Portugal Reconhece a Independência do Kosovo

Questão difícil esta de se reconhecer, ou não, a independência de um país. Se, por um lado, é verdade que, por razões de índole humanitária, todos os povos, enquanto entidades étnicas ou culturais diferentes, têm direito à sua auto-determinação e ao completo governo do seu destino, também não é menos verdade que é extraordinariamente difícil e complexo delimitar uma entidade (e menos ainda uma identidade) nacional.

Se me disserem que os Kosovares estão justamente cansados do jugo da Sérvia e reclamam a sua completa autonomia (não a autonomia de que gozavam enquanto província sérvia), direi que lhes assiste toda a razão. Porém, se me disserem que o Kosovo reúne todos os requisitos para se tornar numa nação independente, já não serei capaz de ser tão assertiva. Aliás, no que toca a Europa Central e os Balcãs as questões nacionalistas nunca são inequívocas, pelo que o Kosovo, no emaranhado convulsivo daquela região, não é excepção.

Em primeiro lugar, o que é, afinal, o povo Kosovar?
Etnicamente são albaneses na sua esmagadora maioria. Linguisticamente não existe um idioma Kosovar. Há, formas dialectais autóctones certo, mas os idiomas mais falados são o albanês e o servo e fala-se turco a atestar a presença secular do Império Otomano.
Em segundo lugar, historicamente, nunca houve um período de independência genuíno.
O Kosovo não é um Tibete europeu. Esteve sempre agregado às potências balcânicas: ora foi uma região búlgara, ora sérvia, ora turca e, num passado ainda muito recente, fez parte de uma manta de retalhos artificial denominada Jugoslávia.

Se a própria ONU não se decide a reconhecer cabalmente a declaração unilateral de independência Kosovar, Portugal reconhece-a? Quais foram, então os pressupostos sobre os quais governo e PSD assentaram a sua decisão? Não terá sido precipitação? Assim, parece-me que o País Basco, ainda de modo mais irrefutável do que o Kosovo, se possa lembrar de declarar independência unilateral face à Espanha (não creio que os bascos franceses estejam tão interessados nisso). E que dizer, então, dos barris de pólvora chamados Ossétia do Sul e Abcásia?
Não estaremos a empossar outro Estado-fantoche, permanentemente dependente de auxílio internacional, subsídio-dependente, permeado por lutas intestinas e em conflito insanável com os vizinhos? Veremos…

18 comentarios:

DANTE disse...

Portugal devia mas era de reconhecer as dificuldades que o nosso país atravessa e deixar-se de diplomacias e opinioes que não interessam nem influenciam de maneira alguma a situação no kosovo.
Cá é que deveriam estar canalizadas as atençoes por parte do nosso governo.

Jokas loura kum diploma :D

Peter disse...

Pergunto a mim mesmo se este reconhecimento tardio do Kosovo não terá a ver com a presença nessa região de militares portugueses? Sim, porque não vejo os motivos que levaram o Estado português a modificar a sua atitude de nâo-reconhecimento.
Talvez o receio de uma crescente hostilização contra a presença de militares de um país que não os reconhecia como nação independente.

joshua disse...

Portugal não tem peso para ter voto influenciatório na matéria. Segue a tendência dominante e cede às pressões dominantes. Como um Suricate, pôs o focinho de fora, olhou, cheirou. E decidiu decidir.

Integração europeia e dissolução europeia serão o tricot do século XXI. O que tem de morrer, que morra em paz. O que vai nascendo, que nasça em paz também. O futuro da Europa é fazer parte da Federação Russa.

Há quem queira um Portugal dependente da Espanha. Não é preciso ir longe: quereremos nós apanhar com a bolha (falei nisso em 2007) do imobiliário espanhol mal-parado? Não queremos, pois não?

Não temos quereres! Vai doer. Espanha subiu muito. Vai cair muito. Portugal andou sempre estagnado e esmifrado graças à mentalidade sovina geral e ao lado negro da força. Talvez conserve os dedos.

PALAVROSSAVRVS REX

joshua disse...

Pois...

Compadre Alentejano disse...

Acho que o Zé Socas reconheceu o Kosovo, porque quer vender Magalhães aos kosovares...
Compadre Alentejano

pedro oliveira disse...

Como disse o nosso amigo Carlos do C´ronicas do Rochedo no Vila Forte, o que disse ou fez Condolezza Rice para que PS,PSD e PR tivessem necessidade de aceitar este jogo politico nas vésperas da aprovação da moção Sérvia na ONU?

PO
vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

A propósito do tema de hoje, e para quem eventualmente quiser, o Kosovo já aqui deu azo a uma viva troca de opiniões ... ... basta ir a Kosovo by Bluegift

Ferreira-Pinto disse...

Em 17 de Fevereiro de 2008 escrevi aqui conforme segue:

Tenho sérias, mas talvez infundadas, dúvidas sobre o que realmente se passa nos Balcãs e que políticas quer a Europa seguir em relação a assuntos tão escaldantes quanto estes.

O Kosovo já alguma vez foi ou se assumiu como um Estado independente?
Existe a dita nação kosovar ou serão estes, maioritariamente, albaneses?

