Será justo desistir das "nossas" crianças?

Na sequência DISTO, lembrei-me de uma reportagem a que assisti na SIC há uns tempos atrás.
Na mesma falava-se de pessoas, portuguesas, que se sentiam combalidas pelo cenário de pobreza vigente em África e pela má-sorte de se nascer menina, em países como a China.
Como forma de não se sentirem impotentes, essas pessoas tinham decidido agir.
Como? Adoptando crianças oriundas desses países.

Na altura, compreendi o passo que deram e, evidentemente, achei de um enorme altruísmo alguém decidir dedicar a sua vida a um ser que nunca viu a não ser por fotografias ou que mal teve oportunidade de conhecer.
Na verdade, fiquei feliz por saber que havia menos uma criança a sentir na pele as atrocidades do Homem e as agruras da vida.

Apesar disso, não pude deixar de pensar nas inúmeras crianças que, dentro de portas, vivem tristes em instituições que, muitas vezes, não conseguem suprir todas as suas necessidades e que, muitas vezes, constituem elas próprias perigos escondidos (quantas Casas Pias não haverão por esse país fora?...)...

Lembrei-me dos milhares de cidadãos portugueses (porque, apesar de serem crianças, também são cidadãos) que esperam anos a fio por uma mão que se estenda, uma família que os acolha, um coração que se abra e lhes sirva de refúgio...
Há uns anos leccionei numa localidade que tinha (e tem) uma dessas instituições. Muitos dos meus alunos viviam ali. Uns tinham sido depositados por famílias disfuncionais (se é que se lhes pode chamar famílias) e outros tinham sido depositados por um Estado negligente, que os atirou para ali e nunca mais quis saber deles...

Não tinham um carinho, uma palavra amiga.
Tinham dentro do peito uma revolta enorme.
Hoje sei que alguns deram homens, outros perderam-se pelos caminhos árduos da vida.. Quantos não terminarão assim?...

Eu sei que não é fácil adoptar em Portugal, mas será justo desistirmos das nossas crianças?!
Será que, enquanto cidadãos, fazemos alguma coisa para modificar este cenário de injustiça?!

28 comentarios:

salvoconduto disse...

Haja pelo menos quem "grite", como neste post é feito. Se gritarmos todos pode ser que um dia nos ouçam e a situação dessas crianças melhore.

Boa semana.

o que me vier à real gana disse...

Conheço quem faça, conheço sim! Todavia, é tão exiguo o espaço cerebral ocupado por esse conhecimento!

Boa madrugada

tagarelas-miamendes disse...

Carol como a entendo. Nao ha nada mais penoso que o olhar tristem ou revoltado de uma crianca. Mas qual a solucao? Talvez, se a adopcao deixasse de ser um processo tao burocratico e moroso, pudessemos amenizar um pouco esta injustica social. Mas tem toda a razao nao precisamos passar as nossas fronteiras para ajudar uma crainca.

Carol disse...

SALVO CONDUTO: É esssa, precisamente, a mensagem que quero passar!

TAGARELAS-MIAMENDES, penso que as palavras de ordem são divulgar e denunciar!
Divulgar as inúmeras instituições que recebem estas crianças e que, muitas vezes, não têm os apoios necessários.
Denunciar o quão morosos e burocráticos são os processos de adopção.
Quantas vezes ouvimos, vemos ou lemos matérias da nossa comunicação social sobre estes factos? Muito poucas!

Ferreira-Pinto disse...

O acto de nos comovermos depende, hoje em dia, ora do espaço que o acontecimento consegue ocupar na Comunicação Social e da orientação que ali lhe é dada, ou então da distância geográfica entre nós e o infausto acontecimento e/ou as vítimas.

É muito mais fácil e cómodo para a consciência de muitos verterem lágrimas e até darem um dinheiro ou objectos que alegadamente chegarão às vítimas das cheias no Limpopo do que ao pé de casa.
O mesmo para as crianças de rua!
Ao pé de casa seriam umas pestes, mas lá ao longe são uns indefesos que precisam de ajuda.

Quero com isto dizer que se deve condenar moral e socialmente quem vai adoptar crianças à China ou a África?
Nem por sombras.
É sempre um acto de amor e de profunda humanidade que, provavelmente, nasce de entre portas se esbarrar num oceano de dificuldades e burocracias ...

