Ambulatório? Sim, obrigada!

Os jornais e canais nacionais têm dado algum destaque às cirurgias em ambulatório. Confesso que não prestei muita atenção às ditas notícias, pois é um procedimento que já conhecia e que, ao que parece, não sofreu alterações.

Há sensivelmente cinco anos (mais coisa, menos coisa que não sou rapariga de anotar as doenças na agenda) detectaram-me um nódulo na tiróide. O "bicho" tinha dimensões consideráveis e estava a provocar uma situação de hipertiroidismo (por outras palavras, eu comia como uma desalmada e não parava de perder peso) o que levou os médicos a decidir pela cirurgia.

Essa teria lugar no Hospital de S. João e, como tal, fui encaminhada para uma consulta de Cirurgia. O cirurgião em causa, com quem desenvolvi uma relação de enorme confiança, após algumas consultas decidiu aconselhar-me uma cirurgia de ambulatório pois, como ele próprio disse, " 15 dias de internamento, para si, vão ser uma autêntica tortura!".

Nunca tinha ouvido falar nessa modalidade e, como tal, pedi mais esclarecimentos. No dia da cirurgia, deveria dirigir-me ao serviço de ambulatório onde, após o procedimento cirúrgico, passaria a primeira noite. Depois da aprovação do cirurgião, poderia voltar para casa desde que residisse a menos de 1hora de distância e, nas primeiras 48h, tivesse o acompanhamento permanente de um familiar. Para além disso, teria um número de telemóvel que me possibilitaria o contacto directo com o próprio cirurgião e os serviços do hospital entrariam em contacto comigo após a primeira noite em casa.

A solução pareceu-me uma boa opção e, dessa forma, decidi aceitar a proposta do cirurgião. Uma hora antes da cirurgia, cheguei ao serviço de ambulatório do hospital onde fui muito bem recebido. Após a intervenção cirúrgica, recebi a visita dos familiares mais próximos e passei essa noite no serviço juntamente com outras pacientes que escolheram a mesma modalidade. No dia seguinte, recebi a visita do cirurgião que observou a zona intervencionada e me fez algumas perguntas. Antes da hora do almoço e depois de a minha mãe ter assinado um termo de responsabilidade onde assumia as 48 horas de vigilância permanente, estava a caminho da casa dos meus pais.

Na manhã do dia seguinte, uma enfermeira do serviço ambulatório ligou para o meu telemóvel, fez algumas perguntas e relembrou-me que à mínima dúvida ou situação anómala, deveria entrar em contacto imediato com o cirurgião responsável pelo meu caso.

Felizmente não precisei de o fazer, mas tenho conhecimento que uma das outras pacientes teve um pós-operatório complicado. Quando falei com o seu marido, ele realçou o facto de o médico ter atendido todas as suas chamadas de forma quase imediata.
Uma semana depois, regressei ao hospital para saber o resultado da análise feita aos nódulos extraídos e, 15 dias depois, fui a uma consulta onde me indicaram os cuidados a ter no futuro. Para além disso, entregaram-me toda a documentação necessária para o meu processo clínico do centro de saúde.

O que eu penso de cirurgias em ambulatório?
Que todos deveriam ter essa possibilidade.
Que os hospitais e o pessoal médico devem apostar neste tipo de serviço.
Aspectos negativos? Sinceramente, não me parece que existam.
Se eu recomendo? Sem hesitação!

18 comentarios:

O Árabe disse...

Sensacional, Carol! Infelizmente, aqui no Brasil ainda estamos longe deste nível de atendimento. :) Fico feliz em saber que ficaste bem! :) Boa semana.

Ferreira-Pinto disse...

Penso que a cirurgia em ambulatório poderá ser uma solução a adoptar nos casos em que as previsões e as certezas clínicas quanto ao pós-operatório sejam de que a probabilidade é a de que nada de relevante suceda ao paciente.

