1755 quando?

É um facto: Lisboa assenta sobre uma das mais instáveis e activas falhas tectónicas do planeta. Curiosamente, também uma das mais estudadas e uma das quais é possível antever, para precaver, um novo período de turbulência.
Periodicamente somos confrontados com os discursos alarmistas da praxe que, volvidos duzentos e tal anos sobre o terramoto de 1755, o tal cujo tsunami consequente ficou "rés-vés Campo de Ourique", numa indicação precisa de onde a onda gigante parou, está na altura de as placas se mexerem outra vez muito perceptivelmente.

E, face ao cenário, o que acontece?
Um simulacro de catástrofe.
Uma coisa quase semi-amadora que prova, nada mais, nada menos que... surpresa, surpresa... não estamos preparados para uma recriação de 1755 e, ainda por cima, não temos cá um Marquês de Pombal. Ou seja, oitocentos e tal de nós desapareceríamos debaixo dos escombros, igual número seria ferido e, pior, duzentos e oitenta e um de nós morreríamos soterrados. Estaríamos, pois, desgraçados.

As comunicações falhariam logo no imediato e não há sistemas alternativos, pelo que os hospitais não poderiam actuar num plano de interacção e intercooperação.
O INEM perderia a capacidade de resposta em 21 horas, isto é, ainda num período em que as réplicas sismícas ocorrem - e isto eu não li em lado nenhum porque acho que quem inventou o simulacro se deve ter esquecido desse pequeno detalhe: um sismo tem réplicas.

Outra coisa espantosa, a meu ver, obviamente, é que, no exercício simulado de sismo, procedeu-se à evacuação de pessoas no maior centro comercial do país, dezoito horas depois de o alegado sismo ter ocorrido.
É mais ou menos assim: o sismo tem o seu epicentro em Benavente e vem em câmara lenta para Lisboa, chegando à 2ª Circular dezoito horas depois. A Natureza é ou não genial?

A este respeito, concordo com as críticas da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Protecção Civil: de que vale um simulacro se toda a gente é antecipadamente avisada de quais as artérias a ser cortadas e quais os locais e localidades a serem atingidos?
Qualquer coisa como: pessoal, um sismo avisa que se prepara para dar umas sacudidelas valentes nuns sítios específicos, portanto cuidem-se!
Ah, e claro, um sismo manifesta-se, preferencialmente, ao fim-de-semana que é para não incomodar muita gente!

E, só mais uma coisinha, antes de terminar, das actividades inclusas no simulacro nenhuma contemplava a imininência de um tsunami.
Daquilo que eu sei, o de 1755 levou apenas meia hora a percorrer a distância entre o Algarve e Lisboa.
Se calhar ainda bem que este pseudo-sismo foi em Benavente.
Enfim, fico muitíssimo mais segura porque o comandante operacional nacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil admitiu que o simulacro deu a conhecer "fragilidades" no sistema. Assim, de certeza que alguém irá trabalhar nessas "fragilidades" que é para elas não existirem na eventualidade de, quem sabe, haver realmente um sismo.
Se Santa Bárbara é para as trovoadas a quem pedimos socorro em caso de terramotos?

10 comentarios:

Carol disse...

Chama pelo Marquês de Pombal, pode ser que ele nos acuda! E que jeito que ele fazia agora para tratar da saúde a alguns que por aí andam a fazer-nos a vida negra!

lusitano disse...

Já agora uma pergunta parva:
Onde é qeu fica o comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil?

Num prédio da baixa???

Estou a gozar claro, mas a verdade é que estes simulacros preparados e avisados com semanas de antecedência cheiram-me sempre a justificação para uma data de empregos e auto-satisfação.

Como diz o texto muito bem, os sismos não costumam avisar malta!!!

Se o simulacro fosse feito sem avisos, nem preparação, tirando obviamente a informação necessária para evitar demasiado pânico, seria um descalabro!!!

pedro oliveira disse...

Concordo na plenitude com o texto, mas não posso deixar de dizer que fiquei espantado quando ouvi a noticia. O quê vão fazer um simulacro em Portugal? o que é que deu a esta gente?O País do desenrasca vai fazer um simulacro, foguetes,onde estão os foguetes...
Que se tirem todas as ilações do que correu mal, ou seja, muito mal e que rapidamente façam outro sem avisar a malta.

Po
Vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

Lisboa assenta sobre uma das mais instáveis e activas falhas tectónicas do planeta?
A sério?
Curioso … a avaliar pela maneira como se constrói na dita capital do burgo nem parece. Digo eu.