Que não se adopte uma fórmula de "adopção na hora", mas que também não se complique ao ponto de quando a pessoa inicia o processo ter um petiz de meio ano no colo e quando acabar ser um marmanjo!

António de Almeida disse...

Uns tinham sido depositados por famílias disfuncionais (se é que se lhes pode chamar famílias)

-Mas o nosso ordenamento jurídico concede todas as garantias e mais algumas a estas pseudo-famílias, provocando a não adoptabilidade das crianças. Aqui está a raiz do problema.

Eu sei que não é fácil adoptar em Portugal

-Deriva do problema acima, muitas crianças nunca foram consideradas aptas para adopção, nem tiveram direito a uma família. Enquanto no Código Penal todos os cidadãos são considerados presumivelmente inocentes, nas questões familiares, em favor das crianças, sempre que existe uma potencial situação de risco, deveriam ser considerados presumivelmente incapazes. Mas falta coragem política para tanto, é sempre concedida mais uma oportunidade aos pais biológicos, e depois mais outra, por vezes até basta ter feito uma visita à instituição entre 2 ressacas, para que alguns psicólogos e técnicos da treta, que nada percebem, mas debitam teorias Humanisticas, elaborem um relatório vendo ali um sinal de esperança, uma luz ao fundo do túnel, que não passará de miragem. O pior cego é sempre aquele que não quer ver, e a realidade é que existem excesso de garantias, lentidão do processo, e depois quando a criança chegou aos 7, 8, 10 anos, culpabiliza-se a sociedade, que por egoismo apenas procura recém nascidos.

lusitano disse...

Carol, estou 100% de acordo com o teu texto e com a tua indignação.

O mal parece-me estar muitas vezes nas formas de que se reveste a "caridade" que nós muitas vezes tentamos praticar, talvez para acalmar as nossas consciências.

Quantas pessoa conheces tu, (eu conheço algumas), que em casa com a familia são umas "bestas", e no "exterior" com outros são muito atenciosos e "bondosos"?

Como o Ferreira-Pinto também acho que se deve louvar aqueles que adoptam crianças "estrangeiras", (as crianças necessitadas não deviam ter "nacionalidade") mas é pena que não se olhe para dentro da nossa casa com o mesmo olhar.

E como o António Almeida também acho que é preciso dar uma volta a todos os processos sobre as crianças para que elas não sejam reféns de uns pais que não as querem a não ser quando outros as desejam adoptar, para além da morosidade dos processos e da competência dos técnicos envolvidos.

Abraço

Peter disse...

Interrogo-me sobre que legisladores são estes?
Vai-se para o roubo e o crime e todas as garantias são dadas ao presumível delinquente, em prejuízo da vítima. Os nossos bancos são uma tentação, indefesos, estão sujeitos ao assalto de qq gatuno de "meia tijela".
Vai-se para a adopção e de tanto se querer proteger a criança, acaba-se por a prejudicar, dificultando a adopção.

É "complicado" ser português e principalmente viver hoje em dia em Portugal.

DANTE disse...

Sinceramente , acho que adoptar crianças em países pobres é apenas um acto de propaganda.
A avaliar pelas estrelas de cinema que o fazem ,e pelo aparato que o mesmo promove, lamento dizer que é uma moda que depressa passará como tantas outras.

E sinceramente não vejo qual é a diferença de adoptar uma criança seja ela de , áfrica , ásia , europa ,usa ...

Será um acto mais nobre adoptar em países pobres , ou um total desprezo pelos 'filhos da nossa nação'?
Espero sinceramente que seja uma das duas anteriores, porque a ser moda , muito pior anda o mundo...

Jokas carol :)

Carol disse...

ANTÓNIO, é verdade que a nossa lei protege, por vezes em demasia, os laços biológicos mas quantos dos que procuram crianças para adopção querem míudos de 15 ou mais anos? E quantos estariam dispostos a adoptar 2 ou três irmãos?

Perfeitamente de acordo, LUSITANO!

António de Almeida disse...

quantos dos que procuram crianças para adopção querem míudos de 15 ou mais anos?

-Julgo que a partir dos 12 não existe mais a possibilidade legal de adopção. (Tenho dúvida se é 12 ou 14)

Ferreira-Pinto disse...

