Violência doméstica

Leio no "Diário de Notícias" (DN) na edição de 20 de Outubro um artigo de Carla Aguiar sobre violência doméstica, o que me deu o mote para este post. Acho que tudo o que se relaciona com a violência doméstica reduz-se sempre, ou na maior parte das vezes, ao eterno vitimizar feminino ante brutalidades masculinas.
Talvez porque a violência física seja mais facilmente objectivada e comprovada, talvez porque ao homem se atribui o papel social do bruto, do irascível e à mulher redunde o estereótipo da fragilidade, da passividade, da não-reacção. A Sociologia explica. O facto é que, lastimavelmente, o crime é encoberto entre portas, na intimidade da esfera privada a impunidade é regra.

Assusta-me qualquer forma de violência, sobretudo a violência e o abuso em seio familiar.
É que violência doméstica não se reduz ao chavão da mulher que “apanha”.
Também há a violência verbal, psicológica e económica.
No entanto, a verdade é que se fala muito na violência contra a mulher, ainda que me pareça que, apesar de todas as campanhas e APAVs e abrigos, a situação continue na mesma.
A mensagem não passa. A legislação criminaliza o agressor e a denúncia de maus-tratos é encorajada, só que as mentalidades não mudam, as vergonhas e receios também não e cá continuamos um país com estatísticas vexatórias no que toca à dita violência doméstica.

E que dizer das outras violências de que ninguém, fala?
Não me refiro aos abusos sobre crianças que esses, por razões muito infelizes, também têm a cobertura dos media.
Falo da brutalidade com que muitos filhos tratam os pais. Acho espantoso que os filhos chamem “defs” e “daah” aos progenitores e ninguém se incomode muito com isso.
Pior, acho escandaloso o modo como se deixa que aqueles manipulem os progenitores até àquilo que eu considero o ponto da extorsão. A escravização dos pais aos caprichos e desejos de aparência dos filhos é para mim uma forma de violência doméstica pouco diferente daquela em que filhos agridem fisicamente os pais.

Guardo para o fim a que eu considero uma das formas mais nojentas e perversas de violência doméstica.
O desrespeito por quem já contribuiu para a sociedade, já fez o seu quinhão e vive o fim dos dias empurrado ao desamparo por lares e macas de corredor de hospital, despejado nas Urgências durante os meses de Verão para os filhos irem a banhos para o Algarve.
Vivemos na civilização da juventude em que, cada vez mais cedo, as novas gerações reclamam o mundo e para o diabo quem já cá estava. Perdida sociedade esta em que a velhice é um empecilho.

E perdida sociedade esta em que de dentro do núcleo social primário vêm tão grandes ameaças ao ser humano e ao respeito pela sua integridade e dignidade física, psicológica e, sobretudo, emocional.

12 comentarios:

Ferreira-Pinto disse...

Um retrato quase exaustivo, embora em pinceladas leves, das várias facetas do mesmo fenómeno.

E, de facto, nuns casos é ouvir a indignação (justa) das pessoas, enquanto noutros impera o silêncio.

Carol disse...

Somos todos culpados, no fundo... Quantas vezes assistimos aos mais diversos tipos de violência doméstica sem nada fazer?

António de Almeida disse...

-A vergonha é o principal factor que cala a violência doméstica. Estaremos de acordo quando afirma que o homem é na maioria das vezes o agressor, e muitas mulheres têm vergonha em denunciar a situação, mas nos casos em que a vítima seja o homem, suspeito que a vergonha ainda seja maior. A violência psicológica essa é praticada por ambos, muitas vezes em simultâneo, embora julgue que não existem muitos dados estatisticos sobre isso. Por último as que fala infligidas pelos filhos aos pais, com a actual forma de vida da maioria da população, as pessoas passam pouco tempo em casa, não há tempo para os filhos, é mais fácil comprá-los com o brinquedo ou os ténis da moda, do que educá-los, o mesmo tempo que não existe para os idosos, um casal em que ambos trabalhem, que saia de casa ás 7 da manhã e regresse pelas 8 da noite, não consegue ter em sua casa um idoso, a menos que este seja auto-suficiente. Como estou a generalizar para uma população média, o mais certo será também não existir dinheiro para pagar os cuidados requeridos, depois dá-se a situação espantosa no maravilhoso SNS ou SS, que temos por cá, se um idoso habitar sozinho tem direito a que lhe prestem auxílio em casa, mas se habitar com um filho, mesmo que este tenha de trabalhar, já perde esse direito. Sim, as instituições do estado, pagas com as contribuições dos que trabalham, e dos que trabalharam, também não ajudam, porque se prestassem auxílio às pessoas idosas mesmo que habitando com familiares, julgo que diminuiriam a procura de lares e camas de hospital de que fala, embora os fenómenos mais violentos e falta de caracter não tivessem solução por essa via.

