Carta a El Rei, D. Afomso Henriques, Rei de Portugal pela graça de Deus.

Mui Senhor nosso, e nosso Rei, pela graça de Deus, D. Afomso Henriques
Majestade.


Perdoar-me-á Vossa Majestade a ousadia de a Si me dirigir nesta missiva que agora escrevo.
Compreenderá, Sereníssimo Senhor D. Afomso, que ao ler ESTE ARRAZOADO, aqui escrevinhado pelo seu súbdito Ferreira Pinto, logo me veio à ideia a Nação que Vossa Majestade com tanto denodo e empenho fundou.

Ao reflectir sobre a razão de tais desmandos naquele texto descritos, logo me surgiu no pensamento, como num repente, algo da História de Portugal, que justificasse tais actos e atitudes.

Desde já, e antes de avançar mais na escrita desta missiva, quero invocar o beneplácito de Vossa Alteza Real para a minha humilde pessoa, no sentido de não ser confrontado com os vossos beleguins, de modo a não acabar os meus tristes dias, numa qualquer masmorra, de uma qualquer fortaleza deste reino.

É que já houve um tempo recente, em que nós, o povo, se podia dirigir aos governantes, com perguntas incómodas e pedidos de explicações sobre a governação, mas recentemente as coisas parecem estar a mudar e esse tipo de atitudes já não são muito bem vistas.

Mas adiante.
Dizia eu, humilde servo da gleba, que ao meditar nas razões de tais desmandos violentos por parte dos vossos súbditos, (e perdoai-me desde já também pelo acto de pensar), cheguei à conclusão que a culpa de tais atitudes reside em Vossa Majestade.

Com efeito, reza a história, que o Reino de Portugal foi fundado sobre uma violenta querela entre Vossa Alteza e Vossa Augusta Mãe, que segundo alguns cronistas, terá mesmo chegado a vias de facto.
Assim sendo, como poderia o povo deste reino não proceder de igual modo perante os problemas que no dia a dia lhe surgem pela frente?

Num reconhecimento humilde que as atitudes do Rei são para imitar, o povo não deixa os seus créditos por mãos alheias e assim, vá dos pais arrearem nos filhos, nos professores e até nas forças da ordem, e vá também dos filhos arrearem nos pais, nos professores e nas forças da ordem, e vá ainda dos professores arrearem nos filhos, nos pais, nas forças da ordem e porque não, num “modernismo em tudo salutar”, atirarem uns ovos à governante do reino de Vossa Majestade.

E a explicação perdoar-me-á Vossa Alteza, Sereníssimo Senhor D. Afomso, serve às mil maravilhas o desiderato desde a primeira República perseguido, ou seja, que a culpa dos problemas da primeira República foi da Monarquia, que a culpa da existência do Estado Novo foi da primeira República e mais recentemente, que a culpa de todos os problemas de cada governo da Nação após um tal 25 de Abril, é sempre do governo que o antecedeu.

E assim fica a Nação, lambendo as feridas, vivendo no passado, e por isso mesmo em vez de avançar … recua!

Queira Vossa Alteza, Senhor D. Afomso, explicar a estes seus súbditos, que apesar de ter batido na Vossa Augusta Mãe, não se deixou ficar em lamentações e recriminações, mas pegando na espada e no cavalo encetou caminho para correr com aqueles que nada tinham a ver com o Reino de Portugal e para ele não contribuíam em serviço público, mas antes dele se serviam para pessoalmente enriquecerem, fundando assim o Reino que o poeta cantou empolgado: "As armas e os barões assinalados Que, da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, E em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram".

Queira Vossa Alteza Real, explicar a estes seus súbditos, que devem nestes tempos pegar nos seus cavalos, (agora revestidos de lata e com rodas), nas suas pernas, ou seja como for, e utilizarem as espadas que lhes foram dadas, que agora, saberá Vossa Majestade, se chamam votos, e correrem também com aqueles que nada têm a ver com o Reino de Portugal e para ele não contribuem em serviço público, mas antes dele se servem para pessoalmente enriquecerem.

