Notas Emprestadas - A Faca de ponta

Notas Soltas, Ideias Tontas - 08.06.2008

Mantendo a tradição de cooperação e interacção entre o Notas Soltas e outros autores e blogues, avançamos com mais um autor.

Desta vez, um autor com muitas historias para contar, alguém que fascina com a sua forma de escrever contos e historias de vida, que nos transmite sempre uma moral de vida e se extrai sempre um ensinamento.

Dias antes levara uma surra do pai, porque tinha deixado assaltar a taberna.

Naquele dia, António ausentara-se do local de trabalho para ir ver uma rede que montara nessa manhã na Vala do Sequeiro, junto à linha do comboio, na expectativa de apanhar alguma enguia ou papa-cavalo. Uma das suas freguesas do mata-bicho, que estava a banhos, aproveitou a sua ausência, e, tendo espreitado onde ele tinha guardado a chave da taberna, foi-lhe à gaveta do dinheiro.

Pelas festas dos Santos Populares e durante toda a época balnear, o ti Joaquim mantinha em funcionamento uma das suas tabernas sazonais nas termas, aquela que lhe dava mais lucro.

O António, o seu filho mais novo fora o escolhido para a sua exploração, encargo que gostava muito de ter porque passava grande parte do tempo a ouvir no rádio aquilo que mais gostava – as canções daquele tempo. Ouvia e cantava em simultâneo as cantigas. Depois passava toda a letra para folhas de papel pardo.

Devido à sua voz bem timbrada, até aspirou um dia a ser cantor profissional. Tony chegou mesmo a ser vocalista do Sol Dourado e foi a uma audição à Emissora Nacional.

Naquele dia, tinha-se esquecido de um papel em cima da mesa da cozinha da residência familiar. A ti Maria, curiosa, pegou no papel, abriu-o e leu:

“Eu hei-de morrer de um tiro,

Ou duma faca de ponta.

Morro hoje ou amanhã,

Com isso já faço conta”…

Ai!...

Ia desmaiando após lidas aquelas palavras.

Com as forças quebradas, aflita, correu a chamar pelo homem que, nesse dia andava a cultivar o serrado atrás da casa. E entregando-lhe o papel exclamou:

- Olha o que tu fizeste ao nosso Tóino! Vai lá depressa ver o que é que se passa com ele! A esta hora atirou-se para debaixo do comboio ou para dentro de alguma vala!

O ti Joaquim pegou na sua bicicleta e foi a toda a pressa até à taberna.

O Tóino dormia a sesta bem descansado na sua improvisada cama de bunho seco, porque nessa tarde não havia muito que fazer.

Afinal, era apenas o refrão duma cantiga!

Os tempos mudaram, mas hoje a cantiga é a mesma:

“Eu hei-de morrer de um tiro,

Ou duma faca de ponta.

Morro hoje ou amanhã,

Com isso já faço conta”…

Estamos tramados!

Temos a faca encostada à barriga…

Eu, pelo menos, tenho-a sempre apontada a mim, vinda de várias direcções.

Estou sujeito a assaltos, mas o maior assalto vem daqueles que me deviam proteger! E então digo:

Eu hei-de morrer um dia

Porque imortal não sou

Portanto ficai sabendo

Ao lerem o meu testamento

Que foi o governo que me matou!


Se puder comente em forma de poema/refrão, que comece por:

“Eu hei-de morrer…”

Obrigado ao Notas pela oportunidade

E aos comentadores pela atenção!
O Cabo das Tormentas (http://j-cabodastormentas.blogspot.com)

6 comentarios:

lusitano disse...

Eu hei-de morrer um dia
Mas não de doença ou peçonha
Mas porque os políticos que temos
São da minha cara,
A vergonha!

Tiago R Cardoso disse...

Antes de mais, mais uma vez excelente, muito bom, adoro os teus contos.

Eu hei-de morrer,
mas sem antes ver primeiro,
este país a correr,
para longe deste braseiro.

São disse...

Bem escrito, como é hábito.
Parabéns a quem deu a oportunidade .Bem merecida, aliás.

Irene disse...

Eu hei-de morrer um dia
Sem rasto nem aflição
Cá hão-de ficar os outros
A amassar e a comer o pão.

Bem, foi o que se pôde arranjar:))

Fa menor disse...

Eu hei-de morrer, pois então!
Mas hei-de espernear primeiro
Porque anda por aí muito ladrão
A comer o meu dinheiro!
_________
É claro que eu não podia deixar de comentar! ;)

Força pessoal!

ILLUMINATUS disse...

Grande conto.. Parabens pelo texto, acho que o que falta em Portugal é um maior incremento ou patrocinio de contos populares, com sentido e significado. Vivemos numa epoca globalizada de consciências mecanizadas, bons tempos aqueles em que a avó contava histórias à lareira naquelas noites de inverno na aldeia. Tudo passa, mas a palavra fica, tal como o gesto de a recordar.