Miroslav Zavodzk - O Carioca da Gema

Marcos Santos - 14.06.2008

Bem, amigos de além mar, que tal uma crônica carioca para relaxar o fim de semana?
Então vamos nessa e leiam sobre um Carioca da "Gema".


A brasilidade é um fenômeno interessante, e mais interessante ainda é verificar que ela pega, contagia, irradia.

Miroslav, Miro como nós o chamávamos, era um Tcheco fugido dos tentáculos do regime totalitário Soviético.

Tendo passado por uma jornada impressionante durante sua fuga, Miro somente chegou ao Brasil uns cinco anos depois, aqui se estabelecendo. Inicialmente na Urca, onde tomou gosto pela pescaria e posteriormente no Méier, Rio de Janeiro.
Ali, Miro mais do que aprender e assimilar os costumes brasileiros, passou a ser, apesar de seu forte sotaque, um autêntico carioca, e é nesse ponto que quero chegar.

Já estávamos prontos para irmos à casa do Dutra. Naquela época apenas Miro tinha carro, um Chevette 74 todo enferrujado, e era comum sairmos juntos às sextas feiras após o expediente, para tomarmos uma cervejinha. Faltava apenas o “Botão”, um "crioulo" enorme e com uma careca lustrosa, redonda como um botão de paletó. Daí o apelido.

Botão era o encarregado de toda a usinagem, um homem extremamente educado e gentil. Dificilmente ele perdia as estribeiras, apesar de sua grande responsabilidade e do grande número de pessoas sobre seu comando. Mas sempre há uma primeira vez.

Observando que eu, Pedro Paulo e Genésio havíamos chegado cedo ao estacionamento, Miro pediu que fôssemos nos acomodando no banco de traz do Chevette.
Alguns minutos depois foi a vez do “Botão” chegar. E chegou tão arrumado e cheiroso que ninguém poderia supor que iríamos ao Morro do Jacarezinho, comer o sarapatel da mulher do Dutra, uma nordestina de mão cheia na arte da cozinha.

Dutra era um fresador português, que nas horas vagas fazia agiotagem para a peonada e nos fins de semana vendia um ou outro porco de seu criatório. O sarapatel, especialidade de sua esposa, era apenas um chamariz para atrair fregueses ao morro, de modo a comprarem os despojos do pobre suíno.

Voltando ao Chevette, lembro-me que minhas pernas estavam apertadas pelo banco do carona. “Botão”, que era um sujeito da minha estatura, aproximadamente 1,82m, gostava de espaço, o que explica o meu aperto. Mas tudo bem, estávamos prontos para uma bela seção de sarapatel com chouriço e muita cerveja gelada.

Miro não chegou a dar a partida no carro. Olhou fixamente para o “Botão”, que já estava sentado no banco do carona, pensou durante alguns instantes e finalmente fulminou:
- Meu caro “BOTON”, passa para banco de “trax”.
“Botão” amarrou a cara, franziu o cenho, não deu um pio, levantou-se e inclinou o banco para que eu pudesse trocar de lugar com ele. Assim o fiz.
Dali para frente o clima foi péssimo. “Botão com a cara fechada e o Miro, "mudo", fingindo que não era com ele.

Dei graças, quando saímos daquele carro e pudemos finalmente nos deleitar com as gostosuras gastronômicas da mulher do Dutra. E foi bom enquanto durou.

Infelizmente, como tudo o que é bom dura pouco, já era chegada a hora da tortura do Chevette. Como Miro e Botão não se falaram durante o “Happy Hour Suíno”, era lógico imaginar o clima da volta. E foi o que aconteceu. Para cada palavra pronunciada por Miro, uma “alfinetada” cortante era desferida pelo “Botão”. Realmente um “saco” ruim de aturar. Cheguei a pensar na possibilidade de terminar a descida do Morro do Jacarezinho a pé.

Quando finalmente estávamos para nos separar e cada um seguir seu rumo, aconteceu um fato curiosíssimo e que objetiva toda essa ladainha. A brasilidade aflorada. Melhor ainda, a carioquice na sua principal característica, que reside fundamentalmente no estado de espírito, no jeito de ser e nas "alternativas estratégicas", independente da naturalidade ou nacionalidade do cidadão.

“Botão”, engasgado com a atitude do Miro, magoado por sentir o peso do preconceito de cor demonstrado pelo amigo Tcheco, finalmente botou suas angústias para fora e “fuzilou”:
- Miro, seu filho da puta. Você tem preconceito com “preto”, você não gosta de “preto”. Vocês vêm para o Brasil, fazem a vida e ainda se acham no direito de botar banca com os negros. Seu branco de merda.

Miro não se abalou. O que deixou o “Botão” mais irado.
- Responde seu safado! Responde, vamos!

Miro estacionou calmamente o Chevette, desligou a ignição e com sua singeleza Tcheca soltou a seguinte pérola carioca:
- Bom meu caro, problema "seguintch". Eu gosto de “negon”. Meu mulher é “paraibinha”. Eu "non" ligo. Gosto muito de “BOTON”. “BOTON” é meu chapa. Problema é polícia.

“Botão” retrucou, impaciente. – O que tem a polícia?

-Bom meu caro, problema "seguintch" (continuou Miro). Esqueci todos os documentos no meu casa, meu e do carro. Quando vi tremendo “negon” do meu lado pensei, “Polícia não vai perdoar “negon” no banco da frente, subindo morro.” Foi só isso, nada contra “negon”.

Agora todos, inclusive eu, ficamos impacientes e gritamos com ele – E porque você não falou antes com a gente ?

- Bom meus caros, problema "seguintch" (concluiu o Tcheco). Meu mulher queria sarapatel com chouriço e eu "non" tinha "colhon" de subir morro sozinho e sem documento. Se conto, ninguém ia comigo.

Sinceramente, acredito que essa resposta não tenha deixado o “Botão” satisfeito. Mas quando recordo dela, sinto saudades do tempo em que eu compartilhava da companhia de Miroslav Zavodzk, um brasileiro que nasceu na Tchecoslováquia. Um tomador de cerveja com chouriço e sarapatel. Um autêntico Carioca da “gema”.


Marcos Santos
Rio de Janeiro


foto do ovo, retirada da internet, sem autor.

2 comentarios:

quinttarantino disse...

Marcos, não só esta sua prosa nos leva a passear de viva voz e fina letra por essas paragens que nos descreve, como nos surge como um retrato do caldeirão que são essas terras de Vera Cruz!

Anónimo disse...

Muito bem, boa historia.

Adoro este tipo de contos e de ouvir contar estas historias.

Ainda de férias,

Tiago.