Vossa Majestade, com o seu douto conhecimento, explicará ainda a este povo indigente de cultura política, que devem introduzir os seus votos nas urnas, de modo a que apurado o resultado da guerra, (por meios hoje em dia muito sofisticados que em princípio não contemplam o derramamento de sangue), sejam corridos da governação aqueles que não contribuem para o desenvolvimento e bem estar do Reino de Portugal.

Permitir-me-á ainda, Sereníssimo Senhor D. Afomso, que abra um parênteses para dar a conhecer este meu pensamento.
Nunca tinha reparado neste nome dado ao objecto onde são introduzidos os tais votos, as urnas.
Realmente e nestes últimos tempos no Vosso Reino, o nome destes objectos está perfeitamente bem dado, porque cada vez que travamos uma guerra de votos, parece que morremos mais um pouco, perdoe-me Vossa Alteza.

Esta já vai longa, e com certeza os muitos afazeres de Vossa Alteza Real são bem mais importantes do que estar a ler as palavras desalinhadas deste seu servo irreverente.

Humildemente curvo-me perante a Augusta e Real figura de Vossa Majestade, Sereníssimo Senhor D. Afomso e peço indulgência para o meu atrevimento.

Aos quinze dias do mês de Novembro do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e oito.
Um
Lusitano

9 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Mui sereníssimo e cristianíssimo Lusitano, leal súbdito,

Descansai que sei bem reconhecer e apreciar as virtudes de um homem bom, sou bom ouvidor pois só assim se faz deste Reino algum préstimo; cuidai, contudo, que Vossas efabulações e tergiversações não vos levem demasiado longe.

Bem sabeis que aqui na Corte há quem fomente a intriga e nem sempre, mesmo sendo Rei, poderei relevar Vossas palavras mais ácidas.

Quanto mais não seja, porque pode haver necessidade de dar um público exemplo que a El Rei se exige que nem os amigos sejam eternos protegidos.

Engano Vosso quando afirmais que recentemente as coisas parecem estar a mudar e esse tipo de atitudes, a inaudita curiosidade de perguntar aquém manda, já não são muito bem vistas.

Sempre assim foi, embora agora se exagere na demanda de respostas, e também porque por bem sei que por aí andam uns pregoeiros que gostam de dizer e perguntar mais do que é seu mister.

Vede que até Dona Manuela, dos Ferreira-Leitte, sentindo-se incomodada propôs que se colocasse junto de cada pregoeiro um régio controlador da sua bocarra!

Mas adiante.
É provável que tenhais razão quando dizeis que fazer nascer um País de uma augusta querela com quem nos trouxe ao mundo pode não ser bom início, mas que quereis?

Não são profusos e abundantes os exemplos de estados, reinos e suseranos que assim se alcandoraram aos mais elevados desígnios?

Pois se Roma nasceu porque Rómulo e Rémulo se habituaram a mamar na teta da loba, onde está o mal de querelas maiores serem resolvidas da forma que o foram no campo de S. Mamede?

Reparai … o incidente foi sanado a contento das partes pois bem vistas as coisas à Rainha mandei-a para Lanhoso, dei-lhe castelo e tratamento devido a quem nos trouxe ao Mundo.

Reparai, seu distraído, que dei castelo à Rainha-Mãe e não a um qualquer valdevinos, artista prosador autor de cantigas de amigo ou a escudeiro mais ou menos fiel … isso ouço dizer que o fazem os reis dos Mamelucos, mas não aqui Vosso Rei.

Os pais arrearem nos filhos é da natureza das cousas, pois ele até os há que fazem mil vezes pior às filhas e mulheres!

Nenhum dos meus reais ouvidores me deu conta dessa casta dita de professores se andar a rebelar contra as reais ordens, e muito menos que a carruagem da Condessa Lurdes Rodrigues tivesse sido alvo de fúria de plebe que, pelo relato que me fazeis, devia estar na dura labuta para pagar o devido tributo!

Falais-me de cousas que não compreendo, como é lá isso da Monarquia ter soçobrado à República, pois pensava que havia sido o contrário mas haverei de perguntar ao Arcebispo se afinal César Augusto era republicando ou Imperador.

