As eleições e a abstenção

Segundo as notícias conhecidas, a abstenção atingiu nos Açores a enorme cifra de 53,24%, a que se somarmos os votos brancos, (que poderão ter muitas razões, mas sobretudo expressam uma rejeição), e que terão rondado os 1,88%, atingimos uma cifra de 55,00%!!!

Retirando o facto muito falado (talvez a tentar justificar o injustificável) da actualização dos cadernos eleitorais, a verdade é que mais de metade dos eleitores não foram votar.

E faz-se festa, e fazem-se afirmações tais como o facto de se ter ficado com mais 20 pontos que o “adversário” directo, como se isso fosse bom para a democracia, como se perante a ausência de tantos eleitores, houvesse razão para festa e não para apreensão e análise dos factos, das realidades, que motivaram esta atitude da parte dos eleitores.

Posso estar enganado, mas a justificação de que os eleitores não votaram porque já sabiam quem ia ganhar parece-me fraca, muito fraca.
Se eu como eleitor me sinto envolvido na politica do meu país porque ela chega até mim, porque ela me envolve, porque eu sinto que faço parte dela, e se o partido da minha preferência fez um bom trabalho, prestou um serviço público notável ao meu país, à minha região, enfim ao povo em geral, eu vou votar, porque quero afirmar a meu agradecimento a quem trabalhou para me dar melhores condições de vida, independentemente de saber à partida que a vitória está assegurada.

Agora, se aqueles que estão no governo, são iguais aos que estão na oposição e vice-versa, se governaram a olharem para os seus umbigos, servindo-se das suas maiorias absolutas para não ouvirem ninguém, se os que estão na oposição não foram capazes de um rasgo de criatividade, de novidade, de mudança, de alternativa, se todos eles transmitem aos eleitores uma imagem de que falam uns com os outros, mas se estão “borrifando” para nós, então eu fico em casa, ou voto em branco, porque ao menos sempre aproveito um dia de descanso.

Eu sei que o assunto é polémico, que tem muitas “leituras” e justificações, mas também sei que a abstenção vai aumentando, que o desencanto vai crescendo, e que se os políticos continuarem a assobiar para o ar e a fazer análises que apenas servem os seus propósitos, poderemos chegar a um ponto em que a abstenção colocará em causa a “validade” dos actos eleitorais.

Pois, pois, já sabemos que o que interessa são os votos expressos nas urnas, mas se uma “maioria silenciosa”, (sem qualquer conotação com a assim apelidada anteriormente), começar a formar-se e a crescer, temos os ingredientes necessários para o aparecimento de um qualquer “salvador da pátria” que depois demorará não sei quantos anos a apear do poder.

Ah, pois, é exagero meu, isso nunca acontecerá porque o povo sabe bem o que o país já viveu!
Será?

18 comentarios:

salvoconduto disse...

Vamos acreditar que sim. Já vivi dias mais negros.

Peter disse...

Sem intenção de bajular, concordo inteiramente com o teu ponto de vista. Há uns anos largos, vi no cinema Quarteto, já desaparecido, um filme com o Marcello Mastroiani, que fazia o papel de homossexual e a Sophia Loren, dona de casa e vizinha de outro andar. Eram os únicos que tinham ficado no prédio, pois todos os inquilinos tinham ido para a manifestação de apoio a Mussolini.
Na Alemanha nazi, foi a classe média, desejosa de segurança e melhor nível de vida, quem levou Hitler ao Poder.

Em Hitória os factos repetem-se desde que se criem as condições para tal e em Portugal estão criadas. Claro que a UE não iria permitir (julgo eu...) o aparecimento de um ditadorzeco português, mas as condições estão criadas e agora a Crise veio dar-lhe um empurrão.

João Castanhinha disse...

Isto não está bom nem para Ditatores...só se fossem malucos:)

Abraço

joshua disse...

Pode ser ainda pior.

Carol disse...

Eu não deixo de votar. Posso votar em branco, mas vou sempre lá.

Quanto a ditadorzecos, é engraçado mas, quando ouço/ leio essa palavra, lembro-me sempre do Alberto João...

Carla disse...

Exagero??? Certamente que não...apenas ainda não apareceu um salvador da pátria, porque a gestão desta mesma pátria se assemelha a algo praticamente (in)governável...sinceramente acho que existem todas as condições para que um destes dias um novo "salvador" apresente ideias demagógicas que alimentaram o desencanto que grassa na maior parte dos eleitores
beijos

Ferreira-Pinto disse...

A propósito da abstenção açoreana, li hoje com agrado uma ideia peregrina do Manuel António Pina no "Jornal de Notícias" e que passaria por um pouco mais de metade dos lugares no hemiciclo regional ficarem vazios!