Embora não seja área onde me movimente, presumo que a redacção actual do Artigo 1980º do Código Civil (alterado pela Lei 31/2003) é a seguinte:

ARTIGO 1980º
Quem pode ser adoptado plenamente

1 — Podem ser adoptados plenamente os menores
filhos do cônjuge do adoptante e aqueles que tenham
sido confiados ao adoptante mediante confiança administrativa,
confiança judicial ou medida de promoção
e protecção de confiança a pessoa seleccionada para
a adopção.
2 — O adoptando deve ter menos de 15 anos à data
da petição judicial de adopção; poderá, no entanto, ser
adoptado quem, a essa data, tenha menos de 18 anos
e não se encontre emancipado quando, desde idade não
superior a 15 anos, tenha sido confiado aos adoptantes
ou a um deles ou quando for filho do cônjuge do
adoptante.

Joaninha disse...

Carol,

É tão dificil adoptar em portugal que eu acho que há quem desista pelo caminho. Acho não, sei.
A senhora que toma conta da nossa casa na serra da estrela, adoptou um menino, foram dois anos de entrevistas, visitas, acompanhamento psicologio, testes de aptidão e mais o diabo a 4. Resultado o menino que era recem-nascido quando processo começou, veio para às mãos dela com 2 anos e meio. Não fez diferença para a senhora, aquilo era um poço de instinto maternal. Mas...ela propria confessou que por mais que uma vez esteve para desistir, perante a maneira desconfiada com que as funcionárias da seg. social e do outros organismo a tratavam.

Hoje é feliz com o seu menino :)

A única razão que eu vejo e que é valida (claro para alem da dificuldade de adoptar em portugal) de ir para os paises de 3 mundo é simples, lá, quantos casais tem a capacidade socio economica para adoptar?
Aquelas criancas tem muito menos hipoteses de encontrar um lar do que as nossas. No entanto, acho que em portugal se faz muito pouco, mesmo muito pouco.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Andam todos muito entretidos com as suas coisinhas e muito confortados coam as caridadezinhas. Pensar nessas questões incomoda, não é? Por isso as telenovelas têm tanta audiência...

joshua disse...

Karol [Woitilja], o António Implume tem uma saga a esse respeito para narrar e bem falta faz conhecer o que se sofre para adoptar, sim, porque também se sofre aí.

Agora pensa: começo a ficar no ponto da fúria por perceber que além de essas crianças portuguesas áridas sem amor de pai e mãe, temos os desempregados que se são órfãos de uma economia subvertida.

Temos de começar a adoptar os desemprgados pais de família para conter um mal igualmente grave e reprodutivo.

Adopte um desempregado. Estará a salvar uma família até ao momento normal. Adopte, que vale a pena. São eles que, desempregados cá, vão para Espanha, França, Suiça, UK, empregar-se e trazer dinheiro fresco para comprar as suas lingeries, as suas natas e cafés, os seus automóveis bem taxados. Por isso, adopte um desempregado.

Claro que há outros que, desempregados, ficam por cá, não sei à espera de quê. Mas adopte um de qualquer maneira.

pedro oliveira disse...

"Será que, enquanto cidadãos, fazemos alguma coisa para modificar este cenário de injustiça?!"

Uma boa pergunta, a que o seu post dá resposta,ie, se muita gente "Gritar" como bem diz o salvo conduto, pode ser que acordemos todos para esta situação.
Parabéns pelo post.
PO
vilaforte

Carol disse...

Não sou, de facto, uma pessoa ligada às leis, mas o nosso FERREIRA já nos esclareceu quanto a esse ponto. De qualquer das formas, ANTÓNIO, quando escrevi 15 anos, podia ter escrito 10, 11, 12, 13, 14... O que é um facto é que, na maioria dos casos, as pessoas pretendem bebés, brancos e saudáveis... E isso não há lei que mude, porque só uma mudança de mentalidades o pode fazer.

Mas porquê desistir, JOANINHA, se é algo que desejamos muito?! o processo é moroso, burocrático, ridículo (quiçá) então faça-ze barulho, chamem-se os jornalistas, escrevam-se cartas abertas a denunciar as situações!
Essa senhora de que falas é o exemplo de que, quando se deseja realmente atingir algo, nunca devemos desistir.

Aí é que ela bate, CARLOS OLIVEIRA!