Longa vai a minha resposta, mas cuidai de saber que o caminho que percorri, de espada em punho, foi apenas e só por força das circunstâncias porque para riba havia que atravessar o Minho, empresa de árdua realização e para as terras quentes e frias que para lá do Marão estão não podia pois Sua Santidade mo proibiu.

Soubesse o que sei hoje e bem teria querido ser vassalo e não suserano!

Vós já vistes, Lusitano, meu bom súbdito e leal conselheiro, que nossos primos e Sua Santidade nos reservaram as pedras da Estrela, os sobreiros do Além Tejo, e uma terra sem préstimo lá no fundo do reino onde aqui o Real Arquitecto Manuel Pinus insiste em que devo gastar basta fortuna em castelos e outras obras reais para bem do Povo?

E para eles o que se vê na outrora Hispânia, que até Imperadores sentou no trono de Roma?

Já agora, não tendes, Vós, por mor do amor e da lealdade ao Reino cem moedas de ouro que possais emprestar ao Vosso suserano, comprometendo-me eu a ordenar ao Tesoureiro Real que junto de um desses judeus cambistas, talvez o Oliveira Costa, averigúe da melhor forma de Vos pagar quando pudermos,

De Vosso Suserano e Senhor,
com convite a que compareçais na dominical missa para que possamos conversar sobre o vai por este Reino,

António de Almeida disse...

Escrever uma carta s D. Afonso Henriques não é má ideia, mas julgo que todos ainda esperam é mesmo D. Sebastião.

Carol disse...

Espectáculo, ó LUSITANO!

Peter disse...

Delicioso! Simplesmente delicioso!

Atendendo à situação política que se vive, não podia ser melhor, mas se recuarmos ao meu antigo "métier, tenho algo a dizer:
- o "mito das origens", embora repudiado, ou não prioritário, para a maior parte dos seguidores da chamada "Nova história", ou "Escola dos Annales" continua a fazer parte do nosso imaginário colectivo;
- há um ensaio escrito por José Mattoso, "As três faces de D.Afonso Henriques", que julgo estar incluso no seu livro "Ricos-homens infanções e cavaleiros - a nobreza medieval portuguesa nos séculos XI e XII"* que nos desmitifica a sua imagem. Talvez a mais verdadeira seja a relação entre a "Gesta de D.Afonso Henriques" e o grupo de cavaleiros de Coimbra, constituído por filhos não primogénitos de nobres, em busca de poder e riqueza.

Para terminar esta divagação histórica, que já vai longa, digo tratar-se dum período que me excita, mas do qual não existem bases seguras para o avaliar imparcialmente.

"E qual riqueza me enviom Roma para estas hostes que faço sempre,/Que nunca me quedo de dia nem de noute de guerrear com mouros?"

Naquele tempo, para escrever isto ao cardeal legado de Roma, era preciso tê-los. É o que agora nos falta...

P.S. - Não leve a mal, mas o texto dos Lusíadas tem "gralhas", que por certo não reparou.
* O artigo não consta, mas não perde nada em ler o livro. Fiz uma palestra sobre o assunto e tenho uma cópia para aí.

Bom fds

Fa menor disse...

Está demais!
Delicioso...
Parabéns, Lusitano!

jo ra tone disse...

Esta está de mais.
O fundador irá certamente ter conhecimento desta carta.
É que eu já acredito em tudo.
Acredito também que um povo dificilmente conseguirá reconstruir o que um simples governo destrói.

Tiago R Cardoso disse...

assino também a missiva se me deixar.

ÓscarAlhinho disse...

Ó cara,
Essa dos Afonsinhos não é muito diferente dos socratianos,soarentos ou até pró-cavaquianos.
Vivemos numa outra aristocracia de mercedes,BMW e outras cavalgaduras topo de gama, com piscinas interiores parecidas com a "hereté" romana. os tempos são outros mas a realidade é a mesma.
As moscas mudam só a .... não varia.

Blondewithaphd disse...

Bem, o que eu gostei deste texto!!!! Estais, Senhor, de parabéns!