Seria essa a representação parlamentar da Abstenção, essa força política inaudita. Que, segundo creio ter ouvido a Manuela Ferreira Leite, começa a ser preocupante a partir de "tudo o que seja mais de 50%!".

O problema, contrariamente ao que alguns lampaneiros quiseram fazer crer, não se prende apenas e só com um castigo ao PS, a Sócrates, a um "não vale a pena lá ir, que o César já ganhou".

Não!
O problema é mais profundo e radica também na descredibilidade total
de uma Oposição, especialmente do PSD, que quando está no poder tem literalmente o mesmo tipo de comportamento que agora critica a Carlos César e a Sócrates (Alberto João Jardim, meus senhores, diz-vos alguma coisa? As edições dos jornais de referência dos anos do cavaquismo dizem-vos alguma coisa em matéria de autismo e arrogância?), mas que quando lhe toca a hora amarga de andar fora do Poder chora lágrimas de crocodilo pelas PME's, pelas famílias, pelos desvalidos da sorte ...

Isso, mais a tristeza de um espectáculo de se ver uma maioria absoluta comodamente instalada nas sinecuras, de ver uns deputados de segunda apanha a darem-se ares de importância balofa, um Manuel Alegre a gemer e berrar que a ele ninguém o cala, que está tudo mal, que está contra o PS de hoje e sem ser capaz de sair do Parlamento e abandonar o seu lugar de penacho!

Não digo que tenha de abandonar o PS, pois pode-se lá estar sem concordar de muita da burricada que se faz mas, ao menos, que abandone os lugares de eleição que ocupa e passe à condição de militante de base!

Quanto aos tiranetes eles abundam por aí, nas Juntas de Freguesia, nas Câmaras Municipais, para só falar dos que são eleitos, e desses ninguém parece querer saber!

Contudo, não creio que estejamos maduros ao ponto de irmos atrás de um vendedor de ilusões.
Aliás, ainda por cá não se vislumbra um demagogo com carisma e verbe capaz de nos arrastar!

lusitano disse...

Claro, amigo Ferreira-Pinto, se a culpa fosse só de uns, ia-se apesar de tudo votar e corria-se com os gajos.

O problema é que a coisa tem a ver com todos e já vem detrás e tende a agravar-se.

E os senhores politicos assobiam para o ar convencidos que estão ali de pedra e cal...

pedro oliveira disse...

Não.não é exagero seu, e está paar breve. Ver um PM a deitar foguetes e não ter uma palavra para o facto da abestenção ser a mais elevada de sempre, prova a cegueira dos nossos politicos.
E não me digam que as pessoas não se interessam, basta ver a quantidade de blogues nacionais e regionais feitos por gente que está fora da politica e se interessa pelo país e suas terras.De que têm medo os nossos politicos?

PO
vilaforte

Compadre Alentejano disse...

Sou de opinião que o não votante, quer manifestar o seu desacordo com as políticas vigentes, o seu total desinteresse no partido que governa, e a sua desconfiança numa alternativa, que considera não credível.
Somando estes ingredientes todos, temos a filosofia do não votante. Pessoas que, por vezes, vivem ao lado das Assembleias de voto...
Compadre Alentejano

António de Almeida disse...

-Ouvi no Domingo à noite Medeiros Ferreira fazer referência a emigrantes recenseados. Julgo que uma parte dos abstencionistas vivem nos EUA e Canadá, embora não perceba exactamente o porquê de tal particularidade açoreana. Em qualquer caso estaremos a falar de menos de 5%, logo mantém-se a actualide, mais ou menos 50% dos eleitores terão recusado votar. Porquê? A política atrai cada vez menos gente, veja-se o caso de Costa Neves (candidato do PSD), pedeu e demitiu-se, afirmando que virá para o continente ocupar o lugar de deputado na A.R. Por isso é que defendo circulos uninominais, demite-se, eleição localizada no circulo. Os partidos teriam de escolher melhor os candidatos, que não poderiam andar a saltitar de modo errático. Costa Neves vem-se embora, ok, e quem votou PSD? Poderia até legitimamente simpatizar com Costa Neves, mas agora terá de aturar um qualquer segundo plano em gestão, até que daqui a 4 anos Berta Cabral ou Vitor Cruz decidam entre si quem irá liderar o partido. Pois há males que vêm por bem, quem simpatize com o PSD fez muito bem abster-se, por causa do Costa Neves, de todos os Costa Neves no país, mo PSD e nos outros partidos. Os eleitores merecem respeito, nas autarquias então é vergonhoso, quem perde raramente ocupa o lugar, mais valia permitir ao presidente escolher a vereação. Depois admiram-se, nos anos mais próximos dificilmente serei visto a votar, talvez nas autarquicas, mas ainda não decidi.

Ferreira-Pinto disse...

