidamente percebermos as consequências disso no nosso Produto Interno Bruto, esse mesmo PIB que António Guterres não conseguiu calcular, com que todos os bons portugueses gozam mas de que a esmagadora maioria não faz a mínima ideia do que seja,

Estamos numa era de transição entre um capitalismo que, no plano literário, e para não incomodar muito, poderia encontrar eco numa obra como “A fogueira das vaidades” do Tom Wolfe ou nalgumas passagens dum Brett Easton Ellis, para um cenário que esperemos não seja da mais absoluta desolação ou que venha a confirmar aqueles cenários que nos habituamos a ver em filmes com um “Blade Runner” de urbes tecnologicamente avançadas, mas onde se convive com a mais inaudita confusão e onde quem pode se acantona em fortalezas abandonando à sorte os que ficam do lado de fora!

Seja como for, o G20 representa, isso sim, e também aí nós, embalados nas mordomias e na modorra de nada fazer, a suave transição dos centros nevrálgicos de poder.
A Europa “snob” e decadente sentava-se ao lado dos EUA que, na sua visão pretensamente cosmopolita da coisa, são o parente distante “novo-rico” que toleramos porque tem “money”.
O ex-urso soviético foi convidado para a mesa um pouco na qualidade de criado e de palhaço Boris, embora agora seja mais como o mafioso mas também quanto a isso tudo bem …
O senão é que os outrora criados lançaram-se à vida, cresceram e agora, quais burgueses dos tempos de outrora que emprestavam dinheiro à nobreza, sentam-se não só à mesma mesa como, coisa inaudita, ainda há dias o chinês que outrora lavava a roupa nas pradarias americanos virou-se para o islandês e perguntou: “Plecisa dinheilo? Quel empléstimo?”.

Dalaila disse...

se fizerem um g5830, pode ser que POrtugal lá chgue

Peter disse...

Recebi ontem um pps interessante. Os americanos há muito estão emitindo dólares que não têm cobertura ouro. Resolvem o problema com os petro-dólares, pois o crude é comprado com dólares pelos outros países.
Se algum tenta receber o pagamento noutra moeda, como sucedeu com Sadam, que passou a aceitar também o pagamento em Euros,temos a guerra, pois não entram dólares nos EUA.
Agora o Hugo Chavez admite vender crude pagável em qualquer moeda e novamente temos o "caldo entornado."
A coisa piora com a França a querer receber em ouro os dólares que tem.

Eu não sei explicar bem, pois não sou economicista, mas julgo que o problema é os EUA continuarem a imprimir dólares sem terem cobertura ouro.

António de Almeida disse...

G8 para G20? Of course, show me the money! Que China, India e Brasil, ou mesmo a África do Sul tenham entrada é perfeitamente justificável, agora a Espanha? Talvez para premiar os méritos da governação Zapatero que conduziram nuestros hermanos à recessão ainda antes da crise internacional, nem sequer se falava em subprime já todo o mundo tinha percebido a falência da política económica aqui ao lado. Por outro lado todos os países devem ter algo a dizer no que à política monetária do FMI diz respeito, todos os que contribuirem financeiramente é claro.

António de Almeida disse...

julgo que o problema é os EUA continuarem a imprimir dólares sem terem cobertura ouro.

Peter, sabe qual é a cobertura ouro do Euro?
-0

Manuel Rocha disse...

Oh Freereira-Pinto :

Então gasta-se assim um post num comentário ??

;)

Sobre o padrão-ouro: julgo que o UK foi o primeiro a descolar a libra do dito-cujo padrão na sequência da crise dos 30's; seguiu-se quase toda a gente e nos principios dos 70's já era mesmo toda a gente. A produção de moeda passou a estar indexada a critérios de potencial económico claramente pouco objectivos ( como se sabe ), bem como às investidas da criatividade neo-liberal.

Adoa disse...

Eu já gostei muito quando o Obama veio à Europa e só visitou os seus "amigos"... Alemanha, Franca e England...

Isto é e continuará a ser como ter um casamento e apenas convidar os parentes que podem oferecer a melhor prenda...

Ferreira-Pinto disse...

MANUEL ROCHA distraí-me, foi o que foi.

Mas a nossa Blonde também merece que os seus escritos sejam analisados assim em profundidade!

pedro oliveira disse...

Bem um assunto de muito interesse, mas como diria alguém: É a economia estúpido!
E aí como na maior parte do que se passa no mundo, tirando os magalhães,claro, nem as cheiramos.
PO
vilaforte

lusitano disse...

Bem, vão-me desculpar mas eu de G com números, só conheço a G3 que usei na guerra e que é, (passe a enormidade da expressão), o que alguns destes gajos precisavam de experimentar.

Só para assustar, claro!!!

Abraço

Marcos Santos disse...

Todos esses "G"s existem atualmente com o objetivo de discutir um modo de safar os banqueiros de seus prejuízos, da merda geral em que se meteram. Se fosse para discutir uma maneira de acabar com a fome e a doença não moveriam uma palha, salvo para discutirem temas mais "humanos" como o ponto "G".