E agora, o que fazer?

O texto DE ONTEM e a realidade que descreve, vêm no sentido e ao encontro do que várias vezes aqui vem sendo dito: estamos a construir uma sociedade egoísta, individualista em que o individuo se fecha em si próprio e o que se passa ao lado não lhe interessa a não ser que seja ocasião para aumentar mais o seu pecúlio ou a sua influência.

O Estado preocupa-se com a tal macro-economia, ou lá o que isso é, e as famílias, os cidadãos mais desprotegidos, mais frágeis, as crianças, vão sendo engolidas nesta voragem de um monstro (se calhar o tal de que falava Cavaco Silva e pelos vistos se esqueceu), e as vidas, e a dignidade das vidas, que afinal são os bens mais preciosos da humanidade, são postas de lado como coisas dispensáveis.
Aqueles que estão no poder, afastados da realidade dos que labutam todos os dias para angariar sustento honesto para os seus, vivem num limbo de irrealidade convencidos até que os “súbditos” lhes deviam estar eternamente gratos e submissos.

E aqui, quando me refiro aos que estão no poder, não me refiro apenas aos governantes das nações, mas também aos que detêm o poder económico, muitas vezes construído com as poupanças dos outros, com o esforço dos outros, com as vidas dos outros.
Nunca, julgo eu, o mundo das ditas sociedades mais “desenvolvidas” assistiu a tão grandes fortunas nas mãos de uns quantos, e nunca, julgo eu também, fora de períodos de catástrofe ou peste, o mundo todo assistiu a tanta pobreza, a tanta desgraça, a tanta falta de valores da sociedade humana, que vive de costas voltadas uns para os outros caminhando para um “qualquer império romano”, que como se sabe “teve os dias contados”.

E claro, perante a falta de resolução dos problemas primários, perante um “túnel sem luz alguma no fim”, há gente, há pessoas, pessoas como nós, que optam por caminhos ínvios, como a prostituição, como os assaltos, como uma vida à margem da sociedade que afinal não responde aos seus pedidos de socorro, aos seus pedidos de ajuda.
Sim, é verdade que muitas e muitos que passam essas mesmas dificuldades não se entregam a tais práticas, mas a verdade também é que não somos todos iguais, e há uns que têm mais força para enfrentar as provações do que outros.

Criou-se o tal Estado Providência e afinal o Estado não providencia nada e quando o faz, fá-lo sem sentido, sem controlo, sem justiça.
Há muitas/muitos que vivem à conta do estado e que tinham todas as possibilidades para trabalharem e fazerem algo de útil pela sociedade e há outras/outros que por tantas razões fidedignas se encontram desesperadas/os e, tarde ou cedo, se encontram na encruzilhada de terem que optar pela chamada “vida fácil”, (a prostituição, o crime), e que realmente para muitas/muitos deles não será nada fácil, porque o Estado não responde aos seus pedidos de auxílio.

“Colapsou” o comunismo e está a “colapsar” o capitalismo porque, tenho para mim, que tanto um como o outro se afastaram daquilo para que deviam ter sido criados, ou seja, a humanidade no seu todo.
Tanto um como o outro, afinal apenas se destinaram a alguns, poucos, e assim a sociedade, a humanidade, afastaram-se dessas “soluções”, como se de uma doença se tratasse, pois vieram a revelar-se ambos, bem piores do que a doença.

Tudo o que não envolver a humanidade no seu todo, repito no seu todo, terá sempre, a meu ver, tendência para fracassar e as experiências ao longo da história da humanidade comprovam-no.

E agora?
Agora não sei o que dizer, não sei o que fazer, só sei que estou pronto para abraçar causas que nos levem a sair deste poço sem fundo em que nos metemos, em que nos meteram.
Eu tenho a minha certeza, que reside na fé cristã católica que vivo, e me faz viver a esperança aqui, neste mundo, para se completar na plenitude da vida depois.
Mas é aqui, neste mundo, agora neste tempo que vivemos, que é preciso construir a sociedade de todos e para todos.
E para isso, contem comigo!

14 comentarios:

joshua disse...

Pode a sua concretização no passado ter enfermado de muitos defeitos, mas uma sociedade mais fraterna e solidária, dentro da matriz essencial cristã e dos seus valores humanísticos, seria muito mais completa e capaz de gerar felicidade para o conjunto das pessoas.

Foi de qualquer coisa equivalente a isto e afastada disto que as nossas sociedades quiseram construir-se na areia ao longo das últimas décadas. Falharam.