Também gostei do balanço oficial do simulacro que é, penso eu, uma coisa que supostamente pretende reflectir uma realidade que pode ocorrer: 800 desaparecidos debaixo dos escombros; 800 feridos e 281 mortos!

E diz a autora que “estaríamos, pois, desgraçados?”
Desgraçados?
Uma cifra daquelas, insisto, seria uma sorte!
A Vasco da Gama seria afectada pelo sismo ou não?
E se o fosse, aguentava?
E a onda do “tsunami” chegava lá ou não?
E se chegasse, a ponte aguentava?

Quanto às comunicações falharem, os hospitais não poderem actuar, o INEM perder capacidade de resposta … nada de novo.
Quem há tempos atrás teve oportunidade de ouvir a chamada efectuada não sei de onde, mas perto de Vila Real, para o serviço do INEM a propósito de uma queda por umas escadas abaixo, as respostas dos bombeiros e afins ficou elucidado!

Outra coisa que acho que está mal é a autora criticar que a evacuação do centro comercial pecou por tardia. Foi a tempo e horas e a Natureza, sábia e previdente, bem sabe que a um português não se estraga o dia de compras!
Nem que seja com recurso a um dos vinte e tais cartões de crédito … mas estragar o dia de compras com um sismo é que não!
Haja paciência.

Quanto à pergunta sobre se Santa Bárbara é para as trovoadas a quem pedimos socorro em caso de terramotos encontro-me impedido de responder. É que a divulgação do patrono, poderia levar a uma ruptura na capacidade de resposta da rede de comunicações!

António de Almeida disse...

Não percebo rigorosamente nada de sismos, e não fui consultar, mas julgo que só ocorrem tsunamis quando o epicentro é no mar, sendo em Benavente poderia provocar ondulação no Tejo em direção ao mar e não o inverso, que aí sim seria letal. Claro que compreendo a necessidade de realizar o simulacro no fim de semana, mas por essa razão tal poderia e deveria ser realizado sem aviso prévio, excepção feita às forças de segurança obviamente, assim tudo não passou dum treino, bem fraquinho por sinal. Mas nos anos 60 Lisboa já sofreu um forte sismo, superior a 7 na escala de Richter, dificilmente se repetirá a destruição de 1755, porque a informação, a solidez das construções, com muitas falhas é certo, mas não tem nada a ver.

Carol disse...

De volta...

Sabes, BLONDIE, o meu namorado irrita-se sobremaneira quando se fala em Protecção Civil. Segundo ele, a coisa devia chamar-se Prevenção Civil e tudo devia ser pensado em função dessa protecção. Passo a explicar: Lisboa situa-se em cima de uma falha tectónica? Então, toda a sua estrutura, toda a construção que aí se fizesse devia ser feita e alinhada em função desse conhecimento prévio.
Há cheias em determinadas zonas do país, todos os anos? Então, a Prevenção Civil devia ter mecanismos que a possibilitasse de impedir a construção nessas áreas, que a levasse a proceder a limpezas atempadas and so on...
Aqui, neste país à beira-mar plantado, espera-se sempre pela tormenta para recorrer à ajuda do padroeiro correspondente. O problema é que o padroeiro, às vezes, tem mais que fazer que acudir à nossa incúria.

João Castanhinha disse...

E se nao se fizesse nada? Servem tb estes exercicios, nao apenas para ver os recursos mas para se incutir no comportamento da populacao a variavel risco, serve de alerta e de captacao sobretudo nos midia de exposicao a este problema. Obviamente, como bem disse uma tecnica do lnec nenhum pais estara em condicoes optimas de responder a um sismo de grande magnitude, e a culpa nao sera sempre dos palhacos do costume, inems, bombeiros e proteccao civil k servem sempre de gozo e enojo nestas alturas.

jcast. via tlmv. no net this week.

pedro oliveira disse...

Ontem houve um na 2ª circular de 5.2 na escala de Barcelona.O socorro correu bem?.........

Ferreira-Pinto disse...

Ó PEDRO essa foi mesmo má ... isso cá para mim ainda é sequela do simulacro!

DANTE disse...

A parte mais engraçada é que nos simulacros que foram recentemente feitos , apenas colaboraram figurantes que sabiam exactamente o que fazer e como agir em caso de verdadeiro acidente.
E agora pergunto eu , o resto da malta faz o quê?? Copy / Paste é?

Jokas loira kum kanudo :)