Em busca do fim

Mais um caso triste de suicídio entre elementos da GNR esta semana. De repente, ou quase, somos confrontados, em jornais e noticiários, com o facto de as forças de segurança pública se verem a braços com elevadíssimas taxas de suicídio entre os seus operacionais. Porque é que eu não estranho o panorama? Deveria estranhar, não?

Pois é, mas não estranho. Não que seja defensora de soluções terminais (bem, até sou em certos contextos), mas não acho surpreendente que no clima actual as pessoas considerem cada vez que sair da vida é uma solução para algo. Olho para as classes da polícia e encontro-as desmotivadas, "overworked", mal-remuneradas e socialmente desprezadas. Mas, igualmente, olho para as classes docentes e encontro-as desmotivadas, "overworked", mal-remuneradas e socialmente desprezadas.

Li recentemente algures que as dependências de ansiolíticos e anti-depressivos têm aumentado de forma galopante. As baixas psiquiátricas são cada vez mais utilizadas. E quantas pessoas não sonham com a reforma antecipada, negligenciando até penalizações e cortes remunerativos em nome de um bem, maior: deixar, finalmente, o trabalho, o raio do emprego que as atormenta?

Num dos textos que costumo debater com os meus alunos há uma frase basilar: "Ask a man who he is and he will tell you what he does. His identity lies in his work". Crescemos a ser treinados para o desempenho de uma carreira. Doutrinam-nos para gostarmos de trabalhar e porque será do trabalho que conseguiremos o nosso sustento e, melhor, o nosso nível de vida de civilização desenvolvida. Incentivam-nos não a ter um emprego mas a seguir uma carreira.

Chegamos à vida real e o que acontece? Raros somos os privilegiados que têm uma carreira, menos, ainda, os que podem escolher a que têm. O nosso trabalho dificilmente nos dá um sentido de identidade (a agente da GNR que se suicidou esta semana estudou Artes e acabou onde? Num estágio para guarda-republicana).
E, no fim, o pior de tudo, talvez, o tal do trabalho não proporciona vida nenhuma de confortos: nem os materiais nem os outros.

Não há tempo para a família, os filhos crescem por si, não há espaços livres para o "Eu", um hobby, um projecto, uma breve ausência do mundo quotidiano, um mimo.
O trabalho torna-se no aspecto mais absorvente e castrante da vida, ironicamente o que menos dá e o que mais tira.
Não era suposto ser o contrário?
Acho que é tempo de legisladores e estudiosos se debruçarem sobre o que, de facto, está a ocorrer, em termos sociológicos no mundo laboral.
Tem de haver espaço para o indivíduo porque se o não há, já se sabe o que o indivíduo pode fazer...
E isso é o que a sociedade não pode permitir.

18 comentarios:

joshua disse...

Nem sempre o indivíduo escravizado e esvaziado de alegria porque encostado contra a parede que descreves optará pelo suicídio.

Depois da era do social e do indivíduo promovidos, alavancados [as dinâmicas da vida e gestão modernas afastam-se das linhas inspiradas da Doutrina Social da Igreja], os valores da funcionalidade como um absoluto, sem margem para a criatividade ou para o erro de processo nas pessoas, ameaçam a boa saúde de todos.

Nem sempre este desespero limitar-se-á a desembocar num mero onanismo suicidário. Ouvir o grito subjacente é urgente. E depois agir, influenciar. A vida tem de ser Vida para todos.

António de Almeida disse...

Este assunto poderia levar-nos muito longe na discussão, não existirá a meu ver uma verdadeira causa e única, para lá do factor individual onde cada ser Humano é diferente, alguns que jamais tentarão o suicídio independentemente das experiências que vivam, mas também o modelo de sociedade em que vivemos. Por exemplo, a questão das rendas de casa congeladas provocou o abandono dos centros urbanos, desertificando as grandes cidades como Lisboa e Porto enquanto cresceram novas centralidades nos arredores, cada vez mais distantes do perimetro urbano, o que por sua vez veio provocar um maior tempo gasto na deslocação para o trabalho, que também ocupa cada vez mais tempo, mas o dia continua a ter apenas 24H, levando ao tal afastamento da família que refere. Mas poderia também falar da ditadura que os filhos impõem aos pais, obrigando-os a comprarem a Playstation, o computador, o telemóvel de última geração que passado um ano terá de ser substituido, bem como roupas, mas apenas da marca Y. Já nem falando nas férias pagas a crédito, valores que provocaram o sobre endividamento, que poderá estar na base de alguns actos desesperados. Ainda a gestão de expectativas, alguns terão legitimamente passado uma vida esperando reformarem-se aos 50 ou 55 anos, contando com um valor remuneratório que face às novas regras (professores/func públicos) não irão receber, ficando penalizados em anos de serviço ou valor. A tudo isto há que somar as pressões que se não existem sobre o profissional por vezes atingem o cônjugue, o filho que arranjou más companhias, uma panóplia de circunstâncias que podem conduzir a desfechos fatais, e que são dificeis de combater por serem impossiveis de diagnosticar, porque cada caso é um caso! De qualquer forma julgo que a PSP e a GNR devem proceder ao levantamento exaustivo da vida dos suicidas, procurando um eventual padrão comum que possa eventualmente salvar vidas no futuro.

joshua disse...

Meu Deus, como António de Almeida investe forte no comentário de qualidade, o que muito lisonjeia o Notas e só abona em favor de um ex-colaborador assim magnânimo, consciente e civicamente activo. Merece aplauso até porque quanto escreve sobre este delicado sintoma de Mal-Estar dramático é de altíssima pertinência.

Ferreira-Pinto disse...

"Ask a man who he is and he will tell you what he does. His identity lies in his work" é uma excelente síntese a uma tese que fez e faz corrente nas sociedades modernas.

Tese essa que resulta do facto de tudo ser inculcado, formatado e encaminhado no sentido de ter sucesso numa carreira que, de preferência, nos assegure o sucesso do conforto material.

Embalados no sonho e delírio do consumismo embarcamos nessa nau alegres e contentes, esquecendo que tarde ou cedo surgirá um qualquer Cortez (ou Pizarro?) a queimar as naus porque não há retorno, especialmente quando se investe tudo na carreira e se dá o flanco noutros lados da nossa existência.

Obviamente que, feita a síntese importará que cada um, na lógica hegeliana, encontre a antítese ... e aí prevalece o EU como já se referiu.

Ferreira-Pinto disse...

JOSHUA notarei aí no remate último uma pontinha de "inveja"?

Ou será que estás assim porque hoje ainda não arranjaste maneira de te empertigares e fustigares o lóbi?

joshua disse...

Tarantino, com todo o respeito, não te tenho como um chato. Pelo contrário, normalmente és interessante e vivaz como poucos que eu leia. Não perdes qualidades porque na verdade não és grunho nem pró-ministra [nem sei por que insististe obsessivamente nisto ontem]. Não perdes? Não percas!

Ontem havia um lóbi circunstancial. Ainda está aí, nisso do lóbi? Abre uma janela, homem, está um dia esplêndido.

PreDatado disse...

Estou completamente em desacordo que o suicídio seja a solução para todos os problemas. É a solução para o problema individual. Mas nunca poderia dizer isto a um suicida após o acto porque ele não me ouviria. E se ouvisse seria capaz de me dizer: mas foi o meu problema que acabei de resolver. Indo agora à questão do trabalho. Todos fomos educados e talhados para isso. Crescer, estudar, trabalhar, envelhecer, reformar, morrer. Parece-me também, e creio que à maioria, ser o ciclo normal. A não ser assim não haveria que nos indignarmos contra o desemprego, não lutaríamos por ensino condigno, não clamaríamos por saídas profissionais condicentes com as nossas opções escolares. Em Portugal (desconheço em detalhe o que se passa lá fora), o que se passou e passa foi por um lado o defraudar de muitas expectativas, nomeadamente no funcionalismo público, a não a adequação da escola ao labor e vice-versa e, para aqueles que tiveram “a sorte” de ter um emprego a transformação em escravos do capital assumindo esta nova escravidão vários aspectos nomeadamente os recibos verdes e os contratos a prazo onde comes e calas e a progressão na carreira á custa do sacrifício familiar. Bom mas como isto não é assunto para um comentário mas sim para um artigo e um ou mais debates, o melhor é ficar por aqui mesmo.

joshua disse...

PreDatado, interessante ver como coincidimos plenamente na análise das causas remotas para uma profunda frustração, chamemos-lhe, 'portuguesa'.

Agora questiono-me sobre que motivos estão na base de uma elevada taxa sueca de suicídios para eventualmente antecipar razões metabólicas e climáticas capazes de amplificar predisposições contextuais e individuais. Em Portugal há qualquer coisa de errado nas dinâmicas sociais de integração e construção de um corpo social coeso.

A rapidez com que a polícia reprime os miúdos dos ovos e com que a justiça liberta criminosos e lhes suavisa ou simboliza penas, dá efectivamente que pensar.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

O desencanto, a descrença,a desmotivação, são uma forma de suicídio de que não se fala, mas que está a matar não um povo, mas uma civilização. Disto pouco se fala.

joshua disse...

Carlos, podem de facto insultar-nos, dizer-nos o que quiserem, que não levantamos o cu e não lutamos, mas a verdade é que o ambiente é-nos hostil, desencanta-nos e desmotiva-nos, mas é óbvio que, por exemplo, a par da crueldade contra idosos, contra crianças, a ganância enquanto motor da economia, o lucro concentrado em mãos que não beneficiam ninguém nem melhoram o entorno social, tudo isso contribui claramente para que morramos ou nos matemos efectivamente.

Marco Rebelo disse...

ui..este tema.. daria q falar :)

lusitano disse...

Gostaria de ter assinado este texto!!!

O homem está a perder, quanto a mim, o sentido da vida, a esperança que o leva para além do dia a dia e assim encontra-se muitas vezes perante a finitude das coisas efémeras que não lhe abrem caminho para viver mais e melhor.

Já muitas vezes se disse e já é quase um "chavão", por isso mesmo muito poucos ligam a esta verdade: O homem antes de ter, precisa de ser.

E hoje o homem é "apreciado" e "aprecia-se" pelo ter e não pelo ser.

Abraço

Compadre Alentejano disse...

Há quem diga que o suicídio é um acto de coragem mas, quanto a mim, é um acto de cobardia.
O suicida é alguém que deixou de lutar, que volta as costas aos problemas e à vida. Incapaz de dialogar com um amigo, de contar as suas mágoas e os seus problemas, e que vê no seu sacrifício, na sua morte, a solução de todos os problemas.
Oxalá, nunca nos toque cá pela porta...
Compadre Alentejano

Carol disse...

Mas, às vezes, não encontramos esse amigo,COMPADRE... Já vivi duas situações complicadas (uma de trabalho, outra de saúde) e a verdade é que muitos dos ditos amigos desapareceram... Felizmente, deu para ver quem eram os verdadeiros, mas são tão poucos...

joshua disse...

Carol, a amizade sacrifica-se inteiramente, dá-se e sofre com quem sofre. Os outros apalavram superficialidades. Os outros apalavram ajudar talvez. A prática é toda ela cínica e alheada.

Carol disse...

Pois é, JOSH, mas dói muito perceber que só nós é que damos e sofremos, ainda por cima quando estamos mais vulneráveis... Mas, o que não nos mata, torna-nos mais forte e, agora, já não me apanham desprevenida! ;)

joshua disse...

Por mais que tente, Carol, ainda não calejei que me proteja. Estou em desprevenção desprevenida por natureza e feitio.

Tiago R Cardoso disse...

somos e seremos meras peças na rotina da sociedade.