A Felicidade

Marcos Santos - 15.07.2008


Ser feliz é não ter medo de arriscar.
Ser feliz é apreciar as coisas simples da vida e da natureza.
Ser feliz é não recear o inusitado.
Ser feliz é achar beleza no belo e no feio.
Ser feliz é...

Quando adentrei ao laboratório senti um cheiro cortante. Não havia ali cheiro de berço, talquinho, sabonetes infantis, sequer algo que lembrasse a delicadeza de um bebê.

Mas lá estava ele, mínimo, delicado e nu, deitado sobre uma bancada de mármore branco e gasto.
O ambiente contrastava com a fragilidade daquele pequeno ser que, desnudo, mostrava em quantos pedaços tinha sido dividido e de que maneira havia sido remontado, com grossa linha de cor bege.
Seu crânio foi cortado em dois, de orelha a orelha, seu pequeno peito de cima abaixo, do pescoço ao umbigo.

Mas minha missão era vesti-lo, e assim o fiz, com todo o cuidado para não machuca-lo. As roupinhas de nenê foram colocadas e no saquinho de dormir ele foi inserido.
Sério, sisudo, mas sem demonstrar mágoa.

E foi assim que segurei e embalei meu pequeno filho, pela primeira e derradeira vez. Sem som, sem mimo e sem cantigas de ninar.

Não sei como suportei aquele momento. Só sei que ele passou e eu fui levado por ele. Com certeza o dia estava nublado... o Sol não poderia estar brilhando. Mas também não estava chovendo, a chuva aproxima as pessoas dentro de casa.

Eu estava só, como nunca estive em toda a minha vida. Uma solidão de não enxergar a pessoa ao lado... de dirigir o carro ser saber como chegou ao destino...de parar no sinal vermelho mesmo sem tê-lo visto...de andar ao acender do sinal verde, sem sequer saber que havia parado.

É estranho a forma de conviver com a morte de um filho querido.
É estranho entender como essa convivência foi suportada.

Deve haver alguma resposta, longe dos almanaques de cabeceira.

...ser feliz é saber inspirar-se na tragédia, mesmo que a tragédia seja a sua.

Ser feliz é querer ser feliz.

Marcos Santos
Rio de Janeiro
Foto: Marcos Santos

7 comentarios:

Miguel Ângelo disse...

Aliás, há dois dias atrás, quando via o programa de Fátima Campos Ferreira, Prós e Contra, aquele programa televisivo, que têm o condão de falar, debater e discutir os problemas do país, embora continue tudo tal e qual no dia seguinte. Houve um filósofo francês, Michel Renaud, - julgo eu ser esse o seu nome correcto - afirmar que um homem feliz tem a capacidade de construir e idealizar coisas boas, positivas.., pois julgo que o que falta ao MUNDO em que vivemos é alguém que nos garanta um pouco de felicidade, mas como? COMO?

Fa menor disse...

Puxa, amigo!
Essa doeu muito. Fez com que as lágrimas rolassem.

"...ser feliz é saber inspirar-se na tragédia, mesmo que a tragédia seja a sua.
Ser feliz é querer ser feliz."

Sobretudo "Ser feliz é querer ser feliz" com todas as forças, e consegui-lo apesar das adversidades.

Mas uma tragédia assim iria me abanar um bocado bem grande!

Feliz é quem consegue ultrapassar.

quinttarantino disse...

Recordo-me de uma vez ter visto, já não sei em que filme menor, uma frase que me marcou e que recordo novamente ao ler este texto sentido: "Não é suposto um pai ver um filho morto e ter de o enterrar. Não é esse o curso das coisas!"

Esse texto, Marcos, de tão sentido ... arrepia!

Marcos Santos disse...

Meus amigos, coloquei esse texto para uma reflexão de que, nem sempre o que escrevemos é o que sentimos no momento da escrita. Há momentos em que escrevemos refletindo um sentimento passado, que não nos fere mais, ao menos da forma como descrevemos. O tempo transforma perdas em saudade e nos propicia a capacidade de descreve-las. Acredito que o texto "A Derrota", de meu amigo Tiago, exprime exatamente isso, a capacidade do ser humano descrever como sentiu-se ou como se sentiria, em determinada situação, e o que é melhor, de forma poética.

Carol disse...

Uma tristeza profunda invadiu-me, neste momento...

António de Almeida disse...

-Caro Marcos, esse texto é demasiado forte para comentar, ou então somos nós bem mais fracos do que por vezes julgamos.

Tiago R Cardoso disse...

Cortante, amigo Marcos cortante...

Não consigo imaginar o que passastes, mas impressiona-me a capacidade com que descreves o que passastes.