Digo e escrevo probabilidade, pois também a nível médico as coisas se jogam em termos de percentagens.

Por aí, nada a dizer.

O hospital, basta usar o bom-senso, nem é preciso conhecimentos médicos relevantes (mas, em caso de dúvida, eu sempre posso pedir a um familiar que o ateste), é, ao mesmo tempo, o local para curar mas um alfobre de doenças.

Ora, ter um tipo que foi operado a "uma unha" (passe a expressão) internado, durante uma semana, a conviver com outros tipos operados também eles a "uma unha" mas em que um pode estar com gripe e outro com outra coisa qualquer das que se apanham no ar
é meio caminho andado para um tipo ainda ficar pior.

Claro está que se o ambulatório vier a servir para diminuir despesas correntes, então aí a coisa pia mais fino!

Bem, e outra coisa que convinha esclarecer, é que dar o número de telemóvel não basta. É necessário que o tal clínico integre uma equipa de intervenção rápida e tenha uma escala de serviço em que tenha de estar presente.

Serve isto para dizer que nunca percebi que préstimo tem um médico, por exemplo, que está de prevenção enfiado numa festa de aniversário em Esposende, onde bebe um copo ou dois de vinho, mais um uísque, mais não sei quê e que trabalha no Hospital de S. João.

Quer dizer, aquele tipo de prevenção se é chamado de urgência demora aí uns40 minutos (e a andar bem) a chegar e chega lá e se tiver que pegar num bísturi ... pronto, eu sei,
são excepções e eu um anormal que só sei estar na má-língua!

Carol disse...

ÁRABE, bem-vindo a estas paragens! De facto, amigo, tudo ficou bem e, sinceramente, espero que este tipo de metodologia ganhe força porque me parece uma óptima solução para casos em que não se justifica um internamento prolongado.

Ó FERREIRA, que má-língua! Eu nem imagino de quem é que podes estar a falar... ;) (Felizmente, para mim, o cirurgião que me operou não é nada assim, como pude vir a comprovar noutras situações.)

Concordo em absoluto que esta prática não deve ser implementada, apenas e só, porque vai diminuir as despesas correntes e com a necessidade de, em caso de emergência, os médicos poderem dar uma resposta imediata. Quanto a isso, totalmente de acordo!

António de Almeida disse...

-Em primeiro lugar folgo saber que o problema ficou bem resolvido. Sou favorável ao ambulatório, desde logo porque possibilita a redução de despesas, mas nestas matérias convém usar pinças e não passar do 80 ao 8, cirurgias em regime de ambulatório sim, mas apenas quando sob o ponto de vista médico a opção não apresente riscos. Até porque muitos desconhecem, mas a permanência no Hospital é um factor de aumento exponencial de propagação de virus, que o doente entra com determinada patologia e sai com bónus indesejável, isso aliado ao risco de troca de medicamenteos, ainda ontem noticiado, provoca mortes desnecessárias. Internamentos e deslocações a urgências devem ser reduzidas ao mínimo indispensável, convém é não baixar desse mínimo por razões várias.

Peter disse...

Penso que esta ministra tem feito, dentro das possibilidades que tem, um trabalho aceitável, enquanto que o anterior começou a encerrar indiscriminadamente Centros de Saúde, sem assegurar previamente a assistência às populações. Daí as consequentes manifestações de protesto, que deixaram de se ver.
Esse "serviço ambulatório" irá certamente possibilitar a redução das "listas de espera".

Que tenhas uma boa semana.

Carol disse...

Obrigada, PETER! Desejo-lhe o mesmo!

lusitano disse...

Olha, olha, uma coisa que pelos vistos funciona bem cá no burgo!!!

Até mesmo por motivos económicos eu prefiro fazer a recuperação em casa do que no hospital, a não ser que eu não tenha entendido bem a coisa.

E ainda por cima ficaste bem?!

É pá isto é o dois em um.

