Há 120 anos nasceu o poeta da natureza

Dalaila - 13.06.2008

Continua vivo e a bombear-nos todos os dias!


Imagem: Fernando António

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


(Alberto Caeiro)

5 comentarios:

Marcos Santos disse...

Pessoa é tão importante para nós, que aqui o amamos como se brasileiro fosse.
Ele nos é "íntimo".

Carol disse...

One of a kind, sem dúvida!

E este poema é lindo!

meirelesportuense disse...

Pessoa é a "nossa" alma mater. Quando o li pela primeira vez senti um arrepio...Desde aí, tenho na minha cabeceira, uma compilação de poemas seus editado pelo Circulo de Leitores há vinte, vinte e cinco anos: "O Rosto e as Máscaras".
Tenho aqui o livro: editado em Dezembro de 1979!...

"Vem, Noite, antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem,
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.

Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer...."

quinttarantino disse...

Dalaila, simplesmente genial este nosso poeta!

Anónimo disse...

Excelente, muito bem.

Tiago.