Ceder à pressão da sociedade ou fazer escolhas conscientes?

Sou uma mulher de 33 anos e vivo sozinha.
Aos fins de semana, volto à terra que me viu crescer. Aí, procuro esquecer os problemas do quotidiano passeando junto à praia.
Nesses passeios acabo sempre por encontrar os pais dos amigos de infância e alguns amigos dos meus pais.A catadupa de perguntas é inevitável e, quando são mulheres, há duas que são completamente previsíveis. A saber: "Então, quando é que te casas?" e "E filhos, não achas que está mais do que na altura de pensares nisso?".

Confesso que detesto ter que falar da minha vida pessoal e, como tal, sou o mais sintética possível e, a essas perguntas em particular, costumo responder com um vago "um dia destes....". Isto porque, realmente, não estou para explicar a essas senhoras que nem todas as mulheres nasceram para casar e dar à luz. Que nem sempre as mulheres sonham com a igreja toda iluminada e o vestido de noiva, com as fraldas para mudar e a enorme responsabilidade de trazer uma criança ao mundo!

Não entendo esta ideia de que, nascendo mulher, automaticamente tem que se casar e ter filhos como se, só assim, pudéssemos ou merecêssemos ser felizes! Mas porque carga d'água é que não posso viver com a minha Dona Gata e ser feliz?! O que tem assim de tão estranho eu preferir chegar a casa e não ter ninguém à espera?! A possibilidade de cozinhar o que e se me apetecer, de não fazer a cama de manhã e não sentir remorsos quando chego às 22h a casa, porque me apeteceu ir ao shopping ou dar duas de conversa com uma amiga no café?!

Há quem me considere egoísta, mas sinceramente não concordo. Esta foi uma escolha que eu fiz e que, um dia, poderei repensar mas não agora. Eu trabalho todo o dia com os filhos dos outros e vejo como muitos são negligenciados pelos tais pais que os amam muito e tudo fizeram para os ter. Eu vejo como os compram com telemóveis e outros gadgets de última geração, para compensar o facto de não os conhecerem minimamente, de não saberem os seus gostos, os seus anseios...

Na verdade, penso que há muito quem tenha filhos porque é isso que a sociedade espera deles, porque se casaram e isso é parte fulcral de um bom casamento. E, sinceramente, acho que só essa pressão social pode justificar o caso de algumas pessoas que decidem ter filhos independentemente de não terem a mínima estabilidade emocional ou as condições económicas necessárias para isso.

Há quem me critique e censure pela minha opção, há quem diga que revelo egoísmo mas, para mim, egoístas são aqueles que, apesar de estarem em situação de desemprego prolongado ou sistemático decidem aumentar a sua prole, aqueles que, apesar de não estarem dispostos a dedicar-lhes tempo e a oferecer-lhes carinho, atenção e amor, teimam em ser pais...

22 comentarios:

salvoconduto disse...

Oh vizinha, eles se calhar não são egoístas, devem é acreditar na MFL que lhes sugere que o sexo é para procriar...

mac disse...

O meu "problema" é o mesmo que o teu: 34 anos, solteira, sem filhos. No trabalho, ao meu redor, o mulherio, uma após outra, está a ter filhos, e lá vem a pergunta da praxe: e tu? Já nem sequer explico o porquê de não querer ter, que é muito parecido à tua razão, não vale a pena. Cansei de dar explicações...

pedro oliveira disse...

Se é feliz , para quê dar explicações extra?
Viva a Felicidade!

PO
vilaforte

Carol disse...

Se calhar é isso, SALVO CONDUTO... Com que então, vizinhos...?

É que é irritante, não é, MAC? E quando falam sobre os filhos e olham para nós como se fôssemos umas tristes, dizendo: »Não sabes, não tens filhos...»?! Às vezes, ainda me dá vontade de perguntar se sobrinhas não são gente, se não podem ser amadas como se fossem nossas, mas acho que não vale mesmo a pena...

E mais nada, PEDRO!

indomável disse...

Carolzinha...