E eu a pensar que iamos ter finalmente um texto a dizer bem, e comentários a dizer bem e tinha que vir o Ferreira-Pinto e "tunga" deitar abaixo esta "maravilha"...eheheh

Estou a gozar obviamente...

Abraço

Carol disse...

Pois é, LUSITANO, este Ferreira até parece que é da oposição! ;)

E, sim, a recuoperação em casa é sempre bem-vinda, desde que não se corram riscos desnecessários.

pedro oliveira disse...

É bom saber que há coisas muito positivas no nosso SNS.Ainda bem.

Po
Vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

LUSITANO e CAROL, digamos que:

- na versão do Sócrates, serei assim tipo um velho do Restelo sempre a resmungar;
-na de outros um dos velhos dos Marretas e,
- finalmente, para alguns, um agente provocador!

Vá-se lá saber.
Eu qualquer dia escrevo um texto a dizer bem, mas ensina-me a experiência que o povo gosta é de sangue!

Blondewithaphd disse...

Beg to disagree! Concordo com a modalidade ambulatório, não concordo que a mesma seja a desculpa perfeita para hoje não se ter a pessoa internada. Não concordo que seja a via para reduzir gastos hospitalares. Infelizmente todos conhecemos casos de pessoas que, devendo estar internadas, foram intervencionadas em ambulatório e a coisa deu paar o torto. Eu conheço!

Carol disse...

BLONDIE, eu não tenho qualquer razão de queixa. Mas, atenção, eu também não defendo o ambulatório só porque reduz gastos!

André Couto disse...

"Concordo com a modalidade ambulatório, não concordo que a mesma seja a desculpa perfeita para hoje não se ter a pessoa internada. Não concordo que seja a via para reduzir gastos hospitalares. Infelizmente todos conhecemos casos de pessoas que, devendo estar internadas, foram intervencionadas em ambulatório e a coisa deu para o torto."

Por palavras minhas não o diria melhor.

Cumprimentos.

tagarelas-miamendes disse...

Carol,
Parece-me excelente.
Eu nem sequer sabia que tal coisa existia.
Sabe muito bem encontrar relatos positivos.

Compadre Alentejano disse...

Nem todas as cirurgias são iguais. As mais simples, concordo que possam ser feitas no ambulatório, mas as mais complicadas deverão ser com internamento hospitalar.
Tenho um amigo que foi operado à vesícula, teve uma hemorragis e quatro dias depois foi reoperado de urgência. Se estivesse em casa...
Compadre Alentejano

Carol disse...

Sim, COMPADRE ALENTEJANO, perfeitramente de acordo!

João Castanhinha disse...

Entre estar em casa em total vigilância, sem bactérias hospitalares e/ou jogado num quarto com visitas de meia hora cercado de agentes infecciosos e nos cuidados dos gentis técnicos de saude vestidos de verde a fazer trabalhos que deveriam ser efectuados por enfermeiros o ambulatório será meio caminho andado à recuperação, digo eu, mas mais uma frente aberta por este governo para ter escarrapachado na TV o caso do ambulatório que correu mal, é assim mas têm de ser, é melhor.

PLnauta disse...

Viva

o post é bom, inofensivo, mas só conhece a perspectiva de quem pode ir para casa e ter (leia-se pagar) os cuidados que se seguem a um pós-operatório, mesmo que a uma unha encravada.

Eu conheço bem o meio e digo-lhes que a forma como estão a organizar s´´o aumentará as dificuldades de quem não tem recursos.

Cruamente. Os serviços fecham as portas como se um serviço publico de atendimento fossem. Chega às cinco horas. Fecha. Quem lá estiver é transferido, vai para casa, "whatever", desenrasque-se.

Mas as estatísticas funcionaram. Os custos baixaram e a eficiência que não a eficácia (pois esta é mais dificil de demonstrar) dos serviços fica bem melhor para os bonecos.