E sendo-o, se a Albânia se lembrar que quer recuperar (chamar ao seu seio) estes filhos tresmalhados?

E os sérvios que lá vivem?
Retiram para Belgrado ou passam a ser cidadãos de segunda num país e numa região que também sempre viram como a sua casa?

E os EUA apoiam a independência do Kosovo (população maioritariamente muçulmana) porquê?
E os países da União Europeia que a apoiam e aceitarão negociar a sua entrada que farão quando os turcos insistirem?

E se os kosovares têm direito à independência, os bascos e os catalães também têm?

E a Alemanha pode exigir que a Polónia, que cresceu para ocidente no fim da II Guerra Mundial, lhe devolva o que é seu?

E se eles se pegam outra vez no Kosovo, na Bósnia-Herzegovina e na Macedónia que vamos fazer?


Não me quero gabarolar, mas a maior parte das questões que naquela data levantei continuam actuais e pertinentes.

Tal como o deixa aqui expresso a minha amiga Blonde.
Hoje, perfeitamente de acordo!

lusitano disse...

O assunto tem "pano para mangas" e então se começarmos a fazer comparações, paralelismos, com o País Basco, a Catalunha, a Galicia, só para falar nos mais perto de nós, começamos a perceber no "terrível nó" em que esta decisão se pode tornar!

Veremos se chegar esse tempo que razões assistem para se negar a uns aquilo que se deu aos outros!

Carol disse...

Não podia estar mais em desacordo com esta tomada de posição e, sinceramente, gostava que o governo justificasse muito bem esta mudança de opinião.

Vou esperar sentada, obviously porque não estou para me cansar...

MS disse...

O nosso primeiro está a fazer de tudo para os Portugueses andarem distraídos.
E ainda vêm mais distracções até ás eleições.
Eu sou a favor da Madeira e dos Açores também pedirem a Independência, já chega de lhes mandar dinheiro.
MS

António de Almeida disse...

-Estou contra a tomada de posição do governo português, que conta com o apoio do PSD e de Cavaco Silva, refira-se. Em primeiro lugar esta posição surge após visita do P.R. à ONU, onde Portugal anda a procurar (mendigar) um lugar não permanente no Conselho de Segurança. Na passada semana M.F.L. foi a Belém, apesar do caricato episódio, foi falado em blogs e comentado nos jornais, o PS calou-se, claro, sabia bem que aquilo fazia parte do modus operandi Bloco Central de interesses.
Agora o cerne da questão, algum facto novo, justifica que Portugal reconheça agora o que não reconheceu antes? A meu ver não! Portugal está a reboque, dos principais países da UE, que por sua vez estão a reboque dos EUA, que querem uma base militar nos Balcãs. A Rússia aproveitou para fomentar o separatismo no Cáucaso, esquecendo-se que problemas com nacionalismos tem de sobra intramuros, já não falando no precedente, uma verdadeira caixa de pandora que ali se abriu. Quero ver um dia, a lata dos governantes portugueses quando afirmarem que o País Basco ou a Catalunha são casos diferentes, aliás esta última seria inequivocamente um estado mais viável que o Kosovo. E para atirar mais lenha para o lume, Palestina, Curdistão, diz-vos algo?

Manuel Rocha disse...

Pertinete e...de acordo no essencial.

Mas a suposição de que chegamos finalmente a um momento da história em que a geografia politica é definitiva fará sentido ? E os pressuposto de viabilidade dos estados que hoje se consideram continuarão a fazer sentido no futuro ? Antes do petróleo estados como o Dubai, o katar...eram "viáveis" ? Timor sem petróleo é viável ?

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Em Fevereiro, escrevi sobre este assunto no CR. Insurgi-me e chamei a atençaõ para os casos da Ossétia e da Abecásia que eram latentes desde 1995.
Abriu-se uma Caixa de Pandora e há Aprendizes de Feiticeiro a mexer onde não devem. Um dia destes, vamos pagar a factura da irresponsabilidade com que os líderes europeus, liderados por essa personalidade Magenta de Durão Barroso, toma decisões.

Tiago R Cardoso disse...

não acredito em países criados ás três pancadas.

no entanto se a grande maioria da comunidade reconhece o Kosovo, qual é a diferença para outros ?

Sou contra este reconhecimento.

Daniela Major disse...

Resta saber é se o Kosovo se vai aguentar como país o que eu sinceramente tenho certas dúvidas.

André Couto disse...

Não sou a favor do reconhecimento do Kosovo como território autónomo. Como Estado autónomo. Como um país autónomo.
Não sou a favor porque muito resumidamente penso que as injustiças e atrocidades cometidas pelos Sérvios não são, por si, justificação para que o Kosovo seja considerado um país. Habitualmente dou o exemplo caricatural de que seria como se todos os Ucranianos (por exemplo, não sou contra a imigração) se juntassem num ponto de Portugal, aí fossem por nós maltratados e aí resolvessem criar um Estado independente. Para mim é contra-natura.
Saudações.

Zé Povinho disse...

O governo português não o disse expressamente mas agiu tipo Maria vai com as outras (potências) e alinhou com quem manda, e mal, porque o nosso reconhecimento não adianta nem atrasa nesta como em muitas outras matérias.
Abraço do Zé