Triste sina a da língua portuguesa

Já não sei se é uma sorte se é um azar não ter nascido nesta língua. De uma coisa, porém, tenho a certeza: ainda bem que não estou a aprender Português no ano de 2008!
Imagino bem a confusão que vai na cabeça de miúdos e graúdos, alunos, pais e professores de Português à conta da nova terminologia gramatical, vulgo a Terminologia Linguística do Ensino Básico e Secundário ou, num acrónimo claríssimo como a água, a infame TLEBS.

Nesta vaga de espanejar a Língua Portuguesa com acordos ortográficos e quejandos lá se tentou reinventar as denominações gramaticais das palavras. Se antes já era um emaranhamento que só Deus sabe (Deus e todos nós desgraçados que temos ou tivemos de aprender Português à força de empinar regras linguísticas permeadas de excepções que nunca mais acabam), agora temos um nó górdio que atrofia qualquer falante (nativo e não nativo).

Pois as sapiências ministeriais, naturalmente tendo consciência de que deram com os burrinhos na água, lá suspenderam a TLEBS até 2010 que é quando deverão ter encontrado novo atrofiamento linguístico para substituir o vigente. Acontece, no entanto, que, entre avanços e recuos, a TLEBS era a nova terminologia que educadores e educandos deveriam ensinar e aprender; as editoras, em consonância, fizeram o seu papel meritório e toca de lançar gramáticas e manuais que reflectissem a dita; depois vieram as sapiências e recolheram a TLEBS pois, afinal, já não era bem aquela terminologia que deveria ser adoptada.
No entrementes, circulam ainda no mercado os novos livros com a já enunciada TLEBS quando, eureka, as gramáticas e livros na versão pré-TLEBS é que são válidos. E, por conseguinte, há alunos que têm livros com o suposto último grito gramatical da Língua Portuguesa e outros que os têm na forma mais arcaica, ao fim e ao cabo, a melhor até à data.

Baralhados? Pois o caso ainda fica mais confuso quando no ensino secundário a TLEBS está em vigor e no básico não.

Mas que língua é esta que falamos, afinal? E será que um advérbio agora é outra coisa diferente? E os substantivos? Sim, que esses parece que levaram uma grande volta em questões terminológicas. Eu que já achava uma seca extraordinária ter de saber as conjunções adversativas, imagino o desprazer que será aprender Português agora. Depois queixam-se que os alunos não se interessam por nada e admiram-se que escrevam sms num jargão incompreensível. Pudera! Com as questiúnculas de lana caprina com que lhes enchem a cabeça de nulidades linguísticas.

E assim vai andando aos trambolhões a sexta língua mais falada no planeta, a língua franca que deu mundos ao mundo e facilitou a comunicação e o progresso humano, nobre herdeira do Latim e hoje tripudiada até por quem dela deveria cuidar.
Lamentável.

16 comentarios:

salvoconduto disse...

Já vi gente ser presa por muito menos...

Peter disse...

Estou a ver que tenho de fechar o blog...

João Castanhinha disse...

Bbrrzzt uoliu pree.to iaksss num Blondusit, arityui aikks num bem...

porrtuguesk, 2027

lusitano disse...

Pois é, as instâncias "unitárias" tiram-nos as morcelas, os chouriços, os bolos caseiros, a matança do porco, os jaquinzinhos e por aí fora, e nós acabamos de vez com a nossa identidade abastardando a nossa língua.

Relembrando:

«As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;


E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.»

Abraço

Maresia disse...

É o país que temos..

Maresia disse...

É o país que temos..

Ferreira-Pinto disse...

A Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 estava assim tão enferrujada que precisasse de ir para o maneta?

E a Senhora Dona Terminologia Linguística, que apareceu em 2006, visa o quê e quem a criou?

Antes, quem a encomendou? Com que propósitos?

E isto agora é assim? Tudo feito no bafio dos gabinetes, pelos senhores professores (certamente que na sua generalidade sapiências universitárias, embora alguns sejam umas reais bestas) sem dar cavaco às tropas?

Então os decisores da Nação pensam a coisa, nem que seja a maior trampa, e avançam assim aos solavancos?

Pessoalmente parecem-me aqueles aprendizes de condutor nas primeiras lições em que, desgraçadamente, o mais que conseguem é fazer avançar o carro aos ziguezagues e solavancos.
Se virem bem, e com recurso a esta imagem, compreenderão bem porque é que o País chegou ao estado em que está. Com condutores assim …

O Português, contrariamente ao que muitos julgam, não é língua fácil nas suas regras. Se o fosse, não havia tanto crime e atentado contra o mesmo praticado diariamente por milhares e milhares de falantes e escritores.

Ora, se não é fácil, qual a necessidade de ainda complicar mais?

Não sou nenhuma luminária, mas o que aprendi nos bancos da Escola, com a leitura, com a experiência fermentada entre a redacção de um jornal, o estrado do ensino, a secretária do jurista e o cadeirão do adjunto presidencial permitem-me escrita mais ou menos escorreita, facilidade de interpretação e de leitura.