Dando uma perspectiva diferente àquilo que é abordado no post de hoje, deixo aqui transcrito artigo de opinião assinado pela deputada centrista Teresa Caeiro no jornal “Correio da Manhã”:

“Numa época em que quase metade dos eleitores prescinde do direito [de votar], porque não se debate formas de acentuar o dever?

As eleições nos Açores deram ao CDS o melhor resultado de sempre no arquipélago, o que demonstra como são apressadas e falíveis as constantes profecias sobre ‘o fim’ deste partido.

Este resultado histórico veio recompensar o trabalho feito e demonstrar que o CDS pode ser uma mais-valia numa democracia plural e descomplexada. Mas repare-se como o canal público de televisão interpreta o pluralismo: no dia em que 5 partidos diferentes elegem Deputados, a RTP dá um claro sinal de bipartidarismo atrofiado ao convidar apenas os seus 2 comentadores do Bloco Central para analisar as eleições.

Mas histórica foi também a abstenção e depressa se procurou explicações para o facto de 53,24% dos eleitores preferirem ficar em casa. Já nas legislativas de 2005, a abstenção foi aos 36%. Seja por comodismo ou por descontentamento, a abstenção é sempre uma desistência que pode ser encarada como um falhanço colectivo na construção da Democracia.

Os que não votam por comodismo deveriam lembrar-se do quanto se lutou, duramente, para que, hoje, possam levianamente desprezar o direito ao voto. Bem sei que países desenvolvidos, com democracias sólidas, também têm elevadas taxas de abstenção, mas custa a crer que, em 34 anos apenas, se desbarate o tão ambicionado ideal democrático.

Depois, há os abstencionistas do descontentamento, que se auto-excluem do sistema e para quem todos os partidos são iguais e todos os políticos igualmente miseráveis. Não lhes ocorre que o governo de um País pode ser censurável, mas alguém tem de o fazer; não lhes ocorre criar alternativas ou votar em branco para manifestarem o seu protesto; são apenas do contra. Normalmente, nem democratas são, mas suspeito de que seriam os primeiros a barafustar se a liberdade lhes fosse retirada.

Faço parte de uma geração que cresceu em democracia, mas nunca, nunca, a tomo como garantida, pois sei que as liberdades têm de ser cultivadas para as merecermos. Se acreditamos verdadeiramente na democracia e na liberdade, sabemos que ao não votar estamos a deixar que outros decidam por nós e a delapidar uma herança que nos cabe cuidar. E convenhamos que a construção desta nossa democracia ainda não está acabada. Votar é um direito, mas é, sobretudo, um dever para connosco. É um chamado direito-dever. Ora, numa época em que quase metade dos eleitores prescinde do direito [de votar], porque não se debate formas de acentuar o dever?”

João Castanhinha disse...

Sim, mas a participação tambem tem de ser fomentada, reza a lenda que em eleições em paises como a Suécia ou a Dinamarca anexo ao boletim de voto vêm propostas regionais, referendos locais para a execução das mais diversas obras estruturais, execução de vias, melhoramentos, construções de equipamentos ou outras, assim criou-se um instrumento de participação relevante ao desenvolvimento, a tal responsabilização que por aqui "certas e determinadas" pessoas não querem nem desejam, seria o fim do caçiquismo á Portuguesa, nos Açores ou num supermercado junto a si.

MS disse...

As pessoas muitas vezes perdem a vontade de votar.
São tantas vezes enganadas por estes políticos mentirosos e peneirentos que deixam de acreditar na politica.
Os Açores foram os primeiros com taxa de abstenção elevadíssimas, a seguir vamos ter mais 3 actos eleitorais que vão ser iguais ou piores.
MS

Tiago R Cardoso disse...

55 %, sem duvida um dos melhores momentos da nossa democracia.

osátiro disse...

Olá Carol.
Agradeço a visita ao blog e convido-a (como refiro no post), bem como aos comentadores, a aderir à campanha de defesa dos Cristãos barbaramente perseguidos, enviando mails para as embaixadas dos países onde são massacrados.
Num post sobre a Índia e Gandhi há diversos endereços electrónicos- inclusivé brasileiros que aderiram à campanha-, mesmo do Primeiro-Ministro Indiano (para onde escrevi muito simplesmente: "Please, Excellence, STOP the crimes against the Christians").
Bem-Haja

O Guardião disse...

Eu continuo a pensar que os partidos que têm repartido o poder estão esgotados de ideias e quase não se distinguem. Penso que muitos como eu simplesmente não acreditam nestes partidos e nestes políticos, daí o desencanto.
Continuarei a votar, mas em branco como de costume.
Cumps

Alexandre Nunes disse...

Penso que não é uma questão de desencanto, mas sim de não vislumbrar na oposição uma mudança forte e credível. O sinal de quem um governo, o autarquia vai mudar de cor, é a forte afluências às urnas. Quanto a abstenção é alta é sinal que fica tudo na mesma.