Para além da amizade...

Este texto que hoje escrevo provavelmente poderá dizer pouco a muitos daqueles que visitam este espaço, não só porque a sua idade (julgo que mais nova do que a minha) os distancia dos factos que provocam esta escrita, como também por ser assunto que normalmente não ocorre ao pensamento das pessoas, por dele estarem afastadas, por não o terem vivido.

Hoje tenho um almoço que reúne cerca de 40 homens que juntos, integrados na mesma Companhia, partiram no dia 21 de Dezembro de 1971, a bordo do navio Niassa, para uma comissão militar na Guiné.

Irei, já sei, rever alguns que já não vejo há 36 anos e que no entanto estão indelevelmente marcados na minha memória, na minha vida.
Enquanto escrevo este texto, sinto uma emoção profunda, um quase sentimento de saudade inexplicável, que, julgo eu, vem daquilo que nos une e está muitas vezes para além da compreensão humana.

Nunca, em momento algum, atrevo-me a dizê-lo, se formam ligações tão profundas, tão enraizadas, que vão para além da amizade como normalmente a concebemos, como nos tempos de provação, de dificuldade, de medo, (sim de medo), por que passam aqueles que juntos fazem ou têm de fazer uma guerra.
Não é logicamente isso que faz da guerra uma coisa boa, porque a guerra é sempre um mal que deve ser evitado a todo o custo.

Mas a verdade é que aqueles que estão juntos numa guerra, longe de casa e dos seus, percebem que a sua ligação vai muito para além da normal camaradagem, da sã amizade, pois implica uma entrega constante da vida de cada um, nas mãos do outro, dos outros, que estão ao nosso lado e vivem connosco as dores, os sofrimentos, que “cheiram” em nós o suor do medo, que também a eles lhes sai dos poros e sabem que nós o “sentimos”.

E é assim que passados muitos anos, às vezes sem nos vermos, o abraço é sincero, forte, acolhedor de parte a parte, como se disséssemos uns aos outros: «Tu é que me percebes. Achega-te a mim que eu é que te entendo!»

Mas tem mais um sentimento ainda, pelo menos nesta guerra que vivemos em África.
É que aqueles que combateram dignamente contra nós, são agora também nossos camaradas de armas e não lhes guardamos qualquer rancor, mas pelo contrário, irmanamo-nos nos sentimentos e encontramos até em nós uma vontade de ajudar a construir os países por que lutaram e onde lutámos.

Mas há sempre um “amargo de boca”, para ser benigno na expressão!
E este “amargo de boca” vem do facto do nosso país não ter um comportamento digno para com aqueles que por ele combateram, com ou sem razão, obrigados ou não.

Não me refiro obviamente tanto àqueles que graças a Deus estão bem, mas a tantos que continuam a viver no dia a dia os reflexos da guerra, que não dormem como os outros, que não têm estabilidade emocional, que foram desestruturados pela guerra, e a quem ninguém acode a não ser os familiares e amigos.
E há bastantes, sabemo-lo bem, que vivem sem abrigo e o Estado nada faz.

Conheço deles que têm processos há dezenas de anos para obterem um qualquer subsídio que lhes permita fazer face à instabilidade emocional, que não lhes permite ter um emprego estável, e continuam a fazer-se perguntas burocráticas para que nada se resolva.

Outro “amargo de boca”, que me toca especialmente porque também os comandei, foi o abandono a que Portugal votou aqueles que, naturais desses novos países, pertenceram às Forças Armadas Portuguesas.
Abandonados à sua sorte, muitos foram fuzilados sem qualquer justificação, e outros vivem ao “Deus dará”.

Também os nossos mortos que por lá continuam, se exige ao nosso país que os traga de volta à terra que os viu partir, e às famílias que querem finalmente encerrar esse doloroso capítulo das suas vidas.

Perdoem-me o desabafo, mas hoje tinha de escrever sobre eles, cidadãos anónimos que deram parte das suas vidas por Portugal, e se sentem hoje e ainda tão desprezados e ostracizados.
Mas eu orgulho-me deles, e orgulho-me com eles, e hoje vamos abraçarmo-nos, vamos rir e cantar, vamos olharmo-nos nos olhos e dizermos uns aos outros: «Tu é que me percebes. Achega-te a mim que eu é que te entendo!»

26 comentarios:

salvoconduto disse...

Em Abril desse mesmo ano, no mesmo barco embarquei para Moçambique.

O amargo desses encontros é quando perguntamos por A ou por B acabar por vir sempre amesma resposta, foi-se...

Ferreira-Pinto disse...

Um belo e comovido texto!

Penso que uma das razões para algum alheamento da sociedade portuguesa prende-se com a ausência do verdadeiro debate, despido de preconceitos ideológicos, sobre o que foi e o que se passou na Guerra Colonial.

Algo dentro do que sucedeu e sucede nos EUA com o Vietname.
As guerras perdidas (militar ou politicamente) necessitam desse exercício.

E, de facto, o menosprezo a que votamos aqueles que necessitam de ajuda, aos africanos que optaram pelo "lado errado" (segundo se diz) e a incapacidade de frazer regresso para jutno das famílias os restos mortais dos tombados em combate é de referir. E não esquecer.

Que o dia seja a contento passado no meio dos irmãos de armas.

pedro oliveira disse...

Bom dia queria agradecer aos editores detse vizinho forte, as palavras de incentivo que nos deram, vila forte, e dizer-vos que correu tudo muito bem.
Obrigado
bom fds

Fa menor disse...

Isto de me fazeres chorar logo pela manhã, não está lá muito bem...

Que passes um dia em pleno!

António de Almeida disse...