Não sendo eu a psicóloga de serviço aqui do Notas, vou-te explicar uma coisa que aprendi há algum tempo, com a experiência dos meus 35 anos de vida. Tive o meu primeiro filho aos 26 anos, aos 28 tive o 2º e com 35 ando com uma fome terrivel de ir à procura da menina que sempre tive ânsias de ter... mas isto tudo porque era a minha vontade, a minha vontade, porque em termos de relações sociais, as coisas foram um bocadinho diferentes. Passo a explicar - aos 23 acabei a faculdade, de seguida casei com um rapaz que já me implorava que casasse, apesar de com todas as minhas forças eu desejar manter-me solteira e começar a viver a vida fora da escola. Toda a gente à minha volta me dizia que casada era mais fácil encarar a vida "real". Casei não muito convicta, mas casei, era jovem, deixei-me levar por quem me rodeava...
Mais tarde, já casada, ouvi certas senhoras perguntar-me por que raios tinha casado tão depressa?
Mas logo de seguida, perguntavam porque é que ainda não tinha filhos, do que é que estava à espera...
Um dia em que me apanharam mesmo muito mal disposta (e eu sou de fugir nesses dias), mandei-as pastar cabras, que da minha vida quem sabia era eu e eu decidira que os filhos viriam quando eu entendesse e não elas...
Ora bem, como te disse, um filho veio a seguir ao outro, com 2 aninhos de diferença apenas, porque eu quis, porque o meu marido, a quem amo terrivelmente, quis. E desta vez a pergunta foi - outra vez? Mas estarás maluca para ter outro tão cedo?
E novamente a resposta foi - vão bardamerda, que da minha vida saberei eu...

Conclusão, Carol, não podes estar à espera que quem te rodeia saiba o que é melhor para ti, muito menos pessoas com quem estás talvez uma ou duas vezes por ano. Já diz a minha mãe, ninguém mais sabe o que se passa na nossa casa a não ser nós mesmas e a minha mãe sempre foi a última pessoa a dar-me conselho e deu porque eu lho pedi... entendes?
Nas relações sociais diz-se todo o tipo de coisas, porque... sim! porque as pessoas fazem conversa com a primeira coisa de que se lembram que seja menos inconveniente, ou pelo menos, que seja mais normal. Perguntar sobre marido e filhos a uma mulher e vice versa a um homem, é aquilo que mais se faz em sociedade, sem de facto entrar demasiado na intimidade da pessoa em causa. Quem pergunta não está de facto à espera de uma resposta sincera e que responde nunca cede em mais do que evasivas, a não ser que lhe interesse, e assim tudo fica no âmbito do geral e não comprometido...

Vá lá, não te zangues, é mesmo assim a vida em sociedade... porque achas que existem eremitas?

E já agora... afinal quando é que raio te casas, hã?

Ferreira-Pinto disse...

Isto é muito giro, não é?

Liberdade para isto, liberdade para aquilo, respeito pelos direitos dos outros mas, depois, no dia-a-dia não resistimos mesmo ao meter o bedelho, como se costuma dizer!

cada vez me convenço mais que, nalguns domínios, nada como passar pouco cartão!

Blondewithaphd disse...

Já se sabe como é: a sociedade é patriarcal e conservadora e está tudo dito. Não te importes. Segue sendo feliz que o resto é conversa (ah, e muita dor de cotovelo...)

João Castanhinha disse...

pois, parece-me que a carol e tao rapida em indignacoes como a julgar os outros que de forma tambem legitima optam por ter filhos, e as condicoes ou incondicoes financeiras cara carol para quem os deseja sao de menor importancia, o egoismo nao mora certamente ai.
abraco.

ps. caro ferreira, voltarei com mais tempo, abraco.

Carol disse...