Peter disse...

Agora que, como diz o poeta (António Ramos Rosa) me aproximo da situação de "amar esta sombra que desliza e que é talvez já a presença que nos foge" começo a sentir que já não tenho lugar nesta "civilização da juventude". Sinto isso até aqui na "blogosfera".
Então penso que sempre foi assim: os filhos, carinhosamente, abandonavam os pais no alto das montanhas para eles morrerem em paz, no seio da Natureza.

Blondewithaphd disse...

Sim Peter, lastimavelmente, penso que é quase isso... Mas vamos a animar, ok?

lusitano disse...

Assinaria com orgulho este texto, que com simplicidade toca nos pontos negors da nossa sociedade.

Tenho para mim, que nestas atitudes aqui descritas, se reflecte também a falta de educação, na familia e nas escolas e alguma demissão por parte daqueles a quem incumbe educar, com as palavras e sobretudo com o testemunho de vida.

Em relação às pessoas de idade, que afinal foram quem nos trouxe ao mundo, encontramos sempre as justificações mais perfeitas para assim procedermos, mas a verdade é que não passa pela cabeça de uns pais colocarem os seus filhos recém nascidos ou menores, num orfanato, porque têm de trabalhar, ou porque não têm espaço em casa.

Tirando as excepções, que obviamente as há, a verdade é que não fazemos pelos mais velhos, aquilo que eles fizeram por nós quando nos trouxeram ao mundo.

Pensem bem, aqueles que são mais velhos, na proliferação de "Casas para a Terceira Idade" que aparecem neste país, e não só nas cidades, mas também nos meios rurais, e julgo que assim poderemos compreender que "algo vai mal neste reino"...

Um dia há-de chegar a nossa vez!

António de Almeida disse...

-Cara amiga, tentei comentar o seu texto no outro blog, mas não consigo, desconheço se é problema do meu computador ou por ter alterado o seu sistema de comentário. Aqui por exemplo consigo perfeitamente.

MaF_Ram disse...

"Casa de pais, escola de filhos!"

tagarelas-miamendes disse...

Eu tambem penso que a violencia domestica nao pode ser se esgota no "abuso", porque disso se trata de um abuso, do homem(marido) em relacao `a mulher(esposa). A violencia domestica existe em todas as modalidades, pais para com filhos, filhos para com pais , marido-esposa, esposa-marido. E na grande maioria das vezes, todas estas formas cruzadas, porque tal como disse o seu outro leitor : "casa de pais, escola de filhos".
E se vivemos a civilizacao da juventude a culpa nao e' dos jovens, e' nossa, dos adultos que nao soubemos passar-lhes o testemunho, que nao soubemos impor-lhes limites.
E quando fala escandalizada, e com toda a razao da forma brutal como os filhos tratam os seu progenitores, eu pergunto que faria se um dos seus filhos, que nao sei se tem a tratasse assim? Eu sim sou mae e pode ter a certeza que se um filho meu o fizer, eu nao o deixarei impune, e o mais certo e' fazer uso da chamada psicologia aplicada. E pode crer que nao chamo a isso violencia domestica.

Adoa disse...

Concordo contigo totalmente.

Conheco essas formas todas de violencia, todos nós conhecemos, nao é verdade?
Mas estamos tao habituados que já nem reparamos.

Mas choca-me ver o papel da mulher eternamente como o de frágil da sociedade porque isso é fictício e inculcado em nós desde que nascemos.

Procuremos pelos filmes da nossa infancia, novelas, etc e veremos como foi a nossa educacao...

Somos subjugadas porque aprendemos a se-lo, tal como os homens sao ensinados que devem sero "macho" da casa...

Os últimos filmes da Jodie Foster sao de mulheres que lutam, que se defendem... Nao concordo quetenhamos uma atitude igual à dos homens, mas pelo menos que filmes como estenos facam pensar se somos assim tao frágeis e desprotegidas como querem fazer-nos crer...

A igreja tem e teve sempre um papel importante neste caso...

Os filmes: Quarto do Pânico, Plano de Vôo, O estranho em nós...

Geralmente o papel de herói é sempre entregue a homens, poucos sao os papéis de grande profundidade e relevancia entregues a mulheres...

Creioque ultimamente a tendencia será para mudar... com isso virá um "trocar" de mentalidades.

DANTE disse...

Condeno qualquer acto violento , mas o que são dirigidos ao sexo feminino enojam-me muito mais que qualquer outro.

Jokas loira kum kanudo

joshua disse...

Cristo falta. O lixo abunda. A sensibilidade é mais sensualidade para as coisas e os gozos, e menos, incomparavelmente menos para o AMOR.