África, Portugal, a Europa.

Passei alguns anos da minha vida em África.

Primeiro na Guiné, durante a guerra, entre 1971/1973, e depois em Angola, de Março de 1974 a Novembro de 1975, a trabalhar, tendo ainda passado também, uns dias em Moçambique.
Ficou-me uma ligação profunda, sentimental até, a África e muito especialmente à Guiné e a Angola.

Isto vem a propósito de que, não há dia nenhum, acho eu, em que não pense nos problemas que estes dois países e tantos mais em África atravessam.
E se Angola é rica, muito rica, o que, se calhar, é a fonte de muitos dos seus problemas, já a Guiné, embora não seja tão pobre como querem fazer querer, tem problemas e carências de muito difícil resolução.

Angola, com um governo estável, competente e não corrupto, pode com facilidade sair da crise e resolver os problemas do povo angolano de tal modo que poderá vir a ser o país de África com melhor nível de vida.
A Guiné no entanto, precisando também de um governo estável, competente e não corrupto, precisa sem dúvida de muita ajuda externa para poder entrar no caminho do desenvolvimento e do progresso.

E é dever da Europa, de Portugal, neste caso específico da Guiné, fornecer essa ajuda, controlada de tal maneira que não seja utilizada apenas em proveito de alguns, mas para benefício de todos.
E não é apenas ajuda material, financeira, mas também na área da formação, da saúde, da administração pública.

Os problemas porque passa a Guiné passam também por outros países de África.
Com efeito, ao terem sido os europeus a traçarem as fronteiras destes países, fizeram-no segundo os seus interesses e acordos, não respeitando os reinos africanos milenares, os territórios das etnias, etc., etc.

Assim o resultado em alguns destes países africanos foi desastroso, como por exemplo na Guiné Bissau, onde num território do tamanho do Alentejo, mais coisa menos coisa, convivem mais de 20 etnias, (penso que serão muitas mais), com todas as dificuldades inerentes ao bom entendimento, ao entendimento de uma nacionalidade única, às dificuldades culturais, e por aí fora.

Lembremo-nos que muitas destas famílias étnicas, e até mesmo famílias de sangue, estão separadas por diversas fronteiras de diferentes países, sendo logicamente impossível fazer compreender a estas pessoas que as fronteiras dos países, são mesmo fronteiras.

Enquanto os portugueses estiveram na Guiné e por força da guerra, a população beneficiava, por exemplo, dos serviços médicos militares, pelo que, a população estava bem servida não só ao nível da clínica geral e da urgência médica, mas também da prevenção das doenças, como o paludismo e a doença do sono, melhor até que os países vizinhos.

Os militares, muitos deles empenhavam-se na educação, sobretudo na escolaridade básica, sobretudo das populações junto aos quartéis.

E isto que aqui cito a título de exemplo, passou-se não só na Guiné mas em muitos países de África, que com as independências e muitas vezes abandonados à sua sorte sem para tal estarem preparados, ficaram à mercê de uns quantos oligarcas, ficaram mesmo no limiar das possibilidades de sobrevivência.

E nós Portugueses, Europeus, temos sem dúvidas responsabilidades no desenrolar de todas estas histórias!

Não podemos assobiar para o ar, nem sequer oferecer ajuda como se magnanimamente estivéssemos a fazer um grande favor.
Não, não é um favor, é uma obrigação que nos advém do facto de termos sido também causadores de grande parte dos problemas.

Claro que essa ajuda, seja ela material, em meios, em colaboradores, tem de ser organizada, controlada em todo o momento, de modo a que ela não vá beneficiar quem não precisa, quem retira aos outros o pouco que têm, quem tira da boca com fome a migalha que pobremente ainda alimenta.

Lembro-me que, no tempo de Margareth Tatcher, Primeira-Ministra do Reino Unido, ela abriu uma linha de crédito a fundo perdido, para que o governo dum país de África fizesse compras de primeira necessidade em Inglaterra.
Desconfiada e organizada como era, quis saber pouco tempo depois, e antes do embarque para o país de destino, o que tinha sido comprado.
Não ficou muito admirada quando soube que grande parte da linha de crédito tinha sido utilizada na compra de whisky, pelo que proibiu de imediato o embarque desse “bem de primeira necessidade”!

Por isso digo que a ajuda, qualquer que ela seja tem de ser organizada e bem controlada de modo a chegar àqueles que dela necessitam verdadeiramente.
E nós Portugueses e Europeus temos que ir interiorizando, temos que nos ir convencendo, que essa é uma obrigação nossa, não só por força da solidariedade entre os povos, mas porque somos em grande parte responsáveis pela história de África.

5 comentarios:

António de Almeida disse...

-Durante anos o problema de África era o colonialismo. Nos anos 60, 70, o problema de África passou a ser o marxismo. Com o fim da ex-URSS, muitos países viraram-se para as antigas potencias coloniais, EUA e China, mas nem um só país em todo o continente pode ser apontado como modelo de desenvolvimento. Dos árabes do Norte de África, até ao cabo, nem um, a espaços alguns prosperaram, mas mergulharam sempre em problemas, muitas vezes tribais. Um amigo moçambicano, afirma-me várias vezes que o problema de África são os africanos. Tendo a concordar com ele, mesmo o Quénia que estava estabilizado, e economicamente é dos mais desenvolvidos, recentemente viveu problemas políticos, motivados por conflitos étnicos ancestrais. A África do Sul tarda em emergir de potencia regional que é, para potencia mundial que pode e deve ser.

Marcos Santos disse...

Concordo contigo amigo Lusitano.

Acrescento que não existe a hipótese de alguém enriquecer, sem que na outra ponta, em algum lugar, o outro não esteja empobrecendo.

A África é sempre o da "outra ponta".

pedro oliveira disse...

tenho esperança que esta crise,nos faça(europa)virar definitivamente para África, não para chular os pretos, mas lhes dar condições para se desenvolverem e serem seres humanos com as mesmas oportunidades.Eu tenho esperança e gostava de assistir a esse desenvolvimento.
PO
vilaforte

Ferreira-Pinto disse...

Penso que seja evidente que os famigerados efeitos do Tratado de Berlim (salvo erro) tiveram um efeito pernicioso no desenvolvimento de África, embora não justifiquems sequer um quinto do que lá se passa.

É, aliás, quase endémico que em todos os Estados africanos campeiem os tiranetes e os fantoches. Veja-se o que sucede em Luanda onde, apesar de quase todos os que se informam minimamente o saberem, não há negócio próspero que se inicie que não tenha de ter uma quota destinada à família Santos e, mesmo assim, José Eduardo dos Santos é rei e senhor e até pode mandar calar quem quiser!

Na África do Sul é extremamente preocupante que a um Nelson Mandela tenha sucedido um Thabo Mbeki e a este tudo indica que venha um traste da pior espécie ... mesmo para Portugal e o seu Governo que devia acompanhar com preocupação qualquer evolução negativa an sociedade sul-africana dada a elevada comunidade lusa que lá habita!

Mas se penso que o principal problema de África são alguns africanos, não menos verdade é que a postura predadora de multinacionais e regimes convertidos às delícias do capitalismo como é o de Pequim também não ajudam em nada ...

Concorco com a necessidade de ajudar, da cooperação aprofundada mas, sinceramente, penso que a nossa pouco mais seja que um assomo de coisa nenhuma! Mas não devia ser ...

Adoa disse...

Tenho um convite para vós em http://damiel-an-angels-diary.blogspot.com/