E, mesmo assim, garanto-vos que quando as gémeas lá de casa, agora nos seus 15 anos e a frequentarem o 10º ano, pedem ajuda a Português (mas o mesmo se aplica a outras disciplinas) as mais das vezes fico tipo “burro a olhar para um palácio”!

É verdade, pareço um asinino e não tenho vergonha de o admitir.

Formação de palavras por derivação (adjectivo relacional, adjectivo de possibilidade, nome agentivo, nome colectivo, nome de acção, nome de qualidade, verbo causativo, verbo incoativo/inceptivo) … esperem lá, alto aí …

Quem tem de saber tudo isto?
Os docentes?
Os alunos?
Todos?
Então porque é que uns, os que andam já na última recta do campeonato andam a aprender isso quando anteriormente aprenderam outra coisa e os que se presume venham a levar com a TLEBS, andam a aprender por outras regras?

Isto é lógico?
É capaz de ser, mas então deve ser como a história dos dois tipos, a Lógica, o aquário e a homossexualidade …

Mas há mais, não desistam.
E aprendam …

Tanto quanto sei o nome uniforme passa a ter de ser descrito de acordo com a seguinte terminologia: epiceno, sobrecomum, comum de dois.

"Aposto", essa simples palavra, passa às seguintes categorias: “modificador nominal do nome apositivo”, “modificador adjectival do nome apositivo”, “modificador preposicional do nome apositivo” e “modificador frásico do nome apositivo”.

Já não bastava a rábula de com o Acordo um facto passar a ser um fato (aliás, já há dias no Contra-Informação se reinava com isto pondo Lula da Silva a dizer “eu tenho dois fatos e três gravatas” e Maria Elisa a responder “é um fato” … claro que o outro, não entendendo, retorquia “não, não é um, é dois!” …) e agora ainda nos sai uma TLEBS ao caminho!

Perguntar “e irem apanhar no …, não querem?”, seria apropriado?

Carol disse...

Até a mim a porra da TLEBS baralha, quanto mais aos míudos!

O FERREIRA, já aqui deu alguns exemplos da mudança mas, acreditem, há-os bem piores!

António de Almeida disse...

-O eduquês também se alimenta destas confusões. Não precisariamos de acordo ortográfico, a promulgação de tal diploma custou a Cavaco Silva o meu voto nas próximas presidenciais, nem TLEBS alguma. Não sou linguísta, nem estou ligado ao ensino, mas considero que as linguas não evoluem por decreto, quanto muito assimilam periodicamente actualizações que foram sendo utilizadas ao longo de gerações.

lusitano disse...

Absolutamente de acordo como António Almeida.

David disse...

È da forma que os "kuando", "kiseres" e outras tantas palavras desse género vão ganhando preponderância… e não admira que assim seja, tal é a confusão…

joshua disse...

Essa triste babel da terminologia foi, é e será um triste e péssimo serviço à Língua Portuguesa, se não for rejeitado e abolido.

Intervir no sistema descritivo da língua como um todo é de uma arrogância enorme. Intervir abalando a lógica e a funcionalidade para tornar intragáveis as terminologias é um crime. Deveria ser punido exemplarmente.

Anda tudo doido. Esta comissão da TLEBS é mais uma daquelas pagas a peso de ouro para parir um Rato Gigantesco, Obeso e Imóvel. Na verdade, e para resumir, só temos quem nos foda a língua, nos foda com a língua, nos foda no processo, já obstaculizado que dói, de MOTIVAR PARA A LEITURA APAIXONADA E HABITUAL da Literatura Portuguesa ou em Língua Portuguesa.

Lamento, mas isto sou eu, um desempregado do Ensino da Língua Portuguesa, um professor-prostituta, chamado para leccionar abjectamente por um mês, por dois ou três, e atirado para o monturo do lixo com um pontapé no cu do sistema.

Está tudo doido em Portugal. Vou seguir o conselho do Tarantino: EMIGRAR, ir para a Austrália, para qualquer lado. Em Portugal fustiga-se o conhecimento e a formação com toda a espécie de barreiras, becos, e humilhações.

Por Portugal, desde há muito, década após década, só vai ficando o refugo, a mediocridade medrante e o ainda mais medrante favor político.

Contra isso, sem lamúrias, nada posso. Posso votar, o que farei com fervor, mal possa, e posso escrever.

Está tudo doido em Portugal.

André Couto disse...

É absolutamente ridícula a revisão que sofreu a gramática da Língua Portuguesa. Alguém me consegue explicitar o porquê de se alterar algo só "porque sim"?
Havia necessidade real?
Ganha-se alguma coisa em ofender os nomes chamando-lhes outra coisa que não substantivos?
Tanta, mas TANTA coisinha que precisava intervenção governativa e só mexem no que quieto deveria permanecer, ainda por cima mexendo mal!
Vergonha. Mais uma deste governo "cagamerdeiro".
Cumprimentos.

Tiago R Cardoso disse...

raios, eu que ainda não sabia toda a antiga terminologia e já trataram de mudar-lhe de nome, raios !

Tony Madureira disse...

Olá,

Lamentável!!
Assino por baixo


Bjs

Adoa disse...

Isso é tudo uma grande cambada de adjectivos...

Tenho dito!