-De acordo que Portugal não presta uma justa homenagem e reconhecimento a quem pela pátria derramou sangue, porque nos tempos que se seguiram à abrilada os valores dominantes foram o marxismo, a subserviência à URSS, e com eles a desonra, a infâmia. Não sendo um defensor do colonialismo, a retirada dos portugueses, cívis e militares, e também dos africanos que serviam Portugal, das repartições públicas aos soldados, deveria ter sido feita em total segurança, para isso seria necessário reforçar o contigente para garantir uma retirada eficiente, ou solicitar à ONU capacetes azuis, mas por cá gritava-se no PREC, nem mais um soldado para as colónias. Cobardes! Miseráveis traidores! Os mesmos que passado uns anos ingressaram nos partidos de poder, e não reconhecem o esforço, a abnegação dos que fala no texto, nomeadamente os mais frágeis e carenciados.

Carol disse...

Essa é uma realidade que não vivi de perto, mas que fui descobrindo ao longo da vida, através dos estudos, de conversas com ex-soldados.

A guerra colonial, definitivamente, ainda é um tabu e, se calhar, nunca vai deixar de o ser porque foram muitos os erros e as injustiças que se cometeram.

Desejo que esse encontro corra da melhor forma e que se possam reunir por muitos anos. Pelo menos, que o espírito de fraternidade, a amizade permaneçam!

Pedro Barata disse...

Belo texto. Aproveita esse momento de convívio.

Um abraço

Compadre Alentejano disse...

Bom texto, parabéns.
Nestas alturas é bastante gratificante encontrar amigos que há décadas não víamos, pôr conversas em dia, saber que a, b ou c já morreu.
Costuma-se dizer que a Históraia faz-se passados 50 anos. Esperemos mais alguns.
Saudações
Compadre Alentejano

Compadre Alentejano disse...

Queria escrever "História". Fica a rectificação.
Compadre Alentejano

Blondewithaphd disse...

Humildemente confesso a minha maior estima e admiração por quem se chama hoje ex-Combatente, mas que, sei, jamais será ex.

Tiago R Cardoso disse...

Um brilhante e sentido texto, penso que nem se pode dizer muito mais do que aquilo que dissestes e dissestes muito bem.

joshua disse...

Tocante, meu amigo.

Um abraço.

lusitano disse...

Meu caros e sempre amigos

Este é um texto que tem muito de vida, por isso me obrigo a responder a cada um invidualmente.

lusitano disse...

Ó salvoconduto

Abraço camarada e amigo sempre

lusitano disse...

Ferreira-Pinto

É verdade o que dizes, mas tenho para mim que ainda não temos distãncia suficiente para analisarmos friamente a guerra e todas as suas implicações.

Sinto-o até entre nós excombatentes, que muitas vezes não o conseguimos fazer imparcialmente.

A politica ainda está muito metida nesta história.

Abraço amigo

lusitano disse...

Pedro Oliveira

Obrigado!

Abraço amigo

lusitano disse...

Oh, Fa

Obrigado pelas tuas lágrimas!

Não era essa a intenção!

Abraço amigo

lusitano disse...

António de Almeida

Obrigado pelas palavras aqui deixadas.

A verdade é que a maioria esmagadora daqueles que fizeram guerra também nada tinham a ver com o colonialismo.

Um dia far-se-á a história e julgo que será um momento triste de Portugal o modo como foram tratados aqueles que ali estiveram.

Abraço amigo

lusitano disse...

Carol

Obrigado.

E quando mais nada resta fica a amizade, ou melhor, fica até para além da amizade...

Abraço amigo

lusitano disse...

Pedro Barata

Obrigado!

Acho que aproveitei até um pouco "demais"...eheheh

Abraço amigo

lusitano disse...

Compadre Alentejano

Obrigado.

Espero que se vá fazendo a história aproveitando as histórias de cada um que por lá passou.

Abraço amigo

lusitano disse...

Blondewithaphd

Obrigado pelas tuas palavras.

E é verdade o que dizes sobre o ex...

Abraço amigo

lusitano disse...

Tiago

Obrigado.

Escrevi-o com o coração

Abraço amigo

lusitano disse...

Joshua

Obrigado.

Quando escrevo sobre estas coisas sou um pouco emocional.

Abraço amigo

Paulo Sousa disse...

Registei cada excerto do seu texto e tentando ler a intensidade das emoções e sentimentos nele contidos, arrisco-me a talvez uma 'heresia' se comparar a fraternidade, a união tácita estabelecida entre desconhecidos confrontados num ambiente hostil e aleatório, com o que já senti num ambiente de alta montanha, onde seres humanos oriundos de diferentes partes do globo unem esforços, partilham conhecimentos, material ou até comida, de forma a ultrapassar obstáculos. É claro que lá estávamos por vontade própria e isso fará uma grande diferença, ou até toda a diferença, mas quando se dá segurança numa cordada, quando a nossa continuação no lado de cá, depende da atenção, da força e até da entrega de outrem, a ligação é que se cria ultrapassa à que aquele pedaço têxtil permite.
Desculpe a heresia, mas respeito imenso os inúmeros anónimos que foram vitimas do seu tempo. Conheço quem tenha a vida destruída até à segunda geração, estando a terceira à porta, pelos danos emocionais da guerra colonial.
Obrigado pela partilha de sentimentos em forma de texto.
Um abraço
Paulo Sousa

lusitano disse...

Paulo Sousa

Obrigado pelas suas palavras.

Não considero heresia nenhuma a comparação que faz.

A mesma só revela que quando colocamos as nossas vidas nas vidas dos outros, nascem laços perenes e sinceros, que «vão para além da amizade»

Abraço amigo