JOSHUA, de Woitilja tenho muito pouco ou, até, poderei ter muito, mas eu sou eu, a Carol que, tal como tu, não tem tido lugar no sistema de ensino. Também já estive desempregada, durante um longo ano, e, recentemente, vi o meu namorado, que não é professor, nessa situação durante 8 longos meses. É difícil e doloroso, mas somos adultos e estamos, melhor ou pior, preparados para lidar com as agruras da vida.
Aqui fala-se de míudos, que não pediram para vir ao mundo e que, no mínimo, deviam ter alguém que os amasse e orientasse. Para mim, isso é muito mais doloros, muito mais revoltante!

Quanto à história do António, deixo o convite para que partilhe a sua história, se assim o desejar.

Coragem, amigo!

Carol disse...

Obrigada, PEDRO OLIVEIRA! Espero que sejamos muitos mais e cada vez mais a "gritar".

joshua disse...

Caríssima Carol, obrigado pelas palavras [desejo-te o melhor e toda a sorte ao teu namorado. Temos mesmo de resistir e progredir.] e parabéns pela postagem honestíssima no tratamento, sem desvios, da questão da adopção em Portugal.

Já me conheces desde há séculos nas minhas intervenções aqui. Faço sempre o meu número vistoso e hiperbólico, confessionalista e dolorido, intenso e imprevisto, mas sou em tudo autêntico, vertendo embora sarcasmo e o sorriso amarelo desgostado em face da nossa comum realidade agreste.

beijos

korrosiva disse...

Não é preciso olhar para os países ditos de 3º mundo para sabermos que em Portugal as crianças desfavorecidas de cidadãos têm muito pouco infelizmente!

Carol disse...

Eu sei que sim, JOSHUA, assim com acredito que saibas que te desejo o mesmo que desejo para mim, apesar de nem sempre me mostrar presente. Apesar de menos intensa e hiperbólica, somos os dois bastante autênticos! Para a frente é que é o caminho!

Compadre Alentejano disse...

Muitas dessas instituições não passam de depósitos de crianças, onde os "psico..." e quejandos vão fazendo a sua carreira política ou no Estado.
A sua função é desconfiar de tudo e de todos, talvez até da sua própria sombra, burocratizando ainda mais o SISTEMA e entregando a criança o mais tarde possível.
Estou falando de FARO.
Saudações
Compadre Alentejano

Carol disse...

Tem muita razão, COMPADRE! Quantas vezes isso, infelizmente, acontece. No post referia-me à situação vivida numa localidade de Aveiro que, ao que sei, repete-se um pouco por todo o país...

Zé Povinho disse...

Não é só a adopção que pode ser ser uma solução, também há quem acolha crianças e jovens de instituições, ou dedique algum tempo da sua vida gratuitamente colaborando com algumas instituições oferecendo ajuda em tarefas diversas desde a formação até aos cuidados essenciais. Há formas de ajudar e o voluntariado também é uma opção.
A adopção continua a ser demasiado complicada com a burocracia e algum preconceito à mistura.
Abraço do Zé

Carol disse...

Sim, sem dúvida, ZÉ POVINHO! há, de facto, diversas formas de ajudar estas crianças e as próprias instituições. O voluntariado é uma delas e, a meu ver, é bastante estimulante para ambas as partes.

André Couto disse...

Será difícil acrescentar algo de novo quando tanto já foi dito.
Também defendo que não se deve desistir da luta de tentar adoptar uma criança.
Mas, por outro lado, sei bem a desorganização que rege o nosso país e compreendo que haja quem muito simplesmente não aguente.

Gostaria ainda de dar relevo a algo que expôs num comentário:
"O que é um facto é que, na maioria dos casos, as pessoas pretendem bebés, brancos e saudáveis... E isso não há lei que mude, porque só uma mudança de mentalidades o pode fazer."

Quantos não considerarão o processo de adopção moroso e difícil devido, em parte ao preconceito que levam consigo?
Se o que motiva a adopção é amor puro, os casais que EXIGEM crianças com os atributos enunciados deveriam ser em muito menor número... Digo eu.
Saudações.

Carol disse...

Pois deviam, mas parece-me que não é isso que acontece, ANDRÉ COUTO...

Adoa disse...

Carol, é muito verdade isso.
Existem imensas criancas portuguesas a precisarem de ser adoptadas mas ninguém facilita os processos.
Há quem mesmo quem prefira que estas criancas crescam em lugares como essas instituicoes a serem adoptadas por homossexuais, quando uma pessoa solteira até pode adoptar, logo que tenha posses...

Nunca pensei que as criancas precisassem acima de tudo de "dinheiro". Julgava que o AMOR seria o mais necessário...