INDOMÁVEL, sinceramente não estou à espera que os outros saibam o que é melhor para mim até porque, felizmente, sempre me incutiram a ideia de que não tenho que dar ouvidos aos outros mas, antes, pensar pela inha cabeça.
Compreendo que haja pessoas que desejem muito casar e/ou ter filhos, mas penso que isso deve ser uma vontade própria e uma decisão ponderada.
Fazê-lo só porque sim, porque já se namora há muitos anos, porque os pais assim o desejam ou os amigos pressionam, parece-me um disparate!
Eu já tive vontade de ter filhos mas, na altura, estava desempregada e sabia que ia viver tempos difíceis a nível profissional. O meu namorado, que já tem um filho de 22 anos, também não estava num período favorável e, como tal, a opção foi manter tudo como estava.
Hoje não estou minimamente arrependida e não faço tenções de ter filhos. Adoro o meu enteado, com quem me dou lindamente e tenho duas sobrinhas fantásticas que me preenchem, por completo, o instinto maternal.
Casar? Também não faz parte dos meus planos num tempo mais próximo. Gosto, realmente, de viver sozinha e de ter a minha independência.

Ó João, desculpe, mas se os outros podem opinar sobre as minhas opções de vida, eu também posso e, como tal, tenho todo o direito de considerar absolutamente irresponsável alguém decidir ter um filho quando está desempregado e não tem as mínimas condições para o fazer.
Uma das pessoas que mais me chateava por eu não me casar e ter filhos, um dia veio a minha casa, lavada em lágrimas, porque não tinha dinheiro para pagar a consulta de pediatria da filha... Pode haver quem ache isto normal, responsável e sinónimo de amor, mas eu não tenho que pensar assim, lamento.
Os meus pais tiveram dois filhos e trabalharam como mouros para que tivéssemos os cuidados médicos essenciais, para que a nossa alimentação fosse saudável e variada, para que tivéssemos estudos e todas as oportunidades que a vida nos podia oferecer. Não tínhamos os últimos «gadgets» tecnológicos, não vestíamos roupas de marca mas tínhamos amigos que queriam ir para nossa casa porque havia muito o que comer.
Com eles aprendi que ter filhos é estar disposto a abdicar disto ou daquilo, de se ser capaz e estar disposto a fazer sacrifícios em nome dos filhos. Essa é a noção que tenho de maternidade e paternidade responsáveis.
Pode haver quem pense doutra forma, eu penso assim e, se um dia decidir ter filhos, será assim que irei viver a maternidade.
Na minha opinião, ter filhos para andar a pedir dinheiro aos outros, para solicitar subsídios de inserção social ou para despachar para casa dos avós, desculpem não é uma decisão responsável!

lusitano disse...

Cada um julga da sua vida o que quer e por isso mesmo se alguém decide, mulher ou homem, ficar solteiro, casado ou "acompanheirado" é o seu problema, é a sua vida e ninguém tem nada a ver com isso.

Se a pessoa é feliz assim, deve viver assim.

Muitas dessas perguntas, também são feitas muitas vezes sem intenção de obter resposta, ou seja, são perguntas de circunstância.

Já o ter filhos ou não ter envolve outras dimensões, julgo eu, que não caberiam neste comentário.

Abraço.

indomável disse...

Ó Carol,

agora fiquei confusa... eu consegui explicar-me, não consegui? Eu não quis acusar-te de nada, nem sequer quis meter-me na tua vida, hã?
O que eu quis dizer foi que a maior parte das vezes quem faz essas perguntas nem sequer está à espera de reposta e por isso te dei os exemplos do que se passou na minha vida...
... mas concordo com o facto de haverem pais irresponsáveis que não pensam antes de ter os filhos, sabendo que não terão situação para os ter... porém, a questão dos filhos é de facto demasiado complexa para eu discutir aqui em comentário...
mais uma vez deixo claro que não quis meter-me na tua vida, mas ainda assim pergunto, e então um filhinho, hã? para quando? ;)

DANTE disse...

A porra dos moldes sociais em que nos querem inserir também nunca me serviram. Qual é a lógica em sermos o que esperam de nós , e não sermos nós próprios?
Tás bem como estás? Então siga! ;D

Jokas Carol :)

Carol disse...

Ó INDOMÁVEL, eu percebi-te! E acho que tu também me percebeste! Aliás, se decidir ter um filho, serás das primeiras a saber! ;)

E, agora que é oficial, deixa-me desejar-te as boas-vindas ao clube das Ideias Tontas (or not)!