Ainda é possível optar pelo Abismo Comum ou pela Partilha Luminosa e Redentora.

tagarelas-miamendes disse...

Eu acho que Colapso e' realmente o termo apropriado. Eu, ha muito que esperava que isto acontecese e espero muito sinceramente que va mesmo por ai a baixo. E porque? Porque ha muito tempo que eu nao acredito no sistema da forma como ele esta montado. Nos quizemos um "Estado Providencia" mas este nao funciona. O Estado assume todas as responsabilidades, mas nao tem os mecanismos e a capacidade de resposta.E falha-nos. Talvez essa seja a licao que temos que aprender. Que deveriamos investir mais nas relacoes inter-pessoais. Quando o Estado nos vira as costas, sao os amigos, os vizinhos, a comunidade, que aguentam as crises. E foi ai' que fracasamos verdadeiramente. O individualismo a que nos dedicamos encuralou-nos.

Ferreira-Pinto disse...

Penso que a parte final do primeiro parágrafo diz quase tudo ou até tudo.

Uma sociedade e um modelo civilizacional onde imperam o individualismo e o primado dos bens materiais não podem conduzir a grandes resultados.
Aliás, tem sido essa a grande lição da História.
Basta conhecê-la.

Se a solução radica na matriz cristã da civilização, não sei.
Admito que possa radicar nalguns dos valores que a matriz cristã comporta, assim como admito que possa advir dos princípios de qualquer outra das grandes religiões.

Por aí é-me relativamente indiferente, conquanto se encontrem as forças necessárias e a coragem para avançar para algo novo e completamente diferente do que se está construíndo.

Carol disse...

Que dizer ante tudo o que já foi dito?

A mim, tal como ao Ferreira, é-me completamente indiferente de onde vem a inspiração para enveredar por um mundo novo ou, pelo menos, diferente, conquanto essa revolução se faça.

António de Almeida disse...

-Julgo que uma solução que envolva a Humanidade no seu todo é uma daquelas utopias que todos subscrevemos, mas que não passa disso mesmo, utopia, enquanto existirem 2 seres humanos à face da terra um tentará sempre obter alguma vantagem. Não creio que o capitalismo tenha falido, mas sofrerá certamente alterações, vivemos uma época de transformações, que certamente mudará algo, mas é cedo, muito cedo para traçar cenários de certezas absolutas, continuo apesar de tudo a acreditar no indivíduo e na liberdade como valor supremo, na sociedade civilizacional como única forma de desenvolvimento.

Compadre Alentejano disse...

Até a Igreja se queixa que as esmolas tiveram uma quebra de 50%!...
Talvez até seja bom para diminuir o seu fundamentalismo...
O resto, é a vida!...
Compadre Alentejano

Peter disse...

Continuamos a assistir indefesos à nossa destruição, à destruição do estrato social em que me insiro: a chamada "classe média".
E assim vai aumentando "a pobreza envergonhada", aqueles que pedem alimentos através do PC, relíquia de melhores tempos.

Sei que existes disse...

Sem dúvida que estamos a viver uma época de destruição fisica, psiquica e emocional. A injustiça aumenta a olhos vistos e não se prevêm melhoras...
Beijo grande

joshua disse...

Não faltam bens. Falta um sentido solidário de os considerar.

André Couto disse...

O principal problema dos paradigmas, políticos ou não, é que são sempre levados a cabo por Homens.
Enquanto formos dirigidos por políticos profissionais (??) com motivações mais ou menos obscuras e sem interesse no povo que representam e deviam defender não há esperança de sucesso de nenhum modelo.
Urge tanto mudar de sistema como de actores que o executam.
Cumprimentos.

Pedro Barata disse...

Obrigado pelo convite e pela visita ao meu blog, ferreira-pinto. Virei mais vezes a este espaço.

Um abraço a todos

Tiago R Cardoso disse...

"estamos a construir uma sociedade egoísta, individualista em que o individuo se fecha em si próprio e o que se passa ao lado não lhe interessa a não ser que seja ocasião para aumentar mais o seu pecúlio ou a sua influência.", muito bem.

caminhamos para o fim disto, e acredito que me breve o caminho deixa de ter retorno.

O Guardião disse...

Há muitos meios de construir uma sociedade melhor, e oxalá haja quem aprenda com os erros, ou pelo menos os evite no futuro. Não me parece que esteja a ser o caso, pois o que vejo é investir-se a toda a força no mesmo sistema que deu no que deu.
Cumps

jo ra tone disse...

Desde muito cedo afirmeie continuo na minha.
"Nunca deveria existir moeda, mas sim feijões"
Cumps