DANTE, join the club!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

As pessoas tê, a mania que podem comandar as nossas vidas, não toleram pessoas que sigam o seu próprio rumo. Quem não aceitar as medidas standard ( forma adocicada de dizer canga) é olhado de soslaio.
Faça como eu, não lhes ligue e siga em frente. se nos deram vida é para nós a construirmos à nossa medida, não à mediad dos outros.
Obrigado por aceitar o desafio. Fico a aguardar

Carol disse...

Plenamente de acordo, CARLOS! Quanto ao desafio, se calhar, vou ter que fazer umas alterações mas é para cumprir!

Compadre Alentejano disse...

Entendo que este é daqueles posts que não se deve comentar. Ou,melhor dizendo, aceitar 100% o que a autora nos tem para dizer.
Mas, deixe-me dizer, que vejo aqui uma necessidade da autora extrapolar, uma dúvida que também a acompanha: se deve ou não deve ter filhos.
Lembre-se sempre, a melhor opção é a sua...
Compadre Alentejano

Carol disse...

Para já, a opção está tomada, COMPADRE...

Peter disse...

É uma opção de vida.

Adoa disse...

A mim nunca me chamaram de egoísta, pelo menos nao directamente. Pelo contrário. Sempre demonstraram um certa inveja por eu ser livre.

Muitas vezes essa inveja transmite-se na crueldadede de nos querem "obrigar" a ser e penar como as outras penaram e continuam a penar...

Confesso que nao tenho muita paciencia para essas tretas... confesso que acabo sempre por ter uma atitude de gozo pela maneira que levo a minha vida! Mas nao me sinto culpada por ter tomado a minha vida nas minhas maos, ne admito que me tentam criticar...

E depois, a inveja é mesmo muito feia!

Joaninha disse...

Ai minha amiga Carol,

Pois olha eu tenho 33 (se dizes a mais alguem a minha idade mato-te)
Sou casada faz 5 anos e não tenho filhos, porquê?
POrque nunca os quiz ter.
Mas já tive discussões de meia noite com tias e primas e amigas por causa disso. Depois de muita cat fight elas desistiram de me massacrar com isso. Mas custou.

Deixa ao fim de uns anos esse pessoal acaba por desistir ;)

beijos

joshua disse...

Carol, em relação às tuas opções de vida, tens de ter muito cuidado com a mediocridade das outras pessoas em espreitar-te o vazio.
Ela é altamente contagiante e transforma-se, quando contraída, em venenosa estupidez primária, sem falar na própria mediocridade contagiosa assim assimilada.

Caso contrário, como explicar o simplismo medíocre a que muitos se arrogam ao encarar o planeamento familiar dos outros ao mesmo tempo que procuram justificar o próprio?

Fui claro? Será essa tal equação das outras pessoas sobre ti assim tão linear?! Não terá ela, a equação, inúmeras variáveis?! Bicadas de cascavel fazem menos mossa, portanto, cuidado. Quando a infantaria dos argumentos é limitada, vale mais aos generais contendores assinar um prolongado armistício.

De resto, acho que o João resumiu tudo!

joshua disse...

Tenho agora mesmo uma recém-nascida de uma semana linda, mamando nos seios da minha esposa, que me enche de felicidade ver crescer e acalentar. Era capaz de me deixar matar por cada uma das minhas filhas. Sou desempregado prolongado somente desde que em Portugal se instituiu esta falácia reformeira à bruta. Tenho a meu cargo uma mãe diabética com problemas de visão que não ouso deixar ao deus-dará. Tenho, portanto, opções minhas, sacrifícios e abnegações complexas de mais para o teu divino café com uma amiga e entrada em casa às vinte e duas horas.

Antes disso, da falácia reformeira à bruta que muito aplaudes, comigo era bem diferente. Depois que essa falácia reformeira à bruta passar e que este consulado ditatorial passe, poderá ser que tudo seja diferente para melhor, menos paranóico, menos opressivo, menos esquizofrénico.

Não percebo como se pode aplaudir uma forma de exercer o poder que infunde o desassossego, o conflito e o estigma crónicos em todos os aspectos da vida social.

Mas tu já provaste perceber, não é verdade?